O Evangelho de Lucas nos oferece, em 10,21-24, proclamado na terça-feira da 1ª semana do Advento nos revela uma das cenas mais surpreendentes e ternas do Novo Testamento: Jesus tomado de alegria no Espírito Santo. Esta passagem, porém, não aparece na liturgia de modo uniforme. No sábado da 26ª semana do Tempo Comum, a Igreja proclama Lucas 10,17-24, texto ja refletido esse ano, é um trecho mais amplo que inclui o retorno jubiloso dos setenta e dois discípulos e a correção educativa de Jesus a respeito da verdadeira alegria apostólica. Já na terça-feira da 1ª semana do Advento, a liturgia isola os versículos 21-24, convidando-nos a contemplar, de forma concentrada, a oração jubilar de Jesus e a lógica subversiva da revelação aos pequeninos. Essa distinção não é acidental. No Tempo Comum, o texto é lido dentro da dinâmica missionária e pedagógica: a missão, a alegria dos discípulos, a purificação do entusiasmo e, finalmente, a oração de Jesus. No Advento, porém, a Igreja nos faz mergulhar diretamente na oração do Filho, como se dissesse: para acolher o Deus que vem, é necessário aprender a lógica dos pequenos, dos pobres, daqueles que não cabem na arrogância dos “sábios e entendidos”. O mesmo texto, portanto, revela nuances distintas conforme o tempo litúrgico — e é dessa riqueza que nasce a reflexão que segue, integrada em sua profundidade bíblica, histórica, teológica e profética.
Ao ler este texto no 26º sábado do Tempo Comum, a Igreja também recorda que a missão não é ocasião de vaidade, porque ali o trecho aparece unido ao retorno dos setenta e dois discípulos, que chegam tomados por um entusiasmo ainda imaturo. Já na terça-feira da 1ª semana do Advento, quando se proclama apenas Lucas 10,21-24, a liturgia acentua que esse júbilo de Jesus — purificado e centrado na vontade do Pai — é parte integrante daquele episódio maior de Lucas 10,17-24. Assim, o Advento nos faz entrar direto na oração jubilosa do Filho, enquanto o Tempo Comum nos mostra o processo pedagógico que leva a essa oração: o entusiasmo dos discípulos, a correção amorosa, a purificação do olhar e, por fim, a alegria messiânica de Jesus no Espírito Santo.
Lucas descreve um Jesus tomado de alegria no Espírito. Na língua original, o verbo agalliaō indica uma alegria que vem das profundezas, uma explosão espiritual. Não é euforia superficial; é uma alegria que nasce do encontro entre a vontade do Filho e o desígnio amoroso do Pai. Aqui se revela uma dimensão trinitária: Jesus se alegra no Espírito Santo porque contempla a lógica divina se manifestando na história — a lógica da eleição dos pobres, da revelação aos pequenos, da vitória da humildade sobre a arrogância dos sistemas religiosos e políticos.
Essa cena encontra paralelos sinóticos significativos. Em Mateus 11,25-27, o contexto é de recusa e endurecimento das cidades, o que torna a alegria de Jesus ainda mais paradoxal. Em João 15,15, Jesus afirma que já não chama os discípulos de servos, mas de amigos, porque lhes revelou tudo o que ouviu do Pai — movimento profundamente consonante com a gratuidade reveladora de Lucas 10. Em 1Cor 1,26-29, Paulo ecoa a mesma dinâmica: Deus escolhe o fraco para confundir o forte, o simples para confundir o sábio. A lógica da revelação permanece coerente: Deus se dá a conhecer onde o mundo não espera.
O Antigo Testamento também prepara essa cena. O cântico de Ana (1Sm 2), que será retomado por Maria no Magnificat, celebra o Deus que rebaixa os arrogantes e exalta os humildes. Os profetas, especialmente Isaías e Sofonias, anunciam que Deus habitará com os pobres e restaurará os humildes. Jesus exulta porque essa promessa está se cumprindo em pessoas comuns, anônimas, sem prestígio social, mas que acolhem o Reino com simplicidade. Esse movimento de inversão se manifesta de modo particularmente intenso nos contextos de marginalização: os que não contam nada para a sociedade são justamente os que recebem a revelação.
A alegria de Jesus, portanto, não é uma emoção espontânea isolada do contexto histórico e simbólico de Israel; ela é uma chave hermenêutica para compreender o movimento de Deus na história humana. Quando Jesus proclama que o Pai escondeu essas coisas dos sábios e entendidos para revelá-las aos pequenos, Ele retoma um fio profundo da história bíblica: o Deus que frustra a arrogância dos impérios, mas exalta os que não têm lugar. Essa lógica, que passa pelo cântico de Ana em 1Sm 2 e ressoa no Magnificat de Maria, manifesta-se agora na própria interioridade do Filho, que exulta no Espírito porque a revelação está acontecendo nos corpos frágeis dos discípulos, homens sem prestígio, sem posição social, sem os diplomas dos escribas e sem a arrogância dos poderosos. O Advento insiste nisso: só quem adota a posição dos pequenos pode entrar na pedagogia de Deus. E essa pedagogia não é teórica; é existencial.
A psicologia contemporânea ilumina essa cena quando descreve como as emoções profundas — como a alegria espiritual — nascem de uma experiência de coerência existencial. Jesus se alegra não porque tudo está resolvido, mas porque vê que o Reino está florescendo em quem menos se esperava. A alegria espiritual não é sentimentalismo, mas sintonia interior com o movimento do Espírito. A filosofia também ajuda a entender: para autores como Ricoeur, a alegria revelada rompe a leitura meramente funcional da vida e devolve o ser humano ao seu horizonte último, onde se percebe que a existência é dom e que a verdade se manifesta na gratuidade, não na instrumentalização. Por isso Jesus exulta: porque a verdade de Deus se manifesta onde não há cálculo.
Esse ponto é essencial para a crítica profética às teologias que deformam a missão. A teologia da prosperidade cai exatamente no erro dos sábios e entendidos: imagina que a revelação de Deus se mede pelos indicadores de sucesso financeiro ou de cura imediata. As teologias do domínio — presentes em movimentos religiosos aliados ao autoritarismo político — supõem que Deus fala mais alto nos “fortes”, nos “guerreiros espirituais”, nos estrategistas que querem controlar territórios, mentes e estruturas. Nada mais distante da exultação de Jesus. O Filho se alegra justamente porque a revelação acontece nos pequenos, não nos poderosos. Se a missão é usada para ostentar poder, para exibir êxodos triunfalistas ou para produzir massas obedientes, ela se torna idolátrica. O Advento corrigia isso desde o início: “Ele derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes”.
A sociologia, ao analisar movimentos religiosos contemporâneos, mostra como a religião pode ser facilmente cooptada por lógicas de mercado e mecanismos de consumo, transformando a fé em produto, o dízimo em investimento e a missão em performance. Mas quando olhamos para os setenta e dois discípulos, percebemos que a alegria verdadeira não nasce da eficiência numérica, mas do fato de que o mal retrocede diante de corações simples que anunciam a paz. A sociologia crítica ajuda a reconhecer o risco de transformar a Igreja em empresa, o padre em gestor de produtividade, e o povo em número. A alegria de Jesus no Espírito Santo é um antídoto contra essa degeneração: Deus não é performance, missão não é produto, Evangelho não é propaganda.
Ao mesmo tempo, a antropologia bíblica nos recorda que a revelação acontece sempre dentro de uma teia de relações humanas concretas: discípulos que acolhem casas, comunidades que partilham pão, corpos que caminham, olhos que veem sinais de cura e libertação. Quando Jesus diz: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes”, Ele está dizendo que a revelação passa pelo corpo, pela carne da história, pela experiência concreta de encontro. Por isso a patrística insistiu tanto na encarnação como chave hermenêutica. Irineu de Lyon afirmava: “A glória de Deus é o ser humano vivo”, e essa vida não é abstrata; ela é marcada pela vulnerabilidade. Aqui emerge outra crítica necessária: muitos discursos religiosos — especialmente os clericalistas — distorcem o Evangelho porque se distanciam da vida real do povo. A alegria de Jesus no Espírito é incompatível com um clero que vive isolado, protegido por estruturas de prestígio, distante das dores reais e das alegrias simples do povo. A revelação é dada aos pequenos, e quem não convive com os pequenos se torna incapaz de compreender o movimento do Espírito.
O Magistério recente insiste nisso com força. Evangelii Gaudium afirma repetidamente que a evangelização não nasce de estruturas de poder, mas da proximidade com quem sofre, da escuta das periferias, da atenção aos descartados. Gaudium et Spes recorda que nada há de verdadeiramente humano que não encontre ressonância no coração dos discípulos de Cristo (GS 1). Fratelli Tutti insiste que a fé autêntica sempre se abre ao encontro e à fraternidade, jamais à dominação. A alegria de Jesus no Espírito Santo confere a essas palavras um fundamento evangélico sólido: o centro da revelação não está no poder, mas na vulnerabilidade; não está na força, mas na humanidade compartilhada.
Esse mesmo dinamismo aparece nos paralelos sinóticos. Em Mateus 11,25-27, o contexto é de resistência e rejeição às cidades que não se converteram, ao passo que a revelação é dada aos pequeninos. A alegria de Jesus surge como contraponto à dureza dos corações, revelando que a verdade de Deus não se impõe pela força, mas se oferece na gratuidade. Em João 15,15, Jesus diz aos discípulos que já não os chama servos, mas amigos, porque lhes deu a conhecer tudo o que ouviu do Pai. Essa intimidade — essa passagem da servidão para a amizade — está no mesmo eixo da revelação aos pequenos: Deus não quer súditos; quer filhos e amigos. Em 1Cor 1,26-29, Paulo reforça que Deus escolhe o que não conta para confundir o que se acha forte. A exultação de Jesus no Espírito Santo é o coração dessa lógica: o Pai se revela aos marginalizados, aos que não acumulam títulos, aos que não pretendem controlar Deus.
O Advento intensifica isso lembrando que o Deus que vem não se impõe como César, mas nasce pequeno, frágil, indefeso. A alegria de Jesus é uma antecipação desse mistério: o Pai se dá a conhecer por vias inesperadas, por dentro da simplicidade. A psicologia fenomenológica diria que a alegria espiritual é o “afeto da verdade”: um sentimento que confirma que o horizonte humano está se abrindo ao sentido último da realidade. A filosofia diria que essa alegria é uma experiência de epifania. A teologia nos dirá que essa alegria é fruto da comunhão trinitária.
À medida que vamos aprofundando esse mistério, compreendemos por que a missão não pode ser ocasião de vaidade — e por que o Advento retoma esse trecho de Lucas para formar o coração da comunidade. A vaidade pastoral, a busca de prestígio clerical, a competição entre paróquias, os campeonatos de seguidores digitais, os números apresentados como troféus, tudo isso é incompatível com a alegria de Jesus. Quando o Evangelho se torna mercadoria, o Espírito Santo se retira. Quando o Evangelho se torna espetáculo, a revelação se fecha aos pequenos. A exultação de Jesus é uma denúncia silenciosa, mas poderosíssima, contra toda forma de religião que transforma a fé em mercado ou o altar em palco.
A crítica à extrema-direita religiosa, que instrumentaliza o Evangelho para fins de dominação política, encontra aqui seu texto-síntese. Jesus se alegra porque o Pai se revela aos pequenos, e não aos poderosos. Qualquer cristianismo que se organiza para dominar, conquistar, humilhar, impor ou subjugar está em guerra direta com o Evangelho de Lucas 10,21-24. Jesus não celebra “vitórias” no plano político; celebra a simplicidade dos discípulos que acolhem e curam. A verdadeira alegria é missionária, não ideológica; libertadora, não dominadora; humilde, não triunfalista.
E assim, à medida que avançamos no texto, vamos descobrindo que a alegria no Espírito Santo é também uma pedagogia. Ela nos educa para ver a revelação onde o mundo não vê. Ela nos educa para confiar mais nos gestos simples do que nos discursos grandiosos. Ela nos educa para reconhecer que o Reino não se constrói pelo cálculo humano, mas pela lógica divina do dom. Aqui a patrística é novamente aliada: Agostinho dirá que a verdadeira alegria é fruto da adesão amorosa ao Bem maior, e não das conquistas da vaidade. Gregório de Nissa lembrará que o caminho da perfeição passa pela kenosis, pela desinstalação interior que permite a Deus ocupar o centro. Tais intuições patrísticas ressoam perfeitamente com o Evangelho de hoje: Deus se revela aos pequenos, porque só quem se esvazia pode ser preenchido pelo Espírito.
Por isso Jesus conclui dizendo que muitos profetas e reis quiseram ver o que os discípulos veem e não viram. Trata-se de uma afirmação histórica e teológica: a revelação amadureceu ao longo dos séculos, mas os discípulos são testemunhas de uma plenitude que Abraão esperou, que Moisés vislumbrou e que Davi sonhou. A ciência histórica nos lembra que Israel viveu séculos esperando a presença definitiva de Deus na história. Agora, em Jesus, essa presença se dá de modo definitivo, mas de maneira surpreendente: não como evento político, mas como encontro humano, como proximidade amorosa, como revelação aos pobres. A antropologia religiosa chama isso de “inversão simbólica”: Deus aparece onde ninguém espera. A exultação de Jesus é o selo dessa inversão.
Todo esse dinamismo converge para o coração do cristianismo: ver como Deus vê. A alegria de Jesus no Espírito Santo é um convite à conversão do olhar. Converter-se, aqui, não é abandonar costumes, mas trocar de perspectiva. É abandonar o olhar de domínio e assumir o olhar da gratuidade. É deixar de buscar sinais espetaculares e reconhecer Deus na simplicidade. É abandonar a vaidade pastoral e abraçar a beleza da missão silenciosa. É deixar de lado o clericalismo sufocante e assumir a postura do Mestre que se alegra com os simples. É renunciar à fé-mercadoria e redescobrir a fé como encontro. É deixar morrer o cristianismo ideológico e renascer no Evangelho vivo.
Essa é a espiritualidade do Advento: aprender a esperar como os pequenos. E essa é também a espiritualidade do 26º sábado do Tempo Comum: aprender que missão não é espetáculo, mas serviço. O mesmo texto, proclamado em tempos litúrgicos diferentes, educa dimensões diferentes do coração cristão — e essa riqueza é parte do mistério. A exultação de Jesus, portanto, não é apenas uma cena devocional; é o centro de uma revolução espiritual que atravessa toda a Escritura.
DNonato - Teólogo do Cotidiano


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