O evangelista nos introduz deliberadamente em uma casa tomada pela multidão, espaço saturado de palavras, prescrições e expectativas religiosas, mas paradoxalmente bloqueado à passagem da vida plena. A superlotação não é apenas física; ela é simbólica. Ali, onde tudo parece ocupado, falta justamente o essencial: a possibilidade de acesso, de escuta verdadeira, de cura integral. É nesse ambiente denso e tensionado que Marcos 2,1-12 se revela não como lembrança distante de um evento do passado, mas como Palavra viva e provocadora, capaz de atravessar a história, desinstalar certezas religiosas e interpelar, com força renovada, as práticas e estruturas do nosso próprio tempo.
Marcos 2,1-12, fazendo a exegese dialogar com a realidade contemporânea, com a totalidade da Escritura, com a tradição da Igreja e com as feridas do nosso tempo. O autor inicia a narrativa situando Jesus novamente em Cafarnaum, e o detalhe não é neutro. Cafarnaum é cidade de fronteira, espaço de comércio, circulação de ideias, tensões sociais e presença romana. Não é Jerusalém, centro do poder religioso, nem Nazaré, lugar da origem. É o entre-lugar. Ali, Jesus “está em casa”. A expressão indica mais do que hospedagem: aponta para uma nova geografia do sagrado. Deus faz morada onde a vida pulsa, não onde o poder se cristaliza. Esse deslocamento ecoa toda a Escritura: Deus caminha com um povo nômade (Êx 13), habita a tenda antes do Templo (2Sm 7) e, em Jesus, arma sua tenda entre nós (Jo 1,14).
A casa cheia, sem espaço sequer à porta, revela o colapso dos antigos mediadores de sentido. O povo já não encontra vida nos discursos oficiais e se aglomera onde a Palavra se faz carne. Aqui ressoa Ezequiel 34, quando Deus denuncia pastores que se apascentam a si mesmos e promete Ele próprio cuidar das ovelhas. A multidão não busca espetáculo religioso, mas palavra que sustente a existência. Toda religião que se fecha em si mesma volta a produzir tédio e vazio.
O paralítico é introduzido sem nome, como tantos personagens do Evangelho. Ele representa uma coletividade. Sua condição não é explicada biologicamente, porque Marcos está interessado no significado teológico da paralisia. No mundo bíblico, a incapacidade de andar compromete a participação plena na vida social e cultual. Caminhar é sinal de liberdade: Israel caminha para fora do Egito, Elias caminha quarenta dias, os discípulos são chamados a seguir. Estar paralisado é estar impedido de viver a vocação humana. Hoje, essa paralisia assume formas sistêmicas: desemprego estrutural, pobreza crônica, adoecimento mental, violência urbana, religiões que culpam em vez de sustentar.
O texto afirma que o paralítico é carregado por quatro homens. A salvação entra pela mediação comunitária. Não há aqui elogio da autonomia espiritual. A fé nasce da interdependência. Paulo compreenderá isso profundamente ao afirmar que “se um membro sofre, todos sofrem com ele” (1Cor 12,26). Em uma cultura marcada pelo individualismo e pela lógica do desempenho, o Evangelho afirma que ninguém se salva sozinho.
A impossibilidade de entrar pela porta é decisiva. A porta simboliza acesso legítimo, reconhecimento institucional, autorização. A porta está bloqueada não por maldade explícita, mas por excesso de gente e, simbolicamente, por um sistema que não dá conta da vida real. Quantas portas continuam fechadas hoje em nome da ortodoxia, da moral, da tradição? Quantas pessoas ficam do lado de fora das igrejas, dos sacramentos, da comunidade, porque não se encaixam?
A subida ao telhado é um gesto de resistência criativa. Na Bíblia, subir implica busca de revelação, mas aqui a revelação acontece ao descer. O telhado representa a camada superior do sistema religioso, aquilo que cobre e protege, mas também impede o contato direto. Rompê-lo é um ato profético. Como Jeremias quebra o vaso (Jr 19) ou Ezequiel encena o exílio (Ez 4), esses homens realizam um gesto simbólico que denuncia a insuficiência das estruturas existentes.
Jesus vê a fé deles. A fé é visível, concreta, corporal. Não é sentimento interior nem declaração verbal. É prática arriscada. Isso confronta frontalmente espiritualidades que reduzem a fé a palavras, decretos ou fórmulas. Tiago afirmará que a fé sem obras é morta (Tg 2,17). Aqui, a fé abre telhados.
A palavra de Jesus — “Filho, teus pecados estão perdoados” — precisa ser lida à luz da teologia bíblica do pecado. Pecado não é apenas transgressão moral, mas ruptura de alianças, desordem das relações, produção de morte. Quando Jesus perdoa, Ele reintegra o paralítico na trama da vida. É o que o Salmo 103 canta: Deus perdoa as culpas e cura todas as enfermidades. Perdão e cura pertencem ao mesmo movimento salvífico.
Os escribas, sentados, observam. Estar sentado é posição de autoridade. Eles representam o saber religioso institucionalizado, que perdeu a capacidade de escutar. Seu problema não é a defesa de Deus, mas a defesa de um sistema que lhes garante poder. Ao acusarem Jesus de blasfêmia, revelam uma imagem de Deus menor do que o sofrimento humano. Aqui se cumpre Oseias 6,6: misericórdia eu quero, não sacrifício.
Jesus responde revelando que conhece os pensamentos do coração. O conflito não é externo, é interno. Trata-se de conversão. A pergunta “o que é mais fácil?” não é retórica; ela expõe a incoerência de uma religião que aceita palavras sobre Deus, mas rejeita gestos que devolvem vida. Em toda a Escritura, Deus se revela como aquele que escuta o clamor do oprimido (Êx 3,7).
Ao ordenar que o paralítico se levante, Jesus devolve-lhe a verticalidade. Levantar-se, na Bíblia, é linguagem pascal. O verbo usado por Marcos será o mesmo da ressurreição. Tomar o leito significa assumir a própria história sem vergonha. Ir para casa indica reintegração social. Nada disso é intimista. Tudo acontece diante de todos.
O espanto da multidão não é alienação, mas reconhecimento de que Deus está agindo fora dos esquemas conhecidos. Esse espanto atravessa o Novo Testamento sempre que a vida vence a norma. Em Atos, isso se repetirá continuamente, gerando perseguição, mas também expansão.
Quando lido à luz da realidade contemporânea, Marcos 2,1-12 torna-se denúncia profética contra teologias que paralisam. A teologia da prosperidade transforma o paralítico em culpado. A teologia do domínio transforma Jesus em instrumento de poder. O individualismo espiritual transforma a fé em autoajuda. O clericalismo transforma a casa em tribunal. O Evangelho desmonta tudo isso.
O Concílio Vaticano II recupera essa visão ao afirmar que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens são também as da Igreja. A CNBB e o CELAM insistem numa Igreja que não tema romper telhados para salvar vidas. A tradição patrística confirma: para Agostinho, a Igreja é hospital; para Crisóstomo, a indiferença diante do pobre é sacrilégio.
Marcos 2,1-12 continua exigindo da Igreja e da sociedade uma escolha clara: ou proteger estruturas, ou carregar pessoas; ou defender telhados, ou abrir caminhos; ou administrar o sagrado, ou devolver vida. Enquanto houver paralíticos à margem e portas fechadas em nome de Deus, este texto continuará sendo escandalosamente atual.
Assim, Marcos 2,1-12 não se encerra como um relato edificante ou como um simples convite à piedade individual. Ele permanece aberto, como permanece aberto o telhado daquela casa, rasgado pela ousadia da fé. A pergunta que atravessa o texto — “Quem pode perdoar pecados?” — continua ecoando na história e desestabilizando toda religião que pretende controlar Deus, mercantilizar a fé ou paralisar o corpo humano com culpas e medos. O Evangelho nos devolve a centralidade do humano restaurado, do corpo que se levanta, da dignidade que caminha, da fé que se torna gesto concreto e solidário.
Num tempo marcado pelo adoecimento psíquico, pela fragmentação social, pela mercantilização do sagrado e pelo endurecimento das estruturas religiosas, Marcos 2,1-12 nos chama a ser comunidade que remove telhados, que rompe cercas, que não se conforma com portas fechadas nem com multidões que apenas observam. A verdadeira fé não se mede pela ortodoxia fria nem pela prosperidade prometida, mas pela capacidade de gerar vida, inclusão, cura e liberdade. Onde um paralítico volta a andar, ali o Reino acontece; onde um ser humano recupera sua dignidade, ali Deus se revela.
Que esta Palavra continue a nos inquietar e a nos desinstalar profundamente, rompendo nossas zonas de conforto espiritual e desmascarando toda forma de fé acomodada, burocrática ou autorreferencial. Que ela nos converta não apenas em nível individual, mas comunitário e eclesial, para que não nos tornemos escribas que observam, calculam e julgam à distância, mas discípulos que se aproximam, comunidade que carrega nos ombros a dor do outro, que rompe telhados quando necessário, que arrisca a própria reputação religiosa e confia mais na misericórdia de Deus do que na segurança das normas.
Porque, no horizonte do Evangelho, o milagre maior não se reduz ao corpo que se levanta e caminha, mas à comunidade que também se levanta de suas rigidezes, aprende a amar mais do que a controlar, a servir mais do que a vigiar, a acolher mais do que a classificar, e a crer mais do que a possuir ou administrar Deus. Quando isso acontece, o perdão deixa de ser um discurso abstrato, a cura deixa de ser exceção, e o Reino de Deus começa, de fato, a abrir espaço no meio da casa cheia.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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