É a partir desse horizonte escatológico que contemplamos Jesus, no alto do Monte das Oliveiras, olhando a cidade e chorando sobre ela (Lc 19,41-44). Uma cena que aparece na liturgia em dias fortemente marcados pela tensão entre graça e juízo: é proclamado na quinta-feira da 33ª semana do Tempo Comum, à beira do encerramento do ano litúrgico, quando a Igreja contempla o destino último da história. Também surge no Ofício das Leituras em diversos comentários patrísticos que ecoam o mesmo gesto: Cristo que chora, não por fraqueza, mas por amor entranhado. O Evangelho é lido às portas da Solenidade de Cristo Rei, quando o Mistério do Reino é confrontado com as escolhas humanas que o rejeitam. Por isso, a visão de Jesus sobre Jerusalém, carregada de dor, se torna chave para interpretar o fim do ano litúrgico e o fim da história, a tensão entre o que Deus oferece e o que o coração humano resiste em acolher.
O texto de Lucas é tão denso que precisa ser lido com a lente da hermenêutica profética. Jesus avista Jerusalém desde o Monte das Oliveiras — o mesmo monte sobre o qual Davi, séculos antes, chorou a ruína da própria casa e a violência interna de Israel (2Sm 15,30). Assim, Jesus repete o gesto de Davi, mas ampliado: não chora sua história pessoal, mas a história do povo que O rejeita. Ali também ecoa Zacarias (Zc 14), que anuncia que no Monte das Oliveiras se daria o confronto final entre Deus e as forças do caos. O lugar é símbolo: fronteira entre luz e sombra, entre promessa e recusa, entre fidelidade e traição. No vale logo abaixo, o Cedron, por onde Jesus passará à noite de sua Paixão, levando a história inteira para dentro do sofrimento redentor. A geografia não é cenário: é teologia.
O que Jesus vê? Ele vê uma cidade que canta os salmos mas perdeu o coração profético. Uma cidade que repete fórmulas litúrgicas mas recusa a conversão interior. Um povo que louva no Templo, mas se fecha ao Deus que caminha em suas ruas. É a Jerusalém que carrega em si o drama de Lamentações: “Como está sentada solitária a cidade antes tão cheia de gente!” (Lm 1,1). A cidade amada tornou-se cidade ferida. E Jesus, como Jeremias, chora não por ofensa pessoal, mas pela cegueira espiritual: “Se ao menos tu soubesses, neste dia, o que te pode trazer a paz!” (Lc 19,42). A paz — shalom — era o que a cidade mais desejava e ao mesmo tempo mais rejeitava. Os profetas clamaram por ela. O Templo foi erguido para simbolizá-la. Mas a paz que Deus enviava não era a paz da autossuficiência, do poder ou da dominação política: era a paz humilde, a paz justa, a paz servidora, a paz que brota do amor
Jesus chora por isso. Porque sabe que a cidade quer paz, mas não quer conversão. Quer bênção, mas não quer responsabilidade. Quer Messias, mas um Messias que confirme o projeto humano de domínio. Quer religião, mas uma religião que legitime seus interesses. Aqui o lamento de Jesus atravessa os séculos e revela um padrão antropológico repetido em todas as civilizações: a tentação de transformar o sagrado em instrumento do próprio ego. A sociologia urbana nos ajuda a compreender isso: a cidade é ao mesmo tempo lugar de encontro e de conflito. É espaço onde as esperanças se condensam mas também onde as violências são produzidas e ocultadas. Jerusalém representa essa ambiguidade humana — desejo de Deus e fuga de Deus no mesmo coração
O luto também aparece no choro de Cristo. Ele chora por aquilo que ainda não aconteceu, mas que já está latente. É o luto antecipado, aquela dor que se sente antes da perda, quando se percebe que nada mais deterá a tragédia produzida pelas próprias escolhas humanas. É o lamento de quem ama intensamente e percebe a destruição que vem pela recusa do amor. As lágrimas de Jesus não são lágrimas de impotência; são lágrimas de compaixão, no sentido mais profundo do termo: sofrer com, carregar dentro de si a dor do outro. São Gregório Magno dizia que “o coração do pastor não se eleva sobre o rebanho, mas se inclina sobre ele para acolher suas feridas”. Cristo chora porque seu coração desce até a dor da cidade. São João Crisóstomo acrescentava que esse choro revela a misericórdia divina tomando forma humana.
Mas o texto não é apenas sobre o passado: “Não reconheceste o tempo da visita de Deus”. Essa frase é o núcleo hermenêutico. Em Lucas, “visita” (episkopé) é termo técnico para a visitação divina que salva e julga simultaneamente (cf. Lc 1,68.78). Reconhecer a visita significa abrir o coração ao Reino que está próximo. Não reconhecê-la é fechar os olhos, endurecer-se, cristalizar-se na autossuficiência. Aqui está o drama antropológico mais profundo: o ser humano, tantas vezes, teme a novidade de Deus porque ela coloca em crise seus projetos de poder. A teologia da prosperidade, da dominação e do individualismo é exatamente a mesma recusa em outra forma. É Jerusalém repetida nos templos-espetáculo, onde Deus é mercadoria e fé é produto. É a fé que promete paz sem cruz, bênção sem solidariedade, prosperidade sem justiça, milagre sem ética. É a fé que transforma Jesus em mascote político de projetos violentos. É a fé que cria “Messias” adaptados às ideologias, exatamente como Jerusalém fazia com suas expectativas nacionalistas.
O “hoje” lucano é essencial para entender a profundidade do texto. Quando Jesus diz: “Se neste dia compreendesses o que te pode trazer a paz!”, Ele usa o mesmo “hoje” de outras cenas decisivas do evangelho: o “hoje” do anúncio em Nazaré (“Hoje se cumpriu esta Escritura”, Lc 4,21), o “hoje” da salvação na casa de Zaqueu (“Hoje a salvação entrou nesta casa”, Lc 19,9) e o “hoje” do perdão ao ladrão na cruz (“Hoje estarás comigo no Paraíso”, Lc 23,43). Em Lucas, o “hoje” é o tempo da visita de Deus. É a oportunidade da conversão, da abertura, da mudança de vida. É a irrupção do Reino na história concreta, no cotidiano. Quando a cidade não reconhece o “hoje”, o risco é cair no “não restará pedra sobre pedra”, não por castigo divino — como explicam os melhores exegetas — mas como consequência histórica de um fechamento espiritual que torna a sociedade incapaz de buscar caminhos de paz.
Jesus chora sobre tudo isso. Chora sobre uma cidade que trocou a profecia pela publicidade, o Templo pela lógica de mercado, a espiritualidade pelo entretenimento religioso. Chora sobre sacerdotes que buscam prestígio e pastores que tratam a fé como empresa. Aqui o clericalismo é atingido em cheio: o clericalismo que transforma a Igreja em castelo e o Evangelho em arma de controle; a mundanidade espiritual que disfarça poder com linguagem religiosa, denunciada com força pelo Papa Francisco (Evangelii Gaudium 93–97). A cidade onde isso acontece não precisa se chamar Jerusalém. Pode se chamar Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Los Angeles, Roma. Qualquer cidade que absolutiza o mercado, idolatra o poder e transforma o pobre em peso morto repete o drama de Jerusalém.
A crítica social que emerge desse texto não é acessória; é estrutural. Toda vez que uma sociedade constrói muros econômicos, ergue barricadas ideológicas, destrói vínculos, mercantiliza relações ou transforma seres humanos em números, ela cava seu próprio vale de ruínas. “Virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras”, diz Jesus. Não é ameaça divina: é consequência histórica. Toda cidade que rejeita a justiça produz sua própria destruição. Todo país que abraça ódio, mentira e violência política fabrica o cerco que o sufocará. Toda religião que se alia ao poder opressor participa da queda que anuncia. Por isso Henrique Vieira afirma que “toda teologia que não produz justiça é idolatria sofisticada”. Jesus chora porque vê, com nitidez, o que acontece quando o povo rejeita o caminho da paz: a violência torna-se lei, e a história se converte em ruína.
Mas Jesus não chora apenas por Jerusalém histórica. Ele chora por cada Jerusalém interior — cada coração que recusa ser transformado, que se fecha, que endurece. O lamento de Cristo atravessa os séculos e chega ao coração humano contemporâneo, que vive distraído, acelerado, fragmentado, muitas vezes incapaz de perceber a visita silenciosa de Deus na brisa suave do cotidiano. A antropologia da interioridade mostra que o ser humano moderno vive numa constante autojustificação. Reconhecer algo maior que si exige desinstalar-se; e isso é difícil. Por isso, tantos preferem uma religião que os confirme, não que os converta. Uma fé que anule conflitos internos, não que os trabalhe. Jesus chora sobre essa versão privatizada da espiritualidade.
Ao mesmo tempo, o choro de Cristo não é lamento sem esperança. A cidade que Ele vê será destruída — e historicamente o foi no ano 70 — mas isso não é o fim do plano de Deus. Como ensinava Santo Irineu, “Deus escreve direito por linhas muitas vezes tortas”. A destruição da cidade não destrói o desejo de Deus por ela. A cidade ferida será transformada na cidade celeste que desce do alto. A Jerusalém que rejeita será a mesma que, purificada, se tornará esposa do Cordeiro (Ap 21). O arco narrativo bíblico conduz da cidade em ruínas à cidade restaurada. Da pedra rejeitada ao edifício espiritual (1Ped 2,4-6). Da glória que se afasta (Ez 10) à glória que retorna para habitar com os homens (Ap 21,3). Da recusa ao abraço final. Do lamento à dança.
É por isso que a liturgia proclama esse texto no final do ano: para lembrar que a história não termina no fracasso humano, mas na fidelidade divina. A Jerusalém do alto é promessa que dá sentido ao caminho. E, enquanto caminhamos, Jesus continua chorando as dores da cidade humana, mas continua também semeando a paz que a cidade recusa. Suas lágrimas são sementes. Sua dor é fértil. Seu lamento abre espaço para a conversão. Se reconhecermos o tempo da visita de Deus, Jerusalém pode renascer dentro de nós.
E talvez seja isso que Ele mais deseja: que cada coração se torne, pouco a pouco, uma pequena Jerusalém reconciliada. Uma cidade interior onde a paz não seja propaganda, mas verdade. Onde Deus não seja slogan, mas presença. Onde o pobre não seja descartado, mas irmão. Onde a fé não seja mercadoria, mas caminho. Onde o Evangelho não seja instrumento de poder, mas boa notícia aos feridos. Onde as lágrimas de Jesus não caiam em vão, mas reguem o solo de uma vida nova.
O Cristo que chora sobre a cidade continua esperando a resposta humana. Ele não obriga, não invade, não impõe. Ele visita. E a visita de Deus é sempre convite — nunca violência. A cidade que O acolhe renasce. A que O rejeita se endurece. No fim, toda a história da humanidade se resume a essa cena silenciosa no Monte das Oliveiras: Deus chorando por amor, e uma cidade dividida entre o acolhimento e a recusa. Que nossas cidades — e nossos corações — escolham reconhecer o tempo dessa visita.
E, como cidadãos da Jerusalém do alto, somos chamados a caminhar com esperança, mesmo entre ruínas. A nova cidade desce do alto, e já irrompe entre nós sempre que acolhemos o Cristo que visita. A história humana passa, impérios caem, templos se desfazem, ideologias se desmoronam. Mas a cidade de Deus permanece. Suas portas nunca se fecham. Suas lágrimas são enxugadas pelo próprio Deus (Ap 21,4). E ali, finalmente, reconheceremos plenamente Aquele que hoje passa por nossas estradas, chora nossas cegueiras e nos chama incansavelmente à paz.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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