A cena lucana ecoa muitas outras páginas da Escritura em que a cegueira física simboliza, ao mesmo tempo, a cegueira espiritual, ética, política e religiosa. No Antigo Testamento, recordamos Tobias, cuja cegueira (Tb 2,10-15) é curada por Rafael como sinal da restauração da justiça na família. Lembramos também Eliseu, que devolve a visão aos soldados arameus (2Rs 6,17-20), revelando que ver é entrar na lógica de Deus e não na lógica da guerra. No Novo Testamento, o paralelo mais direto é Marcos 10,46-52, onde Bartimeu tem nome — e isso é teologicamente muito relevante, pois Marcos quer mostrar que o Reino devolve identidade aos que foram reduzidos à condição de estatística social. Em Mateus 20,29-34, aparece a cura de dois cegos, sublinhando a dimensão comunitária do sofrimento e da libertação. Lucas, por sua vez, mantém o anônimo — e isso não diminui o personagem, mas o universaliza: ele representa todos os que foram despersonalizados pela sociedade.
A cegueira, dentro da tradição bíblica, nunca é apenas ausência de visão ocular. Muitas vezes ela é denunciada como consequência da injustiça estrutural (cf. Is 59,10), da idolatria (cf. Sl 135,16), da arrogância espiritual (cf. Is 6,10), da violência que obscurece o coração (cf. Sb 2,21). Por isso, quando Jesus cura o cego de Jericó, realiza um gesto que tece múltiplos sentidos: cura o corpo, restaura a dignidade, reintegra socialmente, denuncia estruturas excludentes e manifesta a chegada do Reino. Lucas, que inicia o evangelho com a promessa de que Jesus veio iluminar os que jazem nas sombras da morte (Lc 1,79), fecha o ministério galileu com a cena de alguém que literalmente sai das sombras e segue Jesus pela estrada iluminada da missão.
A psicologia contemporânea nos ajuda a perceber que a marginalização prolongada produz um tipo de cegueira existencial: a pessoa perde o horizonte de futuro, perde a referência de pertença, perde até mesmo a capacidade de pedir ajuda. O grito do cego — “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!” — é, portanto, um ato de resistência psíquica e espiritual. É o grito de quem se recusa a ser silenciado pelos discursos do “aceite seu lugar”, do “não incomode”, do “não atrapalhe a passagem dos importantes”. É um grito que já nasce como oração, ecoando o clamor dos Salmos, a súplica dos anawim, os pequenos de Javé (cf. Sl 34,7.18; 51,19; 72,12-13). Do ponto de vista antropológico, esse grito revela que o humano, por mais oprimido, nunca perde completamente o desejo de transcendência — e por isso mesmo o Reino começa ali, naquele grito.
Mas o texto apresenta também um outro grupo: os que mandam o cego calar. Esses representam a lógica da teologia da prosperidade, da teologia do domínio, da fé como mercadoria e da religião convertida em espetáculo. São aqueles que querem um Jesus controlado, previsível, útil para manter privilégios. Lembram líderes religiosos que, nos profetas, eram acusados de fechar os olhos (Is 56,10) e de pastorear-se a si mesmos (Ez 34). Lembram também a crítica de Jesus aos fariseus que se consideravam guias de cegos, mas eram cegos guiando cegos (Mt 15,14). Esses personagens, tão presentes no evangelho quanto em nossa sociedade, representam a cegueira mais perigosa: a cegueira moral e espiritual, aquela que se mascara de luz, mas mantém os pobres na escuridão.
Há ainda uma cegueira mais profunda e mais perigosa, que não atinge os olhos, mas o coração: a cegueira ideológica, aquela que transforma projetos políticos em religiões absolutas, que sequestram consciências e impedem qualquer forma de discernimento. Essa cegueira não nasce da falta de informação, mas da recusa deliberada de acolher a verdade. Por isso, o ditado popular ecoa com força profética: “o pior cego é aquele que não quer ver, e pior ainda quando também não quer ouvir.” É a cegueira voluntária de quem fecha os olhos diante dos pobres para não questionar seus privilégios; de quem tapa os ouvidos para não escutar o clamor das vítimas, dos negros, dos indígenas, das mulheres, dos famintos; de quem prefere seguir líderes violentos, autoritários ou mentirosos porque eles confirmam suas próprias sombras interiores. Essa cegueira ideológica, denunciada pelos profetas (cf. Is 6,9-10; Jr 5,21) e retomada por Jesus ao falar dos “cegos guiando cegos” (Mt 15,14), é sempre mortal para a democracia e para o Evangelho, porque transforma a fé em arma, a religião em palanque e o nome de Deus em justificativa para o ódio. Contra essa cegueira, a cura do cego de Jericó se levanta como contracultura luminosa: ver e ouvir a verdade é sempre o primeiro passo para seguir Jesus e para romper com todo projeto que tente instrumentalizar a fé e desumanizar o outro.
Sociologicamente, o cego à beira do caminho é símbolo de todos os que, hoje, são empurrados para as margens pelo neoliberalismo, pelo capitalismo que sacrifica vidas para manter lucros, pela política do ódio, pela violência estrutural e pelo desprezo aos vulneráveis. Ele é o trabalhador precarizado, a mãe solo, o idoso abandonado, o jovem negro criminalizado, o morador de rua invisibilizado, os povos indígenas expulsos de suas terras, os migrantes rejeitados, todos os que a sociedade de consumo transforma em descartáveis — como denuncia Francisco na Fratelli Tutti (n. 18-22). A cura de Jesus é, portanto, um ato profundamente político: devolve o pobre ao centro, interrompe a marcha dos importantes para ouvir quem não era para ser ouvido.
A ciência histórica nos lembra que Jericó era uma cidade que vivia de pedágios e impostos, rota de comércio e circulação de riqueza, mas também de exploração e desigualdade. O cego, sentado à beira da estrada, não é alguém que escolheu a marginalidade — ele é produto de um sistema econômico que desumaniza. Portanto, quando Jesus o chama, está invertendo a lógica social: do centro para a margem, Ele desloca o valor; da estrada para a pessoa, Ele desloca a prioridade; do fluxo econômico para o fluxo da compaixão, Ele desloca o sentido da história.
O gesto de Jesus — “O que queres que eu te faça?” — ecoa não apenas como pergunta terapêutica, mas como gesto de restituição da autonomia. Jesus não impõe uma cura. Ele pergunta. Respeita a liberdade. Reconhece a subjetividade. É o contrário da lógica autoritária da teologia do domínio, que trata Deus como um tirano e os fiéis como massa manipulável. É também o contrário da fé mercantilizada, que transforma a oração em contrato, a bênção em transação e a cura em propaganda religiosa. Jesus, ao contrário, restabelece a dignidade do sujeito: “Senhor, que eu veja de novo”. E ver de novo, na linguagem bíblica, é recuperar a criação original, é voltar ao projeto de Deus, é reentrar na luz que foi separada das trevas no primeiro dia (Gn 1,3).
A Patrística interpreta esta cena como símbolo da iluminação batismal. Santo Agostinho vê no cego o gênero humano ferido pelo pecado e pela soberba, que só recobra a visão quando reconhece em Cristo o “Filho de Davi”, isto é, o Messias misericordioso. Orígenes lê o caminho como símbolo da vida espiritual, e a visão recuperada como discernimento. São Beda chama o cego de “figura de todo catecúmeno que clama na escuridão até encontrar a luz da fé”. A Tradição, portanto, entende que o milagre não é apenas físico, mas eclesial: a Igreja é o lugar onde os cegos recobram a vista porque ali se experimenta a luz da Palavra, da caridade e da justiça.
Mas há ainda um outro elemento: após ser curado, o cego segue Jesus glorificando a Deus. É significativo que Jesus não lhe imponha seguir, nem ofereça um prêmio por gratidão. Quando Jesus cura, Ele não tira a liberdade da pessoa. Aqueles que, depois de curados, resolvem segui-lo, o fazem de livre e espontânea vontade. E isso revela que a verdadeira evangelização é libertadora, nunca coercitiva. É o contrário do clericalismo, que tenta domesticar consciências, infantilizar fiéis e sequestrar a liberdade espiritual do povo. O cego, agora caminhante, se torna testemunho vivo, e sua nova vida faz com que todos glorifiquem a Deus — e não a instituição, não o pregador, não o milagreiro.
A filosofia ilumina ainda mais esse processo. O ato de ver está ligado ao conhecimento de si, do mundo e do outro. Aristóteles dizia que o ser humano deseja naturalmente conhecer; Platão via na luz o símbolo da verdade; Paulo, ecoando ambos, afirma que Deus “nos chamou das trevas para a sua luz admirável” (1Pd 2,9). A cura, portanto, é revelação. É epifania. É transcendência encarnada na história. A verdadeira cura liberta de toda alienação, inclusive a religiosa, que muitas vezes prefere manter o povo cego para que não questionem as estruturas de poder.
O contexto imediato de Lucas também é decisivo. Antes da cura, Jesus acaba de anunciar pela terceira vez sua paixão (Lc 18,31-34). Os discípulos, porém, não compreendem; permanecem cegos. O cego de Jericó vê mais do que eles. Isso revela a inversão típica de Lucas: os de dentro nem sempre entendem; os de fora frequentemente percebem mais. Esse contraste denuncia as lideranças religiosas que, ainda hoje, conhecem a doutrina, mas perderam o coração; que estudam teologia, mas abandonaram a misericórdia; que falam de Deus, mas impedem o povo de encontrá-lo. É o clericalismo denunciado por Francisco como “uma perversão eclesial” (Evangelii Gaudium, n. 102-104).
No campo da sociologia, podemos dizer que a cura do cego é uma ruptura do ciclo de marginalização. Ao recobrar a vista, ele pode trabalhar, caminhar, relacionar-se, sonhar. Ele se reintegra à cidade. E a cidade muda com a presença dele. Toda cura verdadeira tem impacto social. A comunidade que glorifica a Deus ao ver o milagre é convidada a transformar suas estruturas. Não basta aplaudir a cura — é preciso curar a sociedade que produz cegos. Como diz Gaudium et Spes (63–66), o desenvolvimento humano integral exige justiça, solidariedade e dignidade para todos. A cura é sinal escatológico, mas também desafio político.
O texto, quando lido no fim do ano litúrgico, nos faz pensar na cegueira apocalíptica daqueles que, guiados por ideologias violentas, tentam transformar a fé em arma, a religião em instrumento de poder e o evangelho em manual de ódio. São os que se alinham à extrema direita, transformando Jesus em mascote ideológico, negando sua opção pelos pobres e sua mensagem de inclusão. A cura do cego se torna, então, uma denúncia profética: não há cristianismo verdadeiro onde os pobres continuam invisíveis e onde a religião serve ao poder e não ao Reino.
O cego que grita é o oposto da fé individualista. Ele clama publicamente, envolve a comunidade, recebe a cura diante de todos e, ao seguir Jesus, se torna sinal comunitário de transformação. A fé individualista, ao contrário, é cega para o sofrimento alheio, cega para a injustiça, cega para o compromisso social. O evangelho lucano desmonta essa lógica: a salvação é pessoal, mas nunca isolada; é sempre relacional e comunitária.
Assim, a cena se encerra com três movimentos: o cego vê; o cego segue; o povo glorifica. É a síntese da missão cristã: ver a realidade com os olhos de Deus, caminhar na direção de Deus e transformar a sociedade para que Deus seja glorificado. Ver, seguir, transformar — eis o processo da conversão.
Por isso, quando a liturgia nos entrega este evangelho no final do ano, ela nos provoca a perguntar: onde estão hoje os cegos que clamam? Onde estão os que mandam calá-los? Onde estamos nós: à beira do caminho ou no caminho com Jesus? E mais: que tipo de cegueira ainda nos aprisiona — cegueira de medo, de ideologia, de indiferença, de culto vazio, de religiosidade mercantil, de fé reduzida a performance?.
Ao final, como o cego cu
rado, somos chamados a caminhar com Jesus, não porque Ele exige, mas porque a vida nova nos convida. Seguir Jesus é sempre um ato de liberdade. E é somente na liberdade que a verdadeira fé floresce.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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