A palavra favela carrega uma história profunda e multifacetada, que vai muito além da ideia de pobreza ou precariedade. Sua origem remonta à Guerra de Canudos (1896–1897), na Bahia, quando sertanejos liderados por Antônio Conselheiro se organizaram em resistência à exploração latifundiária e às secas severas do Nordeste. Nos arredores do assentamento, situava-se o Morro da Favela, nome dado a partir da planta espinhenta e resistente Cnidoscolus phyllancatus, utilizada para óleo comestível e combustível. Após o 1⁰ massacre promovido pelo governo republicano, muitos soldados e sertanejos retornaram ao Rio de Janeiro sem recursos e instalaram-se em áreas precárias, como o atual Morro da Providência, criando habitações improvisadas que herdaram o nome da planta. Antes disso, ocupações informais já existiam, habitadas por escravos libertos e trabalhadores pobres sem acesso à terra ou moradia formal.
![]() |
| Um pé de favela Cnidoscolus phyllancatus |
Cnidoscolus phyllancatus
No século XX, o termo favela consolidou-se socialmente, mas movimentos sociais e acadêmicos passaram a adotar o termo comunidade para valorizar a organização social, cultural e política desses territórios. Mais recentemente, a expressão complexo de favelas surgiu para designar agrupamentos interligados, como o Complexo do Alemão e o Complexo da Maré, refletindo não apenas a
![]() |
| A região de Canudos |
extensão física, mas também a complexidade social, econômica, cultural e política desses espaços. Essa mudança de terminologia evidencia que favelas não são apenas áreas de pobreza isoladas; são redes urbanas densas, articuladas internamente, com vínculos culturais, religiosos e sociais próprios.
![]() |
| Estátua de Antônioconselheiro olhando praNova Canudos |
A geografia das favelas é diversa. Embora muitas estejam localizadas em morros, outras surgem em planícies, periferias urbanas ou áreas de risco ambiental. Isso mostra que as favelas são um fenômeno de exclusão urbana e desigualdade, e não apenas
![]() |
| Canudos ontem e hoje |
uma característica topográfica. Globalmente, assentamentos informais similares existem em diversos países. México, Colômbia, Peru e Venezuela abrigam algumas das maiores comunidades informais
![]() |
| Canudos ontem |
do mundo, como a Favela de Neza, próxima à Cidade do México, com mais de 2,5 milhões de habitantes. Mesmo em países desenvolvidos, como Espanha e Itália, existem assentamentos precários chamados chabolas ou baraccopoli, evidenciando que a exclusão urbana e a ocupação informal são fenômenos universais.
A chegada do tráfico de drogas às favelas brasileiras, especialmente entre as décadas de 1970 e 1980, está ligada à ausência do Estado e à segregação social. O tráfico funcionou muitas vezes como uma forma de governança paralela, oferecendo proteção, empregos e serviços comunitários, ainda que de forma coercitiva. Esse fenômeno gerou uma dinâmica social complexa, com regras próprias, hierarquias internas e relações diretas com moradores, políticos locais e instituições, enquanto a população continuava a desenvolver redes de solidariedade, economia informal e resistência cultural.
A cultura nas favelas é multifacetada e desempenha papel central na construção da identidade e da resistência social. O samba, surgido entre comunidades afro-brasileiras no início do século XX, consolidou-se como
![]() |
| Providência 1ª Favela do Rio |
instrumento de afirmação cultural e mobilização comunitária, mantendo vivas as tradições afro-brasileiras e oferecendo alternativas de ocupação do espaço urbano. As escolas de samba são centros sociais fundamentais: promovem coesão comunitária, preservação da memória histórica, capacitação de jovens, geração de renda e protagonismo cultural. Já o funk carioca, desenvolvido nos anos 1980, expressa a realidade das periferias contemporâneas, abordando violência, desigualdade, festas e criatividade cotidiana, funcionando como documentação social da vida nas favelas e complexos.
![]() |
| Providência atual |
A religiosidade nas favelas é plural, histórica e contemporaneamente significativa. No século XX, terreiros de candomblé e umbanda desempenharam papel central na manutenção das tradições afro-brasileiras, na construção de redes de solidariedade e na afirmação da identidade cultural frente à exclusão social. A prática católica, por meio de festas de padroeiros, novenas e procissões, integrava-se à vida comunitária, muitas vezes em sincretismo com práticas afro-brasileiras. Com a expansão de denominações evangélicas a partir da década de 1980, surgiram novas formas de
![]() |
| Mapas das favelas no mundo |
sociabilidade, assistência social e mobilização comunitária. Hoje, terreiros, igrejas católicas e evangélicas funcionam como centros comunitários, oferecendo educação, apoio social, atividades culturais, orientação jurídica e espaços de encontro e lazer. A diversidade religiosa reflete não apenas fé, mas também formas de organização e resistência cultural.
Outro fenômeno cultural e social historicamente presente nas favelas é o jogo do bicho, surgido no início do século XX como loteria popular. Além de gerar renda e mobilidade social, o jogo contribuiu para a sociabilidade local e a economia informal, embora também esteja relacionado a redes de poder, conflitos internos e, em alguns casos, violência. O jogo do bicho, o samba, o funk e as escolas de samba constituem dimensões de resistência cultural e adaptação à exclusão social, funcionando como instrumentos de pertencimento, entretenimento e identidade comunitária.
![]() |
| Favela da Neza - México |
Os conflitos sociais nas favelas e complexos são parte intrínseca da vida cotidiana. A especulação imobiliária, a presença do tráfico, disputas internas por liderança, intervenção policial e a luta por infraestrutura básica moldam o cenário urbano. Ao mesmo tempo, surgem lendas, mitos e narrativas que reforçam a identidade coletiva, como histórias sobre fantasmas, santos populares ou explicações sobre a origem dos nomes das favelas.
Os nomes das favelas carregam história, geografia e memória coletiva, refletindo ocupações históricas, referências culturais, características naturais ou homenagens a pessoas e famílias.
Rio de Janeiro:
- Babilônia: vegetação exuberante e vista privilegiada para Copacabana, comparada aos “Jardins Suspensos da Babilônia”.
- Rocinha: surgiu após a crise de 1929, na Fazenda Quebra-Cangalha; o nome indica a origem da produção de hortaliças vendida na Zona Sul.
- Mangueira: nome derivado de uma fábrica de chapéus que nunca foi construída.
- Vidigal: homenagem ao proprietário original, Major Miguel Nunes Vidigal.
- Cantagalo: possivelmente ligado a plantações de cana-de-açúcar.
- Complexo do Alemão: originou-se de família alemã proprietária de terras.
- Morro da Providência: primeira favela do Rio, fundada por soldados da Guerra de Canudos
- Santa Marta: referência religiosa católica.
- Lapa: ocupações irregulares no bairro

Chapéu Mangueira central. - Pavão-Pavãozinho: nome derivado de cores e grafismos locais.
- Tabajaras: homenagem a tribos indígenas.
- Cruzada São Sebastião: nome ligado a devoção religiosa.
- Chácara do Céu: origem ligada a loteamentos e posição elevada.
- Fallet/Falletzinho: pequenas ocupações surgidas nos anos 30-40.
- Complexo da Maré: integração de diversas favelas e ocupações urbanas.
- Catacumba: Diz-se o local era um cemitério indígenas era uma Chácara das Catacumbas, pertencente à Baronesa da Lagoa Rodrigo de Freitas
São Paulo:
- Paraisópolis: ironia entre pobreza e “paraíso”, fundação na década de 1950.
- Heliópolis: do grego “cidade do sol”, ocupação de trabalhadores urbanos.
- Vila Prudente: originada de loteamentos do bairro homônimo.
- Vila Nova Jaguaré: ocupação urbana com referência à região de origem.
- Favela do Moinho: ligada a antigos moinhos de açúcar ou trigo.
- Vila Brasilândia: nome oficial e popular de loteamentos e ocupações.
Salvador (Bahia):
- Nova Brasília: inspiração na capital federal, fundação tardia.
- Nordeste de Amaralina: moradores oriundos da região nordestina.
- Vila Canária: ocupação ligada a antigas chácaras e plantios.
- Piatã e São Tomé de Paripe: nomes ligados a santos e tradições locais.
Recife (Pernambuco):
- Beco do Rato: nome popular de ruas e vielas.
- Vila do Amorim: homenagem a famílias locais.
- Vila da Boa Vista: ocupação que preserva topografia e lembranças históricas
- Nova Descoberta: referência histórica de expansão urbana.
Belém (Pará):
- Vila dos Pescadores: ocupação de pescadores na orla fluvial.
- Bairro do Guamá: ligação com região histórica de povos indígenas e rios.
- Vila Planalto: urbanização de trabalhadores ribeirinhos.
Outras cidades:
- Vila Operária (Porto Alegre): ocupação de trabalhadores da indústria.
- Vila União (Curitiba, PR): nome de integração comunitária.
- Favela do Amorim (Fortaleza, CE): ocupação familiar histórica.
![]() |
| Chanbolas Madrenhas Favela na Espanha |
Quando diversas favelas se articulam, formam-se complexos, exigindo análise mais ampla sobre fluxo de pessoas, economia informal, cultura, religiosidade e relações de poder internas.
Do ponto de vista antropológico e sociológico, favelas e complexos representam territórios de resiliência e adaptação. Eles emergem da desigualdade estrutural, mas produzem solidariedade, cultura, economia informal e identidade coletiva. São espaços de criatividade urbana, onde música, dança, religião, escolas de samba, funk, jogo do bicho, associações de moradores e tradições locais transformam
![]() |
| Favela da Catacumba em 1960 |
exclusão em inovação social. O estudo desses territórios revela que favelas não são apenas espaços de vulnerabilidade, mas territórios vivos, nos quais conflitos, resistência, memória cultural e produção simbólica coexistem.
Favelas e complexos são, portanto, territórios multifacetados: símbolos de desigualdade, espaços de resistência, centros de criatividade cultural e territórios de organização social. Compreendê-los exige uma abordagem interdisciplinar que integre história, antropologia, sociologia, geografia e cultura. Esses espaços continuam a desempenhar papel central na cidade brasileira, oferecendo lições sobre resiliência, solidariedade e identidade coletiva, ao mesmo tempo em que refletem os desafios e contradições de uma sociedade desigual.
![]() |
| Rocinha |
“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.” – Nelson Mandela
Liberdade absoluta de consciência
![]() |
| Morro do Vidigal |
Prof DNonato
















DANIEL, COMPARTILHEI O SEU QUADRO "FAVELA E SUA ORIGEM" MEU MEU FACEBOOK, PORQUE O SENTI, EXTREMAMENTE, POÉTICO.
ResponderExcluir