Marcos posiciona esse episódio imediatamente após a multiplicação dos pães. Essa proximidade narrativa é decisiva para a interpretação. O pão partilhado e o mar agitado pertencem ao mesmo processo revelatório. Quem não entende o pão como gesto de compaixão, partilha e responsabilidade comunitária não entende o Cristo que caminha sobre as águas. O evangelista sugere que o verdadeiro milagre não está na abundância material, mas na conversão do olhar e do coração.
Jesus constrange os discípulos a entrar no barco e a seguir adiante. O verbo empregado indica pressão, quase uma imposição. O discipulado não nasce apenas do encantamento, mas de uma obediência que frequentemente conduz a lugares não escolhidos. A barca, símbolo clássico da comunidade e da própria Igreja, afasta-se da margem, imagem das seguranças conhecidas. Na tradição bíblica, deixar a margem significa entrar no espaço da promessa e do risco, como Israel ao atravessar o Mar Vermelho (Ex 14) ou Abraão ao partir sem saber para onde ia (Gn 12,1).
Jesus, por sua vez, sobe ao monte para rezar. O monte é símbolo de elevação, de escuta e de revelação. É no monte que a Lei é dada, que os profetas escutam Deus e que Jesus se revela como Filho amado. Enquanto a comunidade enfrenta o mar, Jesus permanece em comunhão com o Pai. Essa imagem corrige uma falsa oposição entre contemplação e ação. A oração de Jesus não o afasta da realidade; ao contrário, sustenta a travessia dos discípulos.
O mar, na simbologia bíblica, representa o caos, o imprevisível, as forças que ameaçam a vida. Diferentemente da mentalidade moderna, o mar não é espaço de lazer, mas de perigo. Ele remete ao abismo primordial de Gn 1,2, às águas que quase engolem Jonas (Jn 1–2) e às ondas que fazem tremer os navegantes do Salmo 107. A barca sacudida pelas águas é a comunidade lançada no coração da história, exposta a crises políticas, sociais e espirituais.
Marcos insiste que o vento era contrário e que os discípulos remavam com dificuldade. O vento, invisível e persistente, simboliza forças estruturais que não se veem facilmente, mas condicionam profundamente a vida: sistemas econômicos excludentes, ideologias de dominação, desigualdades naturalizadas. Do ponto de vista sociológico, trata-se das pressões que atuam sobre os grupos humanos e moldam comportamentos. Psicologicamente, o vento contrário revela o cansaço acumulado, o desgaste emocional e a tentação do desânimo.
Jesus vê os discípulos do alto do monte. O olhar de Jesus atravessa a noite. Esse detalhe simbólico afirma que a história humana não está fora do horizonte de Deus. Como proclama o Salmo 139, não há noite que oculte o ser humano do olhar divino. A ausência visível de Jesus não é abandono, mas pedagogia. Ele vê antes de ser visto.
Na quarta vigília da noite, Jesus vai ao encontro deles caminhando sobre o mar. A noite, na Escritura, é tempo ambíguo: lugar do medo, mas também da ação decisiva de Deus. Foi de noite que Israel foi libertado do Egito; foi na madrugada que a ressurreição começou a ser anunciada. A quarta vigília marca o limite da resistência humana. É quando as forças se esgotam que Deus se manifesta de modo novo.
O caminhar sobre as águas é um dos símbolos teológicos mais fortes do texto. Na Bíblia, somente Deus domina o mar. Jó afirma que o Senhor caminha sobre as ondas (Jó 9,8), e o Salmo 77 recorda que o caminho de Deus passa pelo mar, ainda que suas pegadas não sejam vistas. Ao atribuir esse gesto a Jesus, Marcos proclama silenciosamente sua identidade divina. Não se trata de exibição de poder, mas de revelação: o caos não tem a última palavra.
Os discípulos, porém, veem um fantasma. O medo distorce a percepção. Aquilo que deveria ser reconhecido como salvação é interpretado como ameaça. O texto revela a dificuldade humana de reconhecer Deus quando Ele se manifesta fora dos esquemas esperados e o medo projeta fantasmas. A comunidades submetidas a crises prolongadas tendem a perder a capacidade de discernimento.
A palavra de Jesus rompe o pânico: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo”. A expressão “Sou eu” retoma o Nome revelado a Moisés (Ex 3,14) e ecoa as afirmações divinas de Isaías: “Sou eu, não temas” (Is 43,1-3). A palavra precede o milagre. A fé nasce da escuta antes de qualquer mudança externa.
Quando Jesus entra no barco, o vento cessa. O barco, símbolo da Igreja, só encontra descanso quando acolhe o Senhor. João acrescenta que, ao recebê-lo, chegam imediatamente à terra desejada, apontando para o horizonte escatológico. Mateus introduz Pedro, cuja tentativa de caminhar sobre as águas simboliza a ousadia da fé e sua fragilidade. Afundar não é sinal de fracasso definitivo, mas convite a estender a mão.
Marcos encerra o relato com uma nota teológica severa: os discípulos não tinham compreendido o milagre dos pães, pois o coração estava endurecido. O coração, na antropologia bíblica, é o centro das decisões. O endurecimento indica resistência à conversão. Quem não entende o pão partilhado não entende a travessia; quem não assume a lógica do dom não reconhece a presença de Deus na noite.
Essa chave ilumina uma crítica necessária às teologias da prosperidade e do domínio. O texto não promete mares calmos nem sucesso garantido. Seguir Jesus pode significar enfrentar vento contrário. A fé não é moeda de troca para bênçãos, nem instrumento de ascensão social. A fé como mercadoria é desmentida por um Cristo que chega tarde aos olhos humanos e cedo aos olhos de Deus.
O individualismo religioso também é questionado. A barca é comunitária. Ninguém atravessa sozinho. A salvação não é projeto privado, mas experiência compartilhada. A psicologia social confirma que a esperança se sustenta no vínculo e não no isolamento.
O clericalismo aparece como distorção quando líderes se colocam como donos da barca. O texto recorda que somente Cristo domina o mar. A Igreja, como afirma a Lumen Gentium, é povo de Deus em caminho. A Gaudium et Spes insiste que a comunidade cristã caminha solidária com as alegrias e angústias do mundo. Evangelii Gaudium denuncia uma Igreja fechada em si mesma, incapaz de reconhecer Cristo que vem ao encontro fora dos esquemas.
Santo Agostinho via na barca a Igreja sacudida pelas crises da história. Orígenes interpretava o mar como símbolo das paixões humanas. Crisóstomo destacava o atraso pedagógico de Jesus, que permite a dificuldade para amadurecer a fé. Essas leituras mostram que o texto sempre foi compreendido como chave existencial.
Marcos 6,45-52 confronta a ilusão do controle absoluto. A história humana é marcada por instabilidade. A fé cristã não elimina o caos, mas impede que ele se torne desespero. Antropologicamente, o texto revela um Deus que se aproxima quando as seguranças falham. É na noite que a fé se purifica de barganhas e ilusões.
Assim, Marcos 6,45-52 se ergue como palavra profética, exigente e desconcertante, dirigida à Igreja de todos os tempos e ao mundo marcado por incertezas, medos e falsas seguranças. O texto desmascara a religião do espetáculo, da fé utilitarista e do Deus domesticado para garantir sucesso, proteção imediata ou tranquilidade artificial, e anuncia uma fé da travessia, forjada no cansaço dos remos, na resistência ao vento contrário e na noite que parece não ter fim. Não se trata de uma espiritualidade de evasão, mas de um caminho pascal, no qual a fé não elimina a tempestade, mas aprende a atravessá-la.
Cristo, aqui, não é apresentado como solução mágica nem como amuleto contra o sofrimento, mas como o Senhor que caminha sobre as águas do caos, se aproxima quando os discípulos já não têm forças e entra na barca no tempo certo, não para poupar o medo, mas para transfigurá-lo. Sua presença não nega a noite da história, marcada por crises, injustiças e violências; ao contrário, Ele a atravessa conosco, revelando que Deus não abandona seus filhos no meio do mar agitado.
É nesse encontro, no limite das forças humanas, que a fé amadurece, os corações endurecidos são desarmados e a Igreja é purificada de suas ilusões de poder e controle. Marcos 6,45-52 nos recorda que seguir Jesus não é escapar da travessia, mas confiar n’Aquele que se faz próximo no coração do medo e pronuncia a Palavra que sustenta, reorienta e recria a esperança: “Sou eu. Não tenhais medo”.
DNonato - Teólogo do Cotidiano


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