Mostrando postagens com marcador #JustiçaEPaz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #JustiçaEPaz. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 18,1-5.10.12-14



Na terça-feira da 19ª Semana do Tempo Comum, a liturgia da Igreja proclama o Evangelho de Mateus 18,1-5.10.12-14,  equanto seus paralelos em Marcos Marcos 9,33-37   aparerece  na  perícope  dd Marcos 9,30-37 no 25º Domingo do Tempo Comum (Ano B)  e  na terça-feira da 7ª semana do Tempo Comum, onde Jesus corrige a disputa entre os discípulos sobre quem seria o maior e afirma que “quem quiser ser o primeiro deverá ser o último de todos e servo de todos” (Mc 9,35) e  Lucas 9,46-48 é  proclamado dentro do Evangelho  Lucas 9,46-50) na Segunda-feira da 26ª Semana do Tempo Comum. que reforça esta lição, acrescentando que “quem receber uma criança em meu nome, está me recebendo a mim.” (Lc 9,48). Diante dessas palavras, cabe refletir: como pode a Igreja acolher o Reino se permanece presa ao clericalismo e ao individualismo?
iluminam a mesma temática em outros momentos do ciclo litúrgico. Essas passagens pertencem ao grande ensinamento de Jesus sobre a vida dos discípulos e revelam os fundamentos de uma comunidade moldada pelo Evangelho. Não se trata apenas de orientações para a convivência, mas da apresentação de uma nova forma de compreender a existência, as relações humanas e a própria presença de Deus no meio do seu povo. Ao reunir esses textos, a liturgia convida cada fiel a confrontar os critérios que orientam suas escolhas, permitindo que a Palavra revele aquilo que precisa ser purificado para que a vida cristã corresponda, cada vez mais, ao projeto do Reino.
Mateus 18,1-5.10.12-14 é especialmente proposto nas celebrações que enfatizam a humildade e a comunhão fraterna, sobretudo no Tempo Comum, quando a Igreja nos convida a refletir sobre a vida comunitária e o cuidado com os mais frágeis. Com autoridade, Jesus chama os discípulos e a cada um de nós a uma conversão profunda do olhar e do coração: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” (Mt 18,1). Ele propõe que nos tornemos “como crianças” (v. 3), introduzindo uma inversão radical dos valores que o mundo, e até muitas vezes a própria Igreja, naturalizam. A verdadeira grandeza está na humildade e na capacidade de se abrir à confiança plena. Quem de nós não precisa reaprender a confiar como uma criança?

Esse chamado à simplicidade e à confiança re a valorização da humildade e dos pequenos tem raízes profundas no Antigo Testamento. O Salmo 34,19-20 revela que o Senhor cuida dos aflitos e quebrantados de coração, enquanto Isaías 66,2 afirma que Deus se inclina para quem “se humilha e treme à sua palavra”. Jesus, portanto, não está inventando algo novo, mas dá continuidade a essa tradição profética ao destacar o valor dos pequeninos — símbolo dos excluídos e vulneráveis —, lembrando-nos que acolher o menor é acolher o próprio Cristo e, portanto, o Pai (Mt 18,5).

Além disso, a proteção divina sobre os pequeninos, realçada em Mateus 18,10, encontra eco em passagens como o Salmo 91,11-12, onde Deus envia seus anjos para guardar os fiéis, e Provérbios 22,6, que enfatiza a importância da educação e proteção dos pequenos. Esta preocupação se concretiza na parábola da ovelha perdida (Mt 18,12-14), que revela o coração misericordioso de Deus ao abandonar as noventa e nove para buscar a que está perdida — gesto também presente em Lucas 15,3-7. Não se trata apenas de uma bela imagem, mas do caminho real da misericórdia e da justiça que Jesus nos convida a seguir. Compreender essa dinâmica da confiança e do cuidado nos ajuda a conectar com as descobertas da psicologia, que apontam a importância da dependência positiva. Jeremias 29,11 assegura que Deus tem planos de paz e futuro para nós. Paulo, em Filipenses 4,6-7, nos exorta a não nos inquietarmos, mas a confiar plenamente em Deus, superando medo e ansiedade. Por isso, a simplicidade que Jesus propõe não é ingenuidade, mas esperança fundamentada. É como um sol que rompe a névoa da dúvida. 

Em termos sociais, essa passagem desafia e subverte as estruturas que exploram e excluem. Jesus convoca a comunidade a ser uma nova realidade, onde o poder se traduz em serviço, a liderança se expressa em humildade, e o cuidado com o vulnerável é o critério da verdadeira autoridade (cf. Atos 6,1-7). A Igreja primitiva encarnou essa ética comunitária, rompendo com as lógicas do império e dos privilégios.

Filosoficamente, o convite a ser como criança ecoa a virtude da humildade, considerada caminho para a sabedoria verdadeira (cf. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q.161). Além disso, Provérbios 3,5-6 reforça a confiança em Deus: “Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento”. É nesta simplicidade — este campo fértil — que Deus semeia sua esperança.

Diante disso, precisamos denunciar com veemência as falsas linhas teológicas que distorcem o Evangelho, como a teologia da prosperidade, que transforma a fé em negócio e o amor em mercadoria. Jesus alerta: “Não ajunteis para vós tesouros na terra...” (Mt 6,19-20). A fé não é mercadoria; o Reino não se vende; a salvação não tem preço. O individualismo que fragmenta a comunidade e o clericalismo que fomenta privilégios rejeitam a humildade que Jesus exige. Filipenses 2,5-8 nos lembra que Cristo se esvaziou, assumindo a condição de servo; somos chamados a imitá-lo.

O Magistério do Concílio Vaticano II reforça essa visão: a Igreja é povo de Deus, chamado a viver a humildade e o serviço em solidariedade com os mais frágeis. O documento Lumen Gentium afirma que “todo o povo de Deus, mas particularmente os que receberam o ministério sagrado, devem imitar com toda a diligência a humildade de Cristo” (LG 32). A Gaudium et Spes destaca que “a Igreja, unida ao seu divino Fundador pelo vínculo da fé e da caridade, sabe que está especialmente comprometida com os pequeninos, os pobres e os fracos” (GS 24). Neste mesmo espírito, o Papa Francisco insiste na necessidade de uma Igreja pobre para os pobres, que renuncia ao clericalismo e se aproxima do povo com ternura e simplicidade, conforme expõe em Evangelii Gaudium (EG 195-196).

Santo Agostinho, um dos grandes Padres da Igreja, também nos oferece luzes preciosas. Em seus sermões, ele afirma que “a verdadeira grandeza consiste em tornar-se pequeno” (De sermone Domini in monte, 18,3), interpretando o Evangelho como um convite à humildade que abre o coração para Deus e para a fraternidade, sinal da pureza que transforma a comunidade.

Assim, somos desafiados a renunciar a nós mesmos, a romper com o orgulho, a soberba e a lógica da meritocracia e do poder mundano, para abraçar a simplicidade, a confiança e a responsabilidade pelo outro, sobretudo pelo mais vulnerável.

Renuncie ao orgulho, abra seu coração, confie como criança e desarme-se da lógica do poder. Que o Senhor nos conceda aprender com as crianças, deixar-nos desarmar pela simplicidade e pela verdade, e renunciar a nós mesmos para confiar plenamente no amor do Pai que nunca abandona as suas ovelhas perdidas. Só assim, com humildade e coragem, a comunidade eclesial poderá ser verdadeiramente lugar onde o Reino se manifesta: uma casa aberta aos pequenos, um refúgio para os excluídos, um espaço de denúncia às falsas doutrinas que mercantilizam a fé e alimentam o egoísmo. Que cada discípulo, inspirado por Jesus, seja fermento vivo no mundo, rompendo as correntes do clericalismo, da teologia da prosperidade e do individualismo voraz.

Não podemos nos acomodar. Não podemos nos calar. O chamado é urgente e desafiante: ser Igreja pobre para os pobres, humilde para servir, simples para amar. Que o Espírito Santo nos fortaleça para vivermos esse compromisso radical, porque o Reino dos Céus pertence aos que se tornam pequenos, confiantes e fiéis até o fim.

O Evangelho exige coerência entre a fé professada e a prática cotidiana, convocando cada batizado a testemunhar, nas relações concretas, aquilo que celebra na liturgia. A missão da comunidade cristã não se mede pelo prestígio que conquista, pela influência que acumula ou pelas estruturas que preserva, mas pela fidelidade ao Cristo que continua presente na história, chamando homens e mulheres à conversão permanente. Onde o amor vence o medo, a verdade supera a aparência e a compaixão prevalece sobre a indiferença, ali o Reino de Deus já começa a florescer. Que o Espírito Santo sustente nossa caminhada, fortaleça nossa perseverança e faça de cada comunidade um sinal vivo da esperança que nasce do Evangelho e se torna presença transformadora no coração da humanidade.

 Que essa Boa Nova transforme não apenas nossas palavras, mas nossas vidas. E que, ao caminharmos com Jesus, possamos, de fato, construir um mundo onde a justiça, a paz e a misericórdia sejam realidade para todo, sobretudo para aqueles que o mundo insiste em esquecer.

DNonato - Teólogo do Cotidiano