Por isso, Lucas 10,1-9 não é um texto genérico sobre “missão” no sentido abstrato ou romantizado. A liturgia o escolhe com precisão teológica e pastoral para iluminar a memória de santos, mártires e discípulos missionários que não apenas falaram do Evangelho, mas o encarnaram em carne ferida, em territórios de conflito, em contextos marcados por exclusão, violência e resistência. É um texto que se deixa ler à luz da história concreta da Igreja, revelando que o envio de Jesus não produz heróis isolados nem gestores do sagrado, mas testemunhas vulneráveis, despojadas de garantias, capazes de atravessar casas, cidades e estruturas levando a paz como gesto subversivo e o Reino como horizonte crítico.
Nesse sentido, a Palavra não retorna apenas como consolo espiritual, mas como convocação exigente. Ela recorda que a missão nasce do envio e não da autopromoção; da escuta e não do domínio; da proximidade e não do espetáculo religioso. Ao ecoar na liturgia, Lucas 10,1-9 reinscreve a Igreja no dinamismo pascal do sair de si, do arriscar-se e do confiar, lembrando que toda fidelidade ao Evangelho passa, inevitavelmente, pelo confronto com as lógicas de poder, segurança e sucesso que seduzem tanto o mundo quanto as instituições religiosas. Este Evangelho é proclamado no 14º Domingo do Tempo Comum, no Ano C, quando a assembleia é convidada a reconhecer-se como povo enviado, e também na celebração conjunta de:
- São Timóteo e São Tito, em 26 de janeiro, colaboradores diretos de Paulo na organização das primeiras comunidades, bem como na memória de
- São Cirilo e São Metódio, em 14 de fevereiro, apóstolos dos povos eslavos.
- Sao Lucas evangelista em 18 de outubro que refletimos em 2025
Em diversas celebrações do Comum dos Santos Missionários e Evangelizadores, este texto volta a ressoar como fundamento bíblico da missão eclesial. A escolha litúrgica não é acidental: ela afirma que a vida desses santos é comentário vivo do Evangelho, prolongamento histórico da Palavra que continua a interpelar a Igreja.
O texto se abre com um gesto decisivo: o Senhor designa outros discípulos e os envia à sua frente, dois a dois, a toda cidade e lugar para onde Ele próprio devia ir. Esse movimento do envio atravessa toda a Escritura. Abraão é chamado a deixar sua terra (Gn 12,1), Moisés é enviado a enfrentar o faraó (Ex 3,10), os profetas são lançados para fora de si mesmos para falar em nome do Senhor (Is 6,8; Jr 1,7). No Novo Testamento, essa lógica se aprofunda quando Jesus chama os Doze para estarem com Ele e para serem enviados (Mc 3,14), quando os envia em missão (Mt 10,1-16; Mc 6,7-13) e quando confia à comunidade discípula o anúncio até os confins da terra (Mt 28,18-20; At 1,8). O envio nunca é confortável: ele desloca, expõe, desinstala. A fé bíblica não é posse, é caminho.
O envio em dupla revela uma verdade antropológica, teológica e eclesial profunda. A Escritura afirma desde o princípio que “não é bom que o ser humano esteja só” (Gn 2,18), e a missão reflete essa verdade original. Eclesiastes recorda que “melhor é serem dois do que um só” (Ecl 4,9), pois a vida se sustenta na reciprocidade. No Novo Testamento, a missão raramente é solitária: Paulo caminha com Barnabé, depois com Silas; Priscila e Áquila evangelizam juntos; Timóteo e Tito são enviados para cuidar de comunidades frágeis. A liturgia de São Timóteo e São Tito, celebrada com este Evangelho, recorda dois homens jovens, marcados por limites e responsabilidades enormes. Timóteo, exortado a não se envergonhar do Evangelho nem se intimidar (2Tm 1,8), enfrenta a própria fragilidade; Tito lida com conflitos, abusos e desordens comunitárias (Tt 1,10-16). Ambos são enviados sem garantias, sustentados não pelo prestígio, mas pela fidelidade. Em chave sociológica, o envio em dupla confronta o individualismo religioso e o culto à liderança carismática isolada. Em chave eclesial, denuncia o clericalismo que absolutiza funções e concentra poder, esquecendo que a missão nasce da comunhão.
“A messe é grande, mas os operários são poucos.” Esta constatação atravessa gerações. Os profetas já haviam denunciado pastores que se apascentam a si mesmos (Ez 34), e Jesus retoma essa imagem ao olhar para um povo cansado e abatido (Mt 9,36). A resposta não é eficiência técnica nem marketing religioso, mas a oração: “pedi ao dono da messe”. Na tradição bíblica, pedir é alinhar-se à vontade de Deus. “Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os construtores” (Sl 127,1). A oração não substitui a missão; ela a funda. Cirilo e Metódio, celebrados com este Evangelho em 14 de fevereiro, não foram apenas intelectuais e tradutores, mas homens profundamente enraizados na oração, capazes de discernir os sinais de Deus no meio de disputas culturais e eclesiais. A fecundidade missionária não nasce do poder, mas da escuta.
“Eis que vos envio como cordeiros no meio de lobos.” A imagem do cordeiro atravessa toda a Escritura. O cordeiro pascal marca a libertação do Êxodo (Ex 12), o Servo sofredor de Isaías é conduzido como cordeiro ao matadouro (Is 53,7), e no Apocalipse é o Cordeiro imolado quem vence a história (Ap 5,6). A missão cristã se inscreve nessa lógica paradoxal: a força do Reino não é a da violência, mas a da entrega. Em termos filosóficos, isso subverte a noção clássica de poder como dominação; em termos antropológicos, revela uma compreensão do humano que se realiza na relação, não na imposição. As vidas de Timóteo, Tito, Cirilo e Metódio confirmam isso: todos enfrentaram resistências, perseguições e incompreensões, inclusive dentro da própria Igreja. Nenhum venceu pela força; todos permaneceram pela fidelidade.
A ordem de não levar bolsa, sacola ou sandálias aprofunda essa lógica do despojamento. O povo sai do Egito sem tempo de acumular (Ex 12,11); os profetas denunciam a falsa segurança das riquezas (Am 6,1-7); Jesus adverte que a vida não consiste na abundância de bens (Lc 12,15). O despojamento evangélico não é desprezo pelo corpo, mas libertação da idolatria da segurança. Em diálogo com a psicologia, pode-se reconhecer que o apego excessivo gera ansiedade; em chave teológica, revela desconfiança na providência. A fé transformada em mercadoria, típica das teologias da prosperidade, contradiz frontalmente esse mandato: quem anuncia o Reino carregado de garantias já não testemunha o Deus que caminha com seu povo.
Ao entrar numa casa, o discípulo deve dizer: “A paz esteja nesta casa.” A paz, shalom, é síntese de justiça, reconciliação e vida plena. Os profetas denunciaram uma paz falsa que encobre a injustiça (Jr 6,14), e Jesus oferece uma paz que o mundo não pode dar (Jo 14,27). A paz precede a doutrina e a moral; ela é o primeiro anúncio. Em termos sociológicos, trata-se de um gesto profundamente político, pois desafia estruturas de violência e exclusão. Onde a paz não é acolhida, o discípulo não impõe: sacode o pó dos pés, gesto profético que entrega o juízo a Deus (Mt 10,14; Ez 2,5). O Reino não se impõe, se propõe.
“Permanecei na mesma casa.” Permanecer é verbo da fidelidade bíblica. Deus promete permanecer com seu povo (Ex 33,14), Rute permanece com Noemi (Rt 1,16), o Ressuscitado promete estar com os seus até o fim dos tempos (Mt 28,20). A missão não se faz na superficialidade, mas na convivência. Permanecer é criar laços, acompanhar processos, resistir à tentação do sucesso rápido. A crítica à fé-espetáculo e ao culto como entretenimento emerge aqui com força: quem vive de aplausos não permanece, apenas circula. Timóteo, chamado a perseverar apesar da juventude e da fragilidade (1Tm 4,12), é testemunho dessa permanência paciente.
“Curai os doentes.” Desde o Antigo Testamento, Deus se revela como aquele que cura (Ex 15,26; Sl 103,3). As curas são sinais do Reino anunciado pelos profetas (Is 35,5-6) e confirmados por Jesus (Mt 11,5). Curar é restaurar a dignidade e reintegrar à comunidade. Em diálogo com a psicologia e a sociologia, pode-se afirmar que a cura envolve escuta, acolhida e reconstrução de sentido. A missão que ignora o sofrimento concreto trai o Evangelho. As teologias que culpabilizam o doente ou prometem prosperidade em troca de fé transformam a Boa-Nova em barganha. O Evangelho, ao contrário, se aproxima do ferido sem condições nem espetacularização.
“Dizei-lhes: o Reino de Deus está próximo.” O Reino não é ideologia nem promessa distante; é presença transformadora. Onde há paz, cuidado, partilha e justiça, o Reino se torna visível. Os paralelos sinóticos confirmam isso: Mateus e Marcos unem anúncio e cura; o livro dos Atos mostra a missão se expandindo entre conflitos, discernimentos e decisões comunitárias. A tradição patrística reconheceu nesse movimento a norma da Igreja: Irineu afirmou que a glória de Deus é o ser humano vivo; Gregório Magno lembrou que o pastor deve conhecer as feridas do povo; Agostinho advertiu contra a soberba espiritual que transforma a fé em posse.
Os documentos da Igreja retomam essa herança profética. A Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças dos pobres são as da Igreja; a Evangelii Gaudium denuncia uma Igreja autorreferencial e chama à conversão missionária; a Fratelli Tutti propõe a fraternidade como resposta evangélica a um mundo fragmentado. Tudo isso converge para Lucas 10,1-9 como texto-fonte, proclamado nas liturgias dos santos missionários como critério permanente de autenticidade.
Este Evangelho não se encerra com resultados ou estatísticas. A missão não é medida pelo sucesso, mas pela fidelidade. Timóteo, Tito, Cirilo, Metódio e tantos outros não foram “vencedores” segundo os critérios do mundo, mas permaneceram. E permanecer, no Evangelho, é já vencer. Em tempos de clericalismo, de fé mercantilizada, de discursos religiosos usados para dominação política e cultural, este texto continua sendo denúncia e esperança.
No fim, o missionário aprende — quase sempre depois de muito cansaço e algumas quedas — que não carrega o Reino nos bolsos, nem o administra com discursos bem ensaiados, nem o assegura por estruturas, cargos ou estratégias. O Reino não se possui, não se controla, não se privatiza. Ele se acolhe. O enviado apenas
caminha, e ao caminhar descobre, com surpresa e humildade, que o Cristo não vem atrás dele, mas o precede: já está nas casas visitadas, nos rostos feridos que o recebem, nos doentes cuidados, nos pobres acolhidos, nos vínculos que lentamente se reconstroem onde tudo parecia perdido.
É nesse deslocamento interior que a missão se purifica. O missionário percebe que a mensagem é sempre maior que o mensageiro, que o Evangelho não depende de sua eloquência, de sua performance espiritual ou de sua autoridade simbólica. Ele é sinal, não fonte; servo, não centro; testemunha, não proprietário da Boa-Nova. Quando isso se torna claro, a missão deixa de ser conquista e passa a ser encontro; deixa de ser propaganda e se torna presença; deixa de buscar aplauso e aprende a fecundar o silêncio.
A missão recomeça, então, toda vez que alguém ousa dizer com a própria vida — e não apenas com palavras —: “A paz esteja contigo”. Uma paz que não ignora conflitos, mas os atravessa; que não mascara feridas, mas as toca; que não se impõe, mas se oferece. Enquanto o mundo insiste na lógica da força, da visibilidade e do domínio, o Evangelho segue avançando de modo quase imperceptível, nas sandálias gastas dos enviados, no cuidado cotidiano, na fidelidade discreta, na esperança teimosa que se recusa a morrer.
E assim, sem barulho e sem slogans, o Reino continua a se aproximar. Não como produto religioso, nem como bandeira ideológica, mas como realidade viva que brota onde alguém se dispõe a amar, servir e permanecer. O missionário passa, a Palavra fica. O mensageiro é frágil, a mensagem é eterna. E quando finalmente uma casa, um coração ou uma comunidade podem experimentar isso — não como discurso, mas como vida transformada — torna-se evidente: não foi o missionário que levou Deus até ali; foi Deus quem, mais uma vez, o convidou a caminhar com Ele.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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