Nós vivemos em um tempo em que a língua, que deveria ser ponte, torna-se trincheira; e o corpo, que deveria ser casa, vira campo de batalha. Diante disso, nós nos recusamos a aceitar uma guerra artificial que tenta colocar pessoas trans e a língua portuguesa em lados opostos, como se defender a dignidade de quem existe na margem significasse destruir a língua, ou como se preservar a língua significasse apagar identidades que atravessam a história com coragem e dor. Não cedemos a essa armadilha. A língua é casa, as pessoas são templos, e não há templo que precise cair para que uma casa permaneça de pé. Nós caminhamos na direção de um horizonte no qual a dignidade humana e a integridade linguística não são antagonistas, mas irmãs na tarefa de sustentar a vida comum.
Quando olhamos para a língua portuguesa, não vemos um monumento estático, frio e intocável; vemos um organismo vivo, que respira com o povo e muda com o povo, e que não pode ser sequestrado por grupos que desejam impor hábitos artificiais que não nascem do uso, mas de decretos simbólicos. A língua tem história, raízes profundas que atravessam o latim, o galego-português, as línguas africanas, árabes e indígenas. Somos herdeiros de uma construção que nunca foi pura, nunca foi homogênea, nunca foi neutra. Se hoje alguém reivindica que uma vogal recém-inventada é sinal de justiça, não entendendo que a justiça linguística precisa emergir da coletividade, não da imposição, nós precisamos recordar que toda mudança autêntica nasce debaixo, do uso, do afeto real do povo pela palavra, nunca da pressão de nichos. É por isso que, quando refletimos sobre a linguagem neutra, não rejeitamos a intenção — que é nobre —, mas questionamos o caminho — que é estreito demais, elitizado demais, desconectado demais da realidade de quem vive na periferia da língua.
Nós afirmamos que a dignidade trans é inegociável, irrevogável, absoluta. O Brasil segue sendo um dos países mais violentos para pessoas trans, e isso não é coincidência histórica, mas fruto de um tecido social marcado pela escravidão, pelo patriarcado, pela masculinidade violenta, pela colonização religiosa e pela cultura da descartabilidade. A morte de uma pessoa trans não é um acidente: é produto de uma estrutura que opera como máquina de moer vidas que escapam ao padrão. A sociologia descreve isso como violência estrutural; nós chamamos de pecado social. E esse pecado não será expiado com trocas de sufixos, mas com políticas públicas, com educação antiviolência, com proteção integral, com respeito à autonomia dos corpos, com escuta sensível e com o reconhecimento radical de que nenhuma identidade é menos humana que outra.
Judith Butler nos lembra que o corpo se torna inteligível pela linguagem, mas que a linguagem pode ser instrumento de exclusão quando usada para delimitar quem é reconhecido como pessoa. Pierre Bourdieu fala em violência simbólica, aquela que mata devagar, que humilha com suavidade, que se infiltra na gramática das relações sociais. bell hooks nos lembra que o amor é uma prática de libertação, e que não existe amor em uma sociedade que normaliza a morte de corpos dissidentes. Essas perspectivas nos ajudam a perceber que a luta por dignidade trans não é moda, não é agenda identitária isolada; é luta por humanidade.
Cada pessoa trans, travesti, não binária, intersexo é um templo vivo, e esse templo não é obra humana, mas semente divina. Quando perguntamos “Deus é Ele ou Ela?”, estamos, na verdade, perguntando pelo limite da linguagem diante do Mistério. A Escritura hebraica fala de Deus com imagens masculinas porque refletia o contexto patriarcal em que foi escrita, mas usa também metáforas maternas com força arrebatadora. Ruah, Espírito, é feminina em hebraico; Deus consola como mãe em Isaías 66; carrega como mãe em Isaías 49; ama como mãe em Oséias 11. A patrística afirma que Deus é princípio, não gênero. A mística medieval fala de Cristo-Mãe. Deus é além da gramática. Se Deus é amor, amor não tem gênero. E se o amor se manifesta no rosto de cada pessoa trans violentada, então a violência contra essas vidas é violência contra o Ícone de Deus.
A psicologia nos ajuda a compreender as marcas deixadas pela rejeição. O estresse de minoria pesa sobre a alma. O misgendering diário dói. A rejeição familiar rasga. A violência social paralisa. A afirmação identitária não é capricho, é sobrevivência. A linguagem não é só som: é abrigo psíquico. Nomear corretamente é gesto de cura. Desnomear é gesto de morte lenta.
Chegamos ao ponto em que a reflexão sobre língua e política se encontra. Quando defendemos a língua portuguesa, não a defendemos como monumento morto, mas como ferramenta viva, que precisa continuar servindo ao povo inteiro. E quando falamos do episódio “presidenta”, nós precisamos ser honestos com a história e com a linguística. Dilma Rousseff usou “presidenta” amparada na morfologia da própria língua — que prevê a feminização natural de substantivos. Até aí, nenhum problema. O problema nasceu não da forma, mas do uso político da forma.
(E aqui abrimos um parênteses radical, que precisa ser dito com toda força: parte da esquerda transformou “presidenta” quase em teste de pureza ideológica, como se quem preferisse “presidente” fosse traidor da causa, e parte da direita transformou “presidenta” em motivo de ódio e ridicularização. Ambos os lados erraram. O desgaste político foi fabricado por quem queria guerra cultural, não linguagem. A verdade linguística é simples: tanto “a presidente” quanto “a presidenta” estão corretos; ambas as formas são plenamente legítimas; ambas são morfologicamente defensáveis; e nenhuma delas deveria ter sido usada como arma, como termômetro de lealdade, como munição de campanha ou como símbolo de guerra. O que era apenas uma flexão morfológica virou trincheira ideológica. E isso revela o que denunciamos neste texto inteiro: quando a linguagem vira campo de batalha, quem perde não é a gramática — quem perde é o povo.)
Fechado esse parênteses — necessário, justo, cirúrgico — nós voltamos ao fio da reflexão. A língua muda quando o povo muda. A língua cresce quando a sociedade cresce. A língua se amplia quando a vida pede ampliação. Ela nunca muda por decreto moral ou imposição estética. A linguagem neutra, quando tenta reinventar vogais inteiras, corre o risco de excluir mais do que incluir. A inclusão verdadeira precisa ser acessível, democrática, compreensível, afetuosa. A luta trans merece mais do que experimentos linguísticos que só funcionam em nichos acadêmicos ou digitais. A verdadeira guerra não é entre sufixos; é entre vida e morte.
A filosofia nos ajuda a enxergar isso com profundidade. Hannah Arendt ensina que o mal se banaliza quando deixamos de ver o rosto concreto. Levinas mostra que o rosto do outro nos convoca antes de qualquer pronome. Beauvoir, Preciado e Butler lembram que o corpo é campo de disputa simbólica. A fenomenologia do sofrimento revela que a violência não é só física; é um colapso do mundo interior. E a ética nos exige escolher sempre o rosto, nunca a norma.
A violência contra pessoas LGBTQIAPN+ é estrutural e cotidiana. É a piada, o tapa, o estupro corretivo, o abandono, a morte anunciada nos becos. É o Estado ausente, a igreja omissa, a escola despreparada, o lar hostil. É um sistema inteiro dizendo: “Você não deveria existir.” E é por isso que a nossa defesa não pode ser superficial. Nós não podemos cair na tentação de acreditar que trocar letras é suficiente para salvar vidas. A luta é muito maior do que isso. A luta é por existência, pão, casa, cuidado, segurança, reconhecimento, cidadania.
Quando voltamos a Deus — fonte, princípio, amor —, percebemos que a pergunta sobre pronomes divinos é a menor. O essencial não é perguntar se Deus é Ele ou Ela, mas reconhecer que Deus se revela onde a vida é ferida. Se a teologia não serve para proteger os que sofrem, ela não serve para nada. O profetismo bíblico sempre foi a arte de defender os feridos do sistema. E hoje os feridos têm nome: pessoas trans, travestis, não binárias, lésbicas, gays, bissexuais, intersexo, todos os que carregam a marca da exclusão.
A língua continuará mudando. As pessoas continuarão lutando. Nós continuaremos denunciando toda violência que tenta destruir templos vivos e toda manipulação que tenta destruir a casa da língua. Nós nos recusamos a escolher entre um e outro. A casa é grande o bastante para caber todos os corpos e todas as palavras necessárias para nomeá-los com amor. A gramática não será arma; a identidade não será motivo de escárnio; a linguagem não será trincheira. Caminharemos juntos até que a justiça se torne hábito, que o respeito se torne língua materna e que o amor se torne gramática comum.


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentário.