terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 1,21b-28


Hoje  vamos entrar  em Marcos 1,21b-28, proclamado  no 4º Domingo do Tempo Comum do ano B no ciclo dominical quanto na Terça-feira da Primeira Semana do Tempo Comum nos anos pares no ciclo  semanal que  nos conduz ao coração da pedagogia litúrgica da Igreja, onde a Palavra não apenas se escuta, mas educa, confronta e transforma. O Tempo Comum, simbolizado pela cor verde, não é um intervalo vazio entre grandes festas, mas o tempo da vida que brota, cresce e amadurece em meio às tensões da existência concreta. É o tempo em que a fé se mede com o chão da história, com suas ambiguidades, conflitos e esperanças feridas.

Acompanhamos Jesus não em acontecimentos espetaculares ou apartados da realidade, mas inserido na rotina das pessoas, nas sinagogas, nos espaços públicos, nos lugares onde o poder religioso se exerce e onde as feridas humanas se tornam visíveis. O Tempo Comum é, portanto, o tempo do real, da vida como ela é. Nele, o Evangelho revela sua força crítica e libertadora, desmascarando estruturas que oprimem, rompendo silêncios cúmplices e inaugurando um modo novo de existir, no qual a autoridade de Jesus não nasce do medo, mas da palavra que liberta e devolve dignidade.

Jesus entra em Cafarnaum, cidade estratégica da Galileia, atravessada por comércio, circulação cultural, dominação romana e desigualdades sociais. Marcos conduz Jesus diretamente à sinagoga, espaço religioso, educativo e comunitário. O conflito emerge ali, e isso não é acidental. O Evangelho desloca o foco do mal para dentro da instituição religiosa, rompendo com qualquer tentativa de externalizá-lo apenas para fora, para os “outros”, para os “estranhos” ou para culturas diferentes. O espírito impuro está no meio da assembleia. Essa é uma afirmação teológica de enorme peso.

O espanto do povo não nasce de um espetáculo, mas da palavra. Jesus ensina com autoridade, não como os escribas. A exousía de Jesus não se fundamenta em títulos, nem em repetição mecânica da tradição, mas na coerência entre palavra e prática, entre anúncio e vida. Essa autoridade liberta, não domina. O Concílio Vaticano II retoma esse eixo ao afirmar que a Igreja existe para servir à humanidade e promover tudo aquilo que humaniza (Gaudium et Spes, 1; 27). Onde a fé gera medo, submissão cega ou dependência infantil, algo do Evangelho foi perdido.

No interior da sinagoga está um homem possuído por um espírito impuro. O texto é sóbrio, sem teatralidade. Jesus não pergunta o nome do espírito, não investiga sua origem, não dialoga com ele. Ordena: “Cala-te e sai dele”. O silêncio imposto ao mal é profundamente pedagógico. O mal não deve ter voz na comunidade. O Evangelho não legitima a exposição pública da dor nem a exploração do sofrimento como método pastoral.

Aqui o texto bíblico se choca frontalmente com o que hoje se convencionou chamar de “capitalismo religioso”. Nesse sistema, o demônio precisa estar sempre ativo, sempre visível, sempre performático. Ele vira palanque. Quanto mais medo se produz, mais controle se estabelece. O sofrimento vira matéria-prima, a fé vira produto, o culto vira espetáculo. Não por acaso, nesses ambientes, o demônio aparece quase sempre nos corpos pobres, periféricos, racializados. É uma demonologia seletiva e profundamente classista. O mal nunca se manifesta nos conselhos administrativos, nos gabinetes refrigerados ou nas estruturas que concentram riqueza. Ele cai sempre sobre os mesmos corpos. Isso não é teologia; é pedagogia do medo. (conforme já escrevemos  em 16 de dezembro  de 2025 no texto O Demônio e o Palanque: A Teologia do Medo no Capitalismo Religioso)

Jesus não compactua com isso. Ninguém sai de um exorcismo bíblico dependente de Jesus como mediador permanente. Ao contrário, sai livre, reintegrado à comunidade, devolvido à própria história. Isso se repete em toda a tradição sinóptica. O endemoninhado de Gerasa, chamado simbolicamente de “Legião” (Mc 5,1-20), revela que o mal não é apenas psicológico ou espiritual, mas político, econômico e estrutural. O termo militar romano denuncia uma sociedade ocupada, traumatizada, violentada. A libertação daquele homem não é espetáculo, mas ruptura histórica. Os porcos, símbolo de impureza e também da economia imperial, precipitam-se no mar, imagem bíblica da derrota das forças opressoras. Jesus não transforma o homem em mascote religioso; envia-o de volta para casa, para a vida.
O mesmo acontece com a mulher encurvada (Lc 13,10-17), chamada explicitamente de “filha de Abraão”. O conflito ali não é com o espírito apenas, mas com uma religião que prefere a lei à vida. A filha da mulher siro-fenícia (Mc 7,24-30) rompe fronteiras étnicas e religiosas. O menino epiléptico (Mc 9,14-29) expõe o sofrimento infantil diante da impotência das estruturas religiosas. Em todos os casos, o exorcismo não reforça o medo; ele restaura dignidade e autonomia.
É fundamental reafirmar, com rigor histórico e teológico, que no contexto de Jesus não havia qualquer influência de religiões de matriz africana. Associar demônios bíblicos a essas tradições é anacronismo, erro exegético e intolerância religiosa. O Concílio Vaticano II, em Nostra Aetate, rejeita toda forma de discriminação religiosa e reconhece valores autênticos presentes em outras tradições. Demonizar essas religiões é projetar nelas aquilo que muitas vezes se recusa a enfrentar dentro das próprias estruturas cristãs.

Ao contrário do discurso demonizante, as religiões afro-brasileiras expressam valores profundamente humanos e evangélicos: o respeito à natureza, em diálogo direto com a ecologia integral de Laudato Si’; o respeito à ancestralidade e à memória, tão caro à tradição bíblica; e a valorização da pessoa humana independentemente de cor, origem ou orientação sexual, algo que ecoa o núcleo do Evangelho (Gl 3,28). Demonizá-las é negar o Deus da vida.

Biblicamente, o demônio não é uma entidade folclórica autônoma, mas linguagem simbólica para nomear tudo aquilo que desumaniza. O grande exorcismo fundador da fé bíblica é o Êxodo. O faraó não aparece como indivíduo possuído, mas como estrutura demoníaca de poder: concentra riqueza, explora corpos, legitima a violência. Deus não realiza um ritual contra espíritos; liberta um povo de um sistema. Os profetas seguem essa linha ao denunciar uma religião cúmplice da injustiça. Amós, Isaías, Jeremias e Miqueias não combatem demônios imaginários, mas estruturas que produzem morte.

Jesus se insere nessa tradição profética. Seus exorcismos não inauguram uma técnica espiritual, mas radicalizam a crítica ao mal estrutural. Ele não cria ministério especializado, não treina discípulos para performances públicas. Silencia os espíritos, dispersa multidões e devolve as pessoas à vida cotidiana. Onde hoje há holofote, Jesus escolhe o caminho; onde há espetáculo, ele prefere a casa; onde há grito ensaiado, ele impõe silêncio.

O Magistério da Igreja, especialmente após o Vaticano II, converge com essa leitura. Gaudium et Spes afirma que tudo o que desumaniza o ser humano é contrário ao projeto de Deus. Evangelii Gaudium denuncia uma economia que mata e uma religião que se torna cúmplice do mercado. Fratelli Tutti insiste que não há fé autêntica sem compromisso com a justiça social. Os documentos do CELAM, de Medellín a Aparecida, falam de pecado estrutural e da necessidade de libertação integral. A CNBB, em suas Campanhas da Fraternidade, insiste que o mal não é apenas pessoal, mas social, histórico e político.

O clericalismo, também denunciado pelo Papa Francisco, é uma forma sofisticada de possessão institucional. Ele infantiliza consciências, concentra poder e substitui o discernimento pela obediência cega. Onde a fé retira das pessoas a responsabilidade ética e histórica, o Evangelho foi traído. Jesus nunca pediu que alguém caísse; pediu que se levantasse. Nunca glorificou a dor; denunciou suas causas. Nunca alimentou o medo; chamou à liberdade responsável.
Talvez a pergunta decisiva não seja se o demônio existe, mas a quem interessa que ele continue sendo invocado sempre nos mesmos corpos, rostos e territórios. Essa seletividade não é inocente: ela revela que não estamos diante de uma batalha espiritual neutra, mas de uma teologia do medo aplicada sobre os mais vulneráveis, legitimada por discursos religiosos que naturalizam a exclusão e sacralizam a violência simbólica. Quando o “endemoniado” tem endereço fixo, cor definida e classe social marcada, o problema já não é espiritual, mas político, econômico e profundamente teológico.

O verdadeiro exorcismo bíblico, como nos mostra Marcos, não se ocupa de expulsar fantasmas convenientes, mas de desmontar sistemas que produzem morte, de romper engrenagens injustas, de desativar mecanismos que aprisionam consciências e corpos. Exorcizar, no Evangelho, é devolver palavra a quem foi silenciado, dignidade a quem foi desumanizado, lugar na comunidade a quem foi empurrado para as margens. É libertar a fé do medo e a religião de sua cumplicidade com o sofrimento.

Por isso, a pergunta que encerra Marcos 1,21b-28 continua ecoando, incômoda e necessária, em nossas comunidades:  quais são os demônios que ainda estão no meio de nós? 
Aqueles que reconhecem Jesus com os lábios, mas negam seu projeto com a vida; que invocam o nome de Deus enquanto mercantilizam a fé, transformam o medo em método pastoral e fazem do sofrimento um espetáculo religioso. 
Diante desses “espíritos” que se travestem de piedade religiosa que Jesus continua a pronunciar sua palavra decisiva: cala-te e sai. E esse mandato não é mágico nem intimista; é ético, histórico e profundamente libertador. Ele exige conversão pessoal, transformação comunitária e ruptura com toda religião que prefira o controle à misericórdia e o poder à vida.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


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