sexta-feira, 13 de maio de 2011

FAVELA E SUA ORIGEM

Uma representação  da fevela com Cristo Redentor ao fundo
A palavra favela carrega uma história profunda e multifacetada, que vai muito além da ideia de pobreza ou precariedade. Sua origem remonta à Guerra de Canudos (1896–1897), na Bahia, quando sertanejos liderados por Antônio Conselheiro se organizaram em resistência à exploração latifundiária e às secas severas do Nordeste. Nos arredores do assentamento, situava-se o Morro da Favela, nome dado a partir da planta espinhenta e resistente Cnidoscolus phyllancatus, utilizada para óleo comestível e combustível. Após o 1⁰  massacre promovido pelo governo republicano, muitos soldados e sertanejos retornaram ao Rio de Janeiro sem recursos e instalaram-se em áreas precárias, como o atual Morro da Providência, criando habitações improvisadas que herdaram o nome da planta. Antes disso, ocupações informais já existiam, habitadas por escravos libertos e trabalhadores pobres sem acesso à terra ou moradia formal.
Um pé  de favela/;Cnidoscolus phyllancatus
Um pé de favela
Cnidoscolus phyllancatus
Cnidoscolus phyllancatus
No século XX, o termo favela consolidou-se socialmente, mas movimentos sociais e acadêmicos passaram a adotar o termo comunidade para valorizar a organização social, cultural e política desses territórios. Mais recentemente, a expressão complexo de favelas surgiu para designar agrupamentos interligados, como o Complexo do Alemão e o Complexo da Maré, refletindo não apenas a
Mapa da região  de Canudos
A região  de Canudos 

extensão física, mas também a complexidade social, econômica, cultural e política desses espaços. Essa mudança de terminologia evidencia que favelas não são apenas áreas de pobreza isoladas; são redes urbanas densas, articuladas internamente, com vínculos culturais, religiosos e sociais próprios.
Estátua de Antônio conselheiro olha pela nova camudo
Estátua de Antônioconselheiro
olhando  praNova Canudos 

A geografia das favelas é diversa. Embora muitas estejam localizadas em morros, outras surgem em planícies, periferias urbanas ou áreas de risco ambiental. Isso mostra que as favelas são um fenômeno de exclusão urbana e desigualdade, e não apenas
Canudos hioje e ontem
Canudos ontem e hoje

uma característica topográfica. Globalmente, assentamentos informais similares existem em diversos países. México, Colômbia, Peru e Venezuela abrigam algumas das maiores comunidades informais
Canudos
Canudos ontem

do mundo, como a Favela de Neza, próxima à Cidade do México, com mais de 2,5 milhões de habitantes. Mesmo em países desenvolvidos, como Espanha e Itália, existem assentamentos precários chamados chabolas ou baraccopoli, evidenciando que a exclusão urbana e a ocupação informal são fenômenos universais.
A chegada do tráfico de drogas às favelas brasileiras, especialmente entre as décadas de 1970 e 1980, está ligada à ausência do Estado e à segregação social. O tráfico funcionou muitas vezes como uma forma de governança paralela, oferecendo proteção, empregos e serviços comunitários, ainda que de forma coercitiva. Esse fenômeno gerou uma dinâmica social complexa, com regras próprias, hierarquias internas e relações diretas com moradores, políticos locais e instituições, enquanto a população continuava a desenvolver redes de solidariedade, economia informal e resistência cultural.
A cultura nas favelas é multifacetada e desempenha papel central na construção da identidade e da resistência social. O samba, surgido entre comunidades afro-brasileiras no início do século XX, consolidou-se como
Providência  1ª Favela do Rio 

instrumento de afirmação cultural e mobilização comunitária, mantendo vivas as tradições afro-brasileiras e oferecendo alternativas de ocupação do espaço urbano. As escolas de samba são centros sociais fundamentais: promovem coesão comunitária, preservação da memória histórica, capacitação de jovens, geração de renda e protagonismo cultural. Já o funk carioca, desenvolvido nos anos 1980, expressa a realidade das periferias contemporâneas, abordando violência, desigualdade, festas e criatividade cotidiana, funcionando como documentação social da vida nas favelas e complexos.
Providência  atual 

A religiosidade nas favelas é plural, histórica e contemporaneamente significativa. No século XX, terreiros de candomblé e umbanda desempenharam papel central na manutenção das tradições afro-brasileiras, na construção de redes de solidariedade e na afirmação da identidade cultural frente à exclusão social. A prática católica, por meio de festas de padroeiros, novenas e procissões, integrava-se à vida comunitária, muitas vezes em sincretismo com práticas afro-brasileiras. Com a expansão de denominações evangélicas a partir da década de 1980, surgiram novas formas de
Mapas das favelas  no mundo 

sociabilidade, assistência social e mobilização comunitária. Hoje, terreiros, igrejas católicas e evangélicas funcionam como centros comunitários, oferecendo educação, apoio social, atividades culturais, orientação jurídica e espaços de encontro e lazer. A diversidade religiosa reflete não apenas fé, mas também formas de organização e resistência cultural.
Outro fenômeno cultural e social historicamente presente nas favelas é o jogo do bicho, surgido no início do século XX como loteria popular. Além de gerar renda e mobilidade social, o jogo contribuiu para a sociabilidade local e a economia informal, embora também esteja relacionado a redes de poder, conflitos internos e, em alguns casos, violência. O jogo do bicho, o samba, o funk e as escolas de samba constituem dimensões de resistência cultural e adaptação à exclusão social, funcionando como instrumentos de pertencimento, entretenimento e identidade comunitária.
Favela da Neza  - México 

Os conflitos sociais nas favelas e complexos são parte intrínseca da vida cotidiana. A especulação imobiliária, a presença do tráfico, disputas internas por liderança, intervenção policial e a luta por infraestrutura básica moldam o cenário urbano. Ao mesmo tempo, surgem lendas, mitos e narrativas que reforçam a identidade coletiva, como histórias sobre fantasmas, santos populares ou explicações sobre a origem dos nomes das favelas.

Origem dos nomes das favelas do Rio e do Brasil
Vista do Morro  da Babilônia 


Os nomes das favelas carregam história, geografia e memória coletiva, refletindo ocupações históricas, referências culturais, características naturais ou homenagens a pessoas e famílias.

Rio de Janeiro:
  • Babilônia: vegetação exuberante e vista privilegiada para Copacabana, comparada aos “Jardins Suspensos da Babilônia”.
  • Rocinha: surgiu após a crise de 1929, na Fazenda Quebra-Cangalha; o nome indica a origem da produção de hortaliças vendida na Zona Sul.
  • Mangueira: nome derivado de uma fábrica de chapéus que nunca foi construída.
  • Vidigal: homenagem ao proprietário original, Major Miguel Nunes Vidigal.
  • Cantagalo: possivelmente ligado a plantações de cana-de-açúcar.
  • Complexo do Alemão: originou-se de família alemã proprietária de terras.
  • Morro da Providência: primeira favela do Rio, fundada por soldados da Guerra de Canudos
  • Santa Marta: referência religiosa católica.
  • Lapa: ocupações irregulares no bairro
    Chapéu Mangueira 

    central.
  • Pavão-Pavãozinho: nome derivado de cores e grafismos locais.
  • Tabajaras: homenagem a tribos indígenas.
  • Cruzada São Sebastião: nome ligado a devoção religiosa.
  • Chácara do Céu: origem ligada a loteamentos e posição elevada.
  • Fallet/Falletzinho: pequenas ocupações surgidas nos anos 30-40.
  • Complexo da Maré: integração de diversas favelas e ocupações urbanas.
  • Catacumba:  Diz-se o local era um cemitério indígenas era uma  Chácara das Catacumbas, pertencente à Baronesa da Lagoa Rodrigo de Freitas
São Paulo:
  • Paraisópolis: ironia entre pobreza e “paraíso”, fundação na década de 1950.
  • Heliópolis: do grego “cidade do sol”, ocupação de trabalhadores urbanos.
  • Vila Prudente: originada de loteamentos do bairro homônimo.
  • Vila Nova Jaguaré: ocupação urbana com referência à região de origem.
  • Favela do Moinho: ligada a antigos moinhos de açúcar ou trigo.
  • Vila Brasilândia: nome oficial e popular de loteamentos e ocupações.
Salvador (Bahia):
  • Nova Brasília: inspiração na capital federal, fundação tardia.
  • Nordeste de Amaralina: moradores oriundos da região nordestina.
  • Vila Canária: ocupação ligada a antigas chácaras e plantios.
  • Piatã e São Tomé de Paripe: nomes ligados a santos e tradições locais.
Recife (Pernambuco):
  • Beco do Rato: nome popular de ruas e vielas.
  • Vila do Amorim: homenagem a famílias locais.
  • Vila da Boa Vista: ocupação que preserva topografia e lembranças históricas
  • Nova Descoberta: referência histórica de expansão urbana.
Belém (Pará):
  • Vila dos Pescadores: ocupação de pescadores na orla fluvial.
  • Bairro do Guamá: ligação com região histórica de povos indígenas e rios.
  • Vila Planalto: urbanização de trabalhadores ribeirinhos.
Outras cidades:
  • Vila Operária (Porto Alegre): ocupação de trabalhadores da indústria.
  • Vila União (Curitiba, PR): nome de integração comunitária.
  • Favela do Amorim (Fortaleza, CE): ocupação familiar histórica.
Chanbolas Madrenhas 
Favela na Espanha 

Quando diversas favelas se articulam, formam-se complexos, exigindo análise mais ampla sobre fluxo de pessoas, economia informal, cultura, religiosidade e relações de poder internas.
Do ponto de vista antropológico e sociológico, favelas e complexos representam territórios de resiliência e adaptação. Eles emergem da desigualdade estrutural, mas produzem solidariedade, cultura, economia informal e identidade coletiva. São espaços de criatividade urbana, onde música, dança, religião, escolas de samba, funk, jogo do bicho, associações de moradores e tradições locais transformam
Favela da Catacumba em 1960

exclusão em inovação social. O estudo desses territórios revela que favelas não são apenas espaços de vulnerabilidade, mas territórios vivos, nos quais conflitos, resistência, memória cultural e produção simbólica coexistem.
Favelas e complexos são, portanto, territórios multifacetados: símbolos de desigualdade, espaços de resistência, centros de criatividade cultural e territórios de organização social. Compreendê-los exige uma abordagem interdisciplinar que integre história, antropologia, sociologia, geografia e cultura. Esses espaços continuam a desempenhar papel central na cidade brasileira, oferecendo lições sobre resiliência, solidariedade e identidade coletiva, ao mesmo tempo em que refletem os desafios e contradições de uma sociedade desigual.
Rocinha 


 “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.” – Nelson Mandela
Liberdade absoluta de consciência
Morro do Vidigal


Prof DNonato


Um comentário:

  1. DANIEL, COMPARTILHEI O SEU QUADRO "FAVELA E SUA ORIGEM" MEU MEU FACEBOOK, PORQUE O SENTI, EXTREMAMENTE, POÉTICO.

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