- Atos dos Apóstolos 12,1-11, contemplamos Pedro sendo libertado milagrosamente da prisão
- Salmo 33(34), proclamamos a ação libertadora de Deus que escuta o clamor dos seus filhos;
- Segunda Carta a Timóteo 4,6-8.17-18, ouvimos o testemunho emocionado de Paulo, que, ao final de sua missão, reconhece a fidelidade do Senhor em sua caminhada;
- O Evangelho de Mateus 16,13-19, encontramos a profissão de fé de Pedro e a missão que Jesus lhe confia em favor de toda a Igreja, proclamado em 22 de fevereiro na celebração da Catedta de Pedro e mais ampliado5ª-feira da 18ª semana do Tempo Comum,, Mateus 16,13-23.
Outra curiosidade da tradição litúrgica é que, além da solenidade conjunta de Pedro e Paulo, a Igreja celebra momentos específicos da vida de cada um deles. No dia 25 de janeiro, comemora-se a Conversão de São Paulo, recordando o encontro transformador do apóstolo com Cristo no caminho de Damasco. Já no dia 22 de fevereiro, celebra-se a Cátedra de São Pedro, festa que destaca não uma cadeira material, mas o ministério de Pedro como sinal da unidade, da autoridade apostólica e do serviço pastoral confiado por Cristo à sua Igreja.
À luz dessas leituras, procuremos compreender o que a Palavra de Deus quer dizer à Igreja e a cada um de nós hoje.
Atos dos Apóstolos 12,1-11: Pedro libertado da prisão: O texto situa-se num momento particularmente difícil da Igreja primitiva. Herodes Agripa I, neto de Herodes, o Grande, procura conquistar a simpatia das lideranças judaicas perseguindo os seguidores de Jesus. Tiago, irmão de João, já havia sido executado, e Pedro é preso durante os dias dos Pães Ázimos, próximos da Páscoa judaica. Lucas constrói a narrativa com fortes referências ao Êxodo e à Páscoa. Pedro encontra-se preso, vigiado por quatro grupos de soldados, acorrentado entre guardas e aparentemente sem possibilidade humana de escapar. A situação lembra Israel escravizado no Egito: sem forças próprias para conquistar a liberdade.
- Combati o bom combate: A imagem do combate não se refere à violência, mas à perseverança na missão. O combate de Paulo foi contra tudo aquilo que ameaçava o Evangelho: injustiças, perseguições, divisões e falsas doutrinas
- Completei a corrida: A corrida evoca as competições atléticas conhecidas no mundo greco-romano. O importante não é chegar primeiro, mas completar o percurso com fidelidade.
- Guardei a fé: Por fim, guardar a fé significa conservar intacta a confiança em Cristo apesar das dificuldades
Pedro sendo pescador
recebe a missão de ser pedra, ser firme
na direção da barca e hoje olhamos ainda para o Apóstolo Paulo que é diferente
de Pedro no carisma e recebe a missão direta do Cristo no caminho de Damasco[4]. Tanto Pedro como Paulo tem seus nomes
trocados pelo Cristo. Paulo é marcado
como perseguidor e um fariseu zeloso[5] e Pedro um homem do meio
do povo que durante sua caminhada emite
sua opinião e tem sua ação no momento
agindo de forma emocional[6] e sem esquecer o conflito
entre os dois por terem linhas diferente ou ponto de vista
diferente[7].
Voltando ao texto de
Mateus sendo o único evangelho que aparece duas vezes o termo Igreja[8] do termo grego ekklésia
aparece 105 vezes no novo testamento e tem o significado de Assembléia Eleita, Escolhida. A Igreja
de Jesus Cristo não pode esta presa a semanas injustas ou ainda concorda
com a injustiças em todos os campos. Por
isso que o Papa Francisco pede que
vivamos claramente o Vaticano II vivendo a realidade de uma Igreja sem o ritualismos ou preso as vestes
caras e aqui vale a pena citar a mensagem
de Francisco o dia mundial da Paz de
2016 quando ele escreveu:
·
“A indiferença para com o próximo assume diferentes
fisionomias. Há quem esteja bem informado, ouça o rádio, leia os jornais ou
veja programas de televisão, mas fá-lo de maneira entorpecida, quase numa
condição de rendição: estas pessoas conhecem vagamente os dramas que afligem a
humanidade, mas não se sentem envolvidas, não vivem a compaixão. Este é o
comportamento de quem sabe, mas mantém o olhar, o pensamento e a ação voltados
para si mesmo. Infelizmente, temos de constatar que o aumento das informações,
próprio do nosso tempo, não significa, de por si, aumento de atenção aos
problemas, se não for acompanhado por uma abertura das consciências em sentido
solidário.Antes, pode gerar uma certa saturação que anestesia e, em certa
medida, relativiza a gravidade dos problemas. «Alguns comprazem-se simplesmente
em culpar, dos próprios males, os pobres e os países pobres, com generalizações
indevidas, e pretendem encontrar a solução numa “educação” que os tranquilize e
transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais
irritante, quando os excluídos vêem crescer este câncer social que é a
corrupção profundamente radicada em muitos países – nos seus governos,
empresários e instituições – seja qual for a ideologia política dos
governantes».”[9]
Somente uma Igreja comprometida com um projeto de vida plena poderá de fato reconhecer o verdadeiro Messias, uma Igreja que presa pelos direitos da minoria. que usa chave de ligar e deixa no cofre a chave de desligar. Neste tempo de quase cada dia mais observamos Padres, Bispos e ate mesmo leigos preocupado em usar a chave de desligar e usando com gosto e agora as portas se fecha a quem vivia um casamento onde o companheiro (a) tinha amantes ou usava de violência e aqui vale pena lembrar que a violência não é só física, quando decide dá um basta, a porta dessa Igreja se fecha pra essa pessoa e sem esquecer os milhares de cristãos que pregam a pena de morte como solução para crise de segurança pública que vivemos e se esquecem que Jesus disse que veio para os enfermos, para os excluídos e abandonados[10]
Devemos nos perguntar, com sinceridade e coragem, se de fato somos a Igreja de Jesus Cristo. Essa pergunta não pretende condenar, mas provocar uma conversão constante. Muitas vezes somos contaminados pelos vícios do farisaísmo: preocupamo-nos excessivamente com os pequenos detalhes do culto, com normas e aparências, enquanto negligenciamos "o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade" (Mt 23,23). Queremos, a todo custo, usar a "chave de ligar e desligar", determinando quem pode ou não fazer parte da comunidade, quem é digno ou indigno, quem é puro ou impuro. Nessa postura, corremos o risco de perder de vista a verdadeira motivação da vinda de Cristo: buscar e salvar o que estava perdido, acolher os pecadores, libertar os oprimidos e revelar o amor misericordioso do Pai.
A Igreja testemunhada por Pedro e Paulo não era uma comunidade perfeita, mas era uma Igreja unida na centralidade de Cristo. Apesar das diferenças, das tensões e até dos conflitos, todos reconheciam que a santidade não era motivo de competição nem de superioridade. Ninguém buscava ser maior do que o outro; todos procuravam conformar a própria vida ao modelo de Jesus Cristo. A comunhão não nascia da uniformidade, mas da mesma fé, do mesmo Espírito e da mesma missão. No Evangelho, Jesus pergunta aos discípulos: "Quem dizem os homens que eu sou?" E, em seguida, dirige-lhes uma pergunta ainda mais exigente: "E vós, quem dizeis que eu sou?" Essa pergunta continua ecoando em nossos dias. Vivemos em uma sociedade profundamente polarizada, onde as pessoas frequentemente escolhem as "verdades" que lhes convêm, alimentadas por algoritmos, redes sociais e discursos ideológicos. Em vez de buscar a verdade que liberta, muitos preferem apenas aquilo que confirma suas próprias opiniões.NSer Igreja de Jesus Cristo exige ir além das opiniões e dos rótulos. Exige reconhecer, como Pedro, que Jesus é "o Cristo, o Filho do Deus vivo", não apenas com os lábios, mas com a própria vida. Essa profissão de fé precisa tornar-se prática cotidiana.
Para sermos verdadeiramente Igreja, é necessário assumir o modo de viver de Jesus. É preciso deixar-se conduzir pelo Espírito Santo, compreender que Cristo foi e continua sendo um sinal de contradição, e que seus discípulos também serão chamados a viver essa mesma condição. Segui-lo significa romper esquemas, superar barreiras sociais, religiosas e culturais, derrubar muros de exclusão e construir pontes de reconciliação. Significa fazer diferença no mundo, não apenas anunciando a Boa Nova com palavras, mas testemunhando-a por meio de uma vida coerente. Caminhar com Jesus implica abraçar a cruz e, quando necessário, o martírio — seja o martírio do sangue, seja o martírio cotidiano da fidelidade ao Evangelho. Implica tornar-se pedra viva na edificação da comunidade, sustentando os irmãos na fé, como Pedro foi chamado a fazer. Implica, como Paulo, gastar a própria vida pela missão, combatendo o bom combate, completando a corrida e guardando a fé.
Também exige reconhecer que não caminhamos com um Cristo moldado aos nossos interesses. Pelo contrário, somos nós que devemos caminhar com Ele. Hoje, infelizmente, não são poucos os que procuram transformar Jesus em propriedade particular, apropriando-se de seu nome para justificar projetos de poder, ideologias, exclusivismos ou privilégios. Autoproclamam-se seus representantes legítimos, mas oferecem um testemunho frágil quando confrontados com as exigências da justiça, da misericórdia, da verdade e do amor que caracterizam o Reino de Deus..A verdadeira Igreja não se define pelo rigorismo, pelo triunfalismo ou pela exclusão, mas pela fidelidade ao Evangelho. É a Igreja que serve, que acolhe, que perdoa, que promove a dignidade humana, que denuncia as injustiças e anuncia a esperança. É a Igreja que, à luz do testemunho de Pedro e Paulo, permanece firmemente edificada sobre Cristo, a pedra angular, vivendo não para si mesma, mas para que o mundo reconheça, através dela, o rosto misericordioso do Senhor.
O Jesus reconhecido por Pedro foi um homem subversivo. Não porque promovesse a violência ou a desordem, mas porque subverteu a lógica do poder, da religião vazia e dos privilégios. Não compactuou com a hipocrisia de seu tempo, denunciou os que transformavam a fé em instrumento de dominação, confrontou os poderosos e colocou no centro aqueles que eram desprezados pela sociedade. Sua vida foi uma revolução do amor, da justiça e da misericórdia. Certamente, hoje, Ele não estaria por trás de vestes caras, de mesas fartas, de títulos honoríficos ou de riquezas conquistadas pelo uso do seu santo nome. O Jesus dos Evangelhos caminhou entre os pobres, sentou-se à mesa com os pecadores, tocou os impuros, acolheu os marginalizados e fez da simplicidade o sinal da presença do Reino de Deus.
Sendo Deus, "esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo" (Fl 2,6-8). Não buscou privilégios nem honras; ao contrário, fez-se próximo, viveu a realidade do povo, sofreu suas dores e anunciou uma esperança concreta aos que eram esquecidos. Sua autoridade nascia do serviço, e sua grandeza, da entrega da própria vida. Foi esse Cristo subversivo, humilde e profundamente humano que Pedro reconheceu como "o Messias, o Filho do Deus vivo" (Mt 16,16). E é esse mesmo Cristo que continua a interpelar a Igreja de todos os tempos. Sempre que a comunidade cristã troca o serviço pelo poder, a simplicidade pela ostentação e o Evangelho pelos interesses particulares, afasta-se daquele que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,45). Seguir Jesus é aceitar a sua subversão evangélica: derrubar os ídolos do poder, romper com a hipocrisia religiosa e fazer da justiça, da misericórdia e do amor a verdadeira identidade dos discípulos. Sem esquecer que em Mateus Jesus pergunta que dizem que eu sou e lá no caminho de Damasco[11], Ele responde a pergunta de Saulo: “Eu sou Aquele você persegue”, persegui o cristão é perseguir o próprio Cristo
A liturgia de Pedro e Paulo também nos convida a refletir sobre a diferença entre autoridade e autoritarismo em nossas comunidades. A autoridade, segundo o Evangelho, é serviço, é compromisso com o projeto de amor de Deus, é conduzir o povo pelos caminhos do Reino. Ela nasce da consciência de que a missão foi confiada, e não entregue como propriedade particular. Ninguém é dono da Igreja, do Evangelho ou da graça de Deus. Não somos o único canal, a única ponte ou a única via de acesso ao Senhor. As chaves pertencem a Cristo. Foi Ele quem as confiou ao colégio apostólico para edificar, reconciliar e servir, jamais para dominar, excluir ou alimentar projetos pessoais de poder.
Neste dia em que celebramos solenemente os santos Pedro e Paulo, somos convidados a olhar para dentro de nós mesmos. Quanto ainda existe do Pedro impulsivo, resistente e de fé vacilante que precisa ser convertido? Quanto ainda permanece do Saulo fariseu, preso às próprias certezas, às ideologias e ao desejo de controlar Deus? Mas também somos chamados a cultivar o que esses dois gigantes da fé se tornaram pela ação da graça: a coragem de Pedro para confirmar os irmãos na fé e a ousadia missionária de Paulo para anunciar o Evangelho sem fronteiras. Por fim, fica uma pergunta que não pode ser respondida apenas com palavras, mas com a vida: o Cristo que se revelou na estrada de Damasco, o Cristo confessado em Cesareia de Filipe e o Cristo que adoramos em nossas missas e cultos é realmente o mesmo que orienta nossas escolhas, nossas comunidades e nossa prática cristã? Ou criamos um Cristo moldado aos nossos interesses, às nossas ideologias e às nossas conveniências?
Que o Espírito Santo nos conceda a humildade de Pedro para reconhecer quem é Jesus, a coragem de Paulo para deixar-nos transformar por Ele e a fidelidade necessária para que nossa Igreja seja cada vez menos autoritária e cada vez mais servidora, cada vez menos preocupada com o poder e cada vez mais comprometida com a justiça, a misericórdia e o amor do Reino de Deus. Amém.
[1] Vejamos: Mt 14,33,
[2] profissão de fé é feita por Marta (Jo 11,27).
[3] Mt 11,25-27 e Mt
13,16
[4] At 9,1-20
[5] https://dnonato.blogspot.com/2010/10/sao-paulo-padroeiro-do-movimento-de.html
[6] Mt 16,22:
26,51.70-72, Mc 14,68-70
[7] Gl 2,11-14
[8] Mt 16,13-19 e Mt 18,17
[9] https://dnonato.blogspot.com/2016/01/mensagem-do-santo-padre-francisco-para_4.html
[10] Mc 2,17
[11] Idem numero 4


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