quarta-feira, 7 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 6,35-40


Por: DNonato  - Teólogo do cotidiano, licenciado em História 

 “Eu sou o pão da vida” deve ser situada dentro da arquitetura teológica do quarto Evangelho, onde os chamados “Eu sou” remetem tanto à revelação do Nome divino em Êxodo 3,14 quanto à experiência concreta de salvação vivida pelo povo. A expressão não é meramente metafórica. Ela carrega densidade ontológica e salvífica. O pão, no mundo semítico, não é apenas alimento, mas símbolo de vida, de subsistência, de comunhão. Quando Jesus se identifica com o pão, ele não está oferecendo uma ideia, mas a si mesmo como dom. A exegese do texto revela que esse discurso ocorre após a multiplicação dos pães narrada em João 6,1-15, episódio que dialoga diretamente com Êxodo 16, onde Deus alimenta o povo com o maná no deserto. A multidão, ao procurar Jesus, está motivada por uma experiência concreta de saciedade, mas permanece presa à lógica do milagre material. A crítica de Jesus, “vós me procurais não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes saciados” (João 6,26), revela a tensão hermenêutica entre sinal e interpretação.

A perícope de João 6,35-40 ocupa um lugar denso e recorrente na vida litúrgica da Igreja. Ela é proclamada, no rito romano, ao longo da semana que segue o terceiro domingo da Páscoa, especialmente na quinta-feira dessa semana, dentro do ciclo ferial do tempo pascal, quando a comunidade, ainda iluminada pela Ressurreição, é conduzida a aprofundar o mistério da presença de Cristo como alimento de vida. Também aparece, em variantes próximas, nas celebrações eucarísticas votivas e em contextos catequéticos ligados ao mistério do pão da vida. Nas tradições litúrgicas das Igrejas históricas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, esse capítulo joanino é lido dentro do grande arco pascal, pois a Eucaristia é inseparável do evento pascal. A tradição bizantina, por exemplo, retoma o discurso do pão da vida como prolongamento da experiência do Ressuscitado que se dá a conhecer no partir do pão, ecoando Lucas 24,30-35.

No judaísmo do século I, havia uma expectativa messiânica fortemente marcada por elementos políticos e econômicos. Muitos esperavam um novo Moisés que restauraria Israel, libertando-o do domínio romano e garantindo abundância. O profeta Isaías já havia projetado essa esperança em linguagem simbólica ao falar de um banquete escatológico para todos os povos (Isaías 25,6). Jesus, porém, subverte essa expectativa ao deslocar o foco do pão que perece para o pão que permanece para a vida eterna (João 6,27). Essa subversão não nega a materialidade da vida, mas a integra em uma perspectiva mais profunda, onde a fome física é sinal de uma fome mais radical, a fome de Deus, a fome de sentido, a fome de justiça.

O ser humano é um ser de desejo. A tradição agostiniana expressa isso ao afirmar que o coração humano é inquieto até repousar em Deus. A psicologia contemporânea, ao estudar as necessidades humanas, reconhece níveis distintos de carência, desde as mais básicas até as existenciais. O discurso de Jesus toca essa estrutura profunda da condição humana. Ele não oferece apenas resposta à necessidade biológica, mas se apresenta como resposta ao anseio último. A frase “quem vem a mim nunca mais terá fome” não deve ser interpretada de forma literal, mas como uma afirmação sobre a plenitude que nasce da comunhão com Deus. Entretanto, essa dimensão espiritual não pode ser dissociada da realidade concreta. A multidão que segue Jesus é composta por pessoas marcadas pela precariedade. A Galileia do século I era uma região economicamente explorada, com forte concentração de terras e tributação pesada. A fome não era metáfora, era experiência cotidiana. Nesse contexto, o milagre da multiplicação é também um gesto político no sentido mais profundo do termo, pois revela um Deus que não é indiferente à miséria humana. A tradição profética já denunciava estruturas que produziam pobreza, como em Amós 5,11-12 e Isaías 58,6-7. Jesus se insere nessa linhagem profética, mas radicaliza ao oferecer não apenas denúncia, mas a si mesmo como resposta.

Quando se lê João 6,35-40 à luz dos Evangelhos Sinóticos, percebe-se uma convergência temática e uma diferença de enfoque. Enquanto Mateus 14,13-21, Marcos 6,30-44 e Lucas 9,10-17 narram a multiplicação com ênfase no gesto de partilha e compaixão, João desenvolve uma catequese eucarística mais elaborada. O gesto de tomar o pão, dar graças e repartir aparece em todos, mas em João ele se torna porta de entrada para uma reflexão teológica mais profunda. A tradição sinótica prepara o terreno narrativo, enquanto João oferece a interpretação teológica.

A afirmação “quem vem a mim, eu não o rejeitarei” (João 6,37) revela uma teologia da inclusão radical. Em um mundo marcado por exclusões religiosas, sociais e econômicas, essa palavra tem força subversiva. A antropologia bíblica afirma que todo ser humano é imagem de Deus (Gênesis 1,27), e, portanto, digno de acolhimento. No entanto, a história religiosa frequentemente contradiz essa verdade, criando fronteiras de pureza, mérito e pertencimento. Jesus rompe essas barreiras, aproximando-se de publicanos, pecadores e marginalizados (Mateus 9,10-13). A Eucaristia, nesse sentido, não é prêmio para perfeitos, mas alimento para quem caminha.

A tradição da Igreja, especialmente a partir do Concílio Vaticano II, reafirma essa dimensão. A Lumen Gentium apresenta a Igreja como sacramento universal de salvação, chamada a ser sinal de unidade para toda a humanidade. A Gaudium et Spes reconhece que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos pobres são também as da Igreja. No contexto latino-americano, documentos como Medellín, Puebla e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao falar da opção preferencial pelos pobres como exigência evangélica.

A instrumentalização da fé. Ao longo da história, a religião foi utilizada para legitimar poderes, justificar desigualdades e silenciar vozes. Essa realidade não pertence apenas ao passado. No presente, a fé continua sendo manipulada em projetos políticos que reduzem o Evangelho a ideologia. A teologia da prosperidade transforma Deus em garantia de sucesso econômico, distorcendo a mensagem bíblica e ignorando textos como Lucas 6,20-26. A teologia do domínio busca justificar hegemonias religiosas e políticas, em contraste com o Cristo que lava os pés (João 13,1-15).

O clericalismo, denunciado com insistência no magistério recente, é outra deformação. Ele transforma o ministério em poder, cria distância entre clero e povo e obscurece a dimensão servidora da Igreja. A crítica não é contra a estrutura sacramental, mas contra sua corrupção. Isaías 1,11-17 já denunciava um culto vazio, desconectado da justiça. Jesus retoma essa denúncia em Mateus 23, ao criticar a hipocrisia religiosa. No cenário contemporâneo, marcado por desigualdade crescente, precarização do trabalho e crise de sentido, o discurso do pão da vida ganha nova urgência. A chamada uberização e a pejotização fragilizam vínculos e direitos, criando uma massa de trabalhadores inseguros. A fome, em muitas regiões, volta a ser realidade concreta. Nesse contexto, falar de pão não é abstração. A fé cristã, se for fiel ao Evangelho, não pode se limitar ao âmbito espiritual. Ela exige compromisso com a justiça, como afirmam Tiago 2,14-17 e 1 João 3,17.

A Eucaristia, celebrada no altar, exige coerência na vida. Paulo adverte que quem come e bebe sem discernir o corpo come e bebe sua condenação (1 Coríntios 11,29). Esse discernimento inclui reconhecer Cristo nos pobres, nos famintos, nos excluídos. Não há verdadeira comunhão sem compromisso com a transformação social. Bento XVI, em Caritas in Veritate, insiste que a caridade é inseparável da verdade e da justiça. A fé que não se traduz em ação é estéril.

A promessa “quem crê tem a vida eterna” (João 6,40) está no presente. A vida eterna não é apenas futura, mas realidade que começa agora. Ela se manifesta na capacidade de amar, de partilhar, de construir relações justas. A espiritualidade cristã não aliena, mas engaja. Ela alimenta a esperança ativa, que resiste às estruturas de morte e anuncia possibilidades novas.  Quando se denuncia a fome, a desigualdade, a manipulação religiosa, não se faz política partidária, mas fidelidade ao Evangelho. A pergunta permanece atual: 

  • Se Deus não rejeita ninguém, por que tantas estruturas humanas continuam excluindo?
  •  Se Cristo se faz pão para todos, por que tantos ainda não têm acesso ao pão cotidiano?

A contemplação de João 6,35-40 não permite uma fé acomodada, intimista ou alienada. Ela nos coloca diante de uma síntese exigente, que atravessa o corpo e a história. Jesus não elimina a fome material como se fosse irrelevante, nem a absolutiza como se fosse suficiente. Ele a assume, a carrega, a revela como sinal de algo mais profundo, e a transcende ao oferecer a si mesmo como alimento que sustenta a vida em sua plenitude. Nele, a existência humana encontra seu eixo, pois a vida verdadeira nasce da comunhão com Deus e se manifesta necessariamente na justiça concreta com os irmãos, sobretudo os que têm o rosto marcado pela privação e pela invisibilidade.

O pão da vida não é apenas um dom a ser recebido, mas uma dinâmica a ser vivida. É graça que desce do alto, mas que exige resposta encarnada. Quem se alimenta desse pão não pode permanecer indiferente diante da fome do outro, seja ela biológica, social, afetiva ou espiritual. Há uma coerência intrínseca entre altar e vida, entre liturgia e história. O gesto de “tomar, abençoar, partir e repartir” não pode ficar restrito ao rito, mas deve se prolongar na existência cotidiana, nas relações, nas escolhas econômicas, nas estruturas sociais. Caso contrário, como adverte o profeta, o culto se torna vazio (Isaías 58,3-7), e como denuncia o apóstolo, a Eucaristia se torna contradição (1 Coríntios 11,20-22). Nesse horizonte, a fé cristã não pode ser sequestrada por ideologias, nem reduzida a marcador identitário ou instrumento de poder. Quando isso acontece, o Evangelho é esvaziado de sua força libertadora e transformado em discurso de exclusão. A lógica do Reino não se alinha aos projetos de dominação, mas os desmascara. Não legitima desigualdades, mas as confronta. Não sacraliza privilégios, mas anuncia a dignidade de todos como filhos e filhas de Deus. A tentação de uma religião que se fecha em si mesma, que se protege em ritos sem compromisso, ou que se alia a projetos autoritários, é constantemente denunciada pela própria Escritura (Amós 5,21-24; Mateus 23,23).

Crer em Cristo como pão da vida é entrar num movimento de transformação radical. É permitir que a lógica da doação substitua a lógica da acumulação, que a solidariedade vença o individualismo, que a justiça supere a indiferença. É tornar-se sinal visível de um Reino que já começa a germinar na história, mesmo em meio às contradições e dores do mundo. Esse Reino não é abstração, mas realidade que se constrói na luta por dignidade, na defesa da vida, na partilha do pão e na recusa de toda forma de exploração. Por isso, a esperança cristã não é evasão, mas compromisso. Ela não anestesia, mas desperta. Ela não promete fuga da história, mas transformação da história. Como recorda o testemunho profético de São Óscar Romero, “uma Igreja que não se une aos pobres para denunciar, a partir dos pobres, as injustiças cometidas contra eles, não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo”. E na mesma linha, ecoa com força a palavra do Papa Francisco, que insiste que “esta economia mata” quando se organiza contra a vida dos mais frágeis, chamando a Igreja e a sociedade a uma conversão que coloque a pessoa humana no centro.

Assim, a fé que nasce do pão da vida se torna fermento no mundo. Ela alimenta a coragem de resistir às estruturas de morte e sustenta a esperança de um futuro diferente. E, ao mesmo tempo, nos compromete no presente, porque a eternidade já começou. Quem crê já participa dessa vida nova e é chamado a torná-la visível. Tornar-se pão para os outros não é metáfora piedosa, mas vocação concreta. É gastar-se para que outros vivam, é partilhar para que ninguém fique sem, é amar até o fim, como aquele que se fez pão repartido para a vida do mundo (João 6,51). E assim, caminhando entre a fome e a promessa, entre a cruz e a ressurreição, a comunidade dos discípulos é chamada a ser sinal de um mundo novo, onde ninguém mais terá fome nem sede, porque Deus será tudo em todos, como anuncia Apocalipse 7,16-17.



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