terça-feira, 31 de março de 2026

Uma noite que durou duas decadas

 

O ano de 1964 não começou com tanques. Começou com medo, um medo cuidadosamente cultivado, irrigado por discursos calculados, manchetes alarmistas e púlpitos capturados por uma teologia do pânico, um medo que não brotou espontaneamente do povo, mas foi semeado como construção social deliberada, aquilo que a sociologia política reconhece como produção do “inimigo interno” e do pânico moral, e nesse cenário o Brasil não era apenas uma nação em crise, mas um território em disputa simbólica, econômica e geopolítica, onde a narrativa precedeu os fatos e, uma vez instalada, passou a moldá-los, reorganizando a percepção coletiva até que a ameaça imaginada parecesse mais real do que a própria realidade.

O que se chamou de “revolução” foi, na realidade, o Golpe Militar de 1964, uma ruptura institucional articulada entre setores militares, empresariais, midiáticos e religiosos, e antes de ser um evento pontual, foi um processo longo de preparação discursiva e política, pois não há golpe sem narrativa, e a ideia de que o país estava à beira de um colapso comunista foi construída como ficção funcional, uma ferramenta de mobilização que ignorava o fato de que não havia condições materiais para uma revolução socialista no Brasil, existindo apenas um governo que tentava implementar reformas dentro da legalidade e da ordem constitucional.

No contexto da Guerra Fria, a América Latina era tratada como zona de contenção estratégica, e a política externa dos Estados Unidos operava sob a Doutrina de Segurança Nacional, que redefinia qualquer movimento reformista como ameaça ideológica, transformando demandas sociais em riscos geopolíticos, e o Brasil, pela sua dimensão territorial e relevância econômica, tornou-se prioridade, sendo alvo de um alinhamento planejado que não se limitou a apoio retórico, mas incluiu ações concretas como a Operação Brother Sam, que previa suporte naval, envio de combustível e assistência logística, evidenciando que o golpe não foi improviso, mas parte de uma engrenagem internacional cuidadosamente articulada.

Esse alinhamento, porém, não se restringiu ao campo logístico, pois avançou para a formação de doutrinas e práticas repressivas, com oficiais brasileiros sendo treinados em programas de cooperação militar, inclusive em instituições como a Escola das Américas, onde técnicas de contrainsurgência eram ensinadas sob a lógica da eliminação do “inimigo interno”, e manuais posteriormente divulgados revelaram que o que se apresentava como estratégia de segurança frequentemente incluía métodos coercitivos que, na prática, se traduziriam em tortura sistematizada, demonstrando que a violência não foi improvisada, mas ensinada, aprendida e institucionalizada.

O governo de João Goulart, longe de representar uma ruptura revolucionária, articulava um projeto reformista que buscava enfrentar desigualdades históricas por meio das Reformas de Base, incluindo propostas concretas como a reforma agrária com desapropriação de latifúndios improdutivos, a reforma urbana com controle de aluguéis, a reforma fiscal com maior progressividade tributária e a ampliação do acesso à educação, medidas que ameaçavam diretamente a estrutura de concentração de renda e poder, revelando que o conflito não era essencialmente ideológico, mas profundamente material, pois atingia privilégios enraizados.

A elite brasileira, formada sobre a herança escravocrata e patrimonialista, reagiu a essas propostas não com debate, mas com medo e violência simbólica, pois sua lógica histórica sempre foi a da acumulação e preservação de privilégios, e nesse contexto o discurso moralista contra a corrupção foi instrumentalizado como ferramenta de mobilização, não para transformar estruturas, mas para deslocar o foco, invisibilizando a corrupção estrutural que permeava a relação entre Estado e capital e substituindo-a por uma narrativa seletiva de corrupção individual, conveniente para deslegitimar adversários.

A mídia desempenhou papel central nesse processo, atuando como agente político ao amplificar o discurso do caos iminente e legitimar editorialmente o Golpe Militar de 1964 como solução necessária, moldando a opinião pública por meio de uma cobertura que não informava, mas induzia, repetindo o medo até transformá-lo em verdade emocional, e quando o medo se instala dessa forma, a razão se retrai e a sociedade passa a aceitar soluções que, em condições normais, seriam rejeitadas.

A religião institucional, por sua vez, não permaneceu neutra, mas participou ativamente da legitimação do golpe, especialmente por meio da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu setores conservadores com forte presença de lideranças religiosas em defesa de uma ordem moral que, na prática, sustentava interesses políticos e econômicos, e essa mobilização não foi espontânea, mas articulada com apoio empresarial e cobertura midiática, utilizando símbolos religiosos para conferir legitimidade moral a um projeto profundamente marcado pela defesa de privilégios de classe.

Essa instrumentalização da fé revelou uma distorção profunda, pois a religião, que poderia ter sido espaço de crítica e discernimento, tornou-se veículo de medo e legitimação do poder, confundindo espiritualidade com ideologia e reduzindo a fé a instrumento de defesa de estruturas injustas, ainda que houvesse resistência interna, com setores religiosos comprometidos com justiça social denunciando essa captura e pagando o preço por sua posição, evidenciando que a religião também é campo de disputa.

Quando os tanques finalmente vieram, vieram não como resposta a uma guerra real, mas como imposição de uma ordem, esvaziando o Congresso, dissolvendo partidos e suspendendo direitos civis, mantendo a institucionalidade como fachada enquanto o poder se concentrava em atos autoritários como o AI-5, que consolidou o estado de exceção e abriu caminho para uma política sistemática de repressão.

Nos porões do regime, essa repressão assumiu sua forma mais brutal, com centros como DOI-CODI e DOPS operando como máquinas de dor, onde o corpo humano era reduzido a objeto, submetido a práticas como o pau-de-arara, que tensionava ossos e articulações até o limite, choques elétricos aplicados em regiões sensíveis do corpo, o “submarino”, que levava ao desespero do afogamento controlado, espancamentos repetidos, privação de sono e humilhações constantes, métodos que não eram exceções, mas parte de uma política sistemática, ensinada e aperfeiçoada dentro de uma lógica internacional de repressão, com influência documentada dos Estados Unidos e posteriormente confirmada por investigações como a Comissão Nacional da Verdade, que reuniu evidências, relatos e responsabilidades institucionais.

Mas a violência não se resume aos métodos, ela se revela nas ausências, na cadeira vazia à mesa, na mãe que nunca mais recebeu notícias, no nome que desapareceu, no silêncio que se instalou dentro das casas, transformando dor em memória não resolvida.

A economia sob a ditadura seguiu lógica semelhante, com o chamado “milagre econômico” produzindo crescimento acelerado entre 1968 e 1973, mas acompanhado de profunda concentração de renda, aumento do índice de Gini e arrocho salarial que reduzia o poder de compra dos trabalhadores enquanto ampliava a produtividade, promovendo industrialização à custa de endividamento externo crescente e dependência do capital internacional.

O preço desse crescimento foi cobrado com brutalidade histórica, especialmente na década de 1980, marcada como “década perdida”, quando a inflação ultrapassou 80% ao mês em determinados períodos, corroendo salários, destruindo poupanças e instaurando uma instabilidade cotidiana em que o dinheiro perdia valor rapidamente, obrigando trabalhadores a correr contra o tempo para garantir o básico, enquanto o sistema previdenciário era fragilizado por um modelo que combinava concentração de renda e informalidade, reduzindo a base contributiva e comprometendo sua sustentabilidade.

Nesse cenário, grandes grupos econômicos foram favorecidos com crédito subsidiado, incentivos fiscais e proteção estatal, enquanto a maioria da população permanecia excluída, evidenciando que o favoritismo aos ricos não foi acidente, mas parte de um projeto estruturado de concentração, reforçado por relações com organismos internacionais como FMI e Banco Mundial, que condicionavam o desenvolvimento e aprofundavam a dependência.

A corrupção, longe de desaparecer, tornou-se mais opaca e protegida, funcionando dentro de um sistema sem transparência e sem controle democrático, revelando que a retórica anticorrupção havia sido apenas instrumento de legitimação.

Do ponto de vista antropológico, consolidou-se uma sociedade marcada pelo medo internalizado e por hierarquias rígidas, onde o autoritarismo se reproduzia não apenas por imposição, mas por adesão, resultado de um processo de manipulação que contou com propaganda, discurso religioso e mídia alinhada para construir uma percepção de ameaça que justificava a ruptura democrática.

E é nesse ponto que o passado se conecta com o presente, pois os mecanismos que operaram em 1964 não desapareceram, apenas se transformaram, sendo hoje mobilizados por setores da extrema direita que continuam a invocar o fantasma do comunismo, mesmo ausente como realidade concreta, e a utilizar o medo como ferramenta política central.

O revisionismo histórico torna-se, então, estratégia deliberada, buscando reconfigurar o Golpe Militar de 1964 como necessidade ou salvação, relativizando a tortura, negando os desaparecidos e suavizando a repressão, em um processo que não é ignorância, mas disputa ativa pela memória coletiva, pois quem controla a memória define os limites do aceitável.

A lógica permanece inalterada, criando crises artificiais, amplificando medos, simplificando a realidade em termos binários e justificando soluções autoritárias, enquanto a religião volta a ser mobilizada como instrumento político, repetindo, sob novas formas, o que se viu na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, agora como eco histórico que revela a permanência de uma cultura autoritária. O legado desse período não terminou, permanecendo nas estruturas, na cultura política e na tolerância à violência estatal, demonstrando que a história não é apenas memória, mas advertência ativa.

O Golpe Militar de 1964 não é um capítulo encerrado, mas um espelho incômodo que devolve à sociedade a imagem de suas próprias fragilidades, revelando como o medo pode ser organizado, como a fé pode ser capturada e como a memória pode ser manipulada para legitimar projetos de poder. Em 1964, o lema “Deus, pátria e família” não surgiu como expressão inocente de valores, mas como instrumento político, condensando em poucas palavras uma retórica poderosa capaz de mobilizar afetos, silenciar críticas e transformar divergência em ameaça. Sob esse slogan, construiu-se uma narrativa moral que mascarava interesses econômicos, geopolíticos e de classe, apresentando o autoritarismo como defesa da ordem, quando, na realidade, se tratava da contenção de qualquer tentativa de redistribuição de poder e renda. A chamada liberdade, evocada naquele contexto, era seletiva, pois não incluía o direito de organização popular, nem a pluralidade política, nem a crítica ao sistema, e essa contradição histórica precisa ser nomeada com precisão, porque ela não desapareceu. O que se defendia como liberdade era, na prática, a preservação de privilégios, a garantia de um modelo econômico concentrador e a manutenção de uma hierarquia social rígida. A pátria, invocada como entidade sagrada, foi reduzida a um conceito abstrato que excluía justamente o povo concreto, especialmente os mais pobres, os trabalhadores e aqueles que ousavam questionar a estrutura vigente. E Deus, invocado nos discursos e nas ruas, foi instrumentalizado como selo de legitimidade, como se o sagrado pudesse ser convocado para justificar a supressão de direitos e a violência institucional.

Esse arranjo simbólico não pertence apenas ao passado. Ele reaparece, reconfigurado, nos dias atuais, quando discursos que exaltam “Deus, pátria, família e liberdade” voltam a ocupar o espaço público com a mesma função de simplificar a realidade, dividir a sociedade e mobilizar o medo. O paralelismo não é retórico, é estrutural. Assim como em 1964, cria-se um inimigo difuso, amplia-se a sensação de crise, desacredita-se a política democrática e apresenta-se a autoridade como solução. O que muda são as formas; o mecanismo permanece. O perigo reside exatamente nessa repetição com novas roupagens, porque o autoritarismo contemporâneo raramente se apresenta como ruptura explícita; ele se infiltra no cotidiano, normaliza a intolerância, relativiza a violência e reescreve o passado para torná-lo aceitável. O revisionismo histórico que tenta suavizar ou justificar o Golpe Militar de 1964 não é apenas um erro interpretativo, mas uma estratégia política que prepara o terreno para novas formas de exclusão e controle. Quando a tortura é negada, quando os desaparecidos são esquecidos e quando a repressão é tratada como exagero, o limite ético que deveria impedir a repetição começa a se dissolver.

A crítica, portanto, não pode ser superficial nem neutra. É necessário reconhecer que o lema “Deus, pátria e família” foi historicamente utilizado para proteger estruturas de poder e silenciar vozes dissidentes, e que sua reaparição, sem reflexão crítica, carrega o risco de reativar a mesma lógica excludente. Não se trata de negar valores, mas de desmascarar seu uso político quando servem à opressão. A história demonstra que, sempre que esses símbolos são mobilizados sem compromisso com justiça social, pluralidade e dignidade humana, eles deixam de ser valores e se tornam instrumentos. A pergunta que permanece, portanto, não é apenas o que aconteceu, mas o que estamos dispostos a reconhecer, enfrentar e impedir. Porque o perigo não está apenas nos tanques que avançam, mas nas ideias que preparam o caminho para que eles sejam aceitos. Está nos discursos familiares que tranquilizam enquanto restringem, nos símbolos que unem enquanto excluem, nas promessas de ordem que escondem projetos de controle.

Se há uma responsabilidade histórica, ela não é apenas de memória, mas de discernimento. Reconhecer os mecanismos que operaram em 1964 é condição para identificar suas novas formas de manifestação. Porque o autoritarismo não precisa repetir exatamente o passado para produzir os mesmos efeitos. Basta que encontre, mais uma vez, uma sociedade disposta a trocar liberdade real por segurança ilusória, diversidade por uniformidade e crítica por silêncio.

DNonato - Graduado em história, autor da monografia  O Regime militar  e a Diocese de Nova Iguaçu...





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