quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O numero maldito: 13, 22 ou ?

  •  13 ou 22  onde esta a  Maldição? Superstição Não é Fé 


Num tempo em que a Bíblia vem sendo instrumentalizada para gerar medo e terror religioso, com teorias construídas a partir de fatos, datas ou números, faz-se necessária uma reflexão honesta, responsável e enraizada na tradição bíblica. Antes de tudo, fazemos questão de ser claros: não somos mais do PT. Somos filiados a um partido que, na prática, não entra nessa conta. Nem sempre concordamos com o PT ou com Lula. Temos críticas, discordâncias e autonomia de pensamento. Fé não é cabo eleitoral, e Bíblia não é cartaz de campanha.

Da direita, porém, discordamos por completo: sua prática histórica é governar para poucos e esmagar os pobres. Isso não é opinião; é leitura honesta da realidade.

Escrevemos este texto por um motivo simples. Diante de uma postagem recente que utilizou o número 13 com uma suposta leitura bíblica, ficou evidente o quanto ainda circulam desinformação religiosa, superstição e manipulação da fé nas redes. Em vez de reagirmos com slogans, torcida ideológica ou histeria moral, fizemos o que consideramos mais honesto: fomos à Bíblia, à tradição judaica e ao sentido simbólico real das Escrituras. E o resultado é claro: a Bíblia não demoniza o número 13 e santifica  outros numero. Quem faz isso não está fazendo teologia; está reproduzindo superstição  algo explicitamente condenado pela própria Escritura: Dt 18,10–12; Is 8,19; Cl 2,8; Cl 2,23. A fé bíblica não se apoia em presságios, cálculos ocultos ou medo de sinais, mas na confiança radical em Deus: Dt 31,8. O Catecismo da Igreja Católica é igualmente direto ao afirmar que a superstição é um desvio da fé autêntica e uma violação do primeiro mandamento: CIC 2110–2111.

Na Escritura, números não funcionam como códigos mágicos de sorte ou azar, mas como linguagem simbólica. O 13, longe de ser sinal de maldição, aparece ligado à continuidade da promessa, à misericórdia e ao transbordamento da graça. Segundo a tradição bíblica, o 13º descendente de Abraão é Jacó, aquele que recebe o nome de Israel: Gn 32,29. Não é ruptura; é amadurecimento. Não é fracasso; é passagem. Com Jacó, a promessa deixa de ser apenas familiar e se torna história de um povo.

O mesmo ocorre com as tribos de Israel. Costuma-se falar em doze, número da organização. Contudo, quando José não é contado como tribo e seus filhos Efraim e Manassés recebem herança própria Gn 48,5; Js 14,4,  chegamos a treze tribos. O símbolo é evidente: a bênção não cabe em esquemas fechados. O 13 aponta para fecundidade, excesso de vida, não para desgraça.

No judaísmo, matriz da fé bíblica, o 13 é ainda mais eloquente. Em Êxodo 34,6–7, após o pecado do bezerro de ouro, Deus se revela a Moisés por meio dos treze atributos da misericórdia. O contexto é de queda grave, de ruptura da aliança. E a resposta de Deus não é destruição, mas misericórdia: “O Senhor, o Senhor, 

Deus misericordioso e compassivo…” O 13 nasce do fracasso humano, mas aponta para a reconstrução da relação. Ele expressa o coração da fé bíblica: a misericórdia que insiste, que não desiste, que supera o pecado.

A própria língua hebraica reforça essa leitura. Ahavah (amor) soma 13. Echad (um, unidade) também soma 13. Amor e unidade caminham juntos. Não por acaso: “O Senhor nosso Deus é um” (Dt 6,4), e: “Deus é amor” (1Jo 4,8). O 13 não aponta para azar, mas para a identidade de Deus.

Agora, o que raramente é dito  e esse silêncio não é inocente  é que outros números aparecem na Bíblia associados a contextos de dor, violência e juízo, como o 22.

O Salmo 22 é o grande salmo da angústia extrema: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Sl 22,2). É o grito do justo esmagado, assumido por Jesus na cruz.

Em Juízes 20,21, 22 mil israelitas morrem em um único dia numa guerra civil entre irmãos — um dos episódios mais sombrios da história de Israel.

Em 1 Reis 16,29–30, Acab reina 22 anos, e o texto é direto: “Fez o que era mau aos olhos do Senhor.”

Em 2 Reis 8,26–27, Acazias começa a reinar aos 22 anos e anda no caminho da casa de Acab, perpetuando injustiça e infidelidade. E o livro das Lamentações é estruturado em poemas acrósticos com 22 versículos, correspondentes às letras do alfabeto hebraico. O conteúdo é devastação total: destruição, fome, morte, exílio, colapso social e espiritual. O 22 surge como símbolo da totalidade da dor.

Isso não significa que o 22 seja amaldiçoado em si, pois se procurar fazer uma leitura positiva vai ou distorcida da fé bíblica vai encontrar: o número 22 também está ligado à criação e à Palavra. Deus cria o mundo falando. O universo nasce da linguagem. As 22 letras tornam-se símbolo de que toda a realidade pode ser recriada pela Palavra, ideia que ecoa no Novo Testamento: “No princípio era o Verbo” (Jo 1,1). 22 lembra que Deus não é silêncio diante do sofrimento. Onde há linguagem, há possibilidade de clamor, denúncia, súplica e esperança. Mesmo o grito do Salmo 22 termina em confiança e louvor (Sl 22,23-32). A dor não tem a última palavra. 

Assim como o 13, nenhum número carrega magia própria. O que existe é contexto, sentido teológico e honestidade na leitura do texto. Demonizar o 13 ou qualquer outro número por superstição seletiva é pecado, pois a Bíblia não autoriza esse tipo de prática. Ignorar o peso simbólico de outros números quando aparecem em contextos de juízo e dor não é leitura bíblica; é manipulação  política religiosa.

No fim das contas, para o cristão de má-fé, tanto o 13 quanto o 22 sempre serão lidos conforme sua ideologia, sua conveniência política ou seu medo religioso. Mas a fé bíblica autêntica sabe: Deus age além dos números, acima das superstições e fora das manipulações humanas.

A Escritura não nos chama a decifrar números, mas a discernir o coração: 1Sm 16,7.

E onde Deus reina, o medo não governa: 1Jo 4,18.

● A Bíblia merece mais respeito.

● A fé merece mais honestidade.

DNonato

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário.