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sábado, 21 de março de 2026

Um outro olhar sobre João 11,1-45 - 5⁰ domingo da Quaresma

 

A liturgia do 5º Domingo da Quaresma, no ciclo A, nos coloca diante de um dos momentos mais densos de todo o itinerário quaresmal, já à beira da chamada “semana das semanas”, quando a Igreja mergulha no mistério central da fé. As leituras proclamadas são Ezequiel 37,12-14; o Salmo 129(130),1-2.3-4ab.5-6.7-8; Romanos 8,8-11; e o Evangelho de João 11,1-45 ou sua forma breve 11,3-7.17.20-27.33b-45 Não se trata de uma justaposição de textos, mas de uma arquitetura teológica profundamente integrada. 

  •   Ezequiel 37,12-14:  fala dos  túmulos que se abrem na história de um povo esmagado pelo exílio, revelando que Deus não aceita a morte coletiva como destino final. 
  • O salmo 129 (130): clama das profundezas, trazendo à tona a dimensão existencial de quem experimenta o abismo da dor e da culpa. 
  • Romanos 8,8-11:  Paulo desloca a esperança para o presente ao afirmar que o Espírito que ressuscitou Jesus já habita nos corpos mortais.

O Evangelho de João, 11,1-45, nosso objetivo  principal  da reflexão  nesse 5⁰ domingo da Quaresma é  uma síntese encarnada e  apresenta a resposta definitiva: a vida não é uma ideia, nem apenas uma promessa futura, mas uma pessoa concreta. Jesus de Nazaré, texto que  passou outras  vezes em nosso canal  do  YouTube, em nosso Facebook e aqui no blog pelo menos  3 vezes: nos textos de forna plena ou em parte: 

  1. Como se fez uma hermenêutica,   
  2.   Um breve  olhar sobre  João  11,v19-27 Memória  dos Stos Marta, Maria e Lázaro 
  3. Um olhar  sobre  João 11,1-45 - 5⁰ domingo da Quaresma
Este texto ocupa um lugar privilegiado não apenas no calendário romano, mas também na tradição catecumenal restaurada pelo Concílio Vaticano II em Sacrosanctum Concilium 64-66, sendo proclamado nos escrutínios que antecedem o Batismo na Vigília Pascal. Nas Igrejas orientais, especialmente na tradição bizantina, a ressurreição de Lázaro é celebrada no sábado de Lázaro, o  anterior ao Domingo de Ramos, indicando que este sinal é a chave hermenêutica para compreender a paixão e a ressurreição de Cristo. Trata-se, portanto, de um texto axial que articula vida, morte e esperança no interior da fé cristã.

É  preciso saber que vivemos dias em que a realidade social, política e econômica revela sinais evidentes de morte. Discursos públicos que banalizam a verdade, estruturas econômicas que concentram riqueza nas mãos de poucos enquanto multidões permanecem excluídas, e episódios de violência que atravessam o cotidiano são mais do que fatos isolados. São expressões de um sistema que naturaliza a morte social. Nesse cenário, a Palavra proclamada não é neutra. Ela ilumina e julga. Ela revela que, ainda hoje, Lázaro continua sendo sepultado. Não apenas nos túmulos de pedra, mas nas periferias, nas filas do desemprego, nas dependências químicas, nas prisões invisíveis da desesperança. A liturgia, então, não nos convida a escapar da realidade, mas a lê-la à luz do Deus da vida. O Evangelho de João se insere nesse horizonte como uma catequese profunda. O capítulo 11 não é apenas um relato de milagre, mas o sétimo sinal, a plenitude dos sinais, dentro da estrutura joanina. Desde Caná (Jo 2,1-11), onde a água se transforma em vinho, até Betânia, onde a morte se transforma em vida, há um caminho progressivo de revelação. E não por acaso, após este sinal, as autoridades decidem matar Jesus (Jo 11,53). A vida revelada por Cristo ameaça diretamente os sistemas que administram a morte.

A narrativa se inicia com a doença de Lázaro (Jo 11,1-3), mas rapidamente desloca o olhar. “Esta doença não é para a morte, mas para a glória de Deus” (Jo 11,4). Aqui já se estabelece um conflito hermenêutico. A realidade visível aponta para a morte, mas Jesus lê a situação a partir de uma lógica mais profunda. Ele permanece dois dias onde está (Jo 11,6), o que escandaliza qualquer expectativa imediatista. Em um mundo que exige respostas rápidas, Deus parece “atrasar”. Mas esse atraso não é ausência. É pedagogia. É condução à fé madura, aquela que não depende do milagre instantâneo, mas da confiança no mistério.

Os discípulos revelam uma compreensão limitada. Recordam a ameaça de apedrejamento (Jo 11,8) e temem retornar à Judeia. Tomé, com sua frase ambígua “vamos também nós para morrermos com ele” (Jo 11,16), expressa um discipulado ainda imaturo, mas já marcado por uma disposição de seguir. Aqui se revela uma antropologia eclesial. A comunidade não é perfeita. Ela caminha entre o medo e a fidelidade.

Ao chegar a Betânia, Jesus encontra um cenário marcado pelo luto. Lázaro está morto há quatro dias (Jo 11,17). Este detalhe não é secundário. Na mentalidade judaica da época, acreditava-se que a alma permanecia próxima ao corpo por três dias. O quarto dia significava a decomposição irreversível. Ou seja, não há mais esperança humana. O evangelista constrói deliberadamente um cenário onde toda possibilidade foi esgotada. É nesse lugar que a revelação acontece.

Marta sai ao encontro de Jesus (Jo 11,20). Sua fé é real, mas ainda marcada por uma compreensão escatológica futura. “Eu sei que ele ressuscitará no último dia” (Jo 11,24). Jesus então desloca radicalmente essa expectativa. “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25). Não se trata apenas de um evento futuro, mas de uma presença atual. Esta afirmação ecoa o nome divino revelado em Êxodo 3,14. Jesus não apenas fala de Deus. Ele se identifica com a ação de Deus. Ele é a vida.

A profissão de fé de Marta (Jo 11,27) constitui um dos centros do Evangelho. Assim como Pedro nos sinóticos (Mt 16,16), ela reconhece Jesus como o Cristo, o Filho de Deus. Mas aqui há um aprofundamento. A fé não é apenas reconhecimento, é adesão existencial.

Maria, ao encontrar Jesus, traz outra dimensão. Ela chora (Jo 11,32). Sua dor é visceral. Jesus, ao vê-la, “comove-se profundamente” (Jo 11,33). O verbo grego indica uma agitação interior intensa, quase uma indignação. E então, o versículo mais curto e talvez mais revolucionário: “Jesus chorou” (Jo 11,35). Deus chora. Esta afirmação rompe com qualquer teologia de um Deus distante. Aqui se revela uma teologia da compaixão. Em consonância com Hebreus 4,15, temos um Deus que participa da dor humana.

Ao chegar ao túmulo, o cenário é descrito como uma gruta fechada por uma pedra (Jo 11,38). A pedra é símbolo poderoso. Representa não apenas a morte física, mas tudo aquilo que impede a vida. Dureza de coração (Ez 36,26), incredulidade (Mc 16,14), estruturas sociais que aprisionam. Quando Jesus ordena “Tirai a pedra” (Jo 11,39), Ele convoca a comunidade. Deus não age sozinho. Há uma corresponsabilidade. A fé sem ação é morta (Tg 2,17).

A objeção de Marta “já cheira mal” revela o realismo da morte. A decomposição já começou. Quantas vezes também naturalizamos a morte social. Quantas vidas consideramos “casos perdidos”. O Evangelho confronta essa lógica. Não há situação irreversível para Deus.

Jesus reza (Jo 11,41-42), não para ser ouvido, mas para revelar. E então pronuncia a palavra criadora: “Lázaro, vem para fora” (Jo 11,43). Assim como em Gênesis 1, a Palavra cria. Em João 5,25, Ele já havia anunciado que os mortos ouviriam sua voz. Agora isso se concretiza.

Lázaro sai. Mas sai ainda envolto em faixas (Jo 11,44). Este detalhe é decisivo. Ele voltou à vida, mas ainda não está plenamente livre. Diferente de Jesus, cujo túmulo ficará vazio com as faixas deixadas para trás (Jo 20,6-7), Lázaro ainda precisa ser desatado. Por isso, a ordem final: “Desatai-o e deixai-o ir”. A comunidade é chamada a completar o processo de libertação. Aqui está uma das mais profundas implicações pastorais do texto. Ressuscitar não é apenas devolver a vida, é reintegrar, libertar, devolver dignidade.

A conexão com Ezequiel se torna evidente. “Abrirei vossos túmulos” (Ez 37,12). Não apenas individuais, mas coletivos. Trata-se de uma ressurreição histórica. A mesma lógica aparece em Isaías 58, onde o verdadeiro culto está ligado à libertação dos oprimidos. O Salmo 130 reforça que essa experiência nasce do abismo. E Romanos 8 afirma que essa vida é sustentada pelo Espírito.

A tradição dos Evangelhos sinóticos também ilumina essa leitura. A ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17) e da filha de Jairo (Mc 5,21-43) revelam a compaixão de Jesus diante da morte. Contudo, João aprofunda essa tradição ao apresentar o sinal como revelação da identidade do próprio Cristo. Não é apenas o que Ele faz, mas quem Ele é.

Diante dessa revelação, a dimensão profética se impõe. A Palavra não pode ser neutralizada. Uma fé que não toca a realidade dos pobres é denunciada pela tradição bíblica. Amós 5,21-24 rejeita um culto sem justiça. Isaías 1,13-17 denuncia práticas religiosas vazias. Jesus retoma essa crítica em Mateus 23. Nesse horizonte, a voz de Óscar Romero ressoa com força. Uma religião de domingo que não transforma a semana é uma fé sepultada.

A idolatria contemporânea assume formas sutis. Quando estruturas econômicas são tratadas como absolutas, mesmo produzindo fome, estamos diante de uma idolatria. O Salmo 115 já denunciava ídolos que têm boca e não falam, olhos e não veem. Hoje, são sistemas que produzem riqueza sem gerar vida. A teologia da prosperidade, ao reduzir Deus a um garantidor de sucesso financeiro, esvazia o Evangelho. O clericalismo, ao concentrar poder, silencia a comunidade e impede que ela cumpra sua missão de desatar os que estão presos.

A antropologia do texto revela diferentes respostas humanas. Marta representa a fé racional. Maria, a fé afetiva. Os discípulos, a fé em construção. Os judeus, a ambiguidade social entre solidariedade e incredulidade. Lázaro representa a condição humana marcada pela finitude e pela dependência da graça. E Jesus integra todas essas dimensões, revelando uma humanidade plena unida à divindade.

A dimensão psicológica também é profunda. O luto, a espera, a frustração, a esperança são experiências universais. O Evangelho não nega essas realidades, mas as atravessa com sentido. A esperança cristã não é fuga, mas resistência. A missão da comunidade é clara. Tirar a pedra, desatar as faixas, chamar à vida. Isso implica ação concreta. Mateus 25,31-46 deixa claro que o critério final é a vida do outro. Atos 2,44-47 mostra que a comunidade primitiva vivia essa realidade na partilha.

Ao final, muitos creem (Jo 11,45), mas outros endurecem o coração. A vida oferecida exige decisão. Não há neutralidade diante do Evangelho. Ao nos aproximarmos da Semana Santa, este texto nos convida a uma conversão radical. O Batismo (Rm 6,4) já nos inseriu no mistério pascal. Já começamos a ressuscitar. A Páscoa não será apenas celebrada. Ela já começou onde alguém decide viver, amar, libertar.

A voz de Jesus continua ecoando. “Vem para fora”. Não apenas para Lázaro, mas para cada realidade de morte. A pergunta permanece. 

  • Quais são as pedras que ainda mantemos?
  • Quais são as faixas que ainda prendem nossos irmãos?

A fé cristã não pode ser reduzida a uma contemplação passiva, intimista ou alienada da história. Ela nasce do encontro com Aquele que atravessou a morte e inaugura uma nova criação (2Cor 5,17), e por isso se torna necessariamente compromisso concreto com a vida em todas as suas dimensões. Crer na ressurreição, à luz de João 11, não é apenas afirmar um dogma, mas assumir uma prática: é ouvir hoje a voz que continua a clamar “vem para fora” (Jo 11,43) e responder com gestos que rompem as estruturas de morte.

Onde a vida está ameaçada, seja pela fome que desumaniza (Mt 25,35), pela exclusão que invisibiliza, pela violência que silencia, ou por sistemas que transformam pessoas em números, ali a Igreja não pode hesitar. Sua vocação é tornar visível, no tempo presente, a força da ressurreição. Não como discurso, mas como prática libertadora. Não como retórica religiosa, mas como encarnação do Reino que Jesus anunciou (Lc 4,18-19). A neutralidade diante da morte é, em si mesma, uma forma de cumplicidade. E o Evangelho não permite cumplicidade com aquilo que nega a vida. A ressurreição de Lázaro nos revela que Deus age, mas não dispensa a comunidade. A ordem “tirai a pedra” (Jo 11,39) e “desatai-o” (Jo 11,44) permanece atual. Há pedras que continuam sendo colocadas todos os dias, pedras econômicas, culturais, religiosas, ideológicas, que sepultam sonhos e sufocam existências. Há também faixas que continuam aprisionando, preconceitos, medos, estruturas injustas, espiritualidades alienantes. A Igreja, se quer ser fiel ao seu Senhor, não pode apenas orar diante do túmulo. Ela deve agir para abri-lo.

Essa ação, porém, não é ativismo vazio. Ela brota do Espírito que vivifica (Rm 8,11), da escuta da Palavra que desinstala, da Eucaristia que forma um corpo comprometido com a história (1Cor 10,16-17). É uma ação enraizada na contemplação, mas que não se esgota nela. É uma espiritualidade que une joelhos dobrados e mãos estendidas, oração e justiça, fé e compromisso. Num mundo marcado por discursos que confundem, por poderes que oprimem e por uma religiosidade muitas vezes domesticada, a fé cristã precisa recuperar sua densidade profética. Não se trata de aderir a projetos ideológicos, mas de ser fiel ao Evangelho que sempre toma partido da vida, especialmente da vida ferida. Como já afirmava a tradição profética, “aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,17). E como reafirma Jesus, não basta dizer “Senhor, Senhor” (Mt 7,21), é preciso fazer a vontade do Pai, que é sempre vida plena para todos (Jo 10,10).

Ao nos aproximarmos da Páscoa, a Igreja é chamada a renovar sua identidade mais profunda. Somos um povo pascal, marcado pela passagem da morte para a vida (Jo 5,24). Não fomos salvos para permanecer nos túmulos, nem para nos adaptar às estruturas que produzem morte. Fomos chamados a viver e a fazer viver. A esperança cristã não é fuga para o além, mas força para transformar o agora. PPor isso, não há adiamento possível. A ressurreição não é apenas promessa futura, ela irrompe no presente sempre que a vida é defendida, restaurada, promovida. Cada gesto de justiça, cada ação de solidariedade, cada palavra que denuncia a mentira e anuncia a verdade é já um sinal pascal no meio da história.

A Igreja será fiel ao seu Senhor na medida em que se tornar, concretamente, lugar onde os mortos voltam a viver, onde os excluídos são reintegrados, onde os que estavam presos são libertos. Este é o critério. Este é o julgamento. Este é o Evangelho.  Hoje, não amanhã. Agora, não depois. Porque a voz que chamou Lázaro continua ecoando, e a história continua esperando por comunidades que tenham coragem de remover pedras, desatar amarras e testemunhar, com a própria vida, que a morte não tem a última palavra.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Um olhar no Salmo 50 (51)


O Salmo 50, conhecido na numeração hebraica como 51, é proclamado com especial intensidade na Quarta-feira de Cinzas, abrindo o itinerário quaresmal, e reaparece na dinâmica do Primeiro Domingo da Quaresma, quando a Igreja contempla Cristo no deserto. Também ressoa nas celebrações penitenciais, na Liturgia das Horas às sextas-feiras e na tradição espiritual como oração cotidiana de conversão. Não é um texto periférico, mas eixo pedagógico. Ele inaugura um tempo que não é apenas calendário, mas processo interior e social. Quando a assembleia canta “Misericórdia, ó Senhor”, não entoa fórmula devocional isolada, mas assume publicamente uma verdade antropológica e histórica: somos frágeis, somos responsáveis, precisamos ser recriados.

Na Quarta-feira de Cinzas, o gesto que recorda Gênesis 3,19 confronta o imaginário contemporâneo da autossuficiência. A cinza sobre a fronte rompe ilusões de permanência e controle. Em culturas antigas, cobrir-se de cinza significava luto, arrependimento, reconhecimento de limite. Antropologicamente, trata-se de um rito que desmonta hierarquias ilusórias. Ricos e pobres recebem o mesmo sinal. A igualdade diante da morte revela também igualdade na necessidade de misericórdia. O salmo, proclamado nesse contexto, impede que o gesto se reduza a formalidade. A cinza toca a pele; a Palavra deve atravessar estruturas mentais, práticas econômicas, escolhas políticas.

O pré-texto histórico associado ao salmo está em 2 Samuel 11–12. Davi, rei consolidado, usa o poder para satisfazer desejo e proteger imagem. O adultério com Betsabé é seguido por manipulação militar e morte de Urias. Não é pecado privado; é abuso institucional. O profeta Natã irrompe como voz da consciência histórica. A exegese histórica revela que Israel preservou esse relato para afirmar que nem o ungido está acima da justiça divina. A hermenêutica contemporânea reconhece aqui um princípio permanente: fé não legitima poder; fé julga o poder. Sempre que lideranças religiosas se associam a projetos autoritários, sempre que retórica moral encobre desigualdade estrutural, o Salmo 50 retorna como denúncia.

O texto hebraico emprega múltiplos termos para o mal: hata’, avon, pesha’. Erro, culpa que deforma, rebelião deliberada. Essa variedade impede simplificação moralista. O pecado, na Escritura, é ruptura de aliança e também produção de injustiça concreta. Romanos 3,23 declara que todos pecaram, mas Ezequiel 18 afirma responsabilidade pessoal. Entre condicionamento social e decisão individual, há tensão fecunda. Sociologicamente, falamos de estruturas de pecado que perpetuam exclusões. Psicologicamente, reconhecemos mecanismos de racionalização. Teologicamente, confessamos que a graça não elimina a justiça, mas possibilita recomeço.

“Lavai-me”, suplica o salmista. A imagem remete às purificações cultuais do Templo, mas o próprio salmo relativiza o ritual isolado. “Sacrifício agradável é o coração contrito.” Aqui ecoa Oséias 6,6 e a denúncia de Isaías 1, onde mãos manchadas de sangue oferecem culto vazio. Jesus retoma essa tradição em Mateus 9,13. A crítica não é ao culto, mas à cisão entre rito e vida. Quando a espiritualidade se fecha no indivíduo e ignora injustiças estruturais, transforma-se em anestesia moral. O salmo confronta espiritualidades de autopromoção religiosa e desmonta a lógica da fé como espetáculo.

“Criai em mim um coração puro.” O verbo bara’ é o mesmo de Gênesis 1,1. Não se trata de ajuste superficial, mas de nova criação. Na antropologia bíblica, coração é centro das decisões. Jeremias 17,9 adverte sobre seu autoengano. Ezequiel 36,26 promete coração de carne no lugar do coração de pedra. Psicologicamente, o salmo descreve passagem da culpa paralisante à responsabilidade transformadora. Não há autodesprezo, mas reconhecimento lúcido. Em sociedades marcadas por cultura de cancelamento e por autojustificação permanente, essa pedagogia é revolucionária: assumir a verdade sem perder a esperança.

A menção ao hissopo evoca Êxodo 12, quando o sangue do cordeiro marca as portas na noite da libertação. Purificação e libertação são inseparáveis. A tradição cristã lê essa imagem à luz de João 19, onde o hissopo reaparece na cena da cruz. A conversão pedida não é introspecção intimista, mas passagem pascal. Não há perdão autêntico que não gere compromisso com liberdade concreta. Lucas 4,18 anuncia libertação aos cativos como missão messiânica. Toda espiritualidade que promete apenas prosperidade individual e ignora sistemas que produzem pobreza trai essa lógica bíblica.

A crítica à teologia da prosperidade encontra fundamento amplo. 1 Timóteo 6,9–10 alerta sobre a sedução das riquezas. Lucas 12,15 adverte contra a avareza. Apocalipse 3 denuncia a ilusão da autossuficiência. A tradição social da Igreja, desde Rerum Novarum até Fratelli Tutti, insiste que fé autêntica exige compromisso com justiça estrutural. O Salmo 50 desautoriza qualquer leitura que transforme Deus em avalista de acumulação ou legitime desigualdades como bênção.

Quando o texto afirma que quem experimenta misericórdia ensinará aos transgressores os caminhos do Senhor, introduz dimensão missionária. Conversão gera responsabilidade pública. Tiago 2 afirma que fé sem obras é morta. 1 Coríntios 11 denuncia culto que reforça desigualdades. O final do salmo fala da reconstrução de Sião. A cidade é símbolo da vida coletiva. Não basta coração renovado se a sociedade permanece injusta. A Quaresma, iniciada com o Salmo 50 e aprofundada no deserto do Primeiro Domingo, exige revisão de práticas econômicas, de discursos políticos, de prioridades comunitárias.

No Primeiro Domingo da Quaresma, a Igreja contempla as tentações de Cristo no deserto, narradas em Mateus 4, Marcos 1 e Lucas 4. Entre cinza e deserto, o Salmo 50 permanece como exame de consciência. As tentações de transformar pedra em pão, buscar espetáculo religioso ou dominar reinos ecoam as distorções denunciadas no salmo. Poder, prestígio e controle continuam sendo seduções contemporâneas. A repetição litúrgica não é redundância, mas pedagogia espiritual. Conversão não é emoção momentânea; é processo que atravessa tentações reais.

Do ponto de vista sociológico, o pecado descrito no salmo pode ser lido como expressão de culturas de privilégio e exclusão. O episódio de Davi revela concentração de poder e silenciamento de vítimas. Hoje, estruturas econômicas globais produzem desigualdade sistêmica. O salmo convida a reconhecer cumplicidades. Psicologicamente, ele descreve caminho terapêutico: reconhecimento do erro, pedido de transformação, compromisso com mudança. Espiritualmente, afirma que Deus deseja verdade no íntimo. Profeticamente, denuncia culto vazio e espiritualidade alienante.

Documentos recentes como Evangelii Gaudium criticam economia que mata e fé fechada em autorreferencialidade. O Salmo 50 ecoa essa denúncia ao afirmar que Deus não se satisfaz com sacrifícios externos desconectados da justiça. Isaías 58 pergunta que jejum agrada a Deus e responde que é soltar correntes da injustiça. A Quaresma não pode ser temporada de promessas superficiais enquanto permanecem intactas práticas que exploram, excluem e ferem.

A alegria pedida no final do salmo não é euforia alienante. Efésios 2 apresenta Cristo derrubando muros de separação. Salmo 85 une misericórdia e verdade, justiça e paz. A alegria da salvação nasce da reconciliação real. Ela exige reparação, revisão de privilégios, reconstrução de vínculos. Não há paz sem justiça, nem justiça sem misericórdia.

Quando a cinza desaparecer da fronte, a Palavra deve permanecer no coração. O Salmo 50 começa com clamor e termina com louvor. Entre ambos está a verdade assumida e a coragem de mudar. Ele inaugura a Quaresma na Quarta-feira de Cinzas e acompanha a Igreja no Primeiro Domingo, recordando que o deserto não é fuga da realidade, mas confronto com ela. Em tempos de polarização, manipulação religiosa e espiritualidades de mercado, essa oração continua sendo manifesto profético. Só um coração recriado pode gerar cidade reconstruída. Só uma fé que reconhece o próprio pecado pode denunciar injustiças sem hipocrisia. Só uma Igreja que canta misericórdia pode tornar-se sinal credível do Reino que anuncia.

DNonato - Pecador que implora  Misericórdia