A perícope de Mateus 6,24-34, proclamada na liturgia da Igreja Católica no 11º Sábado do Tempo Comum e também no 8º Domingo do Tempo Comum do Ano A, sendo a continuação do Evangelho da sexta-feira da 11ª Semana do Tempo Comum e esta Evangelho sinotico de Lucas 12,39‑48 Na quarta-feira da 29ª semana do Tempo ou Lucas 12, 32-48 - 19º Domingo do Tempo Comum apresenta dos ensinamentos mais desafiadores e libertadores de Jesus. Sua mensagem não oferece um consolo superficial nem uma fuga espiritual diante das inquietações da vida. Ao contrário, constitui uma profunda crítica às falsas seguranças que dominam o coração humano. Quando afirma que ninguém pode servir a Deus e a Mamom, Jesus desmascara a idolatria do dinheiro, do acúmulo, do consumo e da obsessão pelo controle, realidades que continuam estruturando grande parte das relações sociais e econômicas de nosso tempo..A confiança inabalável em Deus, proposta por Jesus, é uma verdadeira rebelião sagrada contra os ídolos que prometem segurança, mas geram ansiedade, exclusão e medo. O Mestre convida seus discípulos a uma nova lógica existencial: a lógica do Reino de Deus. Nela, a confiança substitui a preocupação excessiva, a providência divina relativiza a busca desenfreada por garantias materiais, e a partilha vence a avareza. Contemplando os pássaros do céu e os lírios do campo, Jesus revela que a criação inteira testemunha o cuidado amoroso do Pai. Assim, o presente deixa de ser apenas o tempo cronológico das urgências e se torna kairos, o tempo oportuno da graça, onde a vida é acolhida como dom e o Reino é buscado acima de todas as coisas.
"Mamom", em aramaico, não é um substantivo neutro. É nome de senhor. É figura simbólica de um poder espiritual que exige culto. Como Baal nos tempos antigos, é uma divindade sedutora que promete segurança, mas cobra em troca a alma do adorador. Não por acaso, Jesus não descreve o dinheiro como um bem neutro, mas como um senhor rival de Deus. A escolha entre servir a Deus ou a Mamom é a escolha entre liberdade e escravidão. Como adverte São João Crisóstomo: “nada é mais escravizante que a riqueza quando se torna fim e não meio”. A crítica de Jesus, portanto, é estrutural, não meramente ética. Ele toca a raiz da alienação humana: o desejo desordenado de possuir como forma de garantir a própria existência — desejo este que se converte em sistema social, ideologia e mercado. Do ponto de vista exegético, o texto está situado no coração do Sermão da Montanha — o manifesto do Reino. Jesus ali não oferece conselhos morais avulsos, mas delineia um ethos escatológico: uma forma de viver desde já a realidade do Reino vindouro. A estrutura do discurso progride com intencionalidade pedagógica: começa com o alerta contra o duplo senhorio (v. 24), convida à contemplação da criação (vv. 26-30) e culmina no chamado radical à busca do Reino (v. 33). A repetição do verbo “não vos preocupeis” (merimnáo, em grego) funciona como refrão que desconstrói a ansiedade como modo de ser e revela uma espiritualidade alternativa, fundada na confiança radical, que não é ingenuidade, mas resultado de uma antropologia elevada. O ser humano, segundo a tradição bíblica, é mais que consumidor é imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26). O valor da vida não se mede por bens acumulados (cf. Lc 12,15). A criação é sacramento da providência, como sugerem os lírios do campo e as aves do céu. O olhar que Jesus propõe é um olhar contemplativo, que vê na natureza o testemunho da fidelidade divina. Como escreveu São Gregório de Nissa: “quem conhece a si mesmo contempla a Deus também nas criaturas”.
A ansiedade descrita por Jesus é mais que um distúrbio psicológico. É uma doença espiritual enraizada em uma cultura que nega o limite, idolatra o futuro e exige autossuficiência. Na lógica neoliberal contemporânea, a ansiedade se torna virtude produtiva: sujeitos ansiosos rendem mais, consomem mais, obedecem mais. A promessa de segurança vendida pelos mercados por meio de seguros, previdências, investimentos é, muitas vezes, máscara de um sistema que explora a insegurança para lucrar com ela. O "espírito do capitalismo", como dizia Max Weber, se nutre da ansiedade produtiva. E é contra esse espírito que o Espírito de Deus se ergue. Jesus, ao dizer “basta a cada dia o seu mal” (Mt 6,34), está propondo uma revolução temporal. Ele nos chama a viver o presente, a redescobrir a sacramentalidade do agora. Aqui há um eco da filosofia de Kierkegaard, que via na angústia a vertigem da liberdade: somos sufocados não pelos fatos, mas pela multiplicidade de possibilidades que tentamos controlar. Confiar em Deus é, portanto, um ato de libertação interior que tem consequências externas: altera nossas relações, nossa economia, nosso modo de habitar o mundo.
É preciso lembrar: Jesus não elogia a pobreza como fatalismo, mas denuncia a riqueza idolatrada como violência. Seu discurso está em consonância com os profetas como Amós e Isaías, que denunciaram as elites que oprimiam os pobres enquanto festejavam nos palácios (cf. Am 6,1-6; Is 5,8). Está também em profunda harmonia com os Padres da Igreja: São Basílio Magno questionava: “Como ousas chamar de teu o que foi dado para todos?” Santo Ambrósio afirmava: “A terra foi feita para todos, mas poucos a tomaram para si”. A espiritualidade cristã verdadeira é incompatível com a acumulação injusta e o desprezo pelos pequenos. Hoje, essa incompatibilidade exige urgência profética diante da ascensão da extrema direita, que, em nome de um pseudocristianismo de valores, abençoa armas, exclui os estrangeiros e justifica a desigualdade. Não há nada de evangélico nisso. O nacionalismo excludente, o armamentismo, o racismo estrutural e a fobia ao diferente são pecados sociais que ferem o corpo de Cristo. Jesus foi perseguido por desestabilizar as estruturas religiosas e políticas do seu tempo; seria hoje perseguido pelos mesmos que dizem segui-lo enquanto promovem a exclusão. O clericalismo, por sua vez, é o braço religioso desse sistema. Quando a Igreja se fecha em si mesma, quando seus ministros se comportam como príncipes e não como servidores, quando transformam a liturgia em um espetáculo emocional e sentimentalista, ela deixa de ser celebração da vida, e o dirigente se reduz a um mestre de cerimônias, um popstar. Deixa de ser Pastor com "P" de povo e se torna artista, influenciador ou qualquer outra coisa — menos ministro do sagrado. A fé celebrada no altar perde a mística da confiança, a verdadeira autoridade, que, como lembra Santo Inácio de Antioquia, “é aquela que se abaixa para lavar os pés”. A fé cristã não é obediência cega, mas seguimento livre e amoroso de Cristo, que nos chama a discernir os sinais dos tempos e a denunciar os ídolos de cada época.
O Magistério da Igreja, em sua melhor expressão, confirma essa leitura. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, afirma que a Igreja está inserida no mundo e sofre com ele. O Papa Francisco, especialmente em Evangelii Gaudium e Laudato Si’, denuncia a “globalização da indiferença” e a “ditadura da economia sem rosto”. Ele nos convida a uma ecologia integral que é, ao mesmo tempo, cuidado com a Terra, com os pobres e com a alma humana. O apelo de Jesus para olhar os lírios do campo é também uma convocação a resistir ao paradigma tecnocrático que devasta o planeta e desumaniza a vida. A confiança, neste contexto, torna-se profecia. Não é alienação, mas compromisso. Não é passividade, mas coragem. É a virtude dos que ousam viver contra a corrente. Dos que se recusam a vender a alma por estabilidade. Dos que preferem a liberdade dos filhos à segurança dos escravos. Dos que vivem a bem-aventurança da partilha e da sobriedade, mesmo sendo considerados tolos por um mundo que valoriza o acúmulo e o status.. Viver assim é escandaloso. E é por isso que salva. Como escreveu Paulo aos coríntios: “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens” (1Cor 1,25). A comunidade primitiva entendeu isso: vendiam seus bens, partilhavam o pão, oravam juntos (cf. At 2,42-47). Era um escândalo para Roma, onde o valor supremo era o poder. É um escândalo para o mundo de hoje, onde o valor supremo é o lucro. O convite permanece: buscar primeiro o Reino e a sua justiça. Isso significa escolher a gratuidade sobre o cálculo, a relação sobre a competição, a esperança sobre o medo. Significa confiar no Deus que alimenta os pássaros, veste os lírios e conhece cada fio de nosso cabelo. Confiar nesse Deus é dizer ‘não’ ao medo e ‘sim’ à liberdade; é reconhecer que o agora é tempo de graça e que o Reino já pulsa no cotidiano dos que resistem com fé, partilham com coragem e esperam com justiça.
- A quem temos servido?
- O que guia nossas escolhas?
- Em que ou em quem temos confiado?
É tempo de conversão. É tempo de dizer, como o salmista: “Só em Deus repousa minha alma, dele vem minha salvação” (Sl 62,2).
Esse repouso é revolucionário. É o descanso dos que já não temem o amanhã, porque sabem que o hoje é dom. É o descanso dos que vivem o Reino aqui e agora, como fermento, como semente, como lluz. Viver segundo a lógica apresentada por Jesus em Mateus 6,24-34 continua sendo um escândalo. Num mundo estruturado pela acumulação, pela competição e pelo medo da escassez, confiar radicalmente na providência de Deus parece insensatez. No entanto, é precisamente essa “loucura” que revela a verdadeira sabedoria divina, como recorda Paulo: “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens” (1Cor 1,25). A primeira comunidade cristã compreendeu a profundidade desse ensinamento: perseverava na comunhão, repartia os bens segundo a necessidade de cada um e testemunhava que a segurança não estava na riqueza acumulada, mas na fidelidade de Deus (cf. At 2,42-47). Era um sinal de contradição diante do Império Romano; continua sendo um sinal de contradição diante dos impérios econômicos e culturais de nossos dias.. O chamado de Jesus permanece atual e urgente: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça”. Buscar o Reino significa colocar a gratuidade acima do interesse, a fraternidade acima da concorrência, a solidariedade acima do individualismo e a esperança acima do medo. Significa reconhecer que a vida não é sustentada pelo poder do dinheiro, mas pelo amor providente do Pai, que alimenta os pássaros do céu, reveste os lírios do campo e conhece cada necessidade de seus filhos. Quem acolhe essa verdade aprende a viver o presente como kairos, tempo da graça e da ação de Deus na história..Assim, a confiança cristã não é passividade nem alienação; é uma forma de resistência espiritual e histórica contra tudo aquilo que reduz a dignidade humana à lógica do mercado. Confiar em Deus é recusar a escravidão da ansiedade, é libertar-se da tirania do possuir e abrir-se à liberdade dos filhos e filhas de Deus. O Reino já se faz presente onde homens e mulheres partilham com generosidade, resistem à injustiça com coragem e permanecem firmes na esperança. Ali, no chão da vida cotidiana, floresce a certeza de que o Pai continua cuidando de sua criação e conduzindo a história para a plenitude de seu Reino.
DNonato - Teólogo do cotidiano


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentário.