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domingo, 4 de janeiro de 2026

Direito, Poder e Medo: A Lógica do Império Norte-Americano

A virada do século XXI foi marcada por um evento que redefiniu brutalmente a geopolítica global e abriu caminho para uma nova forma de dominação internacional: os atentados de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gêmeas, em Nova York. A tragédia humana foi real e incontestável. Milhares de vidas foram ceifadas em um ato de violência que chocou o mundo. Contudo, sua apropriação política foi imediata. A dor virou narrativa. A narrativa virou doutrina. E a doutrina virou licença para a guerra. Desde então, a chamada “guerra ao terror” e a prisão seletiva de líderes considerados inconvenientes — como Nicolás Maduro — expressam uma mesma lógica imperial: a substituição do direito internacional por uma pedagogia do medo, da punição exemplar e da submissão geopolítica.

Em nome do combate a um “inimigo invisível”, difuso, elástico e permanentemente redefinível, os Estados Unidos inauguraram uma era de exceção global. A Doutrina Bush, o Patriot Act e a lógica do “ataque preventivo” não apenas ampliaram poderes de vigilância e repressão; dissolveram fronteiras jurídicas, relativizaram a soberania dos Estados e normalizaram práticas antes consideradas crimes: invasões sem mandato da ONU, assassinatos seletivos por drones, prisões ilegais, sequestros extrajudiciais, sanções econômicas coletivas e a suspensão sistemática do direito internacional. O que antes era exceção tornou-se regra. A guerra deixou de ser resposta extrema e passou a ser método ordinário de governo.

Instaurou-se, assim, um regime jurídico-político global no qual a exceção não é mais provisória, mas estrutural. A soberania passou a ser definida não pelo direito, mas pela capacidade de decidir quem pode ser punido fora da lei. A “guerra ao terror” não produziu apenas conflitos armados; produziu uma nova gramática do poder, na qual a legalidade é flexível para o império e rígida para os demais. O direito internacional foi esvaziado por dentro e substituído por uma moral de força travestida de segurança.

O Afeganistão foi o primeiro laboratório dessa nova ordem. Sob o argumento de combater a Al-Qaeda, os Estados Unidos invadiram um país já devastado por décadas de conflitos — muitos deles alimentados pelo próprio financiamento norte-americano aos mujahidin nos anos 1980, quando esses grupos eram tratados como “aliados estratégicos” na luta contra a União Soviética. A ironia histórica é cruel: aliados tornam-se inimigos quando deixam de ser úteis. Não há princípios permanentes, apenas conveniência imperial. Vinte anos depois, após milhares de mortos, bilhões gastos e um país destruído, o Talibã voltou ao poder, expondo o fracasso político, moral e estratégico da ocupação.

O Iraque veio em seguida, sustentado pela farsa das “armas de destruição em massa”, jamais encontradas. A mentira foi suficiente para destruir um Estado inteiro, desmontar instituições, incendiar conflitos sectários e desestabilizar todo o Oriente Médio. Centenas de milhares de civis morreram. Milhões foram deslocados. O terrorismo, longe de ser derrotado, foi alimentado. O inimigo era invisível, mas o petróleo era concreto. Oleodutos, contratos bilionários, privatizações forçadas e lucros astronômicos para empresas do complexo industrial-militar falaram mais alto que qualquer discurso sobre democracia ou direitos humanos.

A guerra, nesse contexto, não é apenas decisão política; é também cadeia produtiva. Corporações armamentistas, empresas de segurança privada, construtoras e setores energéticos transformaram conflitos em oportunidades de negócio. O Estado passou a operar como gestor da violência lucrativa. A política externa foi capturada por interesses corporativos, e a morte tornou-se item contábil. O neoliberalismo, longe de ser apenas um modelo econômico, revelou-se um sistema que precisa do caos para avançar.

Esse padrão não é episódico; é estrutural. Os Estados Unidos não guerreiam apenas por segurança, mas por hegemonia econômica, energética e geopolítica. A democracia funciona como verniz ideológico. Quando se raspa a superfície, emergem o Consenso de Washington, o neoliberalismo armado e a captura do Estado por interesses privados. A guerra torna-se política pública, e a exceção jurídica, instrumento permanente de governo.

É nesse horizonte que a América Latina precisa ser compreendida. A Guerra Fria, no continente, não foi apenas um embate ideológico entre capitalismo e socialismo, mas um vasto laboratório de intervenções. Sob a Doutrina Monroe e a Doutrina de Segurança Nacional, os Estados Unidos financiaram, treinaram e legitimaram ditaduras militares no Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Guatemala, El Salvador e Nicarágua. A Escola das Américas formou torturadores. A Operação Condor articulou sequestros, assassinatos e desaparecimentos em escala continental. Os arquivos hoje abertos confirmam: democracia nunca foi prioridade quando os interesses estavam garantidos.

Com o fim das ditaduras, não veio a soberania plena. A repressão militar foi substituída pela coerção econômica. Dívida externa, ajustes estruturais, privatizações predatórias e submissão a organismos financeiros internacionais mantiveram os Estados latino-americanos dependentes e vulneráveis. O controle deixou de ser exercido apenas pelos quartéis e passou a operar pelos mercados.

É dessa memória ferida que emerge o chavismo. Hugo Chávez não foi um acidente histórico, mas um sintoma. Um grito vindo das periferias de Caracas contra um modelo econômico que produzia riqueza para poucos e miséria para muitos. A Venezuela, embora riquíssima em petróleo, convivia com pobreza estrutural, corrupção sistêmica e exclusão social profunda. O Caracazo de 1989 foi o sinal inequívoco do colapso do neoliberalismo imposto.

Chávez deu voz aos humilhados e enfrentou simbolicamente o império. Houve avanços sociais reais, especialmente em saúde e educação, impulsionados pela renda petrolífera. Contudo, o processo carregava contradições graves: concentração de poder, personalização da política, militarização crescente do Estado, enfraquecimento institucional e dependência quase absoluta do petróleo. O enfrentamento ao neoliberalismo não foi acompanhado pela construção de um modelo democrático sólido, plural e sustentável.

A ascensão de Nicolás Maduro marca o momento mais frágil desse projeto. Sem o carisma de Chávez, enfrentando a queda do preço do petróleo, sanções econômicas severas e uma oposição radicalizada, Maduro optou pelo endurecimento autoritário como estratégia de sobrevivência. A crise humanitária se agravou, milhões migraram, o discurso revolucionário distanciou-se da vida concreta do povo. Há responsabilidades internas evidentes: repressão, corrupção, sufocamento de dissidências — inclusive à esquerda —, fechamento do diálogo e erosão democrática. Reconhecê-las é necessário. A crítica ao imperialismo não pode servir de álibi para o silenciamento das contradições internas.

Mas nada disso legitima a encenação imperial da prisão de Maduro pelos Estados Unidos. Não se trata de defendê-lo, mas de afirmar um princípio elementar: nenhuma potência tem o direito de se colocar como tribunal universal. Os Estados Unidos jamais aceitaram submeter-se plenamente ao Tribunal Penal Internacional, mas exigem obediência jurídica dos outros. Essa assimetria revela que, sob o império, a lei internacional é seletiva.

A prisão seletiva é método recorrente. Ela não busca justiça; busca pedagogia. Ensina aos demais o preço da desobediência. O mesmo mecanismo aparece na perseguição a Julian Assange, nas extradições assimétricas, nas sanções que punem povos inteiros. A punição não é jurídica; é política.

Guantánamo permanece como símbolo máximo dessa ruptura civilizacional. Uma prisão fora do direito, em território ocupado, onde pessoas ficaram décadas sem acusação formal, sem julgamento e sem garantias legais. Um campo de exceção moderno que expõe o colapso ético do discurso democrático ocidental. Como falar em direitos humanos com Guantánamo aberto? Como celebrar prisões seletivas como atos civilizatórios?

A seletividade moral se repete nas alianças. Ditaduras são toleradas quando garantem petróleo, rotas comerciais e estabilidade para o capital. A Arábia Saudita, regime brutal, responsável por assassinatos políticos e pela devastação do Iêmen, jamais foi tratada como ameaça à democracia. Ditadores só se tornam problema quando desobedecem.

No plano global, a invasão da Ucrânia pela Rússia é criminosa e deve ser denunciada sem relativizações. Trata-se de uma violação clara do direito internacional. Contudo, a indignação seletiva do Ocidente compromete sua credibilidade. Onde estavam as sanções quando o Iraque foi invadido? Onde estava a comoção quando drones norte-americanos matavam famílias inteiras no Oriente Médio? Se o crime depende do passaporte de quem o comete, não é justiça — é propaganda.

O cerco a Taiwan revela que o mundo vive uma nova Guerra Fria, agora multipolar. Não se trata de disputa ideológica, mas de controle de tecnologia, semicondutores, dados, rotas marítimas e cadeias produtivas. Estados Unidos e China disputam poder. Os valores são retórica. O risco de escalada militar é estrutural — e, como sempre, os povos pagarão a conta.

Na América Latina, o velho fantasma do comunismo volta a ser agitado. A extrema-direita recicla o discurso do narcoterrorismo para criminalizar políticas sociais, movimentos populares e governos eleitos. Trata-se da atualização da doutrina da guerra interna. Não se combate o crime organizado com slogans ideológicos, mas com justiça social, políticas públicas e redução das desigualdades que o próprio capitalismo produz.

Enquanto isso, o neoliberalismo permanece blindado. Não é tratado como ideologia, mas como natureza. Seus fracassos são naturalizados; suas vítimas, culpabilizadas. Ele opera como uma teologia secular: transforma o mercado em dogma, a austeridade em virtude e o sofrimento social em sacrifício necessário. Questioná-lo vira heresia. Aceitá-lo, mesmo diante do colapso social e climático, vira “realismo”.

A verdade incômoda é que muitos conflitos contemporâneos têm raízes diretas na disputa por recursos naturais — petróleo, gás, lítio, água, rotas estratégicas e tecnologia. Controle energético significa poder. A democracia só é invocada quando serve a esse objetivo. Quando atrapalha, é descartada.

A história ensina que impérios não caem por falta de força militar, mas por excesso de arrogância. Roma, Espanha, Inglaterra — todos ruíram corroídos por dentro. Os Estados Unidos acumulam guerras, sanções e alianças espúrias que corroem sua autoridade moral. Isso não absolve autoritarismos rivais nem romantiza regimes opressivos de outro sinal ideológico. Obriga, porém, a romper com a narrativa infantil que divide o mundo entre “bons” e “maus” conforme a conveniência do mercado.

O maior perigo do nosso tempo não é o comunismo, nem o terrorismo, nem a China ou a Rússia. O maior perigo é a normalização de um mundo em que a lei serve aos fortes, a guerra vira virtude e a prisão seletiva substitui tribunais. Quando a força define a justiça, o problema não é a ausência de democracia — é o excesso de império. Enquanto essa lógica não for enfrentada, novos inimigos invisíveis continuarão sendo fabricados, novas guerras legitimadas, novos povos sacrificados. E, como sempre, serão os povos — e não os impérios — que pagarão o preço.

Prof. DNonato – Graduado em História

domingo, 16 de novembro de 2025

Quando o Norte sopra guerra sobre o Sul

Há algo de profundamente perverso quando o vento frio do Norte começa a soprar notícias de guerra sobre o Sul. De repente, o que era paz — ainda que uma paz ferida pelas dificuldades do cotidiano — vira palco de narrativas forjadas, discursos inflamados e movimentações militares com cheiro de repetição histórica. Desta vez, o alvo é a Venezuela. O temor? Um conflito com os Estados Unidos. Mas ninguém que conheça a história recente cai nessa conversa mole de “combate às drogas”, “defesa da democracia” ou “proteção da soberania”. É o mesmo teatro, só mudam os figurantes.

Porque os Estados Unidos têm um dom raro: o de criar problemas em lugares onde antes havia apenas dificuldades internas, e não guerras. É como se trouxessem na bagagem, além de diplomatas e estratégias, um fósforo aceso. Empurram o fósforo para perto do barril de pólvora e depois posam de bombeiros internacionais.

Conhecemos essa peça. O manual não muda, e não é segredo. Lá atrás, no século passado, esse mesmo discurso inflamado serviu para justificar golpes militares em toda a América Latina. Chile, Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai… todos alvos de “operações de contenção do comunismo”. Os documentos da CIA abertos anos depois revelaram o que já se sabia: nada tinha a ver com liberdade ou soberania; tinha a ver com interesses, petróleo, minérios, influência e medo histérico de qualquer país do Sul que tentasse levantar a cabeça.

O roteiro sempre se repete: primeiro vem a construção do inimigo. Depois, as evidências frágeis, as acusações sem lastro, o moralismo hipócrita. E, por fim, a “intervenção humanitária”. O caso do Iraque é o exemplo cristalino. Espalharam ao mundo inteiro a suposta existência de armas de destruição em massa. Criaram pânico, filmaram reuniões solenes na ONU, inflaram o noticiário. Depois invadiram, mataram centenas de milhares, destruíram infraestrutura, desestabilizaram toda uma região. E quando as tais armas não apareceram — porque nunca existiram — deram de ombros. Era tarde demais para pedir desculpas aos mortos.

E quando falamos do Iraque e do Afeganistão, falamos de duas cicatrizes abertas pela mão pesada dos Estados Unidos. No Afeganistão, em 2001, invadiram sob o pretexto de caçar Osama bin Laden e destruir a Al-Qaeda, mas permaneceram vinte anos, sustentando uma guerra interminável que matou mais de 170 mil pessoas e terminou com o Talibã de volta ao poder. Já no Iraque, em 2003, usaram uma mentira monumental — as tais “armas de destruição em massa” — para justificar uma invasão que deixou mais de um milhão de mortos e deu origem ao Estado Islâmico. Nenhuma arma foi encontrada. Nenhuma desculpa foi dada. E o mundo seguiu como se destruir países inteiros fosse parte natural da

diplomacia.

E quando não são os Estados Unidos, é algum de seus aliados históricos atuando no mesmo tabuleiro da violência global. Basta lembrar que o próprio Japão, antes de se tornar aliado, havia sido potência imperialista no final do século XIX, invadindo Coreia, partes da China e várias regiões da Ásia sob o discurso de “modernização” e “ordem”. A história sempre repete esse cinismo: os impérios criam suas guerras e depois acusam os outros de ameaça. E o fim daquela era de expansão japonesa encontrou a mão pesada do Ocidente em sua forma mais brutal: as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Duas cidades pulverizadas em segundos, mais de 200 mil mortos, e até hoje nenhum argumento convincente capaz de justificar tamanha monstruosidade. A primeira demonstração do que acontece quando uma potência decide que o outro lado do mundo é apenas um tabuleiro.

E se as bombas não bastassem como prova, basta lembrar do Vietnã. A guerra que os EUA disseram ser para “conter o avanço comunista” transformou o Sudeste Asiático em campo de testes armamentista: napalm, agente laranja, bombardeios incessantes, aldeias inteiras destruídas e mais de três milhões de mortos. E no fim, depois de tanto horror, a potência que dizia defender a liberdade saiu derrotada por um povo pobre, camponês, mas orgulhoso — provando que imperialismo pode matar, mas não consegue vencer a dignidade de um povo que resiste.

Agora, com a Venezuela, inventam a narrativa do “narcoterrorismo”, como se os EUA não fossem historicamente o maior consumidor de drogas ilícitas do planeta. Desde os anos 80, está documentado o envolvimento de setores do próprio governo norte-americano com o tráfico para financiar guerras clandestinas. Querem mesmo falar de drogas? Pois que olhem para dentro.

E o que dói é ver como arrastam para o Sul — essa região que, apesar de suas muitas feridas, ainda respira paz — a possibilidade de um conflito que não nasceu aqui. Uma guerra que não nos pertence, mas que pode nos atingir como escombros de um prédio que desaba longe. Os EUA sempre foram eficientes em levar seus fantasmas para passear, e cada vez que passeiam, alguém perde a vida em nome da “liberdade”.

A verdade é que não existe inocência nessa geopolítica. Por trás da fumaça do discurso moralista, está a busca por controle: controle de território, controle de rotas, controle de petróleo, controle de influência. O Sul é visto, historicamente, como quintal — e quintal, na cabeça deles, não tem autonomia. E caso tente ter, surgem logo palavras bonitas: defesa da democracia, combate ao totalitarismo, proteção da soberania.

E não podemos esquecer que essa ameaça de guerra não é apenas contra a Venezuela. Ela se derrama sobre toda a América Latina como sombra antiga. É a reedição do velho discurso anticomunista que serviu para legitimar torturas, assassinatos, ditaduras e submissões durante todo o século XX.

O Sul não precisa de bombas. O Sul precisa de comida, de escolas, de saneamento, de futuro. Mas o Norte insiste em trazer guerra para uma região que ainda tenta, apesar de tudo, costurar sua própria paz.

No fim, essa história toda tem um nome simples: imperialismo.

Mas eles preferem chamar de “missão de defesa de combate  as drogas etc”.

E nós aqui, sabendo ler o mundo, olhamos para o céu e vemos nuvens pesadas se formando. Não são nossas, não são daqui. Mas, como sempre, é sobre nós que a chuva ameaça cair.

DNonato - Teólogo do Cotidiano