segunda-feira, 22 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 7,6.12-14

A perícope de Mateus 7,6.12-14 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana na quarta-feira da 12ª Semana do Tempo Comum. Trata-se de uma passagem situada na conclusão do Sermão da Montanha, um dos textos mais importantes de todo o Novo Testamento. O Sermão da Montanha ocupa os capítulos 5 a 7 do Evangelho segundo Mateus e constitui a primeira grande instrução de Jesus aos seus discípulos. Nas Igrejas Ortodoxas, nas antigas Igrejas Orientais e em diversas comunidades históricas oriundas da Reforma, os ensinamentos do Sermão da Montanha também ocupam lugar central na formação espiritual e moral dos fiéis. Não por acaso, muitos Padres da Igreja consideravam esses capítulos como a síntese mais completa da vida cristã. Ao chegarmos a Mateus 7,6.12-14, estamos diante da conclusão de um longo itinerário espiritual. Desde as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), Jesus vem formando uma nova consciência humana e religiosa. Os pobres em espírito são proclamados felizes, os    mansos recebem a promessa da terra, os misericordiosos alcançam misericórdia, os promotores da paz são chamados filhos de Deus. Em seguida, Jesus apresenta seus discípulos como sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16), interpreta a Lei à luz do amor (Mt 5,17-48), ensina a oração do Pai-Nosso (Mt 6,9-13), denuncia a hipocrisia religiosa (Mt 6,1-18), critica a idolatria das riquezas (Mt 6,19-24), convida à confiança na providência divina (Mt 6,25-34) e adverte contra o julgamento hipócrita do próximo (Mt 7,1-5). A porta estreita, portanto, não é um ensinamento isolado. Ela representa a consequência prática de tudo aquilo que foi ensinado anteriormente.

O primeiro versículo da perícope afirma: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis vossas pérolas aos porcos” (Mt 7,6). Para compreender essa afirmação é necessário situá-la em seu contexto histórico. No mundo judaico do século I, cães e porcos eram frequentemente associados à impureza ritual. O porco era considerado animal impuro segundo Levítico 11,7. O cão, diferentemente da imagem afetuosa comum em muitas culturas atuais, era geralmente visto como animal errante e agressivo. Jesus utiliza essas imagens não para desumanizar pessoas, mas para ensinar discernimento. O tema do discernimento atravessa toda a Escritura. O livro dos Provérbios afirma: “Não repreendas o zombador para que ele não te odeie; repreende o sábio e ele te amará” (Pr 9,8). Também lemos: “Não fales aos ouvidos do insensato, porque desprezará a sabedoria de tuas palavras” (Pr 23,9). A literatura sapiencial reconhece que nem todos estão igualmente abertos à verdade. O próprio Jesus experimentou essa realidade quando foi rejeitado em Nazaré (Lc 4,16-30). Paulo e Barnabé viveram situação semelhante quando parte de seus ouvintes recusou a mensagem do Evangelho (At 13,44-46).

As pérolas simbolizam aquilo que possui valor inestimável. Em Mateus 13,45-46, o Reino dos Céus é comparado a uma pérola preciosa pela qual vale a pena vender tudo. A advertência de Mateus 7,6 recorda que o sagrado não pode ser banalizado. Em uma cultura marcada pela espetacularização da religião, pela transformação da fé em mercadoria e pelo uso da espiritualidade como instrumento de autopromoção, esse ensinamento torna-se extraordinariamente atual. Vivemos uma época em que muitos transformam o Evangelho em produto de consumo. A lógica do mercado invade o espaço da fé. Multiplicam-se promessas de prosperidade financeira, fórmulas mágicas de sucesso espiritual e discursos religiosos moldados pelas exigências do marketing. Jesus recorda que as pérolas do Reino não são mercadorias. A graça não pode ser comprada. A fé não pode ser comercializada. A salvação não se encontra à venda. Depois dessa advertência, o Evangelho apresenta uma das maiores sínteses éticas de toda a Bíblia: “Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles, pois nisso consistem a Lei e os Profetas” (Mt 7,12). Essa afirmação é conhecida como Regra de Ouro. Embora existam formulações semelhantes em outras tradições religiosas antigas, Jesus oferece uma formulação positiva e ativa. Não basta evitar fazer o mal. É necessário praticar o bem.

A Regra de Ouro possui raízes profundas no Antigo Testamento. Em Levítico 19,18 encontramos: “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Poucos versículos depois, o mesmo capítulo afirma: “Amarás o estrangeiro como a ti mesmo” (Lv 19,34). Em Deuteronômio 10,18-19, Deus é apresentado como aquele que ama o estrangeiro, o órfão e a viúva. O amor ao próximo não é uma invenção do Novo Testamento. Trata-se do coração da revelação bíblica. Os profetas aprofundaram essa compreensão. Isaías denuncia uma religião incapaz de produzir justiça social: “Aprendei a fazer o bem; procurai o direito; socorrei o oprimido” (Is 1,17). Jeremias condena aqueles que enriquecem à custa da exploração dos pobres (Jr 22,13-17). Amós proclama uma das críticas mais contundentes de toda a Escritura: “Corra o direito como água e a justiça como um rio caudaloso” (Am 5,24). Miqueias resume a vontade de Deus em três atitudes fundamentais: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus” (Mq 6,8). Quando Jesus afirma que a Regra de Ouro resume “a Lei e os Profetas”, ele está dizendo que toda a Escritura converge para a prática do amor. O mesmo ensinamento reaparece em Mateus 22,37-40, quando o amor a Deus e ao próximo são apresentados como fundamento de toda a Lei. Paulo desenvolve essa perspectiva ao afirmar que “o amor é o pleno cumprimento da Lei” (Rm 13,10). Tiago fala da “lei régia” (Tg 2,8). João declara que quem não ama seu irmão não pode amar a Deus a quem não vê (1Jo 4,20).

 O ser humano é essencialmente relacional. Ninguém constrói sua identidade sozinho. Somos formados por vínculos, encontros e reciprocidades. Quando a sociedade rompe esses laços, surgem o isolamento, a violência e a desumanização. A Regra de Ouro questiona frontalmente a cultura do individualismo. Em uma sociedade organizada pela competição, pelo consumismo e pela busca incessante de vantagens pessoais, Jesus propõe uma lógica alternativa: 

  • O outro não é concorrente. 
  • O outro é irmão. 
  • O próximo não é obstáculo. 
  • O próximo é lugar de manifestação da presença divina.ssa compreensão alcança seu ponto máximo na parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). 
Enquanto representantes da religião oficial passam ao largo do homem ferido, um estrangeiro considerado impuro torna-se exemplo de humanidade. Jesus redefine o conceito de próximo. O próximo não é apenas aquele que pertence ao meu grupo. O próximo é qualquer pessoa cuja dor eu sou capaz de reconhecer. O mesmo princípio reaparece em Ma teus 25,31-46. No Juízo Final, Cristo identifica-se com os famintos, os sedentos, os migrantes, os doentes e os encarcerados. A espiritualidade cristã deixa de ser mera prática ritual para tornar-se compromisso concreto com a dignidade humana..Nesse ponto, torna-se impossível ignorar as enormes contradições de nosso tempo. A desigualdade social continua produzindo sofrimento em escala global. Milhões de pessoas vivem sem acesso adequado à alimentação, à saúde, à educação e à moradia. Ao mesmo tempo, pequenas parcelas da população concentram riquezas sem precedentes. A tradição profética da Bíblia não permite neutralidade diante dessa realidade. O Deus que ouviu o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7-10) continua ouvindo o clamor das vítimas da exclusão contemporânea. O Deus que instituiu o Jubileu para impedir a concentração absoluta de riqueza (Lv 25) continua chamando a humanidade à justiça distributiva e à solidariedade.

A Igreja latino-americana desenvolveu a reflexão sobre a opção preferencial pelos pobres:

  •  Medellín denunciou as estruturas injustas que produzem miséria. 
  • Puebla reconheceu nos pobres o rosto sofredor de Cristo. 
  • Santo Domingo reafirmou a dignidade humana como fundamento da ação evangelizadora. 
  • Aparecida insistiu que os discípulos missionários devem promover vida plena para todos..

A Igreja como Mãe  vem nos falar 

  • Na Constituição Gaudium et Spes ensina que as alegrias e esperanças dos pobres são também as alegrias e esperanças da Igreja,  
  • Na Evangelii Nuntiandi recorda que evangelização e promoção humana estão profundamente ligadas. 
  • Na Evangelii Gaudium denuncia uma economia da exclusão que mata. 
  • Na Fratelli Tutti convida à construção de uma fraternidade universal capaz de superar as divisões do mundo contemporâneo.

É precisamente nesse contexto que a advertência sobre a porta estreita adquire significado especial. Jesus afirma: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição” (Mt 7,13). A imagem dos dois caminhos remonta às tradições mais antigas de Israel. Moisés declara ao povo: 

  • Hoje coloco diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).

O Salmo 1 apresenta o caminho dos justos e o caminho dos ímpios. Jeremias distingue entre aquele que confia em Deus e aquele que deposita sua confiança apenas em si mesmo (Jr 17,5-8). Provérbios adverte: “Há caminho que parece reto ao homem, mas seu fim conduz à morte” (Pr 14,12). Jesus retoma essa tradição para mostrar que toda existência humana implica escolhas. Não existe neutralidade diante do Reino de Deus. A porta larga representa o caminho da acomodação. É a rota da indiferença diante do sofrimento alheio. É a lógica da acumulação sem partilha. É o caminho da busca desenfreada pelo poder. É a religião utilizada como instrumento de dominação.

A porta estreita, por sua vez, representa o caminho das Bem-aventuranças. É a escolha da misericórdia em vez da vingança. É a escolha da justiça em vez da opressão. É a escolha da verdade em vez da manipulação. É a escolha da fraternidade em vez da exclusão. Essa imagem pode ser lida também à luz do Êxodo. O povo de Israel precisou abandonar o Egito para alcançar a liberdade. A travessia do deserto foi longa e difícil. O caminho da escravidão era mais confortável porque era conhecido. O caminho da liberdade exigia confiança. O mesmo acontece com o discípulo de Jesus. A porta estreita é uma travessia permanente. Significa abandonar os velhos mecanismos de egoísmo e abrir-se à novidade do Reino..No mundo contemporâneo, a porta larga assume múltiplas formas. Ela aparece na idolatria do mercado,  na cultura da indiferença, manifesta-se no racismo, na xenofobia, no machismo, no desprezo pelos pobres e na banalização da violência. Aparece também quando a religião é instrumentalizada para sustentar projetos de poder. 

  •  Isaías condenou governantes que criavam leis injustas (Is 10,1-2). 
  • Jeremias denunciou aqueles que transformavam a religião em cobertura para a opressão (Jr 7,1-15). 
  • Ezequiel criticou pastores que cuidavam de si mesmos e abandonavam o rebanho (Ez 34,1-16).

Jesus segue essa mesma tradição profética. Em Mateus 23, ele dirige suas palavras mais severas aos líderes religiosos que utilizavam a fé para obter prestígio e poder. Não critica a religião em si, mas sua deformação. Por isso, qualquer forma de teologia que transforme Deus em instrumento de enriquecimento contradiz o Evangelho. A teologia da prosperidade entra em conflito direto com as Bem-aventuranças, com a vida de Jesus e com a tradição profética. Da mesma forma, toda tentativa de identificar o Reino de Deus com projetos nacionalistas, autoritários ou ideológicos esvazia a radicalidade do Evangelho. Quando a fé deixa de servir aos pobres para servir aos poderosos, ela perde sua dimensão profética. Quando a religião se torna mecanismo de controle social, abandona o caminho de Jesus. Quando líderes religiosos se colocam acima do povo, surge aquilo que o magistério contemporâneo chama de clericalismo. Jesus propõe outra lógica. “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos” (Mc 10,44). No lava-pés (Jo 13,1-15), o Mestre transforma o serviço em critério de autoridade. Em Filipenses 2,5-11, Paulo apresenta Cristo que se esvazia de si mesmo e assume a condição de servo. A verdadeira grandeza não consiste em dominar, mas em servir.

A porta estreita conduz inevitavelmente ao mistério da cruz. “Quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). A cruz não significa busca do sofrimento. Significa fidelidade ao amor em um mundo frequentemente estruturado pelo egoísmo. 

  • É o caminho dos profetas.
  •  É o caminho dos apóstolos. 
  • É o caminho dos mártires. 
Mas a cruz não é o destino final. O caminho estreito desemboca na ressurreição, o Deus que libertou Israel da escravidão, que ressuscitou Jesus dentre os mortos e que sustenta a esperança dos pobres continua conduzindo a história. Isaías contempla novos céus e nova terra (Is 65,17-25),  Paulo afirma que toda a criação geme aguardando sua libertação (Rm 8,18-25) e o Apocalipse anuncia o dia em que Deus enxugará toda lágrima dos olhos humanos e não haverá mais morte, luto ou dor (Ap 21,1-5). É para essa esperança que aponta a porta estreita, 

  • Ela não conduz ao isolamento, mas à comunhão. 
  • Não conduz à opressão, mas à liberdade. 
  • Não conduz ao medo, mas à confiança. 
  • Não conduz à morte, mas  à vida.

Mateus 7,6.12-14 revela, portanto, uma síntese admirável de toda a mensagem bíblica. O discernimento diante do sagrado, a prática concreta do amor ao próximo e a escolha do caminho do Reino constituem o coração da existência cristã. Na atualidade  marcada pela desigualdade, pela manipulação religiosa, pela violência e pela crise de sentido, essas palavras continuam ecoando com extraordinária atualidade. Elas chamam cada discípulo a escolher a vida, a justiça e a misericórdia; a rejeitar a idolatria do poder e a assumir a lógica do serviço; a abandonar a indiferença e a tornar-se sinal do Reino de Deus no meio da história. É esse o caminho percorrido por Jesus de Nazaré,. é esse o caminho proposto à Igreja e é esse o caminho que continua aberto diante de toda pessoa que deseja transformar o mundo à luz do Evangelho.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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