Não é casual que esse Evangelho seja proclamado no Tempo Comum. Longe de ser um tempo “neutro” ou espiritualmente secundário, ele é o tempo da vocação vivida no ordinário da existência, no chão da história, onde se entrelaçam trabalho, relações, conflitos sociais, ambivalências morais e estruturas que produzem exclusão. É nesse cenário que a vocação se revela não como fuga do mundo, mas como resposta concreta a um chamado que acontece no meio da vida real. Jesus não convoca Levi a abandonar uma abstração, mas uma mesa concreta, um sistema concreto, uma identidade socialmente marcada. A vocação, aqui, não é desencarnada: ela atravessa biografias feridas, profissões ambíguas e escolhas que carregam peso ético e social.
O movimento vocacional em Marcos 2,13-17 nasce do olhar de Jesus que reconhece possibilidade onde a sociedade enxerga apenas rótulo e condenação. O chamado não acontece no espaço do sagrado institucionalizado, mas na beira do caminho, no lugar do trabalho, no cotidiano atravessado por tensões econômicas e religiosas. Ao chamar Levi, Jesus revela que o Reino de Deus não se inaugura selecionando os “aptos” segundo critérios de pureza, mas convocando pessoas reais para um caminho de conversão que começa com a experiência de ser visto, chamado e acolhido.
Assim, a cena da mesa partilhada com publicanos e pecadores não é apenas um gesto de misericórdia, mas um ato profundamente vocacional e eclesial. Sentar-se à mesa é afirmar pertença, criar comunhão e inaugurar um novo modo de existir. A vocação cristã, à luz desse texto, não se reduz a uma função ou estado de vida, mas se configura como participação na lógica do Reino, que desestabiliza ordens excludentes e reorienta a vida a partir da misericórdia. No Tempo Comum, quando a fé é provada na rotina e não no extraordinário, Marcos 2,13-17 recorda que a vocação nasce exatamente aí: no cotidiano ferido, quando Jesus passa, chama e transforma a mesa da exclusão em espaço de comunhão.
Jesus sai novamente para a beira do mar. Em Marcos, o mar não é apenas um cenário geográfico, mas um símbolo carregado de densidade teológica. Ele remete ao caos primordial de Gênesis 1, às forças ameaçadoras evocadas nos Salmos (Sl 69; Sl 89,10) e à instabilidade da existência humana. É também o espaço da vida econômica do povo, lugar de trabalho, sobrevivência e exploração. Jesus ensina ali, fora do Templo, deslocando o centro do sagrado institucional para o meio da vida concreta. Essa escolha dialoga com a tradição profética que denuncia um culto separado da justiça, como em Amós 5,21-24 e Isaías 1,10-17.
É nesse contexto que Jesus vê Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria de impostos. O verbo “ver” é decisivo. Assim como Deus vê a aflição do seu povo no Egito (Ex 3,7), Jesus vê Levi para além do estigma social. A realidade histórica revela que os cobradores de impostos eram agentes de um sistema colonial romano, responsáveis por extorquir o próprio povo. Eram considerados impuros, traidores e excluídos da vida religiosa. Levi não é apenas um “pecador individual”, mas alguém inserido numa estrutura injusta. Ainda assim, Jesus o chama.
Levi está sentado. Sentar-se, em Marcos, indica uma fixação existencial. Ele está preso a um lugar social, econômico e simbólico. O chamado de Jesus — “Segue-me” — não é uma proposta intimista, mas um convite a uma ruptura radical. Levi se levanta. O verbo utilizado é o mesmo que Marcos emprega para falar da ressurreição (Mc 16,6). Antes da Páscoa, Levi já experimenta uma páscoa concreta: passa da morte social para a possibilidade de uma vida nova. Esse movimento ecoa textos como Is 60,1 (“Levanta-te, resplandece”) e Os 6,2, onde levantar-se é sinal de restauração.
A narrativa avança e Jesus está à mesa na casa de Levi. A mesa, na tradição bíblica, é lugar de comunhão, aliança e partilha de vida. Comer junto significa reconhecer o outro como igual. No Antigo Testamento, a mesa aparece como sinal de bênção (Sl 23,5), de promessa escatológica (Is 25,6) e de reconciliação (Gn 43,34). Ao sentar-se com cobradores de impostos e pecadores, Jesus redefine radicalmente os critérios de pertença ao povo de Deus. Não é a pureza ritual que garante lugar, mas a abertura ao encontro e à conversão.
Marcos observa que “muitos” o seguiam. Esse detalhe rompe com a lógica elitista da religião. O discipulado não é restrito a poucos moralmente irrepreensíveis, mas aberto a todos os que se deixam tocar pelo chamado. Essa perspectiva encontra eco em Joel 3,1-2, retomado em Atos 2,17, onde o Espírito é derramado sobre toda carne, sem distinção.
A reação dos escribas dos fariseus revela o conflito central do texto. Eles murmuram, como o povo no deserto (Ex 16; Nm 14), incapazes de reconhecer a ação libertadora de Deus quando ela rompe seus esquemas. A murmuração não é apenas crítica; é resistência à conversão. Eles questionam os discípulos, não Jesus diretamente, revelando um mecanismo típico de controle religioso indireto, que busca minar a autoridade do mestre enfraquecendo a comunidade.
A resposta de Jesus é impressionante: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.” A imagem do médico insere Jesus numa tradição sapiencial que vê Deus como aquele que cura (Ex 15,26; Sl 103,3; Sb 16,12). Jesus não legitima o pecado nem a injustiça, mas denuncia a autossuficiência religiosa que se fecha à misericórdia. Aqui ecoa Oséias 6,6 — explicitamente citado em Mateus 9,13 —, onde Deus rejeita um culto sem compaixão.
Os paralelos sinóticos enriquecem a compreensão. Mateus 9,9-13 enfatiza a misericórdia como critério hermenêutico da Lei. Lucas 5,27-32 acrescenta o detalhe da grande festa, sublinhando a alegria como sinal do Reino, em consonância com textos como Sofonias 3,17 e Isaías 55. Em Lucas 19,1-10, a conversão de Zaqueu confirma que o acolhimento gera transformação concreta, inclusive na relação com o dinheiro e com os pobres. João, ainda que não relate a cena, partilha da mesma teologia ao apresentar Jesus dialogando com a mulher samaritana (Jo 4) e defendendo a adúltera (Jo 8), rompendo fronteiras morais e religiosas.
Marcos 2,13-17 revela o poder restaurador do olhar que não reduz a pessoa ao erro. Levi, constantemente desumanizado, encontra em Jesus alguém que o chama pelo nome e lhe confia uma missão. A identidade precede a moral. Isso confronta práticas religiosas baseadas na culpa e no medo. Sociologicamente, o texto denuncia mecanismos de exclusão que sustentam privilégios simbólicos. Toda sociedade cria “pecadores oficiais” para preservar sua autoimagem de justiça. Jesus desmonta essa lógica e a narrativa aproxima-se de uma ética da alteridade, onde o outro não é julgado a partir da norma, mas acolhido em sua vulnerabilidade. revelando um Deus que não se distancia da história concreta, mas entra nela, assumindo riscos. Historicamente, o texto expõe o conflito entre um movimento profético itinerante e um sistema religioso aliado ao poder.
À luz desse Evangelho, tornam-se inevitáveis as críticas proféticas às teologias da prosperidade e do domínio, que transformam Deus em avalista do sucesso econômico e tratam os pobres como culpados por sua condição. Jesus não chama Levi por sua riqueza, mas apesar de sua inserção num sistema opressor. Também confronta a fé como mercadoria, denunciada implicitamente quando a mesa substitui o palco e a comunhão se sobrepõe ao espetáculo. A graça não se compra (At 8,20). E o clericalismo é igualmente desmascarado. Os escribas falam em nome de Deus, mas não conseguem sentar-se com o povo. O Concílio Vaticano II insiste numa Igreja que compartilha a vida humana. A Gaudium et Spes afirma que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” são também as da Igreja (GS 1). A Lumen Gentium recorda que todo o povo de Deus participa da missão (LG 9-12), rompendo com uma visão elitista e sacralizada do ministério. A Dei Verbum sublinha que a Revelação acontece na história concreta (DV 2), não fora dela.
A CNBB, como as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora e o Documento de Aparecida do CELAM assumido pela Igreja no Brasil, reforçam a imagem de uma Igreja em saída, samaritana, próxima das periferias existenciais. Uma Igreja que não se senta à mesa com os feridos trai o Evangelho que proclama.
Marcos 2,13-17 permanece, assim, como um espelho incômodo para a Igreja de todos os tempos. Ele pergunta com quem nos sentamos, quem chamamos, quem consideramos irrecuperável. Pergunta se ainda acreditamos que a mesa é lugar de conversão ou se a transformamos em prêmio para os “justos”. O Jesus que passa pela coletoria continua passando pelas estruturas que exploram e excluem, chamando pessoas concretas a se levantarem. E continua ouvindo murmurações religiosas.
No fim, este Evangelho nos devolve ao núcleo do Reino: Deus não começa pela exclusão, mas pelo encontro; não pela condenação, mas pela misericórdia que gera transformação. Não há discipulado sem mesa partilhada, não há santidade sem compaixão, não há Igreja fiel sem coragem profética para romper com as teologias que adoecem a fé. Jesus continua dizendo: “Segue-me”. E essa palavra ainda tem poder de nos levantar.
O Evangelho de Marcos 2,13-17 revela-se de uma atualidade quase desconcertante. Vivemos em sociedades marcadas por novas coletorias de impostos, mais sofisticadas e menos visíveis: sistemas financeiros que esmagam os pobres, lógicas econômicas que transformam pessoas em números, algoritmos que decidem quem é relevante e quem pode ser descartado. Levi continua sentado à beira do caminho, agora não apenas como indivíduo, mas como símbolo de milhões de pessoas aprisionadas em engrenagens que elas mesmas não controlam. Jesus continua passando por esses lugares periféricos do mundo globalizado, onde a dignidade humana é negociada.
O chamado de Jesus, hoje, confronta diretamente uma cultura meritocrática que sacraliza o sucesso e demoniza o fracasso. A teologia da prosperidade encontra aqui seu antievangelho: Jesus não chama os vencedores do sistema, mas entra justamente em suas contradições para libertar tanto o explorado quanto o explorador. A conversão de Levi não é apenas moral; é estrutural. Isso dialoga com a denúncia profética de Isaías 58, que rejeita um jejum desvinculado da justiça social, e com Tiago 5,1-6, onde a riqueza acumulada às custas do sofrimento clama contra seus proprietários.
A mesa de Levi, transposta para o hoje, questiona as mesas seletivas da Igreja e da sociedade. Quem tem lugar nas mesas de decisão política, econômica e eclesial? Quem continua do lado de fora? A pandemia, as crises migratórias, o crescimento das populações em situação de rua e o encarceramento em massa revelam que ainda escolhemos quem merece cuidado. Jesus, ao sentar-se com os considerados indesejáveis, antecipa aquilo que o Vaticano II afirmará séculos depois: a Igreja deve ler os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho (GS 4). Não há fidelidade cristã sem compromisso com a realidade histórica.
A murmuração dos escribas encontra eco nas resistências atuais a uma Igreja verdadeiramente sinodal. Sempre que a Igreja tenta caminhar com os feridos da história, surgem vozes que acusam perda de identidade, relativização da doutrina ou ameaça à tradição. Marcos revela que essa resistência não é nova: ela nasce do medo de perder privilégios simbólicos. Jesus, porém, não negocia a misericórdia. Ele reafirma que a norma existe para a vida, não a vida para a norma, como já havia afirmado em Marcos 2,27.
Do ponto de vista antropológico, o texto ilumina a crise de sentido que atravessa o mundo contemporâneo. Muitos, como Levi, permanecem sentados em lugares que adoecem a alma, não por maldade, mas por falta de alternativas. A psicologia social mostra como sistemas injustos produzem subjetividades marcadas pela culpa e pela resignação. O Evangelho rompe esse ciclo ao afirmar que ninguém está definitivamente preso ao seu papel social. Essa lógica dialoga com Romanos 8,1, onde Paulo proclama que não há condenação para os que estão em Cristo Jesus.
A crítica ao clericalismo ganha ainda mais força quando confrontada com escândalos e abusos que feriram profundamente a credibilidade eclesial. Marcos 2 recorda que a autoridade de Jesus nasce da proximidade, não da separação. O Vaticano II, ao recuperar a imagem da Igreja como Povo de Deus (LG 9), oferece um antídoto contra toda forma de poder sacralizado. Uma Igreja que não se deixa interpelar pelos Levi de hoje corre o risco de se tornar irrelevante ou, pior, cúmplice de sistemas de exclusão.
A fé como mercadoria também encontra forte contestação neste texto. Em um tempo de religiões midiáticas, espiritualidades de consumo rápido e promessas de soluções mágicas, a mesa de Jesus permanece simples e exigente. Não há ingresso, não há barganha, não há espetáculo. Há encontro. Isso ressoa com Atos 2,42-47, onde a comunidade primitiva persevera na partilha do pão e dos bens, e com 1Coríntios 11,17-34, onde Paulo denuncia uma eucaristia que reproduz desigualdades.
Por fim, Marcos 2,13-17 projeta uma esperança ativa. O Reino não se constrói pela exclusão dos imperfeitos, mas pela transformação paciente da realidade. Jesus não espera que o mundo se torne justo para agir; Ele age para que o mundo possa tornar-se mais justo. Essa dinâmica inspira uma espiritualidade encarnada, comprometida com os pobres, com a justiça social e com a dignidade humana, em sintonia com a opção preferencial pelos pobres reafirmada pela Igreja latino-americana e assumida pela CNBB.
O texto não revela apenas como memória do passado, mas como critério para o presente e horizonte para o futuro. O chamado de Jesus continua ecoando nas periferias geográficas e existenciais do mundo atual. Ele ainda passa, ainda vê, ainda chama. A pergunta decisiva permanece: estamos dispostos a nos levantar e segui-lo, mesmo que isso signifique abandonar lugares de segurança, romper alianças injustas e sentar-nos à mesa com aqueles que o sistema insiste em descartar?
E tal perícope permanece como lembrança piedosa de um Jesus distante, mas se impõe como critério permanente de discernimento e como horizonte ético-espiritual para a Igreja de hoje e de amanhã. O Cristo que passa pela coletoria continua atravessando as ruas feridas, as calçadas ocupadas por corpos descartados, as periferias onde a vida é constantemente negada. Ele ainda vê quem o sistema insiste em não enxergar; ainda chama aqueles que foram reduzidos a números, estigmas ou estatísticas. Por isso, a pergunta deixa de ser apenas bíblica e se torna profundamente histórica: estamos dispostos a nos levantar, como Levi, mesmo quando isso implica romper com privilégios, alianças injustas e comodidades cúmplices?
São Oscar Romero recorda, com sua própria vida entregue, que uma Igreja que não se mistura com os pobres corre o risco de trair o Evangelho que anuncia. “Uma Igreja que não sofre perseguição, mas goza dos privilégios do poder, deve ser temida”, advertia ele, ecoando o escândalo de um Jesus que prefere a mesa dos pecadores ao conforto dos justos. No mesmo espírito, o testemunho cotidiano do padre Júlio Lancellotti nos lembra que seguir Jesus hoje passa por ajoelhar-se diante dos que vivem no chão, tocar feridas abertas, defender vidas criminalizadas e resistir a uma religião higienizada que transforma o Evangelho em discurso e abandona a carne concreta dos pobres.
Assim, Marcos 2,13-17 continua nos julgando e nos convocando. Ou nos levantamos para seguir Jesus até as mesas incômodas da história, ou permanecemos sentados, protegendo sistemas que Ele jamais abençoou. O chamado permanece vivo. A resposta, porém, depende de nós.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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