domingo, 16 de novembro de 2025

Um brece olhar sobre Lucas 18,35-43

O caminho para Jericó se abria como uma poeira espessa diante dos passos de Jesus. O sol da tarde, já inclinado, projetava sombras longas sobre a estrada, onde viajantes, comerciantes e peregrinos seguiam seu trajeto cotidiano. À beira do caminho, onde a vida costumava empilhar os esquecidos, estava um homem cego. Não era apenas um corpo imóvel; era um símbolo vivo daquilo que o mundo não quer ver: pessoas reduzidas a resto, a ruído, a obstáculo. Ele conhecia o ritmo dos passos pelo som, distinguia a intenção das pessoas pela respiração, reconhecia desperoços de humanidade nas vozes que por vezes se curvavam para deixar-lhe uma esmola. Dentro dele, porém, ardia algo maior que a dor: ardia um desejo antigo de não apenas sobreviver, mas existir plenamente.
Quando o movimento da multidão mudou — como se um vento novo passasse sobre a estrada — o cego percebeu antes de todos. No rumor do povo, no choque das sandálias contra o chão, havia uma vibração diferente. Ele pergunta, alguém responde apressado: “É Jesus de Nazaré que está passando!” Nesse instante, a escuridão que envolvia seus olhos não conseguiu apagar a chama que acendeu no fundo de sua alma. Ele começa a gritar — não um pedido educado, mas um grito que vem das entranhas: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!” Era o clamor de quem reconhece aquilo que muitos, com os olhos saudáveis, não conseguiam perceber: ali não passava um simples mestre, mas o Messias esperado.
Os que caminhavam à frente tentam silenciá-lo, porque todo sistema — religioso, político ou social — teme o clamor dos que foram empurrados para a margem. O barulho dos pobres incomoda. Mas quanto mais tentam calá-lo, mais ele grita, como se soubesse que aquele momento era o único fio de esperança que ligava sua noite à possibilidade de um amanhecer. Jesus então para. O silêncio súbito da multidão se mistura ao som do próprio coração do cego, que talvez já soubesse que, quando o Nazareno interrompe seu caminho, é porque Deus ouviu o choro de alguém.
Mandam que o tragam. Os mesmos que o mandavam calar agora dizem: “Coragem, levanta-te, Ele te chama.” É sempre assim: quem antes desprezava, quando vê a ternura de Jesus, muda o tom. O cego se levanta com pressa, talvez tropeçando, talvez guiado pela fé mais do que pelas mãos dos outros. Diante de Jesus, a pergunta parece estranha: “Que queres que Eu te faça?” Mas Jesus não pergunta por ignorância; pergunta porque ninguém é curado sem assumir sua própria voz, sua própria história. O homem responde com a simplicidade dos que sabem o essencial: “Senhor, que eu veja!”
E então, como um novo Gênesis, a palavra de Jesus atravessa as trevas: “Vê! A tua fé te salvou.” Não é apenas uma cura; é uma recriação. A luz que se abre diante dos olhos do cego é a mesma luz que, desde o primeiro dia da criação, separa a vida do caos. Ele não apenas recupera a visão; recupera também a dignidade de caminhar, de escolher, de seguir. E ele segue Jesus, glorificando a Deus, enquanto todo o povo, ao ver aquilo, rompe num louvor espontâneo. No pó da estrada de Jericó, naquele encontro intenso entre o clamor humano e a compaixão divina, a luz venceu novamente a sombra, e Deus foi revelado não em discursos, mas em gesto, corpo, toque e misericórdia.
A narrativa de Lucas 18,35-43 já ressoa liturgicamente na segunda-feira da 33ª semana do Tempo Comum, quase no limiar do fim do ano litúrgico, quando a Igreja, guiada pela Palavra, faz memória da proximidade do Reino e do clamor das periferias que imploram não apenas uma cura biológica, mas uma reconfiguração profunda da existência. Este texto, no entanto, aparece também no ciclo litúrgico dominical no Ano C, quando se proclamam as últimas etapas da subida de Jesus para Jerusalém, caminho que não é apenas geográfico, mas teológico, antropológico e escatológico. O cego de Jericó, portanto, é sempre lembrado na pedagogia da Igreja como figura daquele que passa das trevas para a luz, da margem para o caminho, do silêncio imposto para o brado que se torna oração, da exclusão para a comunhão. É neste ponto que a liturgia, com sua sabedoria secular, nos coloca diante de uma pergunta essencial: quem realmente vê? E quem insiste em permanecer cego?
Jesus passou toda a sua vida fazendo o bem para manifestar o amor de Deus para conosco. Mas essa afirmação, que à primeira vista parece óbvia, ganha grande densidade quando a aproximamos da hermenêutica lucana. O evangelista, médico por formação segundo a tradição patrística (cf. Cl 4,14), sabe que curar não significa apenas restaurar órgãos, mas reintegrar a pessoa na vida, na dignidade, na história. Assim, quando Jesus realiza curas, não demonstra apenas compaixão individual — Ele desmonta sistemas de exclusão. Ele revela que o amor de Deus não permite que pessoas fiquem à margem do caminho pedindo esmolas — e isso, teologicamente, é uma denúncia contra sociedades que naturalizam a pobreza como destino e não como construção histórica. Lucas, que é o evangelista dos pobres, dos esquecidos e dos periféricos, faz do cego que grita uma espécie de ícone da humanidade marginalizada, aquela que o sistema tenta silenciar, mas que Jesus escuta antes de todos.

A cena lucana ecoa muitas outras páginas da Escritura em que a cegueira física simboliza, ao mesmo tempo, a cegueira espiritual, ética, política e religiosa. No Antigo Testamento, recordamos Tobias, cuja cegueira (Tb 2,10-15) é curada por Rafael como sinal da restauração da justiça na família. Lembramos também Eliseu, que devolve a visão aos soldados arameus (2Rs 6,17-20), revelando que ver é entrar na lógica de Deus e não na lógica da guerra. No Novo Testamento, o paralelo mais direto é Marcos 10,46-52, onde Bartimeu tem nome — e isso é teologicamente muito relevante, pois Marcos quer mostrar que o Reino devolve identidade aos que foram reduzidos à condição de estatística social. Em Mateus 20,29-34, aparece a cura de dois cegos, sublinhando a dimensão comunitária do sofrimento e da libertação. Lucas, por sua vez, mantém o anônimo — e isso não diminui o personagem, mas o universaliza: ele representa todos os que foram despersonalizados pela sociedade.

A cegueira, dentro da tradição bíblica, nunca é apenas ausência de visão ocular. Muitas vezes ela é denunciada como consequência da injustiça estrutural (cf. Is 59,10), da idolatria (cf. Sl 135,16), da arrogância espiritual (cf. Is 6,10), da violência que obscurece o coração (cf. Sb 2,21). Por isso, quando Jesus cura o cego de Jericó, realiza um gesto que tece múltiplos sentidos: cura o corpo, restaura a dignidade, reintegra socialmente, denuncia estruturas excludentes e manifesta a chegada do Reino. Lucas, que inicia o evangelho com a promessa de que Jesus veio iluminar os que jazem nas sombras da morte (Lc 1,79), fecha o ministério galileu com a cena de alguém que literalmente sai das sombras e segue Jesus pela estrada iluminada da missão.

A psicologia contemporânea nos ajuda a perceber que a marginalização prolongada produz um tipo de cegueira existencial: a pessoa perde o horizonte de futuro, perde a referência de pertença, perde até mesmo a capacidade de pedir ajuda. O grito do cego — “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!” — é, portanto, um ato de resistência psíquica e espiritual. É o grito de quem se recusa a ser silenciado pelos discursos do “aceite seu lugar”, do “não incomode”, do “não atrapalhe a passagem dos importantes”. É um grito que já nasce como oração, ecoando o clamor dos Salmos, a súplica dos anawim, os pequenos de Javé (cf. Sl 34,7.18; 51,19; 72,12-13). Do ponto de vista antropológico, esse grito revela que o humano, por mais oprimido, nunca perde completamente o desejo de transcendência — e por isso mesmo o Reino começa ali, naquele grito.

Mas o texto apresenta também um outro grupo: os que mandam o cego calar. Esses representam a lógica da teologia da prosperidade, da teologia do domínio, da fé como mercadoria e da religião convertida em espetáculo. São aqueles que querem um Jesus controlado, previsível, útil para manter privilégios. Lembram líderes religiosos que, nos profetas, eram acusados de fechar os olhos (Is 56,10) e de pastorear-se a si mesmos (Ez 34). Lembram também a crítica de Jesus aos fariseus que se consideravam guias de cegos, mas eram cegos guiando cegos (Mt 15,14). Esses personagens, tão presentes no evangelho quanto em nossa sociedade, representam a cegueira mais perigosa: a cegueira moral e espiritual, aquela que se mascara de luz, mas mantém os pobres na escuridão.

Há ainda uma cegueira mais profunda e mais perigosa, que não atinge os olhos, mas o coração: a cegueira ideológica, aquela que transforma projetos políticos em religiões absolutas, que sequestram consciências e impedem qualquer forma de discernimento. Essa cegueira não nasce da falta de informação, mas da recusa deliberada de acolher a verdade. Por isso, o ditado popular ecoa com força profética: “o pior cego é aquele que não quer ver, e pior ainda quando também não quer ouvir.” É a cegueira voluntária de quem fecha os olhos diante dos pobres para não questionar seus privilégios; de quem tapa os ouvidos para não escutar o clamor das vítimas, dos negros, dos indígenas, das mulheres, dos famintos; de quem prefere seguir líderes violentos, autoritários ou mentirosos porque eles confirmam suas próprias sombras interiores. Essa cegueira ideológica, denunciada pelos profetas (cf. Is 6,9-10; Jr 5,21) e retomada por Jesus ao falar dos “cegos guiando cegos” (Mt 15,14), é sempre mortal para a democracia e para o Evangelho, porque transforma a fé em arma, a religião em palanque e o nome de Deus em justificativa para o ódio. Contra essa cegueira, a cura do cego de Jericó se levanta como contracultura luminosa: ver e ouvir a verdade é sempre o primeiro passo para seguir Jesus e para romper com todo projeto que tente instrumentalizar a fé e desumanizar o outro.

Sociologicamente, o cego à beira do caminho é símbolo de todos os que, hoje, são empurrados para as margens pelo neoliberalismo, pelo capitalismo que sacrifica vidas para manter lucros, pela política do ódio, pela violência estrutural e pelo desprezo aos vulneráveis. Ele é o trabalhador precarizado, a mãe solo, o idoso abandonado, o jovem negro criminalizado, o morador de rua invisibilizado, os povos indígenas expulsos de suas terras, os migrantes rejeitados, todos os que a sociedade de consumo transforma em descartáveis — como denuncia Francisco na Fratelli Tutti (n. 18-22). A cura de Jesus é, portanto, um ato profundamente político: devolve o pobre ao centro, interrompe a marcha dos importantes para ouvir quem não era para ser ouvido.

A ciência histórica nos lembra que Jericó era uma cidade que vivia de pedágios e impostos, rota de comércio e circulação de riqueza, mas também de exploração e desigualdade. O cego, sentado à beira da estrada, não é alguém que escolheu a marginalidade — ele é produto de um sistema econômico que desumaniza. Portanto, quando Jesus o chama, está invertendo a lógica social: do centro para a margem, Ele desloca o valor; da estrada para a pessoa, Ele desloca a prioridade; do fluxo econômico para o fluxo da compaixão, Ele desloca o sentido da história.

O gesto de Jesus — “O que queres que eu te faça?” — ecoa não apenas como pergunta terapêutica, mas como gesto de restituição da autonomia. Jesus não impõe uma cura. Ele pergunta. Respeita a liberdade. Reconhece a subjetividade. É o contrário da lógica autoritária da teologia do domínio, que trata Deus como um tirano e os fiéis como massa manipulável. É também o contrário da fé mercantilizada, que transforma a oração em contrato, a bênção em transação e a cura em propaganda religiosa. Jesus, ao contrário, restabelece a dignidade do sujeito: “Senhor, que eu veja de novo”. E ver de novo, na linguagem bíblica, é recuperar a criação original, é voltar ao projeto de Deus, é reentrar na luz que foi separada das trevas no primeiro dia (Gn 1,3).


A Patrística interpreta esta cena como símbolo da iluminação batismal. Santo Agostinho vê no cego o gênero humano ferido pelo pecado e pela soberba, que só recobra a visão quando reconhece em Cristo o “Filho de Davi”, isto é, o Messias misericordioso. Orígenes lê o caminho como símbolo da vida espiritual, e a visão recuperada como discernimento. São Beda chama o cego de “figura de todo catecúmeno que clama na escuridão até encontrar a luz da fé”. A Tradição, portanto, entende que o milagre não é apenas físico, mas eclesial: a Igreja é o lugar onde os cegos recobram a vista porque ali se experimenta a luz da Palavra, da caridade e da justiça.

Mas há ainda um outro elemento: após ser curado, o cego segue Jesus glorificando a Deus. É significativo que Jesus não lhe imponha seguir, nem ofereça um prêmio por gratidão. Quando Jesus cura, Ele não tira a liberdade da pessoa. Aqueles que, depois de curados, resolvem segui-lo, o fazem de livre e espontânea vontade. E isso revela que a verdadeira evangelização é libertadora, nunca coercitiva. É o contrário do clericalismo, que tenta domesticar consciências, infantilizar fiéis e sequestrar a liberdade espiritual do povo. O cego, agora caminhante, se torna testemunho vivo, e sua nova vida faz com que todos glorifiquem a Deus — e não a instituição, não o pregador, não o milagreiro.

A filosofia ilumina ainda mais esse processo. O ato de ver está ligado ao conhecimento de si, do mundo e do outro. Aristóteles dizia que o ser humano deseja naturalmente conhecer; Platão via na luz o símbolo da verdade; Paulo, ecoando ambos, afirma que Deus “nos chamou das trevas para a sua luz admirável” (1Pd 2,9). A cura, portanto, é revelação. É epifania. É transcendência encarnada na história. A verdadeira cura liberta de toda alienação, inclusive a religiosa, que muitas vezes prefere manter o povo cego para que não questionem as estruturas de poder.

O contexto imediato de Lucas também é decisivo. Antes da cura, Jesus acaba de anunciar pela terceira vez sua paixão (Lc 18,31-34). Os discípulos, porém, não compreendem; permanecem cegos. O cego de Jericó vê mais do que eles. Isso revela a inversão típica de Lucas: os de dentro nem sempre entendem; os de fora frequentemente percebem mais. Esse contraste denuncia as lideranças religiosas que, ainda hoje, conhecem a doutrina, mas perderam o coração; que estudam teologia, mas abandonaram a misericórdia; que falam de Deus, mas impedem o povo de encontrá-lo. É o clericalismo denunciado por Francisco como “uma perversão eclesial” (Evangelii Gaudium, n. 102-104).

No campo da sociologia, podemos dizer que a cura do cego é uma ruptura do ciclo de marginalização. Ao recobrar a vista, ele pode trabalhar, caminhar, relacionar-se, sonhar. Ele se reintegra à cidade. E a cidade muda com a presença dele. Toda cura verdadeira tem impacto social. A comunidade que glorifica a Deus ao ver o milagre é convidada a transformar suas estruturas. Não basta aplaudir a cura — é preciso curar a sociedade que produz cegos. Como diz Gaudium et Spes (63–66), o desenvolvimento humano integral exige justiça, solidariedade e dignidade para todos. A cura é sinal escatológico, mas também desafio político.

O texto, quando lido no fim do ano litúrgico, nos faz pensar na cegueira apocalíptica daqueles que, guiados por ideologias violentas, tentam transformar a fé em arma, a religião em instrumento de poder e o evangelho em manual de ódio. São os que se alinham à extrema direita, transformando Jesus em mascote ideológico, negando sua opção pelos pobres e sua mensagem de inclusão. A cura do cego se torna, então, uma denúncia profética: não há cristianismo verdadeiro onde os pobres continuam invisíveis e onde a religião serve ao poder e não ao Reino.

O cego que grita é o oposto da fé individualista. Ele clama publicamente, envolve a comunidade, recebe a cura diante de todos e, ao seguir Jesus, se torna sinal comunitário de transformação. A fé individualista, ao contrário, é cega para o sofrimento alheio, cega para a injustiça, cega para o compromisso social. O evangelho lucano desmonta essa lógica: a salvação é pessoal, mas nunca isolada; é sempre relacional e comunitária.

Assim, a cena se encerra com três movimentos: o cego vê; o cego segue; o povo glorifica. É a síntese da missão cristã: ver a realidade com os olhos de Deus, caminhar na direção de Deus e transformar a sociedade para que Deus seja glorificado. Ver, seguir, transformar — eis o processo da conversão.

Por isso, quando a liturgia nos entrega este evangelho no final do ano, ela nos provoca a perguntar: onde estão hoje os cegos que clamam? Onde estão os que mandam calá-los? Onde estamos nós: à beira do caminho ou no caminho com Jesus? E mais: que tipo de cegueira ainda nos aprisiona — cegueira de medo, de ideologia, de indiferença, de culto vazio, de religiosidade mercantil, de fé reduzida a performance?.

Ao final, como o cego cu


rado, somos chamados a caminhar com Jesus, não porque Ele exige, mas porque a vida nova nos convida. Seguir Jesus é sempre um ato de liberdade. E é somente na liberdade que a verdadeira fé floresce.


DNonato – Teólogo do Cotidiano

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário.