Por DNonato
O trecho de João 6,44-51, proclamado na liturgia da Igreja na quinta-feira da terceira semana da Páscoa e a continuação do da quarta-feira no caso ontem, mas também esta minserido no ciclo dominical do Ano B, não surge como uma leitura isolada, mas como parte de um caminho pedagógico e mistagógico no qual a comunidade, já iluminada pela experiência do Ressuscitado, é conduzida a reconhecer que Cristo permanece presente como alimento que sustenta, interpreta e transforma a existência. A repetição progressiva desse capítulo ao longo da liturgia revela que não estamos diante de uma palavra meramente informativa, mas de uma realidade que se experimenta. Trata-se de uma Palavra que se torna alimento e que ilumina a vida concreta à luz da Páscoa, penetrando as dimensões históricas, sociais e existenciais do ser humano.
Quando Jesus afirma que ninguém pode ir a Ele se o Pai não o atrair, conforme João 6,44, Ele nos introduz no mistério da graça que precede toda busca humana. Deus não é encontrado como objeto de investigação ou conquista intelectual, mas como presença viva que chama, seduz e conduz. Jeremias 31,3 e Oseias 11,4 já apontavam para esse dinamismo de um amor que atrai com laços de ternura. Essa atração não anula a liberdade, mas a desperta, pois revela que a fé nasce de um encontro e não de uma imposição. Ao dizer que todos serão ensinados por Deus, conforme João 6,45, ecoando Isaías 54,13 e Jeremias 31,33, Jesus indica que esse ensinamento não é externo, mas interior. A Lei deixa de ser norma escrita fora do sujeito e passa a habitar o coração, tornando-se princípio de discernimento e transformação da vida.
É nesse horizonte que se compreende que o Senhor deseja nos alimentar e indica claramente onde se encontra a verdadeira comida. A experiência do deserto, evocada em Deuteronômio 8,3 e retomada por Jesus em Mateus 4,4, revela que o ser humano não vive apenas de pão, mas de toda Palavra que procede de Deus. O deserto é lugar de revelação da verdade do coração humano, onde a fome ultrapassa o biológico e se torna existencial. O alimento que Deus oferece é o Pão da Palavra, luz para o caminho, como afirma o Salmo 119,105. Essa Palavra não deve ser apenas ouvida, mas acolhida com fé e abertura, permitindo que penetre, ilumine e transforme, como ensina Hebreus 4,12. Em Jesus, o Verbo feito carne, conforme João 1,14, essa Palavra assume densidade histórica, torna-se presença concreta e viva no meio de nós, expressão plena do que o Pai quis comunicar, como reconhece Santo Agostinho ao afirmar que em Cristo Deus disse tudo o que tinha a dizer.
Ao afirmar: “Quem crê em mim possui a vida eterna. Eu sou o pão da vida [...] e o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (João 6,47-51), Jesus nos conduz além da lógica da saciedade imediata e nos introduz em um horizonte de plenitude. Ele nos convida a um banquete de vida plena, já anunciado em Isaías 55,1-3, onde todos são chamados gratuitamente, rompendo com qualquer lógica de exclusão ou meritocracia. Como observa São João Crisóstomo, a fé é suficiente para a vida, não como fuga da realidade, mas como adesão ao que sustenta verdadeiramente. Sua Palavra e sua carne oferecida são alimento de eternidade, acolhidos na fé, como também se afirma em João 3,16.
O contraste com o maná, conforme Êxodo 16 e João 6,49, evidencia o limite de um alimento que sustenta, mas não vence a morte. Jesus se apresenta como o verdadeiro Pão da Vida, conforme João 6,48, um alimento que não apenas sustenta, mas recria o ser humano em profundidade. Ao declarar que o pão que dará é sua carne para a vida do mundo, conforme João 6,51, Ele aponta para sua entrega total, consumada na cruz em João 19,30 e iluminada por Isaías 53,5. Trata-se de um Deus que não domina pela força, mas se doa radicalmente. Como ensina Santo Irineu de Lyon, essa entrega é penhor da ressurreição, sinal de que a vida não termina na morte, mas se abre à plenitude. A fé, portanto, não é apenas promessa futura, mas início da vida eterna já aqui e agora.
Essa proposta, porém, desinstala profundamente. A fé que Jesus propõe não é comodidade religiosa, mas adesão corajosa que transforma toda a existência, fazendo de nós novas criaturas, conforme 2 Coríntios 5,17. Como recorda o Concílio Vaticano II, o ser humano não pode viver sem amor, conforme Gaudium et Spes 24, e esse amor se manifesta plenamente em Cristo, como afirma 1 João 4,9. O pão vivo descido do céu revela não apenas uma doutrina, mas o próprio coração de Deus, um amor que se traduz em compromisso com a vida concreta.
Essa presença de Cristo se perpetua na Sagrada Escritura e na Eucaristia. A Igreja sempre venerou as Escrituras como o próprio Corpo do Senhor, conforme Dei Verbum 21, reconhecendo nelas a Palavra viva que alimenta. Na Eucaristia, esse encontro se aprofunda de modo singular, pois Cristo se entrega por inteiro, Corpo e Sangue, tornando-se verdadeiramente nosso sustento. Como afirma São João Crisóstomo, Ele se deu a nós e colocou diante de nós seu Corpo e seu Sangue. Esse alimento não apenas sustenta a caminhada, mas incorpora os fiéis ao Corpo de Cristo, conforme 1 Coríntios 10,17, formando uma comunidade viva e missionária.
Pela fé e pela Eucaristia, começamos a experimentar já neste mundo os sinais da eternidade. Como expressa Santo Inácio de Antioquia, a Eucaristia é remédio de imortalidade, antecipação da vida plena prometida em Apocalipse 21,3-4. Ela é o pão dos anjos, como em Salmo 78,25, alimento que sustenta na travessia. Quando o coração se abre a esse mistério, ele ecoa o clamor dos discípulos de Emaús: “Fica conosco, Senhor!” (Lucas 24,29), reconhecendo sua presença na fração do pão e reencontrando sentido para o caminho.
Essa dinâmica da fé e da comunhão toca profundamente o ser humano em sua estrutura mais íntima. Como expressa Santo Agostinho, o coração permanece inquieto enquanto não repousa em Deus. Do ponto de vista antropológico, somos seres famintos de sentido, de vínculo e de pertencimento. Quando essa fome não encontra o alimento verdadeiro, busca-se satisfação em realidades passageiras, como denuncia Eclesiastes 2,11. A sociedade contemporânea, marcada pelo consumo, pelo acúmulo e pela lógica meritocrática, intensifica essa busca, mas não a resolve. Cristo, porém, se apresenta como fonte de água viva, conforme João 4,13-14, e como pão que não perece, conforme João 6,27, respondendo à sede mais profunda da existência.
A história do cristianismo mostra que esse discurso sempre foi um ponto de ruptura. Muitos consideraram suas palavras duras e se afastaram, conforme João 6,60 e 6,66. A Eucaristia permanece como sinal de contradição, conforme Lucas 2,34, pois desafia a lógica do poder, da posse e da meritocracia. Nela, experimentamos a gratuidade do amor divino, um dom que não pode ser merecido, e somos convidados a entrar na lógica da entrega, seguindo o exemplo de Cristo.
Nesse horizonte, a palavra profética de Dom Paulo Evaristo Arns ressoa com força ao afirmar que não se pode comungar o Corpo de Cristo sem compromisso com o corpo sofredor do povo. Essa verdade encontra fundamento em 1 Coríntios 10,17 e em Mateus 25,35, onde Cristo se identifica com os famintos. A Eucaristia não é refúgio espiritualista, mas encontro com o Deus encarnado que nos impulsiona a sair de nós mesmos e reconhecer sua presença no outro, especialmente nos que sofrem. Ao comungarmos, somos chamados a nos tornar Corpo de Cristo no mundo, instrumentos de sua paz e de sua justiça.
Da mesma forma, a intuição de Dom Adriano Hipólito de que o céu começa aqui ecoa a palavra de Jesus em Lucas 17,21. O Reino de Deus não é fuga da realidade, mas presença que transforma a história. A Eucaristia, como memória da Última Ceia e antecipação do banquete do Reino, impulsiona a construção concreta de uma realidade marcada pela justiça, pela dignidade e pela fraternidade.
Na mesa da Palavra e do Pão, a Igreja reencontra sua vocação mais radical de comunhão, como suplica Jesus em Evangelho de João “que todos sejam um” (Jo 17,21). Não se trata de uma unidade meramente espiritualizada, mas de uma experiência concreta que se encarna na partilha e na vida comum. Como recorda São Cipriano de Cartago, assim como muitos grãos formam um só pão, os fiéis, reunidos, tornam-se um só corpo. Essa imagem revela uma eclesiologia profundamente relacional, em oposição a qualquer forma de fé isolada ou individualista. Essa mesa encontra seu fundamento nas práticas do próprio Jesus, que se reunia à mesa com pecadores, publicanos e excluídos, rompendo barreiras religiosas e sociais (cf. Evangelho de Marcos,15-17; Evangelho de Lucas,29-32). À mesa, Ele não apenas ensinava, mas restaurava vínculos rompidos, antecipando o Reino como espaço de inclusão, reconciliação e dignidade. Esse gesto alcança sua expressão máxima na Ceia (cf. Evangelho de Lucas,14-20), onde o pão partido e o cálice partilhado manifestam uma vida entregue e uma comunidade chamada a viver da mesma lógica, “fazei isto em memória de mim”.
Do ponto de vista sociológico, a mesa partilhada é um dos mais antigos dispositivos de construção de solidariedade e pertencimento. Comer juntos implica reconhecer o outro como igual, romper hierarquias excludentes e estabelecer uma ética de reciprocidade. Por isso, a prática de Jesus confronta estruturas que produzem exclusão, algo que aparece de forma contundente na crítica de Paulo à comunidade de Corinto, onde a Ceia do Senhor foi esvaziada de sentido por causa das desigualdades (cf. Primeira Carta aos Coríntios,17-34). Quando olhamos para a nossa realidade, essa tensão permanece. Há mesas eucarísticas que, embora liturgicamente celebradas, tornam-se existencialmente vazias. Vazias não pela ausência de rito, mas pela ausência de vida partilhada, de justiça e de compromisso com os que têm fome real. O pão é consagrado, mas não é repartido na prática social; a assembleia se reúne, mas não se reconhece como corpo que sofre junto. Assim, a advertência de Paulo de Tarso continua atual, quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe a própria condenação (cf. 1Cor 11,29).
Nesse horizonte, ecoa a voz profética de Dom Adriano Hipólito, que insistia que a Eucaristia não pode ser separada da vida do povo, especialmente dos pobres, pois uma Igreja que não se compromete com a justiça corre o risco de trair o próprio Cristo presente no pão e na história. Sua denúncia permanece atual, a mesa do altar não pode estar desligada da mesa da vida. Uma mesa eucarística vazia é aquela onde a liturgia não transborda em ética, onde o altar não se prolonga na vida concreta, onde a fé não se traduz em solidariedade. Em contextos marcados por desigualdade, fome e exclusão, como os nossos, celebrar a Eucaristia sem compromisso com a justiça é esvaziar o próprio gesto de Jesus. A mesa do Senhor exige coerência, ou se torna apenas um símbolo domesticado, incapaz de confrontar as estruturas que negam a vida.
Assim, João 6,44-51 permanece como palavra viva que ilumina, desinstala e envia. Ele revela um Deus que se dá como alimento, que sustenta a vida e chama à comunhão. Denuncia uma fé reduzida a ritual ou interesse e convida a uma experiência autêntica, onde a vida é transformada pela graça. Diante dessa revelação, resta acolher a atração do Pai, abrir-se ao seu ensinamento e reconhecer em Cristo o pão da vida. Isso implica reorganizar a existência, buscar o Reino como prioridade, conforme Mateus 6,33, e viver a justiça e a misericórdia, conforme Miqueias 6,8. Alimentados por esse pão, somos chamados a nos tornar pão para os outros, sinais concretos de uma vida que não se esgota, mas se plenifica no amor que vem de Deus.
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*DNonato graduado em História
¹ Dom Adriano Hipólito (1974–1994), bispo de Nova Iguaçu, profeta da fé comprometida com a justiça social em tempos de repressão – símbolo de resistência durante a ditadura militar. Sua vida e a afirmação 'O céu começa aqui' ilustram como a Eucaristia inspira a construção do Reino pela vivência da fé engajada na realidade.
Referência: NONATO, Daniel. A Igreja de Nova Iguaçu no Regime Militar: Atentado à Fé. Publicado em 13 de novembro de 2012. .


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