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sábado, 28 de junho de 2025

Olhando de novo Mateus 16, 13-19 / Stos Pedro & Paulo, dia do Papa


“Sobre esta Rocha”: Igreja viva entre fragilidades redimidas e fidelidade profética

Neste 29 de junho, celebramos a fé intrépida de Pedro e Paulo, pilares da comunidade cristã, vozes distintas que testemunharam o mesmo Cristo com suas vidas integralmente doadas até o martírio. Hoje é também o Dia do Papa, um símbolo da comunhão e do cuidado da Igreja, alicerçada não em sistemas, mas no testemunho vivo.

A liturgia deste dia solene nos propõe um itinerário profundamente eclesial: na primeira leitura (Atos 12,1-11), contemplamos Pedro aprisionado e milagrosamente libertado pela intervenção divina, enquanto a comunidade orava com insistência. O Salmo 33 (34) canta a confiança daqueles que buscam o Senhor: “De todas as tribulações, Deus os livrou.” A segunda leitura (2Timóteo 4,6-8.17-18) traz as palavras derradeiras de Paulo, que oferece sua vida como libação: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé.” E, por fim, no Evangelho segundo Mateus (16,13-19), ouvimos Pedro reconhecer Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo — e, sobre essa fé vivenciada na carne, Jesus proclama com autoridade: “Sobre esta rocha edificarei a minha Igreja.”

No domingo anterior, escutamos a versão lucana dessa mesma passagem no texto:  Um olhar  sobre  Lucas 9,18-24 - 12⁰  Domingo do Tempo Comum. Em Lucas, a ênfase residia na intimidade do momento e na exigência radical do discipulado: “Se alguém deseja seguir-me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz...” Hoje, em lemos  o texto de Mateus, texto que   já  visitamos em  2022 e 2023,  a narrativa adquire um significado eclesial mais profundo, mais fundacional. Diante da profissão de fé de Pedro, Jesus revela seu próprio desígnio: a edificação de uma nova comunidade, não como uma construção de pedras inertes e frias, mas como um povo convocado, um corpo vivo e um sinal visível do Reino de Deus em meio ao mundo.

É a primeira vez que Jesus emprega o termo “Igreja” (ekklesia) nos Evangelhos. Essa palavra, muito antes de denotar templos suntuosos ou instituições religiosas engessadas, designava no universo grego a assembleia dos cidadãos reunidos para deliberar sobre os rumos cruciais da pólis. No hebraico, há ressonâncias profundas do qahal YHWH, a comunidade peregrina do deserto, o povo que escuta atentamente a voz do Senhor e caminha unido, em solidariedade. O termo carrega em si uma tensão inerente entre escuta e missão, entre comunhão profunda e a dinâmica da história. Jesus não se refere a uma nova religião meramente, mas a um povo transformado, convocado à fidelidade amorosa.

Essa dimensão essencial de povo orante é acentuada de forma comovente na leitura dos Atos dos Apóstolos: enquanto Pedro jaz encarcerado, sob a ameaça iminente de morte imposta por Herodes, “a Igreja orava incessantemente a Deus por ele” (Atos 12,5). Essa imagem fala mais alto que muitos tratados teológicos complexos: a Igreja autêntica não se restringe a ensinar doutrinas ou governar hierarquicamente, mas é aquela que vela, que acompanha de perto, que intercede incansavelmente pelos seus. Ela não resgata Pedro com espadas de guerra ou decretos políticos, mas com joelhos curvados em oração e um coração em vigília constante. Quando a Igreja cessa de orar por seus membros feridos, pelos marginalizados e perseguidos, torna-se surda ao Espírito e, tristemente, cúmplice dos poderes que oprimem e injustiçam.

Desde os primórdios da revelação, Deus convoca um povo, não indivíduos isolados, desgarrados. No deserto do Sinai, constitui-se o qahal YHWH, a “assembleia do Senhor” (cf. Deuteronômio 4,10), reunida não por mérito humano, mas por eleição e aliança divina, por pura graça. O qahal é um povo em jornada, em travessia, entre a escravidão do Egito e a promessa de uma terra livre e abundante. É a comunidade que avança, tropeça, murmura, sucumbe e se reergue com persistência, mas que carrega consigo a presença viva de Deus em tendas provisórias e em sinais claros. Essa assembleia do Antigo Testamento é retomada e transfigurada por Jesus como ekklesia, um povo congregado não aos pés imponentes do Sinai, mas em torno do Ressuscitado, e posteriormente em Pentecostes — conforme lemos com clareza em Atos 2,32: “A este Jesus, Deus o ressuscitou; do que todos nós somos testemunhas oculares.”

Quando Jesus profere “a minha Igreja”, Ele não alude a um aparato clerical rígido, a um império espiritual dominador ou a uma fortaleza doutrinal inexpugnável. Ele se refere a um corpo vivo edificado sobre a fé confessada não apenas com os lábios, mas com a própria vida, no dia a dia. A Igreja brota do reconhecimento do Cristo, mas não pode, jamais, se aprisionar nesse reconhecimento. Ela existe para prolongar a missão libertadora do Cristo na história: servir com humildade, libertar os cativos, reconciliar os distanciados, denunciar as injustiças. Quando a Igreja se desvia desse propósito essencial, torna-se uma mera caricatura, uma sombra pálida de si mesma.

Pedro é designado “pedra” não por ser inabalável em sua própria força, mas por sua fragilidade intrínseca, que, paradoxalmente, permite que seja sustentado pela graça divina. A Igreja nasce precisamente da graça que acolhe a imperfeição humana e a transmuta em santidade. Por isso, a figura de Pedro é tão profundamente humana, tão próxima de nós: ele professa a fé com entusiasmo ardente, mas logo será repreendido por sua resistência à cruz; ele promete fidelidade incondicional, mas depois nega o Mestre por três vezes; ele chora amargamente seu erro, mas retorna humildemente ao rebanho. É sobre essa humanidade redimida, essa fragilidade amada, que Jesus edifica sua Igreja. Não sobre purezas idealizadas e inatingíveis, mas sobre testemunhos autênticos e reais, de carne e osso.

A promessa de Jesus não é que a Igreja será imaculada, sem falhas, mas que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16,18). Isso não implica invulnerabilidade institucional absoluta, mas a certeza inquebrantável de que o mistério pascal sustentará sua missão mesmo em seus momentos mais sombrios de falha humana ou perseguição brutal. A Igreja está sempre sob ameaça — externamente, por poderes hostis e ideologias opressoras, e internamente, por corrupções espirituais e institucionais. Contudo, sua vitalidade e sua força provêm unicamente do Ressuscitado, não de sua própria capacidade ou organização.

As “chaves do Reino”, confiadas a Pedro, não são instrumentos de dominação despótica, mas símbolos profundos de serviço e pastoreio. “Ligar e desligar” representam funções cruciais de discernimento comunitário, de reconciliação, de cura e de cuidado pastoral. São gestos simbólicos que implicam responsabilidade imensa e uma profunda, constante escuta do Espírito Santo. Quando a Igreja se apropria das chaves para fechar portas, excluir, julgar sem misericórdia, ela trai a essência mais pura do Evangelho. As chaves de Pedro deveriam, ao invés, abrir novos caminhos de esperança, acolher os desvalidos, os marginalizados, e conduzir todos ao coração compassivo do Pai.

Celebrar Pedro e Paulo conjuntamente é reconhecer que a Igreja nasce da diversidade rica de dons e se sustenta na tensão fecunda e criativa entre carismas complementares. Pedro, o pescador impetuoso e leal, representa a firmeza da comunhão, a escuta atenta da comunidade e a presença visível entre os irmãos. Paulo, o fariseu zeloso transformado em apóstolo incansável, encarna a profecia, a itinerância missionária incansável e a abertura ousada aos que ainda não foram alcançados pela mensagem salvadora. Um personifica a permanência da Tradição; o outro, o movimento dinâmico da evangelização. Ambos tiveram seus defeitos e qualidades, ambos caíram e se reergueram, ambos foram chamados por Cristo, ambos foram perseguidos implacavelmente, ambos permaneceram fiéis até o martírio supremo. Nenhum dos dois faleceu no conforto de um templo; ambos pereceram nas estradas empoeiradas do Império, testemunhando com suas vidas que o Cristo vivo não está restrito a fronteiras geográficas ou a sistemas humanos. Pedro, com sua impulsividade e negação, revela a vulnerabilidade humana que a graça transforma em fundamento; Paulo, com seu zelo inicial persecutório e posterior ardente missão, mostra a força de uma conversão radical que não se detém. Suas imperfeições não os desqualificaram, mas, redimidas pela fé, tornaram-se o solo fértil sobre o qual a Igreja se ergue como um milagre de persistência e amor.

Na primeira leitura, Pedro é libertado não por intervenção humana, mas por uma oração da comunidade que transpõe muros e barreiras de ferro. Na segunda, Paulo redige sua despedida final, não com ressentimento ou desespero, mas com profunda gratidão e paz: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé.” Ambos foram sustentados pela comunidade de fé e pelo Espírito Santo que os impulsionava. Ambos vivenciaram a verdade libertadora de que a Igreja é infinitamente maior que seus próprios limites, suas fragilidades, suas instituições.

No Dia do Papa, rememoramos que a função de Pedro persiste, não como um poder que oprime ou domina, mas como um ministério de serviço que une e congrega o rebanho de Cristo. O Papa Francisco, que dedicou grande parte de seu pontificado a reiterar que a Igreja deve ser “uma Igreja em saída” (Evangelii Gaudium 20), acolhedora, samaritana e pobre entre os pobres, foi um exemplo disso. Em profunda sintonia com o Concílio Vaticano II — especialmente a constituição Lumen Gentium, que descreve a Igreja como “sacramento universal de salvação” e “Povo de Deus” (LG 1,9) —, Francisco insistentemente sublinhou que a Igreja precisa ser sinodal, ou seja, um corpo que caminha em uníssono, escuta e discerne comunitariamente, valorizando cada voz batizada. Sua liderança ressoou nos Sínodos recentes e em sua convocação por uma Igreja livre do clericalismo, centrada na misericórdia e na escuta recíproca de todos.

Hoje, essa missão continua nas mãos de Leão XIV, sucessor de Pedro e atual bispo de Roma, a quem cabe o delicado serviço de confirmar os irmãos na fé e de guiar a Igreja com espírito de escuta, diálogo e fidelidade ao Evangelho. Que ele seja sinal da unidade na diversidade, e da firmeza que nasce da fragilidade entregue a Deus.

O Documento de Aparecida (2007), um marco fundamental para a Igreja na América Latina, reforça essa dimensão de Povo de Deus em missão: “A Igreja é o povo de Deus, caminho no mundo” (DA 46). Ele aponta a premente necessidade de uma Igreja que seja capaz de ouvir o clamor dos empobrecidos e da criação, denunciando toda e qualquer forma de exclusão e injustiça social, construindo pontes de diálogo e esperança.

O Instrumentum Laboris do Sínodo para a Sinodalidade (2022) corrobora a visão de uma Igreja que “não é uma mera associação humana, mas a comunidade dos discípulos missionários, povo de Deus em caminho, que escuta a Palavra, celebra os sacramentos e caminha junto no serviço à missão” (§1). Este documento denuncia vigorosamente o clericalismo que paralisa a Igreja e clama por uma conversão pastoral que valorize a corresponsabilidade e a participação plena de todos os batizados, para que a Igreja seja um reflexo mais fiel do Reino.

A pergunta crucial de Jesus permanece viva e ecoa em nossos corações: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Mas agora ela se amplia e nos interpela com mais força: “E que Igreja edificais com vossa vida, com vossas escolhas, com vossas ações diárias?” Que sejamos Igreja como uma comunidade de escuta atenta, como o povo que ora fervorosamente por Pedro em sua prisão, como o corpo que se renova constantemente pela memória viva do Crucificado e pela esperança inabalável da ressurreição. Que sejamos, a exemplo de Pedro e Paulo, pedras vivas — imperfeitas, inacabadas, mas firmemente alicerçadas no Cristo.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

domingo, 31 de dezembro de 2023

57º DIA MUNDIAL DA PAZ - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E PAZ

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO  PARA CELEBRAÇÃO DO 1º  DE JANEIRO DE 2024


No início do novo ano, tempo de graça concedido pelo Senhor a cada um de nós, quero dirigir-me ao Povo de Deus, às nações, aos Chefes de Estado e de Governo, aos Representantes das diversas religiões e da sociedade civil, a todos os homens e mulheres do nosso tempo para lhes expressar os meus votos de paz.

1. O progresso da ciência e da tecnologia como caminho para a paz

A Sagrada Escritura atesta que Deus deu aos homens o seu Espírito a fim de terem «sabedoria, inteligência e capacidade para toda a espécie de trabalho» (Ex 35, 31). A inteligência é expressão da dignidade que nos foi dada pelo Criador, que nos fez à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26) e nos tornou capazes, através da liberdade e do conhecimento, de responder ao seu amor. Esta qualidade fundamentalmente relacional da inteligência humana manifesta-se de modo particular na ciência e na tecnologia, que são produtos extraordinários do seu potencial criativo.

Na Constituição pastoral Gaudium et spes, o Concílio Vaticano II reafirmou esta verdade, declarando que «sempre o homem procurou, com o seu trabalho e engenho, desenvolver mais a própria vida». [1] Quando os seres humanos, «recorrendo à técnica», se esforçam por que a terra «se torne habitação digna para toda a humanidade», [2] agem segundo o desígnio divino e cooperam com a vontade que Deus tem de levar à perfeição a criação e difundir a paz entre os povos. Assim o próprio progresso da ciência e da técnica – na medida em que contribui para uma melhor organização da sociedade humana, para o aumento da liberdade e da comunhão fraterna – leva ao aperfeiçoamento do homem e à transformação do mundo.

Justamente nos alegramos e sentimos reconhecidos pelas extraordinárias conquistas da ciência e da tecnologia, graças às quais se pôs remédio a inúmeros males que afligiam a vida humana e causavam grandes sofrimentos. Ao mesmo tempo, os progressos técnico-científicos, que permitem exercer um controle – até agora inédito – sobre a realidade, colocam nas mãos do homem um vasto leque de possibilidades, algumas das quais podem constituir um risco para a sobrevivência humana e um perigo para a casa comum. [3]

Deste modo os progressos notáveis das novas tecnologias da informação, sobretudo na esfera digital, apresentam oportunidades entusiasmantes mas também graves riscos, com sérias implicações na prossecução da justiça e da harmonia entre os povos. Por isso torna-se necessário interrogar-nos sobre algumas questões urgentes: quais serão as consequências, a médio e longo prazo, das novas tecnologias digitais? E que impacto terão elas sobre a vida dos indivíduos e da sociedade, sobre a estabilidade e a paz?

2. O futuro da inteligência artificial, por entre promessas e riscos

Os progressos da informática e o desenvolvimento das tecnologias digitais, nas últimas décadas, começaram já a produzir profundas transformações na sociedade global e nas suas dinâmicas. Os novos instrumentos digitais estão a mudar a fisionomia das comunicações, da administração pública, da instrução, do consumo, dos intercâmbios pessoais e de inúmeros outros aspetos da vida diária.

Além disso as tecnologias que se servem duma multiplicidade de algoritmos podem, dos vestígios digitais deixados na internet, extrair dados que permitem controlar os hábitos mentais e relacionais das pessoas para fins comerciais ou políticos, muitas vezes sem o seu conhecimento, limitando o exercício consciente da sua liberdade de escolha. De facto, num espaço como a web caraterizado por uma sobrecarga de informações, pode-se compor o fluxo de dados segundo critérios de seleção nem sempre enxergados pelo utente.

Devemos recordar-nos de que a pesquisa científica e as inovações tecnológicas não estão desencarnadas da realidade nem são «neutrais», [4] mas estão sujeitas às influências culturais. Sendo atividades plenamente humanas, os rumos que tomam refletem opções condicionadas pelos valores pessoais, sociais e culturais de cada época. E o mesmo se diga dos resultados que alcançam: enquanto fruto de abordagens especificamente humanas do mundo envolvente, têm sempre uma dimensão ética, intimamente ligada às decisões de quem projeta a experimentação e orienta a produção para objetivos particulares.

Isto aplica-se também às formas de inteligência artificial. Desta, até ao momento, não existe uma definição unívoca no mundo da ciência e da tecnologia. A própria designação, que já entrou na linguagem comum, abrange uma variedade de ciências, teorias e técnicas destinadas a fazer com que as máquinas, no seu funcionamento, reproduzam ou imitem as capacidades cognitivas dos seres humanos. Falar de «formas de inteligência», no plural, pode ajudar sobretudo a assinalar o fosso intransponível existente entre estes sistemas, por mais surpreendentes e poderosos que sejam, e a pessoa humana: em última análise, aqueles são «fragmentários» já que têm possibilidades de imitar ou reproduzir apenas algumas funções da inteligência humana. Além disso o uso do plural destaca que tais dispositivos, muito diferentes entre si, devem ser sempre considerados como «sistemas sociotécnicos». Com efeito o seu impacto, independentemente da tecnologia de base, depende não só da projetação, mas também dos objetivos e interesses de quem os possui e de quem os desenvolve, bem como das situações em que são utilizados.

Por conseguinte a inteligência artificial deve ser entendida como uma galáxia de realidades diversas e não podemos presumir a priori que o seu desenvolvimento traga um contributo benéfico para o futuro da humanidade e para a paz entre os povos. O resultado positivo só será possível se nos demonstrarmos capazes de agir de maneira responsável e respeitar valores humanos fundamentais como «a inclusão, a transparência, a segurança, a equidade, a privacidade e a fiabilidade». [5]

E não é suficiente presumir, por parte de quem projeta algoritmos e tecnologias digitais, um empenho por agir de modo ético e responsável. É preciso reforçar ou, se necessário, instituir organismos encarregados de examinar as questões éticas emergentes e tutelar os direitos de quantos utilizam formas de inteligência artificial ou são influenciados por ela. [6]

Assim, a imensa expansão da tecnologia deve ser acompanhada por uma adequada formação da responsabilidade pelo seu desenvolvimento. A liberdade e a convivência pacífica ficam ameaçadas, quando os seres humanos cedem à tentação do egoísmo, do interesse próprio, da ânsia de lucro e da sede de poder. Por isso temos o dever de alargar o olhar e orientar a pesquisa técnico-científica para a prossecução da paz e do bem comum, ao serviço do desenvolvimento integral do homem e da comunidade. [7]

A dignidade intrínseca de cada pessoa e a fraternidade que nos une como membros da única família humana devem estar na base do desenvolvimento de novas tecnologias e servir como critérios indiscutíveis para as avaliar antes da sua utilização, para que o progresso digital possa verificar-se no respeito pela justiça e contribuir para a causa da paz. Os avanços tecnológicos que não conduzem a uma melhoria da qualidade de vida da humanidade inteira, antes pelo contrário agravam as desigualdades e os conflitos, nunca poderão ser considerados um verdadeiro progresso. [8]

A inteligência artificial tornar-se-á cada vez mais importante. Os desafios que coloca não são apenas de ordem técnica, mas também antropológica, educacional, social e política. Deixa esperar, por exemplo, poupança de esforços, produção mais eficiente, transportes mais fáceis e mercados mais dinâmicos, bem como uma revolução nos processos de recolha, organização e verificação de dados. Precisamos de estar conscientes das rápidas transformações em curso e geri-las de forma a salvaguardar os direitos humanos fundamentais, respeitando as instituições e as leis que promovem o progresso humano integral. A inteligência artificial deveria estar ao serviço dum melhor potencial humano e das nossas mais altas aspirações, e não em competição com eles.

3. A tecnologia do futuro: máquinas que aprendem sozinhas

Nas suas múltiplas formas, a inteligência artificial, baseada em técnicas de aprendizagem automática (machine learning), embora ainda numa fase pioneira, já está a introduzir mudanças notáveis no tecido das sociedades, exercendo uma influência profunda nas culturas, nos comportamentos sociais e na construção da paz.

Desenvolvimentos como a aprendizagem automática (machine learning) ou a aprendizagem profunda (deep learning) levantam questões que transcendem os âmbitos da tecnologia e da engenharia e têm a ver com uma compreensão intimamente ligada ao significado da vida humana, aos processos basilares do conhecimento e à capacidade que tem a mente de alcançar a verdade.

A capacidade de alguns dispositivos produzirem textos sintática e semanticamente coerentes, por exemplo, não é garantia de fiabilidade. Diz-se que podem «alucinar», isto é, gerar afirmações que à primeira vista parecem plausíveis, mas na realidade são infundadas ou preconceituosas. Isto coloca um sério problema quando a inteligência artificial é utilizada em campanhas de desinformação que espalham notícias falsas e levam a uma desconfiança crescente relativamente aos meios de comunicação. A confidencialidade, a posse dos dados e a propriedade intelectual são outros âmbitos em que as tecnologias em questão comportam graves riscos, aos quais se vêm juntar outras consequências negativas ligadas a um uso indevido, como a discriminação, a interferência nos processos eleitorais, a formação duma sociedade que vigia e controla as pessoas, a exclusão digital e a exacerbação dum individualismo cada vez mais desligado da coletividade. Todos estes fatores correm o risco de alimentar os conflitos e obstaculizar a paz.

4. O sentido do limite, no paradigma tecnocrático

O nosso mundo é demasiado vasto, variado e complexo para ser completamente conhecido e classificado. A mente humana nunca poderá esgotar a sua riqueza, nem sequer com a ajuda dos algoritmos mais avançados. De facto, estes não oferecem previsões garantidas do futuro, mas apenas aproximações estatísticas. Nem tudo pode ser previsto, nem tudo pode ser calculado; no fim de contas, «a realidade é superior à ideia» [9] e, por mais prodigiosa que seja a nossa capacidade de calcular, haverá sempre um resíduo inacessível que escapa a qualquer tentativa de quantificação.

Além disso, a grande quantidade de dados analisados pelas inteligências artificiais não é, por si só, garantia de imparcialidade. Quando os algoritmos extrapolam informações, correm sempre o risco de as distorcer, replicando as injustiças e os preconceitos dos ambientes onde têm origem. Quanto mais rápidos e complexos eles se tornam, mais difícil é compreender por que produziram um determinado resultado.

As máquinas inteligentes podem desempenhar as tarefas que lhes são atribuídas com uma eficiência cada vez maior, mas a finalidade e o significado das suas operações continuarão a ser determinados ou capacitados por seres humanos com o seu próprio universo de valores. O risco é que os critérios subjacentes a certas escolhas se tornem menos claros, que a responsabilidade de decisão seja ocultada e que os produtores possam subtrair-se à obrigação de agir para o bem da comunidade. Em certo sentido, isto é favorecido pelo sistema tecnocrático, que alia a economia à tecnologia e privilegia o critério da eficiência, tendendo a ignorar tudo o que não esteja ligado aos seus interesses imediatos. [10]

Isto deve fazer-nos refletir sobre um aspeto transcurado frequentemente na atual mentalidade tecnocrática e eficientista, mas decisivo para o desenvolvimento pessoal e social: o «sentido do limite». Com efeito o ser humano, mortal por definição, pensando em ultrapassar todo o limite mediante a técnica, corre o risco, na obsessão de querer controlar tudo, de perder o controle sobre si mesmo; na busca duma liberdade absoluta, de cair na espiral duma ditadura tecnológica. Reconhecer e aceitar o próprio limite de criatura é condição indispensável para que o homem alcance ou, melhor, acolha a plenitude como uma dádiva; ao passo que, no contexto ideológico dum paradigma tecnocrático animado por uma prometeica presunção de autossuficiência, as desigualdades poderiam crescer sem medida, e o conhecimento e a riqueza acumular-se nas mãos de poucos, com graves riscos para as sociedades democráticas e uma coexistência pacífica. [11]

5. Temas quentes para a ética

No futuro, a fiabilidade de quem solicita um mútuo, a idoneidade dum indivíduo para determinado emprego, a possibilidade de reincidência dum condenado ou o direito a receber asilo político ou assistência social poderão ser determinados por sistemas de inteligência artificial. A falta de níveis diversificados de mediação que tais sistemas introduzem está particularmente exposta a formas de preconceito e discriminação: os erros do sistema podem multiplicar-se facilmente, gerando não só injustiças em casos individuais, mas também, por efeito dominó, verdadeiras formas de desigualdade social.

Além disso, por vezes, as formas de inteligência artificial parecem capazes de influenciar as decisões dos indivíduos através de opções predeterminadas associadas a estímulos e dissuasões, ou então através de sistemas de regulação das opções pessoais baseados na organização das informações. Estas formas de manipulação ou controle social requerem atenção e vigilância cuidadosas, implicando uma clara responsabilidade legal por parte dos produtores, de quem os contrata e das autoridades governamentais.

O ato de se confiar a processos automáticos que dispõem os indivíduos por categorias, por exemplo, através dum uso invasivo da vigilância ou da adoção de sistemas de crédito social, poderia ter repercussões profundas também no tecido civil, estabelecendo classificações inadequadas entre os cidadãos. E estes processos artificiais de classificação poderiam levar também a conflitos de poder, envolvendo não apenas destinatários virtuais, mas também pessoas de carne e osso. O respeito fundamental pela dignidade humana requer a rejeição de que a unicidade da pessoa seja identificada com um conjunto de dados. Não se deve permitir que os algoritmos determinem o modo como entendemos os direitos humanos, ponham de lado os valores essenciais da compaixão, da misericórdia e do perdão, ou eliminem a possibilidade de um indivíduo mudar e deixar para trás o passado.

Neste contexto, não podemos deixar de considerar o impacto das novas tecnologias no âmbito laboral: trabalhos, que outrora eram prerrogativa exclusiva da mão-de-obra humana, acabam rapidamente absorvidos pelas aplicações industriais da inteligência artificial. Também neste caso, há substancialmente o risco duma vantagem desproporcionada para poucos à custa do empobrecimento de muitos.  A Comunidade Internacional, ao ver como tais formas de tecnologia penetram cada vez mais profundamente nos locais de trabalho, deveria considerar como alta prioridade o respeito pela dignidade dos trabalhadores e a importância do emprego para o bem-estar económico das pessoas, das famílias e das sociedades, a estabilidade dos empregos e a equidade dos salários.

6. Transformaremos as espadas em relhas de arado?

Nestes dias, contemplando o mundo que nos rodeia, não se pode ignorar as graves questões éticas relacionadas com o setor dos armamentos. A possibilidade de efetuar operações militares através de sistemas de controle remoto levou a uma perceção menor da devastação por eles causada e da responsabilidade da sua utilização, contribuindo para uma abordagem ainda mais fria e destacada da imensa tragédia da guerra. A pesquisa sobre as tecnologias emergentes no setor dos chamados «sistemas de armas letais autónomas», incluindo a utilização bélica da inteligência artificial, é um grave motivo de preocupação ética. Os sistemas de armas autónomos nunca poderão ser sujeitos moralmente responsáveis: a exclusiva capacidade humana de julgamento moral e de decisão ética é mais do que um conjunto complexo de algoritmos, e tal capacidade não pode ser reduzida à programação duma máquina que, por mais «inteligente» que seja, permanece sempre uma máquina. Por esta razão, é imperioso garantir uma supervisão humana adequada, significativa e coerente dos sistemas de armas.

Também não podemos ignorar a possibilidade de armas sofisticadas caírem em mãos erradas, facilitando, por exemplo, ataques terroristas ou intervenções visando desestabilizar instituições legítimas de Governo. Em resumo, o mundo não precisa realmente que as novas tecnologias contribuam para o iníquo desenvolvimento do mercado e do comércio das armas, promovendo a loucura da guerra. Ao fazê-lo, não só a inteligência, mas também o próprio coração do homem, correrá o risco de se tornar cada vez mais «artificial». As aplicações técnicas mais avançadas não devem ser utilizadas para facilitar a resolução violenta dos conflitos, mas para pavimentar os caminhos da paz.

Numa ótica mais positiva, se a inteligência artificial fosse utilizada para promover o desenvolvimento humano integral, poderia introduzir inovações importantes na agricultura, na instrução e na cultura, uma melhoria do nível de vida de inteiras nações e povos, o crescimento da fraternidade humana e da amizade social. Em última análise, a forma como a utilizamos para incluir os últimos, isto é, os irmãos e irmãs mais frágeis e necessitados, é a medida reveladora da nossa humanidade.

Um olhar humano e o desejo dum futuro melhor para o nosso mundo levam à necessidade dum diálogo interdisciplinar voltado para um desenvolvimento ético dos algoritmos – a algor-etica -, em que sejam os valores a orientar os percursos das novas tecnologias. [12] As questões éticas deveriam ser tidas em consideração desde o início da pesquisa, bem como nas fases de experimentação, projetação, produção, distribuição e comercialização. Esta é a abordagem da ética da projetação, na qual as instituições educativas e os responsáveis pelo processo de decisão têm um papel essencial a desempenhar.

7. Desafios para a educação

O desenvolvimento duma tecnologia que respeite e sirva a dignidade humana tem implicações claras para as instituições educativas e para o mundo da cultura. Ao multiplicar as possibilidades de comunicação, as tecnologias digitais permitiram encontrar-se de novas formas. Todavia continua a ser necessária uma reflexão contínua sobre o tipo de relações para onde nos estão encaminhando. Os jovens estão a crescer em ambientes culturais impregnados de tecnologia, o que não pode deixar de pôr em causa os métodos de ensino e formação.

A educação para o uso de formas de inteligência artificial deveria visar sobretudo a promoção do pensamento crítico. É necessário que os utentes das várias idades, mas principalmente os jovens, desenvolvam uma capacidade de discernimento no uso de dados e conteúdos recolhidos na web ou produzidos por sistemas de inteligência artificial. As escolas, as universidades e as sociedades científicas são chamadas a ajudar os estudantes e profissionais a assumir os aspetos sociais e éticos do progresso e da utilização da tecnologia.

A formação no uso dos novos instrumentos de comunicação deveria ter em conta não só a desinformação, as notícias falsas, mas também a recrudescência preocupante de «medos ancestrais (...) que souberam esconder-se e revigorar-se por detrás das novas tecnologias». [13] Infelizmente, encontramo-nos mais uma vez a combater «a tentação de fazer uma cultura dos muros, de erguer os muros (…), para impedir este encontro com outras culturas, com outras pessoas» [14] e o desenvolvimento duma coexistência pacífica e fraterna.

8. Desafios para o desenvolvimento do direito internacional

O alcance global da inteligência artificial deixa claro que, juntamente com a responsabilidade dos Estados soberanos de regular a sua utilização internamente, as Organizações Internacionais podem desempenhar um papel decisivo na obtenção de acordos multilaterais e na coordenação da sua aplicação e implementação. [15] A este respeito, exorto a Comunidade das Nações a trabalhar unida para adotar um tratado internacional vinculativo, que regule o desenvolvimento e o uso da inteligência artificial nas suas variadas formas. Naturalmente o objetivo da regulamentação não deveria ser apenas a prevenção de más aplicações, mas também o incentivo às boas aplicações, estimulando abordagens novas e criativas e facilitando iniciativas pessoais e coletivas. [16]

Em última análise, na busca de modelos normativos que possam fornecer uma orientação ética aos criadores de tecnologias digitais, é indispensável identificar os valores humanos que deveriam estar na base dos esforços das sociedades para formular, adotar e aplicar os quadros legislativos necessários. O trabalho de elaboração de diretrizes éticas para a produção de formas de inteligência artificial não pode prescindir da consideração de questões mais profundas relativas ao significado da existência humana, à proteção dos direitos humanos fundamentais, à busca da justiça e da paz. Este processo de discernimento ético e jurídico pode revelar-se preciosa ocasião para uma reflexão compartilhada sobre o papel que a tecnologia deveria ter na nossa vida individual e comunitária e sobre a forma como a sua utilização possa contribuir para a criação dum mundo mais equitativo e humano. Por este motivo, nos debates sobre a regulamentação da inteligência artificial, dever-se-ia ter em conta as vozes de todas as partes interessadas, incluindo os pobres, os marginalizados e outros que muitas vezes permanecem ignorados nos processos de decisão globais.

Espero que esta reflexão encoraje a fazer com que os progressos no desenvolvimento de formas de inteligência artificial sirvam, em última análise, a causa da fraternidade humana e da paz. Não é responsabilidade de poucos, mas da família humana inteira. De facto, a paz é fruto de relações que reconhecem e acolhem o outro na sua dignidade inalienável, e de cooperação e compromisso na busca do desenvolvimento integral de todas as pessoas e de todos os povos.

No início do novo ano, a minha oração é que o rápido desenvolvimento de formas de inteligência artificial não aumente as já demasiadas desigualdades e injustiças presentes no mundo, mas contribua para pôr fim às guerras e conflitos e para aliviar muitas formas de sofrimento que afligem a família humana. Possam os fiéis cristãos, os crentes das várias religiões e os homens e mulheres de boa vontade colaborar harmoniosamente para aproveitar as oportunidades e enfrentar os desafios colocados pela revolução digital, e entregar às gerações futuras um mundo mais solidário, justo e pacífico.

Vaticano, 8 de dezembro de 2023.

Francisco

 

[1]N. 33.

[2] Ibid., 57.

[3]Cf. Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 104.

[4]Cf. ibid., 114.

[5]Francisco,  Discurso aos participantes no Encontro dos «Minerva Dialogues» (27/III/2023).

[6]Cf. ibid.

[7]Cf. Francisco, Mensagem ao Presidente Executivo do «World Economic Forum» em Davos-Klosters (12/I/2018).

[8]Cf. Carta enc. Laudato si’, 194; Francisco,  Discurso aos participantes no Seminário «O bem comum na era digital» (27/IX/2019).

[9]Francisco,Exort. ap. Evangelii gaudium (24/XI/2013), 233.

[10]Cf. Carta enc. Laudato si’, 54.

[11]Cf. Francisco, Discurso aos participantes na Plenária da Pontifícia Academia em prol da Vida (28/II/2020).

[12]Cf. ibid.

[13]Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (03/X/2020), 27.

[14]Cf. ibid.

[15]Cf. ibid., 170-175.

[16]Cf. Carta enc. Laudato si’, 177.


domingo, 6 de agosto de 2023

Um outro olhar no texto de São Mateus 17,1-9 / Transfiguração do Senhor

A liturgia da Festa da Transfiguração do Senhor é a seguinte: Daniel 7,9-10,13-14 ou II Pedro 1,16-19; Salmo 96(97),1-2.5-6.9 (R. 1a.9a) que nos  conduz por um itinerário profundamente coerente, no qual nos preparam a compreensão do mistério revelado em Mateus 17,1-9. A Palavra de Deus apresenta um movimento que parte da esperança escatológica do Antigo Testamento, passa pelo louvor ao reinado universal de Deus, chega ao testemunho apostólico da glória de Cristo e culmina na manifestação do Filho amado sobre o monte. Não se trata de textos reunidos apenas por afinidade temática, mas de uma unidade teológica que revela progressivamente a identidade de Jesus e o destino da humanidade reconciliada em Deus.

  • Daniel 7,9-10.13-14, nasce em um contexto de perseguição e opressão vivido pelo povo judeu durante o domínio dos impérios helenísticos, especialmente sob Antíoco IV Epífanes, no século II a.C. Utilizando a linguagem apocalíptica, Daniel não pretende descrever literalmente o fim do mundo, mas fortalecer a esperança dos fiéis diante da violência da história. A visão do "Ancião de Dias", sentado em seu trono de fogo, manifesta a soberania absoluta de Deus sobre todos os poderes humanos. Em seguida, surge "como um Filho do Homem", que recebe domínio, glória e um reino eterno (Dn 7,13-14). Na exegese cristã, essa figura encontra seu pleno cumprimento em Jesus Cristo, que frequentemente utiliza para si o título de "Filho do Homem". A Transfiguração torna visível, ainda que por um instante, a glória daquele que Daniel contemplou profeticamente. O Filho do Homem glorioso de Daniel é o mesmo Jesus que sobe o monte com seus discípulos e cuja majestade será plenamente compreendida somente à luz da cruz e da ressurreição.
  • II Pedro 1,16-19, a Igreja nos oferece o testemunho de uma comunidade que conserva viva a memória da Transfiguração. O autor insiste que o anúncio cristão não se apoia em "fábulas engenhosamente inventadas", mas no testemunho daqueles que foram "testemunhas oculares de sua majestade". Ao recordar a voz vinda da glória excelsa, "Este é o meu Filho amado, no qual pus todo o meu agrado", a carta interpreta a experiência do monte como confirmação da identidade divina de Jesus e fundamento da esperança da Igreja. Ao mesmo tempo, exorta os cristãos a permanecerem atentos à Palavra profética, comparada a uma lâmpada que brilha em lugar escuro até que amanheça o Dia e a estrela da manhã resplandeça nos corações. Hermeneuticamente, essa passagem une a experiência apostólica e a Palavra revelada, mostrando que a verdadeira contemplação de Cristo nunca dispensa a escuta das Escrituras. O mesmo Cristo cuja glória foi contemplada pelos apóstolos continua iluminando a vida da Igreja por meio da Palavra proclamada e acolhida na fé
  • Salmo 96(97) responde à primeira leitura proclamando: "O Senhor é rei, exulte a terra". Trata-se de um hino que celebra o reinado universal de Deus sobre toda a criação. As imagens da luz, das nuvens, da justiça e da glória pertencem ao universo das grandes teofanias do Antigo Testamento e expressam a presença soberana do Senhor na história. Quando o salmista afirma que "os céus anunciam a sua justiça e todos os povos contemplam a sua glória", prepara simbolicamente o olhar do povo para reconhecer em Cristo a manifestação definitiva dessa glória. A luz que envolve Jesus na Transfiguração não é uma realidade estranha às Escrituras de Israel, mas a plenitude da revelação daquele Deus cuja majestade o salmo canta com entusiasmo e reverência.

Desse modo, Daniel anuncia profeticamente o Filho do Homem revestido de glória, o salmista canta o reinado luminoso e universal de Deus, Pedro testemunha que essa glória foi realmente contemplada na história, e o Evangelho de Mateus 17,1-9 apresenta o acontecimento em que essas promessas convergem e encontram sua plena realização. A liturgia conduz a assembleia a reconhecer que a Transfiguração não é um episódio isolado da vida de Jesus, mas uma revelação que une a esperança de Israel, o testemunho apostólico e a fé da Igreja, convidando cada discípulo a escutar o Filho amado e a deixar-se transformar pela luz do Reino que já irrompeu na história. 

Ao refletir a Transfiguração do Senhor, em Mateus 17,1-9, sem esquecer  que tal liturgia  ocupa um lugar singular na vida da Igreja porque revela, antes da paixão, a identidade profunda de Jesus como Filho amado do Pai e antecipa, em linguagem simbólica e histórica, a glória da ressurreição. Na Igreja Católica Romana, a perícope de Mateus 17,1-9 é proclamada integralmente na Festa da Transfiguração do Senhor, celebrada em 6 de agosto, solenidade de profundo significado cristológico que recorda a manifestação da glória divina de Cristo diante de Pedro, Tiago e João. Além disso, uma de suas versões sinóticas é proclamada a cada ano no Segundo Domingo da Quaresma, segundo o ciclo do Lecionário Romano. No Ano A lê-se Mateus 17,1-9, no Ano B Marcos 9,2-10 e no Ano C Lucas 9,28-36. A pedagogia litúrgica é profundamente significativa. No início da Quaresma, logo após o relato das tentações de Jesus no deserto, a Igreja apresenta a Transfiguração para recordar que o caminho da cruz não conduz ao fracasso, mas à manifestação definitiva da glória de Deus. As Igrejas Ortodoxas fazem da Festa da Transfiguração uma das grandes solenidades do ano litúrgico, relacionando-a à divinização do ser humano pela graça e à participação na luz incriada de Deus. Também as tradições Anglicana, Luterana e diversas Igrejas históricas conservam essa celebração ou a proclamam em domingos específicos do calendário cristão, reconhecendo nela um dos grandes momentos da revelação da identidade de Cristo. Assim, desde os primeiros séculos, a Transfiguração não foi compreendida apenas como um acontecimento extraordinário ocorrido numa montanha da Galileia, mas como uma chave hermenêutica para compreender toda a missão de Jesus e o destino daqueles que o seguem.

Para penetrar na riqueza desse relato é indispensável observar o contexto narrativo que o antecede. Nenhum episódio do Evangelho de Mateus existe isoladamente. O evangelista constrói uma sequência cuidadosamente organizada. Pouco antes da subida ao monte, Pedro havia professado em Cesareia de Filipe: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mt 16,16). Essa profissão de fé representa um ponto culminante do ministério público de Jesus, mas imediatamente é seguida pelo primeiro anúncio da paixão: "Desde então Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que era necessário ir a Jerusalém, sofrer muito, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia" (Mt 16,21). Pedro, incapaz de aceitar um Messias sofredor, reage energicamente, recebendo uma das repreensões mais severas de todo o Novo Testamento: "Afasta-te de mim, Satanás" (Mt 16,23). Logo em seguida Jesus amplia ainda mais o horizonte do discipulado ao afirmar que quem quiser segui-lo deve renunciar a si mesmo, tomar sua cruz e segui-lo (Mt 16,24). Portanto, a Transfiguração nasce exatamente da tensão entre duas imagens de Messias. De um lado, permanece a expectativa popular de um libertador político, glorioso segundo os critérios do poder humano. De outro, Jesus apresenta o caminho da entrega, do serviço e do amor levado até a cruz. A experiência do monte não elimina esse escândalo, mas oferece aos discípulos uma luz para atravessá-lo sem perder a esperança.

Mateus inicia o relato dizendo que "seis dias depois" Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e os conduziu a uma alta montanha (Mt 17,1). Essa indicação cronológica parece simples, mas carrega enorme densidade bíblica. O número seis recorda a preparação para a manifestação divina no Sinai, onde Moisés aguardou seis dias antes que a nuvem da glória o envolvesse e Deus lhe falasse no sétimo dia (Ex 24,15-16). O evangelista deseja que o leitor associe imediatamente Jesus à grande teofania mosaica. Não se trata de mera coincidência literária. O Deus que falou no Sinai manifesta agora sua presença na pessoa do próprio Filho. A montanha, na tradição bíblica, nunca é apenas um acidente geográfico. Ela representa o lugar simbólico do encontro entre o céu e a terra, entre a história humana e a iniciativa divina. Abraão sobe o monte Moriá (Gn 22). Moisés sobe o Sinai (Ex 19). Elias caminha até o Horeb (1Rs 19). O Sermão da Montanha acontece sobre um monte (Mt 5,1). Depois da ressurreição, Jesus enviará seus discípulos desde uma montanha da Galileia (Mt 28,16-20). A montanha expressa a necessidade de elevar o olhar acima das aparências para discernir a ação de Deus na história. Embora o Evangelho não identifique qual montanha foi essa, a tradição cristã antiga apontou o Monte Tabor como o lugar da Transfiguração. Alguns estudiosos modernos sugerem o Monte Hermon por razões geográficas, considerando a proximidade de Cesareia de Filipe, onde ocorreu a profissão de fé de Pedro. Entretanto, a preocupação principal dos evangelistas não é oferecer uma localização precisa, mas revelar o significado teológico do acontecimento. O monte torna-se um espaço de revelação, semelhante ao Sinai e ao Horeb, onde Deus manifesta sua vontade e confirma sua aliança com o povo. A geografia transforma-se em linguagem espiritual. Deus continua encontrando homens e mulheres nas montanhas da existência, nos momentos em que a realidade cotidiana é iluminada por uma experiência mais profunda de sua presença. Mateus afirma então que Jesus "foi transfigurado diante deles; seu rosto brilhou como o sol e suas vestes ficaram brancas como a luz" (Mt 17,2). O verbo grego metemorphóthē, do qual deriva a palavra "metamorfose", não significa que Jesus tenha deixado de ser quem era, mas que sua identidade mais profunda tornou-se visível. A glória que normalmente permanecia velada na condição humana resplandece por alguns instantes diante dos discípulos. O brilho do rosto recorda imediatamente Moisés, cujo rosto irradiava luz depois de falar com Deus no Sinai (Ex 34,29-35). Contudo, existe uma diferença decisiva. Moisés refletia uma luz recebida. Jesus manifesta uma luz que procede de sua própria identidade. Ele não apenas comunica a glória divina. Ele participa dela plenamente. Aqui Mateus reafirma silenciosamente aquilo que já havia anunciado desde o início do Evangelho, quando citou Isaías para proclamar Jesus como o Emanuel, Deus conosco (Mt 1,23).

A luz ocupa lugar central em toda a tradição bíblica. Desde o primeiro dia da criação, quando Deus diz: 

  •  "Faça-se a luz" (Gn 1,3), ela simboliza vida, verdade e presença divina. 
  • O Salmo 27 proclama: "O Senhor é minha luz e minha salvação".
  •  Isaías anuncia que o povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz (Is 9,1). 
  • O prólogo do Evangelho de João afirmará que Cristo é a verdadeira luz que ilumina todo ser humano (Jo 1,9). 
A Transfiguração reúne todos esses fios da tradição bíblica para afirmar que em Jesus resplandece a própria vida de Deus. Não é uma luminosidade destinada a impressionar os sentidos, mas uma revelação destinada a transformar a inteligência e o coração dos discípulos. A experiência espiritual autêntica nunca termina na contemplação da beleza. Ela conduz inevitavelmente a uma nova compreensão da realidade e a uma nova forma de viver.

Nesse momento aparecem Moisés e Elias conversando com Jesus (Mt 17,3). A presença dessas duas figuras está entre os elementos mais ricos da narrativa. Moisés representa a Torá, a Lei recebida no Sinai, fundamento da identidade de Israel. Elias simboliza os profetas, especialmente a fidelidade à aliança diante da idolatria e da opressão. Juntos, Lei e Profetas resumem toda a Escritura de Israel. Não é por acaso que ambos tiveram profundas experiências de Deus sobre uma montanha e ambos enfrentaram períodos de crise nacional marcados pela infidelidade religiosa. Moisés libertou um povo escravizado pelo Egito. Elias denunciou a idolatria sustentada pelo poder político do rei Acab e da rainha Jezabel (1Rs 18). A presença deles ao lado de Jesus indica continuidade e plenitude. Jesus não rompe com a história da salvação. Ele a leva ao seu cumprimento, como o próprio Mateus registrou no Sermão da Montanha: "Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento" (Mt 5,17). 

Lucas acrescenta um detalhe ausente em Mateus e Marcos. Segundo Lc 9,31, Moisés e Elias falavam com Jesus sobre seu "êxodo", isto é, sobre sua partida que se realizaria em Jerusalém. O termo é extraordinário. Assim como Moisés conduziu Israel para fora da escravidão do Egito, Jesus realizará um novo êxodo mediante sua paixão, morte e ressurreição, libertando a humanidade da escravidão do pecado, da violência e da morte.  A cruz, portanto, não será um acidente inesperado, mas parte integrante do projeto libertador de Deus. A glória contemplada no monte não elimina a cruz. Ela revela que a cruz será atravessada pela fidelidade do Pai

Se sabe que toda sociedade necessita de experiências fundantes capazes de sustentar seus membros diante das crises inevitáveis da existência. Povos antigos preservavam relatos de encontros com o sagrado porque sabiam que a memória fortalece a identidade coletiva. Também os discípulos precisavam de uma memória luminosa para enfrentar o escândalo da paixão e ao observa essa  experiências profundamente significativas reorganizam a percepção da realidade e oferecem recursos interiores para atravessar períodos de sofrimento. A Transfiguração pode ser compreendida como uma dessas experiências decisivas. Pedro, Tiago e João ainda não compreendem plenamente seu significado, mas levarão consigo essa memória até depois da ressurreição. Décadas mais tarde, a Segunda Carta de Pedro recordará esse acontecimento afirmando: "Nós fomos testemunhas oculares de sua majestade" (2Pd 1,16-18). A lembrança da glória contemplada no monte sustentou a fé da comunidade quando ela precisou enfrentar perseguições, incompreensões e martírio.  Essa dimensão permanece profundamente atual. Também o mundo contemporâneo vive cercado de montanhas e vales. Existem montanhas tecnológicas, econômicas e científicas capazes de ampliar extraordinariamente o poder humano, mas nem sempre de responder às perguntas fundamentais sobre o sentido da existência. Multiplicam-se informações, porém cresce igualmente a dificuldade de discernir a verdade. A religião, que deveria ser lugar privilegiado da escuta de Deus e do serviço ao próximo, por vezes é instrumentalizada para legitimar interesses econômicos, disputas partidárias ou projetos de dominação ideológica. Sempre que a fé deixa de conduzir ao seguimento de Jesus para servir a ambições humanas, ela perde a transparência da luz contemplada na Transfiguração. A voz do Pai não convida os discípulos a seguir um sistema político, uma liderança carismática ou um projeto de poder. Ela os prepara para reconhecer no Filho o único caminho da verdadeira libertação. É justamente essa escuta obediente que começa a iluminar o restante da narrativa e que continuará revelando, passo a passo, que a glória de Cristo jamais pode ser separada da entrega amorosa de sua vida pelo mundo.

A reação de Pedro diante da visão manifesta a profunda ambiguidade do coração humano diante do mistério de Deus. "Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias" (Mt 17,4). À primeira vista, sua proposta parece um gesto de reverência e hospitalidade. Entretanto, a narrativa revela que ela nasce de uma compreensão ainda incompleta da missão de Jesus. Pedro deseja prolongar aquela experiência luminosa, fixar o instante, transformar o encontro em permanência. A referência às tendas evoca a Festa dos Tabernáculos, uma das grandes celebrações de Israel, durante a qual o povo habitava provisoriamente em tendas para recordar a peregrinação pelo deserto e celebrar a fidelidade de Deus (Lv 23,39-43). Era também uma festa carregada de expectativas escatológicas, alimentando a esperança da manifestação definitiva do Reino. Pedro imagina que esse tempo chegou em sua plenitude e que já não haverá espaço para sofrimento, conflito ou cruz. Contudo, o Evangelho mostra que a glória contemplada no monte não constitui o ponto final da missão de Cristo, mas uma antecipação do horizonte que sustenta o caminho até Jerusalém. A experiência espiritual mais elevada não autoriza a fuga da realidade nem o abandono das responsabilidades históricas. Ao contrário, ela fortalece o discípulo para reencontrar o mundo com maior fidelidade ao projeto de Deus.  Enquanto Pedro ainda falava, "uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra" (Mt 17,5). Na tradição bíblica, a nuvem é um dos sinais mais constantes da presença divina. Ela acompanhou Israel durante a travessia do deserto, protegendo o povo e indicando o caminho (Ex 13,21-22). Cobriu a tenda do encontro quando a glória do Senhor desceu sobre ela (Ex 40,34-38). Também envolveu o monte Sinai durante a entrega da Lei (Ex 24,15-18). A nuvem não obscurece Deus, mas preserva o mistério de sua transcendência. O Senhor se revela sem jamais ser reduzido às categorias humanas. O ser humano pode conhecer verdadeiramente a Deus, mas nunca esgotá-lo. A nuvem luminosa une proximidade e mistério, intimidade e reverência. Ela recorda que toda experiência autêntica do divino conduz à humildade, pois quem contempla a santidade de Deus reconhece imediatamente os limites da própria compreensão.

Do interior dessa nuvem ressoa a voz do Pai: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Escutai-o" (Mt 17,5). A declaração retoma e aprofunda a voz ouvida no batismo de Jesus (Mt 3,17). Naquele momento, a palavra era dirigida principalmente ao próprio Cristo, confirmando sua missão. Agora, ela é dirigida aos discípulos, que precisam aprender a interpretar corretamente tudo o que verão acontecer nos dias seguintes. Cada expressão reúne diferentes tradições do Antigo Testamento. "Filho amado" remete ao Salmo 2,7, onde o rei messiânico é reconhecido como filho de Deus. "Em quem me comprazo" recorda o Servo do Senhor apresentado em Isaías 42,1, aquele que realizará a justiça não pela violência, mas pela mansidão e pela fidelidade. A ordem "Escutai-o" remete diretamente à promessa feita por Moisés em Deuteronômio 18,15: "O Senhor teu Deus suscitará um profeta como eu; a ele ouvireis". Mateus une essas tradições para afirmar que Jesus é simultaneamente o novo Moisés, o Servo sofredor e o Messias esperado. A autoridade definitiva já não pertence simplesmente à Lei representada por Moisés nem à tradição profética representada por Elias, mas ao Filho, que conduz ambas ao seu pleno cumprimento.

O verbo "escutar" possui na Escritura um significado muito mais profundo do que ouvir sons. O célebre Shemá de Israel inicia proclamando: "Escuta, Israel" (Dt 6,4). Escutar significa acolher, obedecer, permitir que a Palavra transforme a existência. Na espiritualidade bíblica, o contrário da escuta não é apenas a surdez física, mas a dureza do coração. Os profetas denunciaram repetidamente um povo que possuía ouvidos, mas não escutava (Jr 6,10; Ez 12,2). Jesus retomará essa denúncia ao falar daqueles que "vendo não veem e ouvindo não ouvem" (Mt 13,13). A ordem do Pai na Transfiguração torna-se, assim, um programa permanente para a Igreja. O centro da fé cristã não está em personalidades carismáticas, ideologias religiosas ou tradições humanas colocadas acima do Evangelho, mas na escuta constante de Jesus Cristo. Toda estrutura eclesial, toda atividade pastoral, toda reflexão teológica e toda prática missionária encontram sua legitimidade apenas quando permanecem submetidas à Palavra daquele que é o Filho amado. A reação dos discípulos revela o impacto da manifestação divina. Eles caem com o rosto por terra, tomados por grande temor (Mt 17,6). Na linguagem bíblica, o temor de Deus não corresponde ao pânico diante de uma divindade ameaçadora, mas ao reconhecimento da infinita grandeza daquele que é absolutamente santo. Isaías experimenta algo semelhante ao contemplar o Senhor no templo: "Ai de mim! Estou perdido" (Is 6,5). Ezequiel cai por terra diante da visão da glória divina (Ez 1,28). Daniel perde as forças diante da manifestação celeste (Dn 10,8-9). A presença de Deus desmonta as falsas seguranças humanas, rompe ilusões de autossuficiência e convida à conversão. O encontro com o Santo nunca confirma o orgulho; ao contrário, inaugura uma nova humildade.

Entretanto, a narrativa não termina no temor. Mateus acrescenta um gesto profundamente característico de Jesus: "Ele aproximou-se, tocou neles e disse: Levantai-vos e não tenhais medo" (Mt 17,7). O toque possui enorme importância nos Evangelhos, ele:

  • Toca leprosos (Mt 8,3), 
  • Toca os olhos dos cegos (Mt 9,29), 
  • Toma pela mão a filha de Jairo (Mt 9,25) tocando em uma morta, 
  • Toca os ouvidos do surdo em Marcos (Mc 7,33) 
Permite que os marginalizados toquem nele para encontrar cura. O Deus revelado em Cristo não permanece distante da fragilidade humana. Ele aproxima-se, restaura e coloca novamente o discípulo de pé. O verbo "levantar" possui ainda ressonâncias pascais, pois é o mesmo utilizado para indicar a ressurreição. Antes mesmo da paixão, Jesus já comunica aos discípulos que o destino final da vida não será o medo, mas a vitória da comunhão com Deus. Quando eles levantam os olhos, "não viram mais ninguém, a não ser Jesus" (Mt 17,8). Essa frase encerra uma profunda síntese cristológica. Moisés e Elias desaparecem porque cumpriram sua missão de preparar o caminho. A revelação converge inteiramente para Cristo. Não significa rejeição da Lei e dos Profetas, mas reconhecimento de que sua finalidade era conduzir ao Messias. O Evangelho de João expressará a mesma convicção ao afirmar: "A Lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo" (Jo 1,17). A Igreja primitiva compreendeu progressivamente que toda a Escritura encontra sua unidade na pessoa de Jesus. É por isso que os discípulos de Emaús só reconhecem plenamente o Ressuscitado quando ele lhes explica "o que a seu respeito constava em todas as Escrituras" (Lc 24,27). Ao descerem do monte, Jesus ordena: "Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos" (Mt 17,9). A ordem do silêncio aparece diversas vezes nos Evangelhos, especialmente em Marcos, e possui profundo significado pedagógico. Antes da ressurreição, qualquer anúncio da Transfiguração seria inevitavelmente mal compreendido. O povo poderia interpretá-la apenas como confirmação de um Messias glorioso segundo expectativas triunfalistas. Somente a cruz revelará o verdadeiro conteúdo daquela glória. A luz contemplada no monte adquire seu sentido definitivo quando atravessa a escuridão do Calvário e resplandece na manhã da Páscoa. A revelação cristã jamais separa glória e serviço, majestade e entrega, poder e amor. O Cristo transfigurado é o mesmo que lava os pés dos discípulos (Jo 13,1-15), perdoa os inimigos (Lc 23,34) e entrega a vida por todos (Mc 10,45).

É  preciso dar ênfase  n reação de Pedro diante da visão e  manifesta uma  profunda ambiguidade do coração humano diante do mistério de Deus. "Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias" (Mt 17,4). Seu desejo de permanecer no alto da montanha revela uma tentação permanente da experiência religiosa: transformar o encontro com Deus em uma fuga da realidade e do compromisso com a história, em vez de permitir que a experiência  impulsione a missão no mundo. É precisamente nesse ponto que toda espiritualidade precisa ser discernida. Uma fé reduzida à busca incessante de emoções, êxtases e experiências extraordinárias pode tornar-se alienante quando leva o cristão a esquecer o sofrimento concreto dos irmãos, a injustiça social e as exigências do Evangelho. Nessa perspectiva, a célebre afirmação de Karl Marx de que "a religião é o ópio do povo" merece ser compreendida em seu contexto. Marx não criticava toda experiência religiosa, mas denunciava uma religião utilizada para anestesiar a dor, justificar estruturas de opressão e impedir que os pobres percebessem as causas históricas de seu sofrimento. Sempre que a fé é manipulada para produzir conformismo, fuga da realidade ou resignação diante da injustiça, ela confirma essa crítica. Entretanto, o Evangelho da Transfiguração aponta na direção oposta. Jesus não permite que Pedro permaneça instalado na experiência luminosa do monte. A verdadeira contemplação conduz inevitavelmente à descida para o vale, onde estão os enfermos, os excluídos, os que sofrem e os que esperam libertação. A experiência de Deus, quando autêntica, não narcotiza a consciência nem afasta da história; ao contrário, desperta o discípulo para um compromisso ainda mais profundo com a verdade, a justiça, a compaixão e a transformação da realidade, fazendo da fé não um ópio, mas uma força libertadora que ilumina e humaniza a vida.

Os relatos paralelos de Marcos e Lucas enriquecem ainda mais essa compreensão. Marcos descreve as vestes de Jesus como tão brancas que "nenhum lavadeiro sobre a terra poderia alvejá-las assim" (Mc 9,3), enfatizando a origem absolutamente divina daquela luminosidade. Lucas, por sua vez, situa o acontecimento em contexto explícito de oração (Lc 9,28-29), mostrando que a comunhão com o Pai permeia toda a missão de Jesus. Somente Lucas informa que os discípulos estavam vencidos pelo sono e despertaram para contemplar sua glória (Lc 9,32), detalhe que antecipa simbolicamente o sono no Getsêmani. Enquanto no monte eles despertam para contemplar a glória, no jardim adormecem justamente quando deveriam permanecer vigilantes diante do sofrimento do Mestre (Lc 22,45-46). As diferenças entre os evangelistas não constituem contradições, mas perspectivas complementares que evidenciam a riqueza da tradição recebida pelas primeiras comunidades cristãs.

A história do mundo mediterrâneo ajuda a compreender a originalidade dessa narrativa. Diversas culturas antigas conheciam relatos de manifestações divinas em montanhas, aparições luminosas ou encontros entre deuses e seres humanos. Contudo, os Evangelhos apresentam uma diferença decisiva. A glória de Cristo não legitima impérios nem fortalece governantes. Ela prepara discípulos para o serviço humilde e para o testemunho até o martírio. Enquanto o poder romano exaltava imperadores por meio de imagens triunfais e atribuía aos césares títulos divinos, Jesus manifesta sua identidade precisamente para fortalecer aqueles que aprenderão a vencer não pela espada, mas pela fidelidade ao amor. A verdadeira realeza revelada na Transfiguração não encontra sua expressão máxima em palácios ou exércitos, mas na entrega daquele que permanece obediente ao Pai até o fim. Essa perspectiva encontra profunda ressonância nos documentos da Igreja contemporânea. O documento  de Aparecida recordam que a contemplação de Cristo conduz necessariamente ao compromisso com a dignidade humana, com a justiça e com a defesa dos pobres, afirmando  que não existe verdadeiro discípulo sem missão, nem verdadeira espiritualidade sem compromisso concreto com a transformação da realidade. A montanha da Transfiguração, portanto, não se converte em lugar de isolamento religioso, mas em fonte de uma esperança capaz de renovar a vida pessoal, a comunidade e a própria sociedade, preparando o discípulo para reconhecer que a glória do Filho amado continua resplandecendo onde homens e mulheres, iluminados por sua Palavra, escolhem o caminho da verdade, da misericórdia e do amor que liberta.

O evangelista não pretende apenas conservar a memória de um acontecimento extraordinário ocorrido diante de três discípulos privilegiados. Seu propósito é formar comunidades capazes de interpretar toda a realidade a partir da pessoa de Jesus. A luz contemplada sobre a montanha transforma-se em critério de discernimento para todas as situações da história. É precisamente por isso que a tradição cristã nunca leu essa perícope como um convite ao deslumbramento religioso, mas como uma escola de esperança. A esperança bíblica não consiste em esperar passivamente que Deus intervenha para resolver os problemas humanos. Ela nasce da certeza de que Deus já entrou na história em Jesus Cristo e continua agindo por meio daqueles que acolhem sua Palavra e assumem sua missão. A Transfiguração revela que a história humana, mesmo atravessada por contradições, não está entregue ao absurdo nem ao triunfo definitivo da violência. O destino último da criação é a comunhão com Deus, e essa promessa ilumina o compromisso cotidiano com a construção de um mundo mais justo.

Essa perspectiva impede que o discípulo interprete a fé como simples busca de experiências emocionais. A espiritualidade cristã conhece momentos de intensa consolação, mas também atravessa desertos, noites e silêncios. Grandes testemunhas da tradição espiritual, como os Padres do Deserto, compreenderam que Deus educa seus filhos tanto na consolação quanto na provação. A própria vida de Jesus confirma essa dinâmica. Depois do Jordão veio o deserto; depois da Transfiguração veio o caminho para Jerusalém; depois da ceia veio o Getsêmani; depois da cruz veio a ressurreição. A maturidade da fé consiste em permanecer fiel quando a luz parece escondida. É nesse sentido que  devemos  viver a a fé e precisamos  observa que só  se amadurece quando aprendemos  a integrar alegria e sofrimento, êxito e fracasso, entusiasmo e perseverança. A fé não elimina a vulnerabilidade humana, mas impede que ela tenha a última palavra. O discípulo continua experimentando medo, dúvida e cansaço, porém descobre que nenhuma dessas realidades pode apagar a presença daquele que caminha ao seu lado.

Essa compreensão possui profundas consequências para a vida das comunidades cristãs. A Igreja existe para tornar visível, no meio da história, a luz que recebeu de Cristo. Sua missão não é criar uma sociedade paralela nem construir espaços de privilégio religioso, mas ser sinal do Reino de Deus em meio às alegrias e angústias da humanidade, como recorda a Constituição Gaudium et Spes. Isso exige uma permanente conversão pastoral. Sempre que a comunidade cristã se fecha sobre si mesma, perde sua capacidade missionária. Sempre que transforma o Evangelho em instrumento de distinção entre superiores e inferiores, trai a lógica daquele que se aproximava dos pecadores, dos doentes, dos estrangeiros e dos pobres. A luz da Transfiguração não estabelece fronteiras de exclusão; ela ilumina a dignidade de cada pessoa criada à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27).

Por essa razão, a contemplação do Cristo glorioso conduz inevitavelmente ao compromisso com a justiça. Desde os profetas de Israel, a fidelidade a Deus sempre esteve inseparavelmente ligada ao cuidado com os vulneráveis. 

  • Isaías denuncia um culto vazio que ignora o órfão e a viúva (Is 1,11-17). .
  • Amós rejeita celebrações religiosas incapazes de produzir justiça (Am 5,21-24). 
  • Miqueias resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o Senhor (Mq 6,8). 
  • Jesus assume integralmente essa tradição ao identificar sua própria presença nos famintos, nos estrangeiros, nos enfermos e nos encarcerados (Mt 25,31-46). 
Não existe verdadeira contemplação da glória de Cristo quando permanecemos indiferentes ao sofrimento humano. A luz do monte torna-se falsa quando não alcança os vales onde milhões de pessoas enfrentam pobreza, desemprego, fome, discriminação, abandono e violência. Nesse horizonte, a Doutrina Social da Igreja insiste que a fé possui uma dimensão pública sem se confundir com projetos de poder. Documentos como Evangelii Gaudium e Fratelli Tutti recordam que a evangelização inclui a promoção da dignidade humana, da fraternidade e da paz. Essas afirmações não reduzem o Evangelho a um programa político, mas também não permitem que ele seja reduzido a uma experiência puramente privada. O Reino anunciado por Jesus alcança todas as dimensões da existência humana e convida os cristãos a serem fermento de transformação no interior da sociedade. É precisamente nesse ponto que a narrativa da Transfiguração oferece um discernimento indispensável para o tempo presente. Em diferentes contextos históricos, a religião foi utilizada para legitimar guerras, perseguições, discriminações e projetos de dominação. Também hoje não faltam tentativas de instrumentalizar o nome de Deus para fortalecer interesses partidários, construir identidades excludentes ou atribuir caráter sagrado a lideranças humanas. Quando isso acontece, o centro da fé deixa de ser Cristo e passa a ser uma ideologia revestida de linguagem religiosa. O Evangelho, porém, resiste continuamente a essa deformação. Jesus recusou ser transformado em líder de um movimento nacionalista (Jo 6,15). Rejeitou a tentação do poder espetacular no deserto (Mt 4,1-11). Declarou que seu Reino não procede da lógica dos impérios (Jo 18,36). Ensinou que quem deseja ser o primeiro deve tornar-se servidor de todos (Mc 10,42-45). Toda vez que a religião abandona esse horizonte para justificar a intolerância, o culto à força, o desprezo pelos diferentes ou a sacralização da violência, afasta-se da voz do Pai que ordena: "Escutai-o".

Essa advertência exige igualmente discernimento diante das polarizações que marcam a sociedade contemporânea. A missão da Igreja não consiste em oferecer legitimação religiosa a qualquer corrente ideológica, seja ela de direita ou de esquerda, mas em confrontar todas elas com as exigências do Evangelho. Quando projetos políticos promovem a cultura do ódio, relativizam a dignidade humana, alimentam preconceitos, naturalizam desigualdades ou incentivam práticas autoritárias, a consciência cristã é chamada a exercer um juízo crítico à luz da Palavra de Deus. A fidelidade ao Evangelho impede tanto a idolatria do Estado quanto a idolatria do mercado, porque reconhece que nenhuma estrutura humana pode ocupar o lugar reservado ao Senhor da história. A esperança cristã não nasce da absolutização de governos, partidos ou lideranças, mas da confiança naquele que venceu a morte e continua chamando seus discípulos a serem sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16).

A crise de sentido que atravessa tantas sociedades também encontra resposta na Transfiguração. Nunca houve tanta capacidade técnica para transformar o mundo, e, paradoxalmente, tantas pessoas experimentam solidão, ansiedade e perda de horizonte. A abundância de informações nem sempre produz sabedoria. O desenvolvimento econômico não elimina automaticamente a exclusão. O progresso científico, indispensável para o bem comum, não responde sozinho às perguntas fundamentais sobre o significado da existência. A revelação de Cristo recorda que o ser humano não vive apenas de eficiência ou consumo, mas da comunhão com Deus, com os outros e com a criação. Quando essas relações se rompem, instala-se um vazio que nenhuma conquista material consegue preencher. A luz da Transfiguração convida a redescobrir a centralidade da interioridade, da oração, da fraternidade e da responsabilidade ética como dimensões inseparáveis de uma vida plenamente humana. Também a criação participa desse horizonte de esperança. O monte, a nuvem, a luz e o céu presentes na narrativa recordam que toda a natureza é chamada a participar da obra redentora de Deus. São Paulo afirma que "a criação inteira geme e sofre as dores do parto" aguardando sua libertação (Rm 8,22). A crise ambiental contemporânea revela que a exploração irresponsável da casa comum está ligada à mesma lógica que despreza os pobres e transforma tudo em objeto de consumo. Cuidar da criação não constitui uma preocupação secundária, mas expressão concreta da responsabilidade confiada ao ser humano desde o Gênesis. A contemplação da beleza de Cristo desperta igualmente o respeito pela beleza da criação, reconhecida como dom do Criador e patrimônio destinado às gerações futuras.

No fim da narrativa, os discípulos já não são os mesmos que iniciaram a subida da montanha. Eles ainda precisarão aprender muito, experimentarão o escândalo da cruz, conhecerão o medo da perseguição e a alegria da ressurreição, mas levarão consigo uma certeza que nada poderá destruir: a última palavra pertence a Deus. Essa convicção sustentará o testemunho apostólico e permitirá que o cristianismo atravesse séculos de desafios sem perder sua esperança fundamental. A mesma certeza continua sendo necessária em nosso tempo. Diante das guerras, das migrações forçadas, das desigualdades persistentes, da violência urbana, das crises econômicas, da manipulação da informação e das diversas formas de sofrimento que atingem milhões de pessoas, o Evangelho da Transfiguração proclama que Deus não abandonou a humanidade. Em Cristo, ele continua revelando uma luz que nenhuma escuridão consegue extinguir. Celebrar a Transfiguração do Senhor é, portanto, aceitar o convite para deixar que essa luz transforme também nossa maneira de pensar, julgar e agir. Não basta admirar a beleza da cena narrada por Mateus; é necessário permitir que ela molde nossa consciência e nossa prática. Escutar o Filho significa escolher a verdade em vez da mentira, a misericórdia em vez da vingança, a justiça em vez da opressão, o diálogo em vez da violência e a esperança em vez do desespero. Significa reconhecer que a glória de Deus resplandece onde a vida é defendida, onde a dignidade humana é respeitada e onde a fraternidade vence a indiferença. Assim, a montanha da Transfiguração deixa de ser apenas um lugar da memória bíblica para tornar-se um horizonte permanente da existência cristã. Quem contempla o rosto luminoso de Cristo aprende que a verdadeira transformação não consiste em escapar da história, mas em permitir que a presença do Filho amado transfigure o coração humano e, por meio dele, renove continuamente a face da terra.

Podemos  concluir  que a transfiguração proposta por Jesus não é um brilho superficial, mas uma transformação da consciência. Ela começa no coração, renova a mente, converte as atitudes e, somente depois, ilumina a vida exterior. Até mesmo Friedrich Nietzsche, um dos maiores críticos do cristianismo, escreveu: "É preciso trazer em si um caos para dar à luz uma estrela dançante." Embora em outro horizonte filosófico, sua imagem recorda que toda transformação autêntica nasce de um processo interior. O Evangelho vai além: afirma que esse processo não depende apenas da força humana, mas da graça de Deus. A verdadeira Transfiguração acontece de dentro para fora, quando Cristo transforma o coração e faz da vida um reflexo de sua luz no mundo.

DNonato - Teólogo  do Cotidiano