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sexta-feira, 10 de março de 2017

Leonardo Boff fala da Encíclica do Papa Francisco

·         No  sábado 4 de março a Diocese de Nova Iguaçu realizou a abertura Diocesana da CF 2017 (Campanha da Fraternidade 2017). Contaou com a presença do grande Teólogo Leonardo Boff e abaixo transcrevemos  a sua fala.  Antes das criticas aqueles que   formaram um conceito sobre o referido  teólogo o mesmo sofreu uma senteça de silêncio por um ano a alguns anos atrás. A questão da heresia ou excomunhão é algo questionável pois o Papa Francisco o chamou como um dos consultores para  a encíclica citado na presente fala. BOA LEITURA E SE QUISER  PODERÁ ACESSAR  O DISCURSO EM VÍDEO NO LINK: Reflexão da CF 2017

Se o Papa o escuta, quem somos nós pra não ouvi-lo também?

DNonato
Dom Luciano   com Leonardo Boff

Meus Irmãos e minhas irmãs quero saudar antes de tudo, o Dom Luciano que é o pastor cujo o bom humor de sua relação com povo, pude escutar da boca de muitos. Não quero deixar de me referir a Dom Adriano Hipólito um grande amigo, um pastor e um profeta, patrimônio espiritual de toda Baixada, quero saudar os irmãos sacerdotes, religiosos e religiosas. Estou impressionado com a multidão de gente que se perde lá pelos, pelos campos e muito feliz que aceitaram pensar esse grande tema: do cuidado de nossa casa comum, que é o tema da encíclica do Papa. Essa encíclica que não é dirigida aos cristãos, é dirigida a toda humanidade porque o papa se deu conta que o sistema Terra e sistema vida, estão sobre grande risco porque nunca talvez na história da humanidade.
A carta da terra que é um documento parecido com laudato si a encíclica do papa, documento que o papa cita que foi um dos primeiros a pensar a globalidade do problema da terra, fazendo uma consulta no mundo inteiro, eu participei dessa consulta e da redação junto com Gorbatchov e outros grandes A primeira frase dessa carta diz o seguinte: Como nunca antes na história a humanidade corre o risco, e ela deve toma, ela deve fazer uma opção. A opção é essa, o cuidar um do outro ou então aceitar a destruição nossa como seres humanos e a destruição da diversidade da vida. O Papa tomou muito a sério essa advertência, por isso escreve a encíclica. Muitos dizem que é uma encíclica verde, não é uma encíclica verde é uma encíclica da ecologia integral, ele não só se ocupa do meio ambiente. A ecologia ambiental que é importante, cuidar da natureza, da base fisioquímica que sustenta a vida, mas ele entra na ecologia social, relações humanas injustas, o grito dos pobres, que nos pede que sempre articulemos juntos o grito da terra com o grito dos pobres e criar uma sociedade com novos hábitos. Por 35 vezes ele fala de transformação, conversão do modo de produzir, do modo de distribuir os bens, do modo de consumir com a ecologia social que trata da convivência humana. E como nós seres humanos nos relacionáramos com a natureza e com a terra, não dominando-a, explorando-a, mas agindo em sintonia com o ritmo da terra.
Cuidando dos seus bens e serviços, Ele vai mais longe, aborda a ecologia mental, educacional, oque se passa na nossa mente. Porque todas as coisas nascem aqui dentro, nossos olhos as relações agressivas com a natureza, com os animais, nasce em nossa mente. Então, a conversão ecológica começa com a gente mesmo, trocando nosso olha sobre a terra, sobre a natureza, não como um meio de produção, mas a terra como mãe, como casa comum. Quando falamos em terra simplesmente podemos comprar, vender, cavar fazer mil coisas com a terra. Agora quando dizemos Mãe Terra ai é a veneração o respeito, o cuidado que temos para com as nossas mães, por isso é importante consideram a Terra como Mãe Terra. O dia 22 de abril é sempre o dia da Terra, houve uma grande discursão na ONU depois de muitos anos, de passar do dia terra para o dia da mãe Terra, eu participei dessa discursão, pude falar para assembleia. Primeiro foi presidente da Bolívia que é um grande indígena, que representa as nações indígenas, ele começou o discurso impactante dizendo; “EU VENHO DE JOELHO PEDIR A TODOS VOCÊS, QUE NÃO MALTRATEM MAIS A MÃE TERRA, PORQUE ELA ESTA SANGRANDO E SOFRENDO, PORQUE AS ÁGUAS GRITAM, OS RIOS GRITAM, OS ANIMAIS GRITAM, AS FLORESTAS GRITAM E A TERRA GRITA. POR ISSO PEÇO A VOCÊS QUE TENHAM CUIDADOS COM ESSA MÃE TERRA”. Depois coube a eu falar e trouxe o argumento melhores que eu podia, o único argumento que vi que aceitaram, foi o aquele que disse agora aqui; “QUE A TERRA MESMO SENTIMENTO QUE TEMOS PARA COM AS NOSSAS MÃES DE AMOR, DE VENERAÇÃO E CUIDADO, DEVEMOS TRANSFERIR PARA MÃE TERRA, NÃO HÁ OUTRA RELAÇÃO”. Ai todos aplaudiram e a votação foi unanime, oficialmente agora, a part
i da ONU daqueles 192 países, lá estavam representados, A Terra é a Mãe Terra.
Agora eu creio que o Papa captou isso, que em muitas vezes fala no seu texto da Mãe Terra, e ponto culminante da encíclica não só fala do ambiente, não só fala da sociedade, não só fala da mente; fala da espiritualidade. Espiritualidade é aquele conjunto de condições e valores que nos acompanha ao longo de toda vida e que dão sentido transcendente a nossa passagem por esse mundo. Ai o Papa diz explicitamente que devemos ter uma paixão e um cuidado para com a nossa Mãe Terra, devemos ter uma mística que nos anima e nos provoca cuidar de toda criação boa de Deus. Se não tivemos essa espiritualidade nós não sentiremos animados a sair para proteger as plantas, cuidar das aguas, cuidar dos nossos solos para que não sejam envenenados, do ar para que não seja poluído, por isso que encíclica incorpora algo muito importante, que não se encontra nas ciências hoje, ele incorpora a inteligência cordial o sentimento profundo, muitas vezes ele diz “sintam como nosso a dor da terra, a dor dos animais, outras vezes ele fala com profundo afeto sintamo-nos como irmãos e irmãs do irmão sol, da irmã lua, do irmão rio, da irmã montanha e Mãe Terra.” Então ele provoca o coração humano, não basta razão. A razão apenas ver, se ela ver alguém morto na rua, ela diz mais um morto. Agora quando digo esse que esta na rua é meu irmão é meu pai, tudo muda porque não é a cabeça é o coração que se move.
O Papa provoca em todos nós, temos juntado com a razão intelectual que precisamos, com a ciência, com a técnica mais que tudo pela razão cordial, a razão sensível que sente a dor dos mais vulneráveis, sente a terra como mãe, Que ai se move com uma mística poderosa para cuidar dessa herança sagrada que Deus nos colocou no Jardim do Éden, para sermos os cuidadores, e até hoje o maior biólogo vivo que criou a palavra biodiversidade Eduardo Wilson, um americano Hayward. Escreveu um belíssimo livro “O futuro da vida” que diz que nós nos transformamos no satã da Terra, quando somos chamados a ser o anjo bom, então faz um alerta, “SE NÓS NÃO CUIDARMOS”, PODEMOS CHEGAR ATRASADOS E CONHECER O ARMAGEDON, ISSO É UMA GRANDE CRISE ECOLOGICA SOCIAL, QUE PÔEM EM RISCO A VIDA NO PLANETA “
 Toda luta hoje dos cientistas dos governos, infelizmente o trup e contra isso. De não chegarmos a 2 graus, estamos perto de 2 graus célsius. Com 2 graus célsius muitos seres vivos não se adaptam, não conseguem sobreviver. Hoje, por hoje diz esse biólogo por ano estão desaparecendo entre 70.000 e 100.000 espécies de seres vivos. Depois de milhões de ano que viveram entre nós, não conseguiram se adapta as mudanças climáticas, estão desaparecendo. Aqui vem a advertência dos grandes nomes da Ecologia, até da comunidade cientifica norte-americana. Mandaram o documento lá em Cancun, eu estava presente lá dizendo: “NÓS NÃO PODEMOS PERMITIR QUE NOS PRÓXIMOS 10 A 15 ANOS A TERRA CONHEÇA O AQUECIMENTO ABRUPTO, QUE DE 1,8, 2 GRAUS, PASSE A quatro Á 5 GRAUS CELSIUS”. COM ESSA TEMPERATURA AS FORMAS DE VIDA QUE CONHECEMOS NÃO VÃO SUB-EXISTIR E GRANDE PARTE DA HUMANIDADE VAI DESAPARECER. COMO TEMOS TECNOLOGIA E CIÊNCIAS PODEMOS CRIAR ILHAS, PORTOS DE SALVAÇÃO ONDE ALGUNS MILHÕES SE SALVAM, MAS NÓS PODEMOS NÃO ESTA MAIS AQUI. A TERRA CONTINUARÁ MAS PODE CONTINUAR SEM NÓS.”
O Papa faz esses apelos por isso a importância de nós estudarmos essa encíclica, um verdadeiro manual de ecologia. Os grandes nomes da Ecologia como Edgar morem como vários americanos dizem: “COM ESSA ENCÍCLICA O PAPA SE COLOCA NA PONTA DO DISCURSO ECOLOGICO MUNDIAL”. Se coloca na ponta como aquele profeta, aquele pastor que ama vida, que ama os seres humanos e em especialmente os mais vulneráveis, em nome deles convoca a humanidade para uma profunda conversão ecológica, não basta a conversão do coração, a parti do coração definir uma nova relação com a terra e com a natureza. Não com o punho cerrado como quem domina, mas com a mão estendida como a caricia essencial, com as mãos que se entrelaçam para uma aliança de proteção com tudo aquilo que existe e vive.
Então, meus irmãos e minhas irmãs é importante a essa campanha da fraternidade para suscitar em todos os cristão, todas as pessoas de boa vontade que entram nesse diálogo, despertar a consciência de nossa responsabilidade, só quero dá um exemplo antes de terminar.
No ano passado e no outro ano todos nós assistimos o fator dramático da falta de água no Rio, São Paulo, Belo Horizonte, dramático porque obrigavam muitas pessoas inclusive a imigrar. O nosso maior cientista nessa área Antônio Nobre que é um dos grandes nomes brasileiro da ciência ecológica, escreveu um livro com o titulo “RUMO AO MATADOURO” e ela vai explicar porque houve essa seca imensa, essa falta de água no Rio, São Paulo, Belo Horizonte e cidades vizinhas, diz: “PORQUE NÓS DESMATAMOS DEMASIADAMENTE A AMAZÔNIA, CADA ÁRVORE QUE TEM UMA COMPA DE 10 METROS, ELA IMITE POR DIA 1000 LITROS DE UMIDADE, OS CHAMADOS RIO VOLANTES, ESSA UMIDADE CAI SOBRE O CERRADO E NO CERRADO FORMA AS NUVENS E VEM PARA O SUL E PARA NORTE VEM A ÁGUA. DIZ, NÓS ATACAMOS OS DOIS POLOS ALIMENTADORES DA UMIDADE A AMAZÔNIA E O CERRADO”
O cerrado como vocês sabem esta até no livrinho, é uma Amazônia ao reverso, ela cresce para baixo não para cima é o território mais velho da humanidade. Como, quando tudo era um grande oceano as primeiras terras emergem, emergiram foram essas do centro do Brasil. Por isso é uma terra ultra já gasta, ultra velha que dificilmente pode ser recuperada, mas árvores retorcidas, tem as raízes 5, 10 e até 30 metros e elas que alimentam os rios subterrâneos. Como vocês sabem o cerrado é grande caixa d’água onde nascem os principais rios brasileiros. Agora, você trás o agronegócio: planta soja, corta aquelas plantas, a soja, o girassol não tem uma raiz mais que 5 a 7 centímetros. Então, a agua que vem da Amazônia vem para o cerrado e não consegue penetrar lá em baixo e alimentar nossos rios: O São Francisco, o Paraná todos eles os principais que que correm no Brasil estão secos, estão diminuindo cada vez mais. Então, se nós não cuidarmos disso dizem eles: “ ESSA SECA, QUE VÃO ATINGIR OU ATIGIRAM JÁ ESSA CIDADE, PODEM SER PERMANENTE CADA TRÊS QUATRO ANOS. ENTÃO PRECISAMOS CUIDAR DO CERRADO, DA AMAZÔNIA”. Talvez a coisa melhor que podemos fazer, eu vi ai, pessoas que estão trazendo suas plantinhas para plantar, talvez o maior presente que podemos dá a uma pessoa, é uma plantinha. Porque plantando uma arvore, nós resgatamos a umidade do chão, ela puxa a água, com a fotossíntese ela nos dá o oxigênio, ela nos dá sombra, nos da flor, nos dá os frutos. A árvore é que mantem o grande equilíbrio dos climas do planeta, então a importância de reflorestarmos, mantermos essa, essa mata belíssima nessa montanha em todas as partes, onde pudermos plantar uma planta. Cuidar da água, porque os dois maiores problemas hoje da humanidade é: falta de água potável e o aquecimento global. 
Dom Luciano Bergamin e Leonardo Boff

O presidente da FAO que é um brasileiro Francisco Graziano ele disse no RIO +20: “O NOSSO MEDO, QUE É PAVOR. QUE HAJA UM CRUZAMENTO AO NIVÉL DO MUNDO, ENTRE A FALTA DE ÁGUA E O AQUECIMENTO GLOBAL. SE ISSO OCORRER SERÁ UMA CATASTROFE PARA A HUMAMIDADE. SE PERDERÁ UMA SAFRA HAVERÁ PELO MENOS 60 A 100 MILHÔES DE PESSOAS, QUE DEVERÃO IMIGRAR PARA PODER SOBREVIVER. DEIXAR SUAS TERRAS, SUAS CASAS, INVADIR OS DEMAIS PAÍSES, SERÁ UM GRANDE PROBLEMA POLITICO”. Ele fez um chamado às nações presentes ai, que já se preparassem politicamente para esse eventual desastre, porque mais perigoso que o aquecimento é a falte de água potável. De toda água que existe, só 3% é doce e acessível ao nosso consumo é só 0,7%. Se falta essa água não há vida, porque a água é um bem natural para mundo indispensável, sem a qual nós não vivemos, as árvores não vivem não há vida nesse planeta. Então nós temos que cuida das nossas águas, não poluí-la, não gasta demasiado água, cuidar das plantas que alimentam as águas, cuidar de tudo, não queimar nada, para que não se aumente o, não se aumente o aquecimento global. 
Leonardo Boff

Quero terminar para não cansar vocês todos que estão de pé ai, pra dizer vamos aproveitar esses 40 dias para pensar, no futuro da vida no planeta. Especialmente a vida daqueles que mais vulneráveis são, que são os pobres que não tem acesso água, que moram em condições inóspitas ou ruins, que tem esgoto em céu aberto, que não tem água purificada. Pensar em todos esses e fazer alguma coisa, se propor a ter um cuidado com tudo aquilo que existe e vive. Porque o cuidado é a palavra essencial, tudo aquilo que nós amamos nós cuidamos e tudo aquilo que nós cuidamos nós amamos. Hoje devemos cuidar da Mãe Terra, cuidar dos biomas, sobe aquelas regiões com seus, suas singularidades, cuidar de tudo aquilo que existe e vive, porque essa é a nossa missão escrita lá em gênesis 2 “DEUS NOS COLOCOU AI, PARA GUARDAR E CUIDAR DO JARDIM DE EDÉN, ESSA TERRA TODA”
Qual é o desafio? Dessa vez não há uma Arca de Noé que salve alguns, que deixe perecer os demais, ou nos salvamos todos ou perecemos juntos lentamente todos. Mas nós, temos esperança com a encíclica do Papa que diz: “NÓS TEMOS CIÊNCIA, NÓS TEMOS TECNOLOGIA, TEMOS ESPIRITO CRIATIVO. MAS QUE TUDO TEMOS ESPIRITO, QUE O GRANDE SOBERANO AMANTE DA VIDA.” Três vezes ele cita esse texto: O SOBERANO AMANTE DA VIDA não vai deixar essa vida que foi eternizada por Jesus que assumiu essa vida, por Maria que viveu entre nós cheia do Espirito Santo, que essa vida se acabe miseravelmente. Termino com a última frase do Papa que diz: “IRMÃOS E IRMÃS SIGAMOS CANTANDO, QUE AS PREUCUPAÇÕES E OS PROBLEMAS COM A NOSSA TERRA, NÃO NOS TIRE A ALEGRIA NA ESPERANÇA” 
Muito obrigado.

Leonardo Boff

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Papa Francisco falando do comunismo!

Amigos  todos que  conhecem esse espaço onde  compartilhamos aquilo que gostamos, defendemos e até mesmo que nos toca. Peço licença ao  site;  http://www.ihu.unisinos.br  para publicar integra a entrevista cedida pelo Papa Francisco,   falando do Comunismo e de outras coisas que  são tabus para um grupo que se sente melhor ou mais cristão que os outros. Na minha época de  faculdade,   participando de um simpósio que falei sobre a religiosidade cristã teve um colega que me perguntou sobre a revolução francesa, a    dualidade do Comunismo e do Cristianismo.    Respondi  que o  a  proposta da revolução francesa não entrava em conflito com o evangelho ou que Max não estava inaugurando um pensamento novo, pois nós os cristãos  devíamos   viver a proposta do evangelho,   naquele período ainda citei o Bispo  Adriano  da Diocese de Nova Iguaçu que falava de um projeto onde a Fraternidade nos obriga ir de encontro com outros em especial das n necessidades reais neste plano.   Recordei um texto da Primeira Carta  de São João 3,17
  •   Quem possuir bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como pode estar nele o amor de Deus?
Foi um escândalo e por fim  foi encerrada minha participação neste dia. Agora me vem Papa Francisco com mesmo discurso. Acompanhe a entrevista na integra e tire suas conclusões.

DNonato 

   ''O comunismo nos roubou a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã.''

O encontro é em Santa Marta, à tarde. Uma rápida verificação, e um guarda suíço me faz sentar em uma pequena sala de estar.
A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero, 29-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Seis poltroninhas verdes de veludo um pouco desgastado, uma mesinha de madeira, um televisor daqueles antigos, com a "barriga". Tudo em perfeita ordem, o mármore polido lucidamente, alguns quadros. Poderia ser uma sala de espera paroquial, uma daquelas a que se vai para pedir um conselho ou para fazer os documentos de casamento.
Francisco entra sorrindo: "Finalmente! Eu a leio e agora a conheço". Eu coro. "Eu, ao contrário, o conheço e agora o escuto". Ele ri. Ri com gosto, o papa, como fará outras vezes no decorrer de mais de uma hora de conversa livre.
Roma, com os seus males de megalópole, a época de mudanças que enfraquecem a política; o esforço para defender o bem comum; a reapropriação por parte da Igreja dos temas da pobreza e da partilha ("Marx não inventou nada"); a desolação diante da degradação das periferias da alma, escorregadio abismo moral em que se abusa da infância, tolera-se a mendicância, o trabalho infantil e, não por último, a exploração de meninas prostitutas com menos de 15 anos. E os clientes que poderiam ser seus avós; "pedófilos": o papa os define justamente assim.
Francisco fala, explica, se interrompe, retorna. Paixão, doçura, ironia. Um fio de voz, parecem ninar as palavras. As mãos acompanham o raciocínio, entrelaça-as, solta-as, parecem desenhar geometrias invisíveis no ar. Está em ótima forma, apesar dos rumores sobre a sua saúde.


É a hora do jogo entre a Itália e o Uruguai. Santo Padre, por quem o senhor torce?
Ah, eu, por ninguém, de verdade. Prometi à presidente do Brasil (Dilma Rousseff) que me manteria neutro.

Comecemos por Roma?
Mas você sabe que eu não conheço Roma? Pense que eu vi a Capela Sistina pela primeira vez quando participei do conclave que elegeu Bento XVI (2005). Nunca estive nem mesmo nos museus. O fato é que, como cardeal, eu não vinha muitas vezes. Eu conheço Santa Maria Maior, porque sempre ia lá. E depois São Lourenço Fora dos Muros, onde eu fui para crismas, quando estava o padre Giacomo Tantardini. Obviamente, conheço a Praça Navona, porque sempre me hospedei na Via della Scrofa, lá atrás.
Há algo de romano no argentino Bergoglio?
Pouco ou nada. Eu sou mais piemontês, são essas as raízes da minha família de origem. No entanto, estou começando a me sentir romano. Pretendo ir visitar o território, as paróquias. Estou descobrindo pouco a pouco esta cidade. É uma metrópole belíssima, única, com os problemas das grandes metrópoles. Uma cidade pequena possui uma estrutura quase unívoca; uma metrópole, ao contrário, inclui sete ou oito cidades imaginárias, sobrepostas, em vários níveis. Também níveis culturais. Penso, por exemplo, nas tribos urbanas dos jovens. É assim em todas as metrópoles. Em novembro, faremos em Barcelona um congresso dedicado justamente à pastoral das metrópoles. Na Argentina, foram promovidos intercâmbios com o México. Descobrem-se tantas culturas cruzadas, mas não tanto por causa das migrações, mas porque se trata de territórios culturais transversais, feitos de pertencimentos próprios. Cidades nas cidades. A Igreja deve saber responder também a esse fenômeno.

Por que, desde o início, o senhor quis enfatizar tanto a função de bispo de Roma?
O primeiro serviço de Francisco é este: ser o bispo de Roma. Ele só tem todos os títulos do papa, Pastor universal, Vigário de Cristo etc., porque é bispo de Roma. É a escolha primeira. A consequência do primado de Pedro. Se, amanhã, o papa quisesse ser bispo de Tivoli, é claro que me expulsariam.

Há 40 anos, com Paulo VI, o Vicariato promoveu o congresso sobre os males da Roma. Emergiu o quadro de uma cidade em que aqueles que tinham muito levavam a melhor, e aqueles que tinha, pouco, a pior. Hoje, na sua opinião, quais são os males desta cidade?
São os das metrópoles, como Buenos Aires. Quem aumenta os benefícios, e quem é cada vez mais pobre. Eu não estava ciente do congresso sobre os males da Roma. São questões muito romanas, e eu, na época, tinha 38 anos. Sou o primeiro papa que não participou do Concílio e o primeiro que estudou teologia na pós-Concílio,, e nesse tempo, para nós, a grande luz era Paulo VI. Para mim, a Evangelii nuntiandi continua sendo um documento pastoral nunca superado.

Existe uma hierarquia de valores a ser respeitada na gestão da coisa pública?
Certamente. Proteger sempre o bem comum. A vocação para qualquer político é essa. Um conceito amplo que inclui, por exemplo, a proteção da vida humana, a sua dignidade. Paulo VI costumava dizer que a missão da política continua sendo uma das formas mais altas de caridade. Hoje, o problema da política – eu não falo só da Itália, mas de todos os países, o problema é mundial – é que ela se desvalorizou, arruinada pela corrupção, pelo fenômeno dos subornos. Lembro-me de um documento que os bispos franceses publicaram há 15 anos. Era uma carta pastoral que se intitulava "Reabilitar a política" e abordava justamente esse assunto. Se não houver serviço na base, não se pode entender nem mesmo a identidade da política.

O senhor disse que a corrupção tem cheiro de podridão. Também disse que a corrupção social é o fruto do coração doente e não só de condições externas. Não haveria corrupção sem corações corruptos. O corrupto não tem amigos, mas idiotas úteis. Pode nos explicar isso melhor?
Eu falei dois dias seguidos desse assunto, porque eu comentava a leitura da Vinha de Nabot. Gosto de falar sobre as leituras do dia. No primeiro dia, abordei a fenomenologia da corrupção; no segundo dia, de como acabam os corruptos. O corrupto não tem amigos, mas apenas cúmplices.

De acordo com o senhor, fala-se muito da corrupção porque os meios de comunicação insistem demais no assunto ou porque efetivamente se trata de um mal endêmico e grave?

Não, infelizmente, é um fenômeno mundial. Há chefes de Estado na prisão justamente por causa disso. Eu me interroguei muito e cheguei à conclusão de que muitos males crescem principalmente durante as mudanças epocais. Estamos vivendo não tanto uma época de mudanças, mas uma mudança de época. E, portanto, se trata de uma mudança de cultura. Justamente nesta fase, emergem coisas desse tipo. A mudança de época alimenta a decadência moral, não só na política, mas também na vida financeira ou social.

Os cristãos também não parecem brilhar por testemunho...
É o ambiente que facilita a corrupção. Não digo que todos sejam corruptos, mas acho que é difícil permanecer honesto na política. Falo sobre todos os lugares, não da Itália. Eu também penso em outros casos. Às vezes há pessoas que gostariam de deixar as coisas claras, mas depois se encontram em dificuldades, e é como se fossem fagocitadas por um fenômeno endêmico, em vários níveis, transversal. Não porque seja a natureza da política, mas porque, em uma mudança de época, os estímulos em direção a um certo desvio moral se tornam mais fortes.

O senhor se assusta mais com a pobreza moral ou material de uma cidade?
Ambas me assustam. Por exemplo, eu posso ajudar um faminto para que não tenha mais fome, mas, se ele perdeu o trabalho e não encontra mais um emprego, isso tem a ver com a outra pobreza. Ele não tem mais dignidade. Talvez ele pode ir à Cáritas e levar para casa uma cesta básica, mas experimenta uma pobreza gravíssima que arruína o coração. Um bispo auxiliar de Roma me contou que muitas pessoas vão ao restaurante popular e, às escondidas, cheias de vergonha, levam comida para casa. A sua dignidade progressivamente se empobreceu, vivem em um estado de prostração.

Pelas ruas consulares de Roma, veem-se menininhas de apenas 14
anos muitas vezes forçadas à se prostituir na indiferença geral, enquanto, no metrô, assiste-se à mendicância das crianças. A Igreja ainda é fermento? O senhor se sente impotente como bispo diante dessa degradação moral?
Eu sinto dor. Sinto uma enorme dor. A exploração das crianças me faz sofrer. Na Argentina também é a mesma coisa. Para alguns trabalhos manuais, são usadas as crianças porque têm as mãos menores. Mas as crianças também são exploradas sexualmente em hotéis. Uma vez, avisaram-me que, em uma rua de Buenos Aires, havia menininhas prostitutas de 12 anos. Eu me informei, e efetivamente era assim. Isso me fez mal. Mas ainda mais por ver que eram carros de alta cilindrada dirigidos por idosos que paravam. Podiam ser seus os avós. Faziam com que a menina subisse e lhe pagavam 15 pesos, que depois serviam para comprar os restos da droga, o "pacote". Para mim, essas pessoas que fazem isso às meninas são pedófilos. Isso também acontece em Roma. A Cidade Eterna, que deveria ser um farol no mundo, é espelho da degradação moral da sociedade. Acho que são problemas que são resolvidos com uma boa política social.

O que a política pode fazer?
Responder de modo claro. Por exemplo, com serviços sociais que levam as famílias a entender, acompanhando-as para sair de situações pesadas. O fenômeno indica uma deficiência de serviço social na sociedade.

Mas a Igreja está trabalhando muito...
E deve continuar a fazê-lo. Ela precisa ajudar as famílias em dificuldades, um trabalho em saída que impõe o esforço comum.

Em Roma, cada vez mais jovens não vão à igreja, não batizam os filhos, não sabem nem mesmo fazer o sinal da cruz. Que estratégia é preciso para inverter essta tendência?

A Igreja deve sair pelas ruas, buscar as pessoas, ir às casas, visitar as famílias, ir às periferias. Não ser uma Igreja que só recebe, mas que oferece.

E os párocos não devem ficar penteando as ovelhas...
 (Risos) Obviamente. Estamos em um momento de missão há cerca de uma década. Devemos insistir.
O senhor se preocupa com a cultura da desnatalidade na Itália?

Acho que se deve trabalhar mais pelo bem comum da infância. Formar uma família é um compromisso. Às vezes, o salário não é suficiente, não se chega ao fim do mês. Tem-se medo de perder o trabalho ou de não poder mais pagar o aluguel. A política social não ajuda. A Itália tem uma taxa baixíssima de natalidade. Na Espanha é o mesmo. A França vai um pouco melhor, mas ela também é baixa. É como se a Europa tivesse se cansado de ser mãe, preferindo ser avó. Muito depende da crise econômica e não só de um desvio cultural marcado pelo egoísmo e pelo hedonismo. Outro dia, eu lia uma estatística sobre os critérios para as despesas da população em nível mundial. Depois da alimentação, do vestuário e dos medicamentos, três itens necessários, seguem a cosmética e as despesas com animais de estimação.

Os animais importam mais do que as crianças?
Trata-se de outro fenômeno de degradação cultural. Isso porque a relação afetiva com os animais é mais fácil, mais programável. Um animal não é livre, enquanto ter um filho é uma coisa complexa.

O Evangelho fala mais aos pobres ou aos ricos para convertê-los?
A pobreza está no centro do Evangelho. Não se pode entender o Evangelho sem entender a pobreza real, levando em conta que também existe uma pobreza belíssima do espírito: ser pobre diante de Deus, porque Deus enche você. O Evangelho se volta indistintamente aos pobres e aos ricos. Ele fala tanto de pobreza quanto de riqueza. De fato, não condena os ricos; no máximo as riquezas, quando se tornam objetos idolatrados. O deus dinheiro, o bezerro de ouro.

O senhor passa a imagem de ser um papa comunista, pauperista, populista. A revista The Economist, que lhe dedicou uma capa, afirma que o senhor fala como Lênin. O senhor se reconhece em tudo isso?
Eu digo apenas que os comunistas nos roubaram a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza está no centro do Evangelho. Os pobres estão no centro do Evangelho. Tomemos Mateus 25, o protocolo pelo do qual seremos julgados: tive fome, tive sede, estive na prisão, estava doente, nu. Ou olhemos para as Bem-aventuranças, outra bandeira. Os comunistas dizem que tudo isso é comunista. Sim, como não, 20 séculos depois... Então, quando eles falam, se poderia dizer a eles: mas vocês são cristãos! (risos)

Se o senhor me permite uma crítica...
Claro...

O senhor talvez fala pouco das mulheres e, quando fala, aborda o assunto apenas do ponto de vista da maternidade, da mulher esposa, da mulher mãe etc. Porém, as mulheres já lideram Estados, multinacionais, exércitos. Na Igreja, na sua opinião, que lugar as mulheres ocupam?

As mulheres são a coisa mais bela que Deus fez. A Igreja é mulher. Igreja é uma palavra feminina. Não se pode fazer teologia sem essa feminilidade. Sobre isso, você tem razão, não se fala o suficiente. Estou de acordo que é preciso trabalhar mais sobre a teologia da mulher. Eu já disse isso, e se está trabalhando nesse sentido.

O senhor não entrevê uma certa misoginia de fundo?
O fato é que a mulher foi tirada de uma costela... (ri com gosto). Estou brincando, é uma piada. Estou de acordo que se deve aprofundar mais a questão feminina, senão não se pode entender a própria Igreja.

Podemos esperar do senhor decisões históricas, tipo uma mulher como chefe de dicastério, não digo do clero...
(Risos) Bem, muitas vezes os padres acabam sob a autoridade das perpétuas...

Em agosto, o senhor vai para a Coreia. É a porta para a China? O senhor está apontando para a Ásia?
Vou ir à Ásia duas vezes em seis meses. À Coreia, em agosto, para encontrar os jovens asiáticos. Em janeiro, ao Sri Lanka e às Filipinas. A Igreja na Ásia é uma promessa. A Coreia representa muito, tem às suas costas uma história belíssima, por dois séculos não teve padres, e o catolicismo avançou graças aos leigos. Também houve mártires. Quanto à China, trata-se de um desafio cultural grande. Grandíssimo. E depois há o exemplo de Matteo Ricci, que fez tanto bem...
Aonde está indo a Igreja de Bergoglio?
Graças a Deus, eu não tenho nenhuma Igreja, eu sigo a Cristo. Não fundei nada. Do ponto de vista do estilo, não mudei de como eu era em Buenos Aires. Sim, talvez alguma coisinha, porque se deve, mas mudar na minha idade teria sido ridículo. Sobre o programa, ao contrário, eu sigo aquilo que os cardeais pediram durante as congregações gerais antes do conclave. Eu vou nessa direção. O Conselho dos oito cardeais, um organismo externo, nasce daí. Havia sido pedido para que ajudasse a reformar a Cúria. O que, aliás, não é fácil, porque se dá um passo, mas depois surge que é preciso fazer isto ou aquilo, e, se antes havia um dicastério, depois se tornam quatro. As minhas decisões são o resultado das reuniões pré-conclave. Não fiz nada sozinho.

Uma abordagem democrática...
Foram decisões dos cardeais. Eu não sei se é uma abordagem democrática, eu diria mais sinodal, mesmo que a palavra não seja apropriada para os cardeais.

O que o senhor deseja aos romanos pelos patronos São Pedro e São Paulo?
Que continuem sendo bravos. São tão simpáticos. Eu vejo isso nas audiências e quando vou às paróquias. Eu lhes desejo que não percam a alegria, a esperança, a confiança, apesar das dificuldades. O romanaccio [dialeto romano] também é bonito.

Wojtyla tinha aprendido a dizer: Volemose bene, damose da fa'. O senhor aprendeu algumas frases em romanesco?

Por enquanto, pouco. Campa e fa' campa'! (risos).

Festa dos Apóstolos Pedro e Paulo ; 29 de junho de 2014 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br