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quinta-feira, 19 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 1,16.18-21.24a - São José Patriarca da Igreja.

 A perícope de Mateus 1,16.18-21.24a é proclamada de modo solene na liturgia da Igreja em dois momentos particularmente significativos. Primeiramente, na Solenidade de São José, esposo da Virgem Maria, celebrada em 19 de março, quando a Igreja contempla sua missão singular no mistério da encarnação e sua participação silenciosa, porém decisiva, na história da salvação. Em segundo lugar, essa mesma tradição narrativa aparece no tempo do Advento, sobretudo nos dias que antecedem o Natal no dia 18 de dezembro, quando a comunidade cristã é conduzida a meditar sobre a origem de Jesus e o modo como Deus entra na história humana por vias inesperadas com texto mais ampllo Mateus 1, 18-24. Nas Igrejas do Oriente, ainda que com calendários distintos, José é igualmente venerado como o justo, inserido no desígnio divino, sendo recordado nas celebrações ligadas à Natividade e à economia da salvação.

O texto de Mateus se abre após a genealogia que culmina em José, esposo de Maria, da qual nasce Jesus chamado Cristo, conforme Mateus 1,16. Essa genealogia, iniciada em Mateus 1,1, não é uma lista meramente histórica, mas uma proclamação teológica. Ela conecta Jesus a Abraão, em Gênesis 12,3, e a Davi, em 2Samuel 7,12-16, revelando que nele se cumprem as promessas feitas ao povo de Israel. José, embora não seja pai biológico, exerce uma paternidade legal que insere Jesus nessa linhagem. Aqui se manifesta um dado fundamental da teologia bíblica: Deus age na história concreta, assumindo suas mediações humanas, inclusive aquelas marcadas por limites e ambiguidades.

O drama narrado em Mateus 1,18-19 se desenrola no contexto do judaísmo do século I, sob o domínio do Império Romano. A sociedade era estruturada por códigos de honra e vergonha, e o matrimônio possuía etapas jurídicas bem definidas. O noivado já era juridicamente vinculante. Ao constatar a gravidez de Maria, José se vê diante de um dilema profundo. A Lei, conforme Deuteronômio 22,23-27, poderia exigir punição severa. No entanto, o texto afirma que ele era justo. Essa justiça não pode ser reduzida a legalismo. Ela se aproxima daquilo que Miqueias 6,8 define como fazer o bem, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. José encarna uma justiça que integra verdade e compaixão, antecipando o ensinamento de Jesus em Mateus 9,13, que retoma Oséias 6,6 ao afirmar que Deus quer misericórdia e não sacrifício.

O silêncio de José é um dos elementos mais eloquentes da narrativa. Ele não pronuncia palavras, mas sua vida se torna linguagem. Em Provérbios 17,28, até o insensato, quando se cala, passa por sábio. Em José, o silêncio não é ausência, mas escuta. Ele se insere na tradição dos que ouvem Deus no recolhimento, como Samuel em 1Samuel 3,10. Os sonhos, recorrentes em Mateus 1,20; 2,13; 2,19; 2,22, revelam essa dimensão. Assim como José do Egito em Gênesis 37,5-11 e Daniel em Daniel 2,19, ele se torna intérprete da ação divina na história. O sonho, no universo bíblico, é espaço de revelação, onde Deus comunica seu projeto a corações disponíveis.

O anúncio do anjo em Mateus 1,20 introduz o mistério da ação do Espírito Santo. O Espírito, presente desde Gênesis 1,2 como sopro criador, é força de vida que transforma o caos em ordem. Em Isaías 11,2, ele é fonte de sabedoria, entendimento e fortaleza. A concepção de Jesus pelo Espírito revela uma nova criação. Não se trata apenas de um evento extraordinário, mas da inauguração de um tempo novo, onde Deus age de modo decisivo na história humana.

O nome Jesus, dado em Mateus 1,21, carrega um programa teológico. Ele significa “Deus salva”. Essa salvação não é apenas individual, mas histórica e estrutural. Em Salmos 130,8, Deus promete libertar Israel de suas culpas. Em Isaías 53,5, o Servo sofre pelas iniquidades do povo. Mateus apresenta Jesus como aquele que realiza essa promessa. Em Romanos 5,12, Paulo mostra como o pecado entrou no mundo, e em Romanos 8,19-22, fala de toda a criação que geme aguardando redenção. A missão de Jesus, portanto, atinge tanto o coração humano quanto as estruturas que geram morte.

A obediência de José, descrita em Mateus 1,24, é imediata e concreta. Ele não apenas compreende, mas age. Em Tiago 1,22, somos exortados a ser praticantes da Palavra, não apenas ouvintes. José encarna essa atitude. Sua fé não é abstrata, mas encarnada em decisões concretas que implicam risco, renúncia e confiança. Ele se aproxima de Abraão em Gênesis 22, que obedece sem compreender plenamente, confiando na fidelidade de Deus.

O Evangelho de Mateus continua a apresentar José como guardião da vida. Em Mateus 2,13-15, ele protege o menino da violência de Herodes, fugindo para o Egito. Esse episódio ecoa a história de Israel, especialmente Êxodo 1,22, onde o faraó ordena a morte dos meninos hebreus. Em Mateus 2,16-18, o massacre dos inocentes revela a brutalidade do poder político quando ameaçado. José, ao proteger Jesus, torna-se símbolo de todos os que defendem a vida em contextos de opressão. Ele se conecta com a exigência de Levítico 19,34 de acolher o estrangeiro, pois ele mesmo experimenta a condição de migrante.

Lucas complementa essa visão ao mostrar José conduzindo Maria a Belém em Lucas 2,4-5, inserindo Jesus na cidade de Davi. Em Lucas 2,51, Jesus lhes é submisso, revelando a dimensão humana de sua formação. Em Marcos 6,3 e João 6,42, Jesus é identificado como filho do carpinteiro, indicando sua inserção na classe trabalhadora. Isso tem implicações profundas para a teologia da encarnação. Deus não se manifesta nos centros de poder, mas na periferia, em Nazaré, como já sugerido em João 1,46.

Os escritos apócrifos oferecem algumas curiosidades que, lidas com discernimento, enriquecem a contemplação. O Protoevangelho de Tiago, do século II, apresenta José como escolhido por sinal divino, com a imagem simbólica do bastão que floresce, evocando Números 17,8. Esse símbolo expressa eleição e confirmação divina. O texto também sugere que José poderia ser mais velho, uma tradição que buscava enfatizar a singularidade da maternidade de Maria. Alguns Padres utilizaram essa hipótese para interpretar os “irmãos de Jesus” mencionados em Marcos 6,3.

Outro escrito, a História de José Carpinteiro, apresenta José como homem justo que morre assistido por Jesus e Maria. Essa tradição contribuiu para que ele fosse reconhecido como padroeiro da boa morte, em harmonia com Salmos 23,4, onde Deus acompanha o justo no vale da sombra da morte. Embora não canônicos, esses textos revelam como as primeiras comunidades refletiam sobre a figura de José, sempre buscando preservar o núcleo do Evangelho.

Ao longo dos séculos, a Igreja reconheceu em José diversos títulos que expressam sua missão. Ele é Esposo da Virgem Maria, Guardião do Redentor, Patrono da Igreja Universal, título proclamado por Pio IX, Pai Nutritivo de Jesus, Servo fiel e prudente, à luz de Mateus 24,45, e também Protetor dos trabalhadores. A memória de São José Operário, celebrada em 1º de maio, insere sua figura na dignidade do trabalho humano, como em Gênesis 2,15 e 2Tessalonicenses 3,10. Ele é ainda invocado como Terror dos demônios, expressão da tradição espiritual que reconhece sua fidelidade como resistência ao mal, conforme Tiago 4,7.

O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, ilumina a figura de José ao destacar a santidade vivida no cotidiano e a dignidade da vida humana. A exortação Redemptoris Custos aprofunda essa compreensão, apresentando José como modelo de paternidade responsável, marcada pela escuta e pela entrega.

Na perspectiva latino-americana, documentos como Medellín, Puebla e Aparecida ressaltam a opção preferencial pelos pobres. José, carpinteiro de Nazaré, insere-se nesse horizonte. Ele vive a realidade dos trabalhadores, distante das elites religiosas e políticas. Em Sofonias 3,12, Deus promete deixar um povo humilde e pobre que confia em seu nome. José é expressão dessa espiritualidade.

Essa figura confronta diretamente as distorções contemporâneas da fé. A teologia da prosperidade, ao associar bênção à riqueza, é desmentida pela vida de José, marcada pela simplicidade e pela luta cotidiana. Em Mateus 6,24, Jesus afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. José escolhe servir a Deus, não ao poder. Em um tempo de deformação da missão eclesial, encontra em José um contraponto radical. Ele exerce autoridade sem dominação, liderança sem imposição. Em Marcos 10,45, Jesus define o verdadeiro poder como serviço. José vive essa lógica antes mesmo de ser explicitada e vivemos  no tempo que muitos usam  da religião para fins políticos e ideológicos também é desafiada por essa narrativa. Em Mateus 23,13-28, Jesus denuncia líderes religiosos que oprimem o povo. José, ao contrário, protege, acolhe e cuida. Sua justiça é libertadora, não opressora.

No contexto contemporâneo, marcado por desigualdade, violência e crise de sentido, José se torna figura profundamente atual. Ele representa o trabalhador precarizado, o pai que luta para sustentar sua família, o migrante que foge da violência. Em Mateus 25,35-40, Jesus se identifica com os pequenos. José, ao proteger Jesus, protege o próprio Deus vulnerável.

José revela maturidade afetiva e espiritual. Ele enfrenta o conflito, discerne e decide. Em Filipenses 4,6-7, Paulo fala da paz que guarda o coração. José experimenta essa paz ao confiar em Deus, mesmo sem compreender plenamente. 

O modelo da pessoa humana José  da Galileia, o carpinteiro  nos  conduz à contemplação de uma fé encarnada, concreta e comprometida. Ele  não é figura secundária, mas protagonista silencioso da história da salvação. Ele é ponte entre promessa e cumprimento, entre Antigo e Novo Testamento. Sua vida revela que Deus age na simplicidade, na fidelidade cotidiana, na escuta atenta.

Diante disso, somos  é chamados  a reencontrar nossa  vocação profética. Não podemos  nos aliarnos aos  projetos de poder que negam o Evangelho, nem reduzir a fé a instrumento de dominação. Devemos, como José, proteger a vida, acolher o diferente e discernir a vontade de Deus na história. PA Boa Nova proclamada em Mateus continua viva. Ela se atualiza sempre que alguém escolhe a justiça que nasce da misericórdia, a obediência que brota da escuta e a coragem de participar do projeto de Deus. Assim como José acolheu o mistério em sua casa, cada comunidade é chamada a acolher o Cristo na realidade concreta, tornando-se sinal de esperança em um mundo ferido.

São José permanece como testemunha de que a verdadeira grandeza não está no poder visível, mas na fidelidade escondida que sustenta a vida e abre caminhos para a ação de Deus na história.



DNonato - Teólogo dos Cotidianos

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 17,14-20

“Do Monte à Luta: a fé que desce para libertar”

O relato de Mateus 17,14-20, proclamado no sábado da 18ª semana do Tempo Comum, e ecoado com variações em Marcos 9,14-29 e Lucas 9,37-43, nos coloca diante de um ponto decisivo da vida cristã: a fé que se prova no confronto com o sofrimento. Liturgicamente, ele surge no tempo comum, mas seu alcance ultrapassa esta moldura: encontra ressonância em ritos penitenciais, momentos de libertação e catequeses sobre oração perseverante. O texto se abre quando Jesus desce do monte da Transfiguração — cenário de luz e voz divina — e encontra no vale um pai aflito, um filho atormentado, discípulos impotentes e uma multidão confusa. É o choque entre o alto e o baixo, o êxtase e a dor, lembrando Moisés que, ao descer do Sinai, depara com o povo adorando o bezerro de ouro (Ex 32). Toda experiência autêntica de Deus é provada no chão da história. 

O pai se aproxima: “Senhor, tem piedade do meu filho” (Mt 17,15). No grego, selēniazetai, “sofrer influência da lua”, revela uma mentalidade antiga em que o mal físico, psíquico e espiritual eram entrelaçados. Mateus narra de modo sintético; Marcos amplia, mostrando que o mal o atormenta “desde a infância” (Mc 9,21), e registra o clamor paradoxal: “Eu creio! Ajuda a minha falta de fé!” (Mc 9,24). Aqui a psicologia se entrelaça à teologia: fé não é ausência de dúvida, mas entrega confiante mesmo no medo. É a coragem de se lançar na escuridão confiando que há mãos que sustentam.

Jesus responde com dureza: “Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco?” (Mt 17,17), ecoando Deuteronômio 32,5. É denúncia contra a fé domesticada, que prefere fórmulas e aparências a um abandono real em Deus. Lucas acrescenta que, após a cura, “todos ficaram maravilhados com a grandeza de Deus” (Lc 9,43), lembrando que o milagre não é espetáculo, mas sinal do Reino. Os Padres da Igreja liam o “demônio” tanto como realidade espiritual quanto como símbolo das forças que desintegram a pessoa e a sociedade: paixões desordenadas, idolatria do poder, sistemas de opressão. No mundo de hoje, essas forças têm rostos concretos: redes que exploram vulneráveis, economias que descartam vidas, discursos que incendeiam ódios. São realidades que continuam a lançar muitos “no fogo e na água” (Mt 17,15).

Os discípulos, intrigados com seu fracasso, ouvem de Jesus: “Por causa da pequenez da vossa fé” (Mt 17,20). No original, oligopistía designa uma fé atrofiada, não a falta absoluta, mas a que não se desenvolve por falta de exercício. Jesus fala então do grão de mostarda, a menor das sementes cultivadas, mas que, plantada, torna-se abrigo para aves (Mt 13,31-32). Aqui o arco bíblico se expande: Ezequiel 17,22-24 anuncia um ramo que se torna árvore; Daniel 2,35 descreve a pedra que cresce e enche a terra. Sempre, o pequeno que, nas mãos de Deus, se torna grande. É também a fé de Davi diante de Golias (1Sm 17), que não confia em armaduras, mas no Senhor.

Marcos acrescenta que “esta espécie só pode ser expulsa por meio da oração” (Mc 9,29), e alguns manuscritos incluem “e jejum”. A tradição, desde a Didaché (cap. 8), une oração e penitência como prática de libertação. Orígenes via nisso o chamado a um vínculo profundo com Deus; São João Crisóstomo via a “montanha” como as provações que só cedem diante da perseverança; Santo Agostinho recordava que fé sem amor operante (Gl 5,6) é estéril. A Gaudium et Spes (n. 43) reforça: fé que não se traduz em compromisso com a vida social é incoerente com o Evangelho.

Essa passagem desmonta distorções modernas: a teologia da prosperidade que faz de Deus um fornecedor condicionado; a teologia do domínio que sacraliza autoritarismos; o individualismo espiritual que busca salvação privada sem tocar o sofrimento alheio; e o clericalismo que concentra carismas e apaga o protagonismo dos leigos. A Fratelli Tutti (n. 222) adverte contra ideologias que sequestram a fé para reforçar divisões. Tudo isso são formas de incredulidade prática: proclamam Cristo, mas não confiam no seu caminho.. 

O pai do Evangelho é hoje o rosto de pais e mães que lutam com filhos em depressão, dependência química, risco de violência, sem rede de apoio. O menino é imagem de quem carrega traumas, feridas sociais, dores herdadas. Psicologicamente, representa o aprisionamento interno; sociologicamente, o fruto de sistemas injustos; espiritualmente, a humanidade carente de libertação. A fé que Jesus exige não é fé de palco ou slogans religiosos, mas aquela que se ajoelha, chora, suplica, espera e age.

O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium (n. 262), afirma que a fé verdadeira traz “um profundo desejo de mudar o mundo, de transmitir valores, de deixar algo melhor atrás de nossa passagem pela terra”. Se não enfrenta as montanhas do racismo, da corrupção, da desigualdade, do ódio ideológico, é apenas religião de superfície. E o Evangelho de hoje nos lembra: não se trata de medir a fé pela intensidade das palavras, mas pela coragem de plantar, no chão mais seco, a semente minúscula e acreditar que a raiz encontrará água.

Quando nossa fé for pequena, poderemos repetir com o pai do menino: “Eu creio, Senhor! Ajuda a minha falta de fé!” — oração que é confissão, súplica e decisão de não recuar. Porque a fé do tamanho de um grão não se mede na mão, mas na coragem de plantá-lo em meio ao deserto, crendo que Deus ainda faz brotar vida.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


quinta-feira, 31 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 13,54-58

O Evangelho de Mateus 13,54-58, proclamado na sexta-feira da 17ª Semana do Tempo Comum do Ano Par e também na Festa de São José Operário, apresenta Jesus retornando a Nazaré, a cidade onde cresceu. O texto nos conduz às ruas da infância, à simplicidade da casa de José e Maria e ao ofício aprendido na carpintaria. Mais do que um retorno geográfico, trata-se de um momento decisivo da narrativa evangélica é a continuação  da leitura  do evangelho  do.dia anterior Mateus 13, 47-53 e antecede  o evangelho  do sábado  Mateus 14, 1-12
Esta perícope encerra o capítulo 13 e conclui o terceiro grande discurso de Mateus, o Livro das Parábolas do Reino . Depois de revelar o Reino por meio de imagens como a semente, o fermento, o tesouro escondido, a pérola preciosa e a rede lançada ao mar, o evangelista mostra que toda revelação exige uma resposta concreta. Não basta admirar a mensagem; é preciso acolhê-la. A reação dos habitantes de Nazaré torna-se, assim, um retrato da incredulidade daqueles que estiveram mais próximos de Jesus, mas permaneceram incapazes de reconhecer, na simplicidade de sua humanidade, a presença do próprio Deus.  A cena marca uma importante transição narrativa e teológica. O Reino foi anunciado e explicado; agora começam a aparecer, de forma cada vez mais evidente, as consequências de sua proclamação. A rejeição sofrida em Nazaré antecipa a oposição crescente que culminará em Jerusalém e abre caminho para o quarto grande bloco do Evangelho, no qual o discipulado será apresentado como resposta à recusa do Messias por parte de muitos dos seus. Jesus retorna ao lugar onde, humanamente, tudo começou. Ali, onde o rosto é conhecido, onde a mãe tem nome, os irmãos são lembrados pelos vizinhos e as mãos conservam os calos do trabalho na carpintaria, o Verbo encarnado encontra o escândalo da proximidade. Não o escândalo da cruz, mas o da encarnação. Deus tornou-se próximo demais, humano demais, comum demais para corresponder às expectativas religiosas de seu povo. Por isso Mateus registra, com impressionante sobriedade: "Não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles
O evangelista  mostra  Jesus voltando  à sua terra, em  Nazaré, traz a memória dos vizinhos, às calçadas da infância, ao ofício herdado de José.  Este trecho finaliza o capítulo 13 e, com ele, encerra também o terceiro livro do Evangelho segundo Mateus, a seção das parábolas do Reino. É um ponto de transição, um limiar teológico e narrativo. O Reino foi anunciado, revelado em imagens poéticas, como semente, fermento, tesouro e rede, mas agora se exige uma resposta. A acolhida ou a rejeição revelam o tipo de solo que somos. A cena em Nazaré, portanto, não é apenas um detalhe narrativo: é o juízo sobre a incredulidade dos que tiveram tudo para crer, mas escolheram fechar-se. É o prenúncio de uma recusa mais ampla, que culminará em Jerusalém. E é também o início do quarto livro, onde se acirra a tensão entre o Messias rejeitado e o caminho para o discipulado verdadeiro.

Essa voltar ao lugar onde, humanamente, tudo começou. Ali, onde o rosto é conhecido, onde a mãe tem nome, os irmãos são chamados pelo apelido e as mãos guardam calos de carpinteiro. Ali, o Verbo se depara com o escândalo: não da cruz, mas do cotidiano. Escândalo de ser humano demais. De estar perto demais. De não parecer sagrado o suficiente para ser levado a sério. Ali, Jesus experimenta não o ódio direto, mas o desprezo gelado. E Mateus registra, com sobriedade cortante: “Não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles.” A incredulidade narrada aqui é sofisticada. Não se trata de uma dúvida intelectual, mas de um bloqueio existencial. 

De onde lhe vem essa sabedoria?”  Perguntam os conterrâneos. Mas a pergunta não busca resposta; ela serve apenas como cortina para esconder o preconceito: 

  • “Não é este o filho do carpinteiro?” 
  • Como pode o comum revelar o eterno? 
  • Como pode o trabalhador pobre, vizinho de porta, conter a autoridade de Deus?
 A grande objeção não está no conteúdo do que Jesus diz, mas no lugar de onde ele fala: fala de dentro, fala de baixo, fala como um dos nossos. E isso, para quem ama o prestígio religioso, é inaceitável..Essa recusa ecoa a profecia de Isaías: “desprezado e rejeitado pelos homens, homem das dores, habituado ao sofrimento” (Is 53,3). Jesus carrega o rosto do Servo Sofredor: não tem aparência de glória, nem títulos, nem púlpito dourado. Seu rosto é comum, seu sotaque é galileu, sua profissão é manual. Sua presença é um escândalo:  skandalon, tropeço, porque desmonta toda estética da religião do prestígio. A encarnação é a ruína da teologia da prosperidade. Deus fez-se carne, e não luxo. Fez-se operário, e não CEO religioso. Fez-se servo, e não senhor dos palácios. O escândalo da encarnação persiste até hoje nas formas mais sutis de incredulidade eclesial. A Igreja contemporânea repete Nazaré:   
  • Quando idolatra os pregadores performáticos, mas desconfia da sabedoria dos simples. 
  • Quando rejeita o profeta de dentro por não ter “perfil institucional”. Quando privilegia o título acadêmico em detrimento da escuta espiritual. 
  • Quando recusa o Jesus que vive no sem-teto, no quilombola, na mulher violentada, no migrante queimado vivo. 
  • Quando Rejeitamos o Cristo vivo sempre que buscamos um Cristo idealizado, encaixado, domesticado, de acordo com os nossos gostos litúrgicos ou nossas doutrinas doutrinárias.

Não é à toa que o Papa Francisco denunciava o clericalismo como perversão espiritual (Evangelii Gaudium, n. 102). Porque o clericalismo é a versão contemporânea da incredulidade de Nazaré: acredita em Deus, mas não acredita que Deus fale através do vizinho. Crê na Eucaristia, mas não vê o corpo de Cristo no pobre. Ama o Papa desde que ele diga o que agrada à elite. O clericalismo vive do espetáculo, não da encarnação. Vive da sacralização das formas, não da santidade dos gestos.

José o Pai de Jesus como operário, é o grande antídoto contra essa fé superficial. Ele é o modelo do homem justo que serve sem aparecer, que protege sem dominar, que silencia sem omissão. Ele transgride a masculinidade patriarcal ao acolher um filho que não gerou, ao viver do trabalho com as mãos, ao sonhar caminhos alternativos para sua família. José é figura do homem novo, do pastor sem púlpito, do santo da carpintaria. Em sua casa, o Verbo aprendeu a andar, a chorar, a esperar, a obedecer. E foi exatamente isso que o tornaria escandaloso aos olhos dos seus.

A recusa em Nazaré ecoa também a observação de João: “Veio para os seus, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11). A recusa dos “de dentro” é constante ao longo da história bíblica: 

  • Abel é morto pelo irmão
  •  José é vendido pelos irmãos
  • Moisés é desafiado pelo próprio povo
  • Jeremias é preso pelos sacerdotes
  • Amós é expulso do santuário
  • Jesus será crucificado por um conluio entre religião e império. 
A história da fé verdadeira é sempre a história da rejeição proféticaA cena em Nazaré nos desafia antropologicamente, como sociedade, temos dificuldade de reconhecer grandeza na familiaridade e valorizamos o que vem de longe, o que tem sotaque estrangeiro, o que custa caro. Preferimos gurus internacionais a líderes comunitários, seguimos influencers e desprezamos catequistas, Idolatramos quem sobe ao altar com voz de comando, mas ignoramos quem lava o chão da igreja. Como já apontou a psicologia social, o viés do reconhecimento nos cega para a beleza do comum. E, no entanto, é no comum que Deus insiste em manifestar-se. Ele vem no feijão com arroz, no carpinteiro, na mulher samaritana, na criança com cinco pães. Não se impõe com poder, mas se insinua com presença. Mas se a fé não for humildade, ela se torna orgulho disfarçado. E, então, já não há lugar para milagres.

A Gaudium et Spes nos recorda que “o mistério do homem só se esclarece à luz do Verbo encarnado” (n. 22). E que as dores e alegrias do mundo são também as dores e alegrias da Igreja (n. 1). Uma Igreja que rejeita a carne do mundo rejeita também a carne de Cristo. E uma fé que não se deixa escandalizar pela humanidade do Filho não é fé, mas idolatria religiosa.

Hoje a Nazaré que nos interpela. Não como um vilarejo da Galileia, mas como figura teológica. Nazaré é o lugar onde tudo começa e  onde tudo pode ser recusado. Nazaré é cada espaço eclesial onde o profeta é desprezado, onde a encarnação é desacreditada, onde o divino é condicionado ao brilho. Nazaré somos nós,  quando preferimos o Cristo dourado ao Cristo do chão. Nazaré é a paróquia onde o operário da Palavra é visto como “demais igual”, e por isso desprezado. Nazaré é a mesa onde a carne de Cristo é adorada na hóstia e ignorada no povo. Mas é também de Nazaré que pode brotar o milagre, se houver fé. Fé não como crença formal, mas como abertura radical ao mistério de um Deus que escolhe os fracos, os pequenos, os operários, os vizinhos, é  a Fé que aceita a ternura de um Deus que, ao invés de aparecer nos templos dos reis, escolhe crescer no quintal da periferia.

Por isso, hoje, Nazaré continua a nos interpelar. Ela não é apenas um pequeno povoado da Galileia, mas um símbolo permanente da resposta humana ao Deus que se faz próximo. Nazaré é toda comunidade que prefere o prestígio ao serviço, o espetáculo à simplicidade, a aparência religiosa à força transformadora do Evangelho. É toda Igreja que honra Cristo nos discursos, mas resiste em reconhecê-lo na vida concreta dos pequenos, dos trabalhadores, dos pobres e daqueles que não possuem títulos nem poder Ao mesmo tempo, Nazaré permanece como lugar de esperança. É precisamente ali, na aparente insignificância, que Deus escolheu iniciar a história da salvação. O Filho de Deus não desprezou a oficina de José, nem a vida escondida, nem o trabalho cotidiano. Santificou a existência comum e revelou que o extraordinário de Deus floresce no ordinário da vida.   A pergunta decisiva permanece aberta para cada discípulo: somos capazes de reconhecer Deus quando Ele vem sem brilho, sem privilégios e sem aparência de poder? A resposta não depende de mais argumentos, mas de um coração disponível à ação do Espírito, somente a Fé, entendida como abertura humilde ao mistério, é capaz de enxergar no carpinteiro de Nazaré o Emanuel, o Deus conosco e somente essa Fé transforma a incredulidade em encontro, o preconceito em discipulado e o cotidiano no lugar onde o Reino continua a acontecer.

E então, talvez, possamos olhar de novo para aquele carpinteiro e dizer, não com escândalo, mas com esperança: “Ele é um dos nossos  e por isso mesmo, é Deus conosco.”

DNonato – Teólogo do Cotidiano