O Centurião não é apenas um soldado. Ele é o símbolo vivo da máquina imperial, o braço militar que sustenta a Pax Romana, essa “paz” construída sobre o medo, a força e a dominação. Sua armadura reflete o sol, mas também reflete a opressão: é o brilho do poder que objetiva corpos e subjuga povos. Os evangelhos sinóticos deixam claro que sua presença não era bem-vinda entre os judeus (cf. Lc 7,1-10). Mateus, ao retratá-lo aproximando-se de Jesus, força o leitor a enfrentar o contraste entre dois tipos de autoridade: a autoridade que mata para manter controle e a autoridade que cura para gerar vida. A lógica do Império sempre acreditou que o poder reside na capacidade de fazer obedecer pela força. A lógica de Jesus revela que o verdadeiro poder é a autoridade da palavra que cria e restaura — o sopro que moldou o cosmos em Gênesis 1 e que continua moldando realidades quando pronunciado pelo Verbo encarnado.
A aproximação do Centurião é antropologicamente e psicologicamente fascinante. Em vez de impor, ele pede; em vez de exigir, ele suplica; em vez de reforçar fronteiras, ele as ultrapassa. A psicologia social lembra que pessoas inseridas em estruturas hierárquicas rígidas tendem a introjetar a lógica da autoridade. Aqui, ocorre o contrário: é justamente a experiência de comandar que desperta nele a percepção de um nível mais profundo da realidade. Sua posição militar o leva a compreender o que muitos religiosos não entendem: toda autoridade humana é limitada, derivada, frágil. Nenhuma ordem humana toca o núcleo último da existência. Nenhuma força política ou religiosa pode conferir sentido final. Ele intui, de modo quase filosófico, que Jesus detém um tipo de autoridade completamente diferente, que não se baseia em coerção, mas em verdade. A fenomenologia poderia chamar esta postura de abertura radical ao absoluto; a teologia chama de fé. Santo Agostinho já dizia que o verdadeiro poder se manifesta no serviço e não na dominação, e aqui vemos isso acontecer de forma surpreendente: é o dominador que reconhece sua própria insuficiência diante do único que verdadeiramente liberta.
Quando ele chama Jesus de “Senhor” (Kyrie), a palavra explode em camadas simbólicas. Na boca de um romano, é quase um desafio político: era o título reservado ao imperador. Na boca daquele homem, torna-se um ato teológico, consciente ou não: o Império não é último, César não é absoluto, o poder definitivo não está nas mãos do dominador. Orígenes já percebia nisso uma ruptura espiritual: um estrangeiro, pagão, reconhece em Jesus aquilo que muitos dos herdeiros da promessa não conseguem ver. E Crisóstomo sugeria que este reconhecimento não é apenas verbal, mas existencial: o Centurião submete toda a sua lógica militar ao senhorio do Cristo. Quando Jesus responde: “Eu irei e o curarei”, uma revolução simbólica acontece. Entrar na casa de um gentio poderia ser visto como quebra de pureza ritual segundo certos grupos farisaicos (cf. At 10,28). Jesus simplesmente ignora a lógica da exclusão. Ele prioriza o humano sobre o jurídico, a dor sobre a norma, a vida sobre o sistema. A sociologia da religião nos ensina que instituições tendem a se proteger criando fronteiras identitárias; Jesus constantemente as desestabiliza. Aqui emerge a crítica necessária ao clericalismo contemporâneo, que tenta transformar a fé em “casta espiritual”, em território controlado por poucos, como se a graça fosse propriedade privada. O clericalismo — essa lógica de corte que transforma pastores em gestores e discípulos em súditos — nada tem a ver com Jesus. É mais próximo da lógica imperial que do Evangelho. Francisco o chama de “perversão espiritual” porque privatiza Deus e transforma a comunidade cristã em uma pirâmide invertida, onde poucos mandam e muitos obedecem. O Centurião rasga essa ilusão, mostrando que Deus pode suscitar fé onde o sistema religioso não imagina.
A atitude do Centurião ao dizer: “Senhor, não sou digno que entres em minha casa… mas basta uma palavra” transcende qualquer gesto de humildade superficial. É diálogo intercultural, reconhecimento do outro, respeito às sensibilidades ritualísticas de Israel, consciência das fronteiras simbólicas que estruturam a vida religiosa da época. É, em sua essência, uma forma pré-cristã de sinodalidade: o movimento de caminhar junto, cada um reconhecendo o mundo do outro. Ele não força Jesus a lhe obedecer; não o exige como faz com seus soldados. Ele entra na lógica do Reino e compreende que a autoridade de Jesus funciona no plano do logos criador, não no plano da presença física. Ele tocou, sem saber, o núcleo da teologia bíblica da Palavra: Deus cria pelo verbo (Gn 1); sustenta pelo verbo (Sl 33); consola pelo verbo (Is 55); recria pelo verbo. A Palavra é o lugar da ação divina. O servo curado à distância torna-se sacramento da transcendência da graça.
Jesus se maravilha. Esta reação, tão rara nos evangelhos, diz muito. O que maravilha Jesus não é o heroísmo, não é o cumprimento exato de normas, não é a ortodoxia perfeita; é a confiança radical. Marcos mostra Jesus admirado pela falta de fé (Mc 6,6); Mateus, pela sua presença surpreendente (Mt 8,10). A admiração de Jesus é teológica: é Deus se encantando com o humano quando o humano rompe o ciclo do medo e ousa confiar. O sorriso de Jesus — imaginado, mas biblicamente coerente — é o sorriso de um Deus que encontra, fora dos limites institucionais, a fé simples que move montanhas. Essa admiração desmascara toda pretensão de controle religioso, toda ideia de que Deus só age “aqui” e nunca “lá”, toda arrogância espiritual que presume conhecer os critérios de Deus. É a crítica mais profunda à religião como sistema de poder. A seguir, Jesus declara: “Muitos virão do oriente e do ocidente e se sentarão à mesa com Abraão, Isaac e Jacó.” Essa mesa escatológica é uma das imagens mais belas do Antigo Testamento: o banquete universal de Isaías 25,6, onde todos os povos são acolhidos; o Salmo 22(23), onde Deus prepara a mesa diante dos adversários; e os escritos intertestamentários que imaginam o banquete messiânico como plenitude da justiça. Jesus faz do Centurião a chave de leitura: o estrangeiro se torna símbolo do futuro, e os filhos do Reino, símbolo do risco de fechamento. Não é condenação, é advertência pedagógica. A antropologia religiosa mostra que grupos identitários fortes correm sempre o risco de se tornarem autorreferenciais. Jesus confronta este risco e o faz em plena Galileia dos gentios, onde culturas se cruzam e barreiras se desfazem. A mesa aberta denuncia as mesas fechadas da religião.
A patrística viu nisso o início da universalidade cristã. São Jerônimo interpretou o Centurião como o prenúncio da Igreja que se estende às nações. Hilário viu nele a fé pura não deformada por disputas religiosas. Crisóstomo pregava que a fé do Centurião ultrapassava a de muitos que estudavam as Escrituras diariamente. Agostinho via na cura à distância o símbolo da ação da graça em povos que ainda não conhecem plenamente o Cristo, mas que o intuem pela busca do bem. É a tradição patrística afirmando que Deus sempre foi maior que as fronteiras da Igreja.
O Magistério também bebe dessa fonte. Gaudium et Spes, ao discorrer sobre autoridade, recorda que poder só é legítimo quando serve ao bem comum, nunca quando se impõe com violência ou manipulação (GS 63-66). Evangelii Gaudium denuncia o fechamento autorreferencial de comunidades que se tornam alfândegas da graça. Fratelli Tutti clama por uma fraternidade capaz de incluir “os que vêm do oriente e do ocidente”, denunciando a cultura do muro, do medo, da indiferença, da exclusão. O Centurião é, assim, ícone da fraternidade universal, antecipação da Igreja que abraça, e não apenas tolera, os diferentes. Este texto é também, inevitavelmente, um golpe profundo contra a teologia da prosperidade e sua idolatria dos resultados. O Centurião não pede prosperidade, não pede riqueza, não pede promoção, não pede poder. Pede cura para seu servo — alguém que, para o Império, valia menos que uma ferramenta. A fé que ele apresenta é intercessão, não autopromoção. A teologia da prosperidade desfigura o Evangelho ao transformar Deus em máquina de benefícios, e os pregadores da prosperidade se encarregam de transformar a fé em produto vendável, com garantias e promessas ilusórias. O Centurião desmonta essa lógica, porque sua fé é ética, relacional, descentrada de si. A teologia do domínio — que pretende cristianizar estruturas políticas via força, imposição e poder — também se dissolve diante desta cena. O representante do Império se curva não diante de um Jesus militante armado para tomar o poder, mas diante do Jesus desarmado que cura pela palavra. A fé como mercadoria, como show, como embalagem religiosa para consumo emocional, perde totalmente seu sentido. O servo é curado no silêncio, sem palco, sem marketing, sem espetáculo.
A crítica ao clericalismo se aprofunda mais ainda quando se percebe que Jesus elogia a fé de alguém que, segundo muitos líderes religiosos da época, não deveria ter fé alguma. A fé não segue hierarquias sociológicas nem fronteiras eclesiásticas. O Evangelho não se submete à lógica da casta. Papa Francisco dizia que o clericalismo é perversão porque substitui o seguimento de Jesus pela busca de prestigio, controle e distinções internas. O Centurião desmonta essa lógica com seu gesto de humildade, e Jesus a desmonta quando o elogia publicamente. Aqui, a Igreja aprende que a graça não se explica sociologicamente, e que Deus pode surpreender a partir de lugares que julgamos impróprios. Além disso, há uma dimensão profundamente pedagógica no modo como Jesus cura à distância. A cura não exige presença física. Não exige toque. Não exige prova. Não exige espetáculo. Ela revela que a compaixão é a mais alta forma de autoridade. A filosofia contemporânea fala do poder como capacidade de gerar possibilidade; Jesus, pela palavra, devolve ao servo a possibilidade de viver. A psicologia nos lembra que a autoridade saudável não controla, mas potencializa; Jesus potencializa. A sociologia mostra que sistemas de dominação se reproduzem por medo; Jesus dissolve o medo. A antropologia recorda que encontros interculturais frequentemente produzem tensão; aqui, produzem revelação. A teologia afirma que Deus se comunica de modos que ultrapassam estruturas religiosas; aqui, isso se torna evidente.
No mundo de hoje, esta cena se torna espelho incômodo. Vivemos saturados de líderes que gritam, que impõem, que prometem, que manipulam emoções, que vendem soluções rápidas. Vivemos cercados de pastores-digitais, profetas do entretenimento, gurus de palco, apóstolos de cartão de crédito, todos prometendo o que o Evangelho jamais prometeu. Vivemos cercados pela teologia da eficiência, que mede fé por resultados, por números, por engajamentos e por curtidas. Vivemos cercados por movimentos políticos que instrumentalizam a fé para conquistar poder. Vivemos cercados por versões religiosas do individualismo neoliberal, onde Deus é uma espécie de coach celestial que serve de trampolim motivacional. Neste cenário, o Centurião se levanta como profeta. Ele desfaz a lógica da autopromoção. Ele pede pelo outro. Ele reconhece limites. Ele não faz da fé uma ferramenta para ganhar vantagem. Ele não transforma Jesus em amuleto motivacional. Ele não se apropria do sagrado para validar seu poder. Ele simplesmente confia. O Centurião, paradoxalmente, encarna o que o Advento deseja despertar em nós: a prontidão humilde diante do Deus que chega. O servo curado é sinal do Deus que vem para restaurar, libertar, transformar. A mesa com Abraão, Isaac e Jacó é sinal do Deus que vem para reunir. A admiração de Jesus é sinal do Deus que vem para se encantar com a fé humana quando ela brota em liberdade. Tudo isso dialoga com o tempo litúrgico em que esta passagem é proclamada: o Advento nos chama a recomeçar, a abrir janelas, a desmontar estruturas de fechamento, a romper com lógicas imperiais — políticas, religiosas, psicológicas — que impedem a chegada do Reino.
E é bonito perceber que, num mundo saturado de discursos agressivos e teologias violentas, a fé do Centurião está ancorada na vulnerabilidade. Ele expõe sua necessidade. Reconhece sua impotência. Assume sua insuficiência. E justamente aí sua fé floresce. A vulnerabilidade se torna o solo da revelação. A antropologia contemporânea fala da vulnerabilidade como marca constitutiva do humano. A teologia cristã reconhece a vulnerabilidade como o lugar da encarnação. Jesus se maravilha diante dessa vulnerabilidade assumida, porque ela abre espaço para a graça operar. O Centurião anuncia um cristianismo que não será fundado na força, mas no amor que cura, no encontro que transforma, na escuta que acolhe, na palavra que cria vida.
Esta é a Boa Nova do Advento: Deus vem sempre de forma inesperada. Ele não escolhe os puros, mas os abertos; não escolhe os fortes, mas os vulneráveis; não escolhe os que se gabam de possuir a fé, mas os que ousam confiar sem garantias. Jesus sorri diante do Centurião porque vê nele o futuro da humanidade reconciliada. E talvez, se deixarmos, Ele poderá sorrir de novo ao encontrar em nós essa mesma disponibilidade humilde que reconhece: “Senhor, não sou digno… mas basta uma palavra.”
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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