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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Entre o Trono e a Toalha: Servos, Não Celebridades

Há algo profundamente contraditório quando a religião se encanta demais com seus próprios símbolos e se esquece da realidade para a qual esses símbolos deveriam apontar. A crítica não é contra a beleza, a tradição ou a liturgia; é contra o risco permanente de transformar meios em fins, de substituir o Evangelho pela sua encenação.7

Biblicamente, a advertência é antiga. Os profetas de Israel denunciaram repetidamente uma religião rica em ritos e pobre em justiça. Isaías ecoa a voz divina contra um culto que mantém as aparências enquanto ignora os vulneráveis (Is 1,11-17). Amós é ainda mais contundente ao afirmar que Deus rejeita celebrações religiosas quando a justiça não corre como um rio e a retidão como um ribeiro perene (Am 5,21-24).

No Novo Testamento, a tensão reaparece. Jesus de Nazaré não confronta apenas pecadores comuns; confronta principalmente sistemas religiosos que haviam confundido prestígio espiritual com fidelidade a Deus. Em Mateus 23, critica líderes que ampliam vestes, buscam lugares de honra, títulos e reconhecimento público. O problema não era a roupa em si, mas o coração que encontrava na religião um instrumento de poder e distinção social.

É significativo lembrar que Jesus nunca vestiu casula, estola, mitra, barrete ou qualquer insígnia associada posteriormente ao ministério ordenado ou mesmo ao poder religioso do seu tempo. Caminhou pelas estradas da Galileia como um judeu do seu tempo, fez parte do laos, sendo um leigo. Só mais tarde depois da sua morte, ressurreição e ascensão na idade media o ordenaram  ou  lhe atribuiram o sacramento da ordem. Sua autoridade não vinha de vestimentas especiais nem de símbolos religiosos. Vinha da coerência entre palavra e vida, da proximidade com os pobres, da compaixão pelos feridos e da fidelidade ao Pai. O cristianismo nasceu seguindo um carpinteiro itinerante que lavava pés, partilhava mesas e tocava leprosos, não um dignitário cercado por honras e privilégios.

O próprio apóstolo Paulo combateu qualquer tentativa de transformar lideranças em objeto de veneração. Diante das divisões da comunidade de Corinto, perguntou: "O que é Apolo? O que é Paulo?". E respondeu: apenas servos por meio dos quais outros chegaram à fé. Para Paulo, o ministro não é o centro da comunidade; é instrumento. Seu maior testemunho não foi construir uma imagem de si mesmo, mas poder afirmar: "Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Gl 2,20). A autoridade cristã nasce justamente desse deslocamento do ego para que Cristo ocupe o centro.

Historicamente, essa tensão acompanha toda a trajetória da Igreja. À medida que o cristianismo se institucionalizou e se aproximou dos centros de poder, surgiram debates sobre riqueza, influência e clericalismo. Em diferentes épocas, vozes proféticas lembraram que a Igreja corre perigo quando se aproxima demais dos palácios e se afasta das periferias. Entre essas vozes está Francisco de Assis. Em uma sociedade fascinada por títulos, prestígio e distinções, escolheu a pobreza, a fraternidade e a simplicidade. Seu testemunho continua sendo um chamado para que a Igreja desça dos tronos simbólicos que constrói para si mesma e volte às estradas onde Cristo caminha com os pobres. Francisco compreendeu que o Evangelho perde sua força quando a autoridade deixa de servir e passa a buscar ser sservida,  não vamos  nos atrever a comentar sobre que  fizeram  e fazem com as ordens medigantes 

Sob a perspectiva sociológica, esse fenômeno não é exclusivo do cristianismo. Instituições religiosas como um todo,  tendem naturalmente a desenvolver estruturas, hierarquias e símbolos de autoridade. Embora isso possa contribuir para a organização, também produz o risco da burocratização da fé. A experiência viva do Evangelho pode ser substituída pela busca de prestígio institucional. O cargo passa a importar mais que a missão; a imagem mais que o serviço; a autoridade mais que a fraternidade.

É nesse terreno que floresce o clericalismo. O ministro deixa de ser irmão entre irmãos para tornar-se uma figura separada, quase uma elite espiritual. A comunidade passa a girar em torno de sua personalidade, de sua influência ou de sua popularidade. O resultado é uma inversão do Evangelho: quem deveria apontar para Cristo passa a apontar para si mesmo.

Essa compreensão atravessa também a tradição patrística. João Crisóstomo advertia que não se pode honrar o corpo de Cristo presente no altar enquanto se despreza o corpo de Cristo presente nos pobres, sem esquecer  Santo Agostinho de Hipona que disse:  

Para vós sou bispo, convosco sou cristão. Aquele é o nome do encargo aceito; este, da graça. Aquele indica o perigo; este, a salvação

  1. Convosco sou cristão: a identidade comum: Ao afirmar “convosco sou cristão”, Agostinho recorda que a graça de Cristo é o fundamento da vida de todos os fiéis. Antes de qualquer função ou ministério, ele se reconhece discípulo entre discípulos, participante da mesma fé e necessitado da mesma misericórdia.
  2. Para vós sou bispo: a responsabilidade do serviço: Quando diz “para vós sou bispo”, Agostinho não fala de privilégio ou prestígio, mas de encargo. O ministério episcopal é uma responsabilidade diante de Deus e da comunidade, marcada pelo dever de cuidar, orientar e prestar contas pelo rebanho confiado ao seu cuidado.
  3. Autoridade como serviço, não como domínio: A frase resume uma compreensão profundamente evangélica da liderança. O pastor não se coloca acima do povo, mas caminha com ele. A autoridade cristã encontra sua legitimidade no serviço, na humildade e na partilha da mesma fé, seguindo o exemplo de Cristo, que veio para servir e não para ser servido.

Para os pais  e mães  da Igreja  dos primeiros séculos, a autenticidade da fé não era medida pela riqueza dos ornamentos, mas pela capacidade da Igreja de reconhecer no necessitado o rosto do próprio Senhor. O problema nunca foi a beleza colocada a serviço do sagrado; o problema é quando a estética passa a ocupar o lugar da misericórdia.

Mas o centro da fé cristã permanece desconcertante. Na última ceia, não encontramos Cristo exigindo reverências; encontramos Cristo ajoelhado com uma toalha nas mãos (Jo 13). O gesto não é um detalhe sentimental. É uma redefinição radical da autoridade. No Reino de Deus, grandeza não significa ser servido, mas servir. Por isso, o verdadeiro escândalo não é a ausência de ornamentos, mas a ausência de compaixão. Não é a simplicidade das vestes, mas a pobreza da escuta. Não é a falta de prestígio, mas a falta de compromisso com os que sofrem.

Óscar Romero em pleno século XX compreendeu isso quando afirmou que "a glória de Deus é que o pobre viva" também nos lembra "Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida"  Não foi uma frase pronunciada do conforto de um gabinete. Foi uma convicção selada com sangue. Romero foi perseguido, incompreendido, acusado injustamente de fomentar divisões e atacado por aqueles que preferiam uma Igreja acomodada às estruturas de poder. Acabou assassinado enquanto celebrava a Eucaristia. Sua morte permanece como denúncia contra toda religião que faz as pazes com a injustiça e como testemunho de que seguir Cristo exige mais coragem do que prestígio.

É triste ver hoje,   uma geração de ministros  católicos ou Protestantes  mais preocupados: Em ser vistos do que em ver; mais interessados  em ser celebrados do que em celebrar a presença de Cristo entre os pequenos. 

  • A missão não é transformar-se em celebridade religiosa, mas  tornar Cristo visível. 
  • Não é acumular seguidores, mas formar discípulos. 
  • Não é construir uma imagem, mas testemunhar uma verdade.

Quando quem preside a comunidade  busca para si os aplausos, o status e os holofotes, deixa de apontar para Cristo e passa a apontar para si mesmo. O ministério torna-se palco, a vocação transforma-se em carreira e o serviço corre o risco de ser substituído pela autopromoção. O protagonismo do Reino não pertence ao líder, mas a Cristo. Quem preside é chamado: 

  •  a servir, não a ocupar o centro da cena; 
  • a conduzir as pessoas ao Evangelho, não à própria imagem. 
Toda liderança cristã que se alimenta da vaidade, da busca por reconhecimento e da necessidade de admiração afasta-se daquele que, sendo Senhor, tomou a toalha para lavar os pés dos discípulos e escolheu a cruz em vez dos aplausos. Porque, no Reino de Deus, a grandeza não está em ser visto, mas em servir; não está em receber honras, mas em amar sem exigir reconhecimento.

Talvez por isso as críticas do Papa Francisco ao clericalismo tenham provocado tanto incômodo. Repetidas vezes ele denunciou uma Igreja excessivamente preocupada com aparências, títulos, privilégios e autorreferencialidade. Em tom bem-humorado, chegou a ironizar certos excessos estéticos presentes em ambientes eclesiásticos, como rendas e adornos que pareciam saídos do antigo guarda-roupa de uma avó. A observação continha uma provocação profunda: quando a preocupação com a aparência ocupa espaço demais, corre-se o risco de esquecer o essencial. O Evangelho não é tecido de seda, renda ou veludo. É encontro, serviço, compaixão e proximidade.

O Reino floresce onde:  

  • alguém visita o doente sem publicar a foto, 
  • escuta o aflito sem esperar recompensa, 
  • reparte o pão sem calcular prestígio 
  • permanece fiel mesmo quando ninguém está olhando.  
Ali, longe dos aplausos, a fé eencontra sua verdade mais profunda.

  1. Menos espetáculo, mais Evangelho.
  2. Menos pose, mais presença.
  3. Menos títulos, mais serviço.
  4. Menos poder, mais compaixão.
  5. Menos palácios, mais estrada.
  6. Menos tronos, mais toalhas.
  7. Menos  ornamento, mais vida

Porque o centro nunca foi o sacerdote, o bispo, o pastor, a instituição ou o espetáculo. O centro continua sendo Cristo o Deus que trocou o poder pelo serviço, a distância pela proximidade e a glória dos poderosos pela companhia dos pequenos. E é somente quando a Igreja volta seus olhos para esse Cristo que reencontra sua vocação mais bela: servir, amar e caminhar junto ao povo

.DNonato - Servo inútil; não faço mais que a obrigação. (cf. Lucas 17,10)

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quinta-feira, 19 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 6,19-23


“Não acumuleis para vós tesouros na terra...” (Mateus 6,19).

Palavra direta, cortante, luminosa, mas que, em tempos de confusão entre fé e ideologia, se torna ainda mais necessária. Jesus, o Cristo de Deus, não é apolítico nem neutro: Ele confronta estruturas, derruba pretensões, desmascara aparências. Seu Evangelho jamais se acomodou ao poder opressor, nem ao acúmulo de privilégios, nem à sacralização da desigualdade. Ao contrário: a Boa Nova é um golpe na lógica dos impérios, antigos e modernos, seculares ou religiosos.

A perícope de Mateus 6,19-23 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana na sexta-feira da 11ª Semana do Tempo Comum anualmente semdo a semana da continuodade da leitura do  Sermão da Montanha sendo a continuidade do  texto da quarta-feira e no sinóticos aparece em  Lucas 12,32-48 no 19º Domingo do Tempo Comum ,  atravessando  todo o calendário litúrgico cristão. Ecos desta passagem aparecem  nas memórias de santos que viveram a pobreza evangélica e em celebrações que destacam o discipulado cristão. Nas Igrejas Ortodoxas, nas Igrejas Orientais Católicas, na Comunhão Anglicana, nas Igrejas Luteranas históricas e em outras tradições cristãs que seguem lecionários litúrgicos, o ensinamento sobre os tesouros, o coração e a luz interior ocupa lugar importante na formação espiritual dos fiéis. Trata-se de um texto que ultrapassa épocas, culturas e sistemas religiosos porque toca uma das questões mais profundas da condição humana: o que ocupa o centro da nossa existência. Ao ouvir Jesus dizer: “Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões arrombam e roubam. Ao contrário, acumulai para vós tesouros no céu” (Mt 6,19-20), não estamos diante de uma simples exortação moral contra a riqueza. O Evangelho aborda a orientação fundamental da vida humana. As perguntas  que  podemos fazer  são  decisivas;  

  • Não é quanto alguém possui, mas em quem ou em que deposita sua confiança?
  •  O que governa nossos desejos, escolhas, medos e esperanças? 
  • O que buscamos preservar quando tudo o mais se torna incerto?

Essa questão acompanha a história bíblica desde suas origens. O relato do Gênesis apresenta o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27), chamado a viver numa relação de confiança com o Criador. A ruptura provocada pelo pecado consiste precisamente na tentativa de encontrar autonomia absoluta fora de Deus. A serpente promete um caminho de autossuficiência: “Sereis como deuses” (Gn 3,5). Desde então, a história humana é marcada pela tentação de substituir Deus por outras seguranças.. A narrativa de Caim e Abel (Gn 4,1-16) mostra como a idolatria afeta também as relações humanas. Quando o coração se fecha à fraternidade, o outro deixa de ser irmão e passa a ser rival. A pergunta de Deus  “Onde está teu irmão Abel?” (Gn 4,9)  atravessa toda a Escritura e recorda que a relação com Deus nunca pode ser separada da relação com o próximo.

Para compreender plenamente Mateus 6,19-23, é necessário situar a passagem dentro do Sermão da Montanha (Mt 5–7), uma das mais importantes sínteses do ensinamento de Jesus. Antes de falar dos tesouros, Jesus proclamou as Bem-aventuranças, apresentou os discípulos como sal da terra e luz do mundo, aprofundou o verdadeiro sentido da Lei e denunciou uma religiosidade baseada na aparência e na busca de reconhecimento público.

A localização da perícope é significativa. O ensinamento sobre os tesouros surge logo após a crítica à esmola exibicionista, à oração feita para ser vista e ao jejum transformado em espetáculo religioso. Jesus revela que a lógica da acumulação não se limita aos bens materiais. Também pode manifestar-se na busca de prestígio moral, influência religiosa ou reconhecimento social. Assim como alguém pode transformar o dinheiro em ídolo, também pode transformar sua reputação religiosa em objeto de adoração. Essa crítica insere-se na grande tradição profética de Israel: 

  •  Isaías denuncia aqueles que honram Deus apenas com os lábios enquanto seu coração permanece distante (Is 29,13).  e condenava aqueles que “ajuntam casa a casa e campo a campo” (Is 5,8).  
  • Amós condena celebrações religiosas desvinculadas da justiça social (Am 5,21-24) e criticava os que viviam no luxo enquanto ignoravam a miséria do povo (Am 6,1-7).
  • Miqueias resume a vontade divina em três exigências fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8) e denunciava os que se apoderavam das terras dos pobres (Mq 2,1-2). 

O contexto histórico reforça a radicalidade das palavras de Jesus. A Palestina do século I vivia sob a dominação romana, marcada por profundas desigualdades econômicas. Grandes proprietários concentravam terras, enquanto muitos camponeses enfrentavam endividamento, perda de propriedades e formas precárias de sobrevivência. Os impostos exigidos pelo Império, pelas autoridades locais e pelo sistema do Templo agravavam ainda mais a situação. Nesse cenário, o acúmulo de riqueza não era apenas uma questão privada. Frequentemente estava ligado a mecanismos concretos de exploração e exclusão. As denúncias dos antigos profetas continua  atuais 

Quando menciona a traça, a ferrugem e os ladrões, Jesus utiliza imagens familiares aos seus ouvintes. Vestes finas podiam ser destruídas por insetos, alimentos armazenados deterioravam-se e casas de barro podiam ser facilmente arrombadas. Aquilo que parecia seguro revelava-se vulnerável. A sabedoria bíblica já havia refletido amplamente sobre essa fragilidade. O Salmo 49 recorda que ninguém leva suas riquezas para além da morte. O Salmo 62 adverte: “Mesmo que as riquezas aumentem, não ponhais nelas o coração” (Sl 62,11). O Eclesiastes contempla a transitoriedade das realizações humanas e questiona uma existência construída apenas sobre o acúmulo..Essas advertências tocam uma realidade universal. O ser humano sabe que é mortal, frágil e vulnerável. Por isso procura construir formas de segurança. Muitas delas são legítimas. O problema surge quando tais seguranças assumem caráter absoluto e passam a ocupar o lugar que pertence somente a Deus.

É nesse contexto que Jesus pronuncia uma das afirmações mais profundas do Evangelho: “Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,21). Na tradição bíblica, o coração não representa apenas os sentimentos. É o centro da pessoa, o lugar das decisões, da consciência, da memória e da vontade. O tesouro revela aquilo que consideramos indispensável para viver, aquilo que organiza nossas prioridades e orienta nossas escolhas..A palavra grega thēsauros designa tanto um depósito material quanto algo de valor inestimável. O problema não está necessariamente na posse dos bens, mas em sua absolutização. Quando qualquer realidade criada ocupa o lugar reservado ao Criador, nasce a idolatria. O ser humano passa a buscar numa criatura aquilo que somente Deus pode oferecer plenamente.

Essa dinâmica percorre toda a história da salvação: 

  • O bezerro de ouro (Ex 32) representa a tentativa de transformar Deus em algo manipulável. 
  • Jeremias denuncia aqueles que abandonam a fonte de água viva para cavar cisternas rachadas (Jr 2,13). 
  • Ezequiel fala dos ídolos instalados no próprio coração (Ez 14,3).
 Os ídolos mudam de forma ao longo da história, mas conservam a mesma lógica: oferecem segurança aparente sem exigir confiança no Deus vivo. Os ídolos modernos raramente assumem a forma de estátuas. Manifestam-se como riqueza, poder, prestígio, nacionalismo hipócrita, culto à imagem, sucesso social ou influência religiosa. Em todos os casos, produzem o mesmo efeito: deformam a percepção da realidade e enfraquecem a fraternidade. Após relacionar o tesouro ao coração, Jesus introduz a imagem do olho: “A lâmpada do corpo é o olho. Se o teu olho é simples, todo o teu corpo ficará iluminado. Mas se o teu olho é mau, todo o teu corpo ficará em trevas” (Mt 6,22-23).

Na cultura bíblica, o olho simboliza a maneira como a pessoa percebe e interpreta o mundo. Ver não significa apenas captar imagens, mas compreender a realidade. O termo grego haplous, traduzido por “simples”, pode significar íntegro, sincero, generoso ou indiviso. O olho simples é o olhar livre das distorções produzidas pela ganância, pela inveja e pelo egoísmo. É o olhar orientado para Deus e iluminado pelos valores do Reino. Por outro lado, o “olho mau” designa a visão marcada pela avareza, pela mesquinhez e pela incapacidade de partilhar. Trata-se de um olhar que transforma pessoas em instrumentos, reduz relações humanas a interesses e mede tudo segundo critérios de utilidade.

Jesus realiza aqui um profundo diagnóstico espiritual: 

  •  O tesouro molda o coração; o coração molda o olhar; o olhar orienta toda a existência. Quando o coração está dominado pelos ídolos, a própria percepção da realidade torna-se obscurecida. A pessoa perde a capacidade de reconhecer a verdade, a justiça e a presença de Deus.

Os profetas frequentemente descrevem a idolatria como cegueira espiritual. Isaías fala de um povo que possui olhos, mas não vê (Is 6,9-10). Jeremias e Ezequiel repetem a mesma denúncia. O Salmo 115 afirma que aqueles que adoram ídolos acabam tornando-se semelhantes a eles. Quem adora o dinheiro passa a enxergar tudo através do lucro. Quem adora o poder tende a interpretar as pessoas como instrumentos de seus projetos. Essa percepção permanece extremamente atual. Vivemos numa sociedade marcada por abundância de informações, mas nem sempre por sabedoria. Redes sociais, sistemas de propaganda e mecanismos de manipulação da opinião pública influenciam profundamente a forma como percebemos a realidade. Muitas vezes somos levados a enxergar apenas aquilo que confirma nossas convicções prévias. O resultado pode ser uma crescente incapacidade de reconhecer a complexidade do mundo e a dignidade daqueles que pensam de maneira diferente.

Por isso o Evangelho convida a uma conversão do olhar. O discípulo é chamado a enxergar a realidade a partir da perspectiva do Reino de Deus. Isso significa reconhecer a dignidade dos pobres, dos migrantes, dos doentes, dos idosos, dos marginalizados e de todos aqueles que a cultura dominante tende a tornar invisíveis. A tradição bíblica associa a verdadeira visão à misericórdia. Quando Deus escolhe Davi, adverte Samuel: “O homem vê as aparências, mas o Senhor vê o coração” (1Sm 16,7). Jesus reproduz esse olhar divino ao aproximar-se dos excluídos, dos pecadores e dos desprezados de seu tempo. Ele vê pessoas onde outros enxergam apenas categorias sociais.

Essa conversão interior possui consequências concretas para a vida social. O Evangelho não separa espiritualidade e compromisso histórico. Um coração transformado produz novas formas de convivência, novas prioridades econômicas e novas relações humanas. Por isso a comunidade cristã nascente procurou viver a partilha e a solidariedade. Os Atos dos Apóstolos testemunham que muitos colocavam seus bens a serviço da comunidade para que ninguém passasse necessidade (At 2,44-45; 4,32-35). Não se tratava de uma teoria econômica, mas da expressão concreta de uma fé que reconhecia Deus como verdadeiro tesouro.

  • São Paulo advertirá que a avareza é uma forma de idolatria (Cl 3,5). 
  • São Tiago denunciará os ricos que acumulam enquanto exploram trabalhadores (Tg 5,1-6). 
  • São João perguntará: “Se alguém possui bens deste mundo e vê seu irmão passar necessidade, mas fecha-lhe o coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (1Jo 3,17). 
Em todos esses textos, a questão central continua sendo a mesma: a condição do coração humano. Ao longo dos séculos, a Igreja aprofundou essa herança através de sua reflexão social. Os Padres da Igreja insistiram na função social dos bens. .São João Crisóstomo desenvolve uma das críticas mais incisivas da patrística à acumulação de riquezas, insistindo que o problema central não é a posse em si, mas o uso que se faz dela diante do próximo. Em suas homilias sobre o Evangelho de Mateus e sobre as cartas paulinas, ele afirma de modo contundente que a riqueza acumulada e não partilhada adquire caráter de injustiça, pois pertence, em sentido moral, àquele que dela necessita. Sua leitura nasce de uma hermenêutica fortemente enraizada nos profetas de Israel  especialmente Amós e Isaías,  onde a opulência de alguns é denunciada em contraste com a miséria de muitos. Para Crisóstomo, a lógica evangélica rompe a naturalização da desigualdade: o rico não é condenado por possuir, mas é responsabilizado por reter aquilo que poderia ser vida para o pobre. Nesse sentido, a riqueza deixa de ser neutra quando se torna indiferente ao sofrimento alheio, revelando uma deformação espiritual que compromete a comunhão e obscurece a própria imagem de Deus no outro.

O Concílio Vaticano II recordou que as alegrias e sofrimentos dos pobres são também as alegrias e sofrimentos dos discípulos de Cristo. A Doutrina Social da Igreja reafirmou continuamente a dignidade humana, a solidariedade e o bem comum como exigências inseparáveis da fé.

O  Evangelho de hoje  adverte e nós alerta  contra outras formas de idolatria. A religião pode ser transformada em instrumento de poder. O ministério pode degenerar em privilégio. A fé pode ser utilizada para justificar exclusões, intolerâncias ou projetos de dominação. Os profetas já denunciavam um culto separado da justiça. Jesus retomou essa crítica ao confrontar formas de religiosidade que valorizavam mais a aparência do que a misericórdia. Nesse ora  contexto  toda a comunidade cristã deve examinar continuamente onde está seu tesouro. A Igreja reencontra sua autenticidade quando permanece próxima dos pobres, dos sofredores e dos esquecidos. Sua força não está no poder, no prestígio ou na influência social, mas na fidelidade ao Cristo servo, pobre e crucificado. Uma diocese  em que seu bispo  repreende  um leigo  por chamar  um padre pelo nome  e exige  que  os padres  cobrem dos fiéis  tal tratamento,  já sabemos que  o Evangelho  esta sdulterado 

Num horizonte ainda mais amplo, Mateus 6,19-23 toca uma das grandes crises da modernidade: a crise de sentido. A cultura contemporânea frequentemente promete felicidade através do consumo, da acumulação e da busca incessante de novas conquistas. Entretanto, nenhuma realidade finita é capaz de responder plenamente à sede de infinito presente no coração humano. O Eclesiastes já percebia essa verdade ao contemplar a fragilidade das riquezas, dos prazeres e das realizações humanas. Séculos depois, Santo Agostinho expressaria a mesma intuição ao afirmar que o coração humano permanece inquieto enquanto não repousa em Deus.

É precisamente nesse ponto que o ensinamento de Jesus alcança sua maior profundidade. O problema fundamental não é econômico nem político, embora possua implicações nessas áreas. Trata-se de uma questão espiritual: 

  • Qual é o fundamento último da existência? Onde depositamos nossa esperança?
  •  O que permanece quando os sucessos desaparecem e as seguranças humanas falham?

 A resposta de Jesus é clara. Existe um tesouro que a traça não destrói, que a ferrugem não corrói e que nenhum ladrão pode roubar. Esse tesouro é a comunhão com Deus manifestada no amor ao próximo. É a justiça praticada mesmo quando parece inútil. É a misericórdia oferecida sem esperar recompensa. É a fidelidade silenciosa dos que permanecem ao lado dos crucificados da história. É a esperança daqueles que acreditam que o Reino de Deus continua germinando no meio das contradições do mundo. Mateus 6,19-23 revela que a verdadeira batalha espiritual acontece no coração humano. O tesouro que escolhemos determina nossas prioridades, molda nosso olhar e orienta nossas decisões. Quando riquezas, poder, prestígio ou mesmo a religião ocupam o lugar de Deus, surgem a cegueira espiritual e a ruptura da fraternidade. Quando, porém, Deus se torna o verdadeiro tesouro, o olhar é iluminado pela misericórdia, a vida se abre à justiça e o discípulo aprende a reconhecer Cristo nos pobres, nos vulneráveis e nos esquecidos da história.

O episódio do jovem rico (Mt 19,16-22; Lc 18,18-23 e  Mc 10,17-22; ) aprofunda de modo existencial a questão de Mateus 6,19-23: ali, o tesouro não é apenas uma ideia, mas uma decisão concreta diante do seguimento de Jesus. O jovem, marcado por sinceridade religiosa e observância da Lei, encontra o limite de sua liberdade precisamente quando é chamado a desprender-se das seguranças que estruturavam sua identidade. “Foi-se embora triste, porque tinha muitos bens” (Mc 10,22): a tristeza revela não apenas apego material, mas uma interioridade dividida, incapaz de abandonar o centro de gravidade que não é Deus. São João Crisóstomo interpreta essa cena com aguda severidade pastoral, insistindo que o problema não está na posse, mas na escravidão interior que ela produz; para ele, a riqueza torna-se perigosa quando deixa de ser instrumento e passa a dominar o coração, impedindo a abertura à graça e à comunhão. Nessa leitura, o jovem não perde apenas uma oportunidade moral, mas revela a tragédia espiritual de quem reconhece o bem, mas não consegue aderir a ele plenamente, permanecendo preso a um olhar obscurecido pela segurança do que possui.

Onde está o tesouro do Reino, ali floresce a verdadeira liberdade. Onde floresce a verdadeira liberdade, torna-se possível amar. E onde o amor se torna realidade, Cristo Ressuscitado continua vivo, caminhando entre os pobres, consolando os feridos, denunciando as injustiças, reconciliando os divididos e anunciando que o amor de Deus permanece mais forte que todos os impérios, mais duradouro que todas as riquezas e mais luminoso que todas as trevas deste mundo.  Que nosso coração esteja, pois, no Reino e não no trono. Que a Igreja de Jesus volte a ser tenda entre os pobres, casa para os feridos e semente do Reino. Não queremos tronos, queremos serviço. Não buscamos poder, mas compaixão. Não marchamos com os impérios, mas com os crucificados da história. Porque “onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2Cor 3,17).

 Amém.



DNonato – Teólogo do Cotidiano