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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre João 1,29-34

A perícope de João 1,29-34 situa-se no limiar entre o tempo do Natal e a manifestação plena do mistério de Cristo. Na liturgia, este texto é proclamado no dia 3 de janeiro, ainda no ciclo do Natal, como preparação imediata para a Epifania do Senhor, quando a Igreja contempla a revelação de Jesus às nações. Ao mesmo tempo, a mesma passagem retorna com força no 2º Domingo do Tempo Comum, Ano B, já fora do clima natalino, indicando que a identidade de Jesus como Cordeiro de Deus não é um dado restrito ao início do Evangelho, mas um eixo permanente da fé cristã. A liturgia, com sua pedagogia própria, insiste: aquilo que se anuncia no início precisa ser continuamente reaprendido no caminho, porque a fé não é um ponto de chegada, mas um processo de reconhecimento que atravessa a história e a vida concreta.
O Evangelho de João não apresenta o batismo de Jesus de forma narrativa, como fazem os sinóticos, mas o retoma a partir do testemunho de João Batista. O foco não está no gesto ritual em si, mas na interpretação teológica do acontecimento. Antes do milagre, antes do sinal, antes do discurso, há um testemunho. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Não se trata de uma frase devocional nem de um título piedoso criado para alimentar a religiosidade popular; trata-se de uma chave hermenêutica para compreender toda a missão de Jesus. João Batista não aponta para si, não constrói um movimento próprio, não capitaliza seguidores, não se apropria do sagrado; ele indica outro, desloca o centro, desinstala expectativas. Aqui já se delineia uma crítica profunda a toda forma de liderança religiosa autorreferencial, clericalista ou messiânica no sentido político-militar. O verdadeiro profeta não se coloca como fim, mas como sinal, e sabe desaparecer para que o Outro apareça.
A imagem do cordeiro carrega uma densidade simbólica que atravessa toda a Escritura como memória ferida e esperança aberta. No horizonte do Antigo Testamento, ressoam pelo menos três grandes camadas de sentido que João não inventa, mas recolhe e ressignifica. 
 
  camada remete a Gênesis 22, o sacrifício de Isaac. Abraão sobe o monte disposto a entregar o filho da promessa, e Isaac pergunta: “Onde está o cordeiro para o holocausto?” (Gn 22,7). A resposta — “Deus providenciará o cordeiro”  permanece em suspensão, como uma pergunta que atravessa a história bíblica. No Evangelho de João, essa pergunta antiga encontra uma resposta paradoxal e escandalosa: o próprio Filho é o Cordeiro. Mas isso não revela um Deus sádico que exige a morte, e sim um Deus que entra na história humana e assume, Ele mesmo, o custo da fidelidade ao amor. Deus não se alimenta da morte; Ele a atravessa para vencê-la por dentro.

camada simbólica vem do Êxodo. O cordeiro pascal, imolado e cujo sangue marca as portas, torna-se sinal de libertação (Ex 12). Não é um rito mágico, mas um gesto que implica decisão, ruptura, travessia. Comer o cordeiro é aceitar sair do Egito, abandonar a segurança da escravidão e enfrentar o risco da liberdade. João escreve para comunidades profundamente marcadas pela memória judaica e pela experiência pascal. Ao chamar Jesus de Cordeiro de Deus, o evangelista afirma que a libertação definitiva não se reduz a uma saída geográfica, étnica ou política, mas toca a raiz do pecado que estrutura relações, sistemas e consciências. Não se trata apenas de um pecado individual, mas do “pecado do mundo”, isto é, de uma lógica coletiva de morte, exclusão e dominação que se normaliza e se sacraliza ao longo da história.

camada ecoa o Servo Sofredor de Isaías: “como cordeiro levado ao matadouro” (Is 53,7). Aqui, a força não está na violência reativa, mas na fidelidade silenciosa que desmascara o mal. O Servo não vence pela espada, mas pela entrega; não impõe, mas revela. João Batista, ao apontar Jesus, rompe com a expectativa de um messias guerreiro, tão presente em diversos grupos do judaísmo do século I, como os zelotas e outros movimentos messiânicos armados   Essa ruptura continua escandalosa hoje, sobretudo em contextos onde o nome de Jesus é instrumentalizado para justificar discursos de ódio, armamentismo, nacionalismos religiosos e projetos de poder que se pretendem sagrados.

Quando João proclama que o Cordeiro “tira o pecado do mundo”, ele desloca radicalmente a compreensão religiosa do mal. O pecado, aqui, não é apenas transgressão moral individual, mas uma realidade histórica, estrutural e coletiva. O “mundo” (kosmos), no Evangelho de João, não é a criação amada por Deus, mas a ordem que se fecha sobre si mesma, absolutiza poder, riqueza e prestígio, e transforma a vida em mercadoria. O pecado do mundo é a organização sistemática da morte. Por isso, a ação do Cordeiro não se limita ao perdão privado, mas atinge as engrenagens profundas que sustentam injustiças normalizadas.
Paulo desenvolve essa intuição na Carta aos Romanos ao falar do pecado como uma força que reina (Rm 5,21), que escraviza e condiciona a humanidade. A criação inteira geme e sofre como em dores de parto (Rm 8,22), não porque Deus a tenha abandonado, mas porque está submetida a uma lógica que a corrói por dentro. O Cordeiro entra nesse gemido coletivo, não como juiz distante, mas como solidário radical. Ele não salva à distância; salva assumindo a carne ferida da história.

Os profetas já haviam denunciado com vigor esse pecado estrutural. Amós expõe um sistema religioso que convive pacificamente com a exploração e a desigualdade, denunciando a venda do justo por dinheiro (Am 2,6) e um culto que Deus rejeita porque ignora a justiça (Am 5,21-24). Miquéias desmonta a teologia do sacrifício espetacular ao afirmar que Deus exige justiça, misericórdia e humildade (Mq 6,8). Aqui se revela o pecado do mundo como dissociação entre fé e vida, culto e ética, liturgia e compromisso histórico. Essa denúncia alcança sua forma mais radical no Apocalipse, onde o pecado do mundo assume a forma de um império idolátrico. Babilônia não é apenas uma cidade; é um sistema econômico que visa só o lucro, sendo o  modelo político  religioso que seduz, explora e mata. Reis, comerciantes e elites religiosas  que se beneficiam dela (Ap 18). O pecado do mundo se organiza, se legitima e se apresenta como inevitável. É nesse cenário que o Cordeiro aparece como única alternativa escatológica real. Em Apocalipse 5, o Cordeiro imolado é o único digno de abrir o livro da história. Não o leão da violência, não o império da força, não o mercado da prosperidade, mas o Cordeiro da entrega.
A escatologia cristã, assim, não é fuga do mundo, mas crítica radical do presente. Se o futuro pertence ao Cordeiro, então todo sistema fundado na exclusão já está condenado, mesmo quando parece invencível. No Evangelho de João, essa lógica aparece na “hora” de Jesus. Sua glorificação não acontece no sucesso, mas na cruz. A cruz torna-se trono; o fracasso aparente revela-se vitória definitiva. Essa inversão desmonta toda teologia que promete glória sem cruz, prosperidade sem entrega, poder sem serviço.
Nesse ponto, a crítica bíblica às teologias da prosperidade e do domínio torna-se inevitável. O livro de Jó desmonta a lógica retributiva que associa prosperidade à bênção e sofrimento ao pecado. Jó é justo e sofre, e seus amigos, defensores dessa teologia cruel, são duramente repreendidos por Deus (Jó 42,7). Amós e Miquéias denunciam uma fé que legitima desigualdades. Tiago, no Novo Testamento, retoma essa crítica com palavras contundentes contra a acumulação injusta e a exploração do trabalhador (Tg 5,1-6).   Longe de ser um projeto político-ideológico ou sociologia secular, trata-se de teologia bíblica em estado puro. Chamar isso de “projeto socialista” é esquecer que tal horizonte existia muito antes de o socialismo sequer ser nomeado.
João 1,29-34 também é um texto profundamente vocacional. “Eu não o conhecia”, diz o Batista, usando um verbo que, na Bíblia, não significa informação, mas relação (Jo 1,31). A vocação nasce quando se aprende a reconhecer a ação de Deus na história e a apontá-la aos outros. O testemunho de João torna-se espelho incômodo para nossas comunidades:
  •  indicamos Cristo ou a nós mesmos? 
  • Geramos comunhão ou disputas? 
  • Formamos discípulos ou consumidores religiosos?
Do ponto de vista psicológico, João revela
maturidade afetiva e espiritual. Ele não sofre da necessidade de protagonismo, tão comum em lideranças que dependem de aplauso e visibilidade. “É necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Em termos antropológicos, isso confronta sociedades marcadas pela performance e pela autoexposição. A identidade, no Evangelho, não se constrói pela acumulação de poder, mas pela fidelidade à missão.
A descida do Espírito em forma de pomba evoca Gênesis 1 e Gênesis 8. Criação e recriação se encontram. O Espírito que permanece sobre Jesus inaugura uma humanidade reconciliada. Ele não legitima privilégios nem sustenta projetos de dominação; Ele conduz à verdade e ao serviço (Jo 16,13). Isso desmonta espiritualidades que confundem Espírito com êxtase, espetáculo ou sucesso.
Os sinóticos narram a mesma cena com ênfases distintas, revelando a riqueza do evento. Marcos fala dos céus rasgados, Mateus do cumprimento da justiça, Lucas da oração. João escolhe o testemunho. Cada abordagem responde a feridas e desafios concretos das comunidades. A diversidade não é contradição, mas profundidade.
Proclamar Jesus como Cordeiro de Deus é questionar sistemas religiosos baseados na troca, no mérito e na mercantilização da fé. Não há espaço para discursos de “eleitos” contra “descartáveis”, nem para espiritualidades que prometem bênçãos em troca de dinheiro, submissão ou silêncio. A fé, quando vira produto, trai o Cordeiro.
O autor  nos apresenta  uma crítica ao  clericalismo que  emerge com força na pessoa  de João.  Ele  não monopoliza o sagrado. O Concílio Vaticano II reafirma que a Igreja é povo de Deus em caminho (Lumen Gentium) e que sua missão é ler os sinais dos tempos (Gaudium et Spes). O clericalismo, ao transformar serviço em poder, contradiz o Evangelho.
Santo  Agostinho distingue a voz que passa do Verbo que permanece. Orígenes vê no Cordeiro a pedagogia divina que respeita a liberdade. Irineu fala da recapitulação da história em Cristo. Essas vozes antigas continuam a iluminar um presente marcado por polarizações e idolatrias religiosas.
O Cordeiro confronta o paradigma da força como motor da história. Contra o cinismo político, o Evangelho afirma que a verdade se oferece, não se impõe. Jesus habita o mundo, toca feridas, atravessa conflitos, sem absolutizar o poder.  A adesão ao Cordeiro não é ideológica nem identitária. É prática encarnada que ultrapassa os muros do culto. Católicos, evangélicos e pessoas de outras tradições são desafiados a reconhecer no bem, na justiça e na defesa da vida sinais do Espírito que sopra onde quer (Jo 3,8). Toda espiritualidade que sacraliza a exclusão ou legitima a violência se afasta radicalmente do Cordeiro.
O tom profético de João 1,29-34 permanece atual porque denuncia falsas mediações e convoca a uma fé adulta. O Cristo apontado por João não negocia a verdade para ganhar seguidores, não promete atalhos fáceis. Seguir implica entrega, descentramento e compromisso com a vida concreta. A encarnação não é evento isolado, mas estilo de vida.
Apontar o Cordeiro hoje é resistir às seduções do poder religioso, do mercado da fé e do messianismo político. É assumir que a salvação não acontece fora do mundo, mas no interior de suas contradições. João Batista continua a nos interpelar: somos voz que aponta ou queremos ocupar o lugar do Verbo?
A Boa Nova segundo João não permite neutralidade confortável. Ela desloca, desnuda e envia. E, como toda verdadeira experiência pascal, só pode ser acolhida por quem aceita caminhar não atrás de um ídolo moldado ao próprio desejo, mas daquele que tira o pecado do mundo oferecendo a própria vida.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre João 1,19-28.

O Evangelho de João 1,19-28 apresenta o testemunho inicial de João Batista e situa, de modo denso e simbólico, o início da revelação pública de Jesus. O texto assume a forma de um interrogatório religioso, mas expõe, em profundidade, uma crise mais radical: a dificuldade das autoridades em reconhecer a ação de Deus quando ela acontece fora dos esquemas institucionais, dos controles clericais e das expectativas de poder.

Essa perícope, proclamada liturgicamente no dia 2 de janeiro, no ciclo do Natal, e também, em forma ampliada (Jo 1,6-8.19-28), no 3º Domingo do Advento do Ano B — texto que marcou, inclusive, nossa primeira celebração da Palavra na Matriz de Japeri — insere-se num tempo litúrgico de espera ativa, vigilante e crítica diante da história. Não se trata de aguardar passivamente uma data, mas de viver um tempo de discernimento, de conversão das expectativas religiosas, políticas e messiânicas. O Advento, prolongado simbolicamente no ciclo natalino antes da Epifania, não prepara apenas para um evento do passado, mas para um modo de presença de Deus que não coincide com lógicas de dominação, prosperidade ou prestígio religioso.

É nesse horizonte que João Batista emerge não como ornamento espiritual do Natal, mas como ruptura incômoda: uma voz que desestabiliza as seguranças do templo, do poder e da religião institucionalizada. Desde o prólogo, o Quarto Evangelho desloca o eixo da compreensão religiosa ao afirmar que “no princípio era o Verbo” (Jo 1,1). Antes de qualquer instituição, rito ou mediação sacerdotal, há a Palavra eterna, criadora e relacional. João Batista é introduzido nesse cenário como “um homem enviado por Deus” (Jo 1,6), não como fim em si mesmo, mas como mediação transitória.

A tensão entre voz e Palavra atravessa toda a narrativa. A voz é necessária, mas não suficiente; é ponte, não morada. A Palavra é conteúdo, sentido e permanência. Santo Agostinho expressa essa distinção de modo luminoso: João é a voz que passa, Cristo é a Palavra que permanece. Psicologicamente, a voz atua no nível do estímulo imediato; a Palavra, porém, alcança o núcleo do sentido, do desejo e da decisão. Sociologicamente, a voz pode mobilizar multidões; a Palavra transforma sujeitos.

O cenário do deserto aprofunda essa lógica. Na tradição bíblica, o deserto é lugar de ruptura, travessia e purificação da memória religiosa. Foi no deserto que Israel reaprendeu a depender de Deus (Ex 16), que os profetas denunciaram a infidelidade do povo (Os 2,16) e que Elias reencontrou o sentido da missão (1Rs 19). João não fala a partir do centro do poder religioso, mas da margem. Sua palavra nasce fora do templo, fora do sistema sacrificial, fora da lógica do controle clerical. Isso já constitui, em si, uma crítica profética a toda religião que se absolutiza e se fecha em si mesma.

Sacerdotes e levitas são enviados de Jerusalém para interrogá-lo. A pergunta “Quem és tu?” não brota de busca espiritual, mas de vigilância institucional. No judaísmo do século I, a legitimidade religiosa estava ligada à filiação, à função reconhecida e à autorização oficial. João rompe com esse esquema. Ele confessa e não nega: “Eu não sou o Messias.” Rejeita também os rótulos esperados: não é Elias retornado segundo a expectativa popular (cf. Ml 3,23), nem “o Profeta” anunciado em Dt 18,15. Ao esvaziar-se de títulos, João cria espaço para que a verdade apareça.

Pressionado a se definir, recorre à Escritura: “Eu sou a voz do que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor” (Is 40,3). Sua identidade não nasce da instituição, mas da missão. Ele não se apresenta como centro, mas como mediação; não como proprietário da revelação, mas como alguém atravessado por ela. Endireitar o caminho implica conversão concreta: revisão de práticas, relações e estruturas. Nos sinóticos, essa exigência se traduz em denúncia da hipocrisia religiosa (Mt 3,7) e na convocação a frutos concretos de justiça, partilha e recusa da violência (Lc 3,10-14). Não há espiritualidade autêntica sem implicações sociais.

O batismo de João, realizado com água, é sinal de passagem, não de chegada. A água, símbolo ambíguo na Escritura, remete tanto à vida quanto ao juízo: do dilúvio à travessia do Mar Vermelho, ela marca rupturas e recomeços. João deixa claro que seu gesto não é absoluto. Ele aponta para “aquele que vem depois de mim”, de quem não é digno de desatar a sandália — tarefa reservada ao escravo. Nos sinóticos, essa afirmação se amplia: Jesus batizará “com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3,11). O Espírito, na tradição bíblica, não é posse nem mercadoria, mas sopro criador, força que desinstala e gera vida.

A declaração de que Jesus já está no meio deles, mas não é reconhecido (Jo 1,26), revela uma tensão central do texto: a incapacidade religiosa de perceber a presença de Deus quando ela não corresponde às expectativas vigentes. Historicamente, o messianismo do tempo de Jesus era marcado por projeções políticas e nacionalistas. Antropologicamente, isso revela a tendência humana de moldar Deus segundo seus desejos de segurança e poder. Teologicamente, o Evangelho desmonta essas projeções: o Messias não se impõe, não negocia favores, não domina; ele se faz próximo, vulnerável e encarnado.

Esse desconhecimento atravessa toda a narrativa bíblica. Os discípulos de Emaús caminham com Jesus sem reconhecê-lo (Lc 24,16); Maria Madalena o confunde com o jardineiro (Jo 20,15). Reconhecer exige escuta, permanência e relação. Não se trata de evidência empírica, mas de encontro. Aqui dialogam categorias da psicologia e da filosofia do conhecimento: reconhecer supõe abertura ao outro e disposição para ser deslocado.

O testemunho de João atinge seu ápice quando ele assume, conscientemente, o lugar mais baixo para afirmar a grandeza daquele que vem. Sua autoridade não se impõe; revela-se na humildade. Ao permitir que seus próprios discípulos sigam Jesus (Jo 1,35-37), João realiza um gesto profundamente anticlérical no melhor sentido do termo: não retém, não centraliza, não cria dependência. Em tempos de líderes religiosos que competem por visibilidade, fiéis e poder, sua postura torna-se denúncia viva. O clericalismo, reiteradamente denunciado pelo Magistério recente, nasce justamente da incapacidade de diminuir para que Cristo cresça.

Os Padres da Igreja reconheceram em João o modelo da verdadeira mediação. Orígenes vê nele a Lei e os Profetas que conduzem a Cristo sem substituí-lo. Agostinho insiste: João é o amigo do Esposo, não o Esposo (cf. Jo 3,29). Essa imagem nupcial revela a lógica da aliança, não da troca. Toda teologia que transforma a fé em investimento espiritual ou moeda de barganha trai essa dinâmica.

Daí emerge, com força, a crítica às teologias da prosperidade e da fé como mercadoria. João não promete sucesso, não oferece técnicas de autoajuda espiritual, não vende milagres. Sua palavra é austera, situada no deserto, apontando para um Messias rejeitado, que morrerá fora dos muros. Seguir esse Cristo implica assumir a lógica da cruz (Mc 8,34), não a da ascensão garantida.

Sociologicamente, o movimento de João revela uma religiosidade popular que busca sentido fora das estruturas oficiais. As multidões vão ao deserto porque o templo já não responde às suas angústias. Isso interpela a Igreja de todos os tempos. Quando a margem se torna espaço de escuta, é sinal de que o centro perdeu credibilidade. O Concílio Vaticano II, especialmente na Gaudium et Spes, insiste na leitura dos sinais dos tempos e na escuta das dores do mundo. João Batista é um desses sinais.

Essa hermenêutica se aprofunda quando o texto é atravessado pela experiência concreta da nossa primeira celebração da Palavra. A Escritura deixa de ser apenas objeto de análise e se torna lugar de chamado. Ser João hoje não é repetir gestos, mas assumir uma postura: descentrar-se, apontar para Cristo, recusar a vaidade religiosa. Em uma cultura marcada pelo individualismo e pela espiritualidade performática, esse testemunho é profundamente contracultural.

A pergunta “Quem és tu?” ecoa outras interrogações fundantes da Escritura. Moisés, diante da sarça, pergunta pelo nome de Deus (Ex 3,13); Jeremias resiste à vocação alegando fragilidade (Jr 1,6); Amós rejeita o estatuto profissional de profeta (Am 7,14-15). Em todos esses relatos, a identidade nasce do chamado, não do cargo. João se insere nessa linhagem, relativizando qualquer ministério entendido como privilégio ou propriedade.

O evangelista insiste que João “confessa e não nega” (Jo 1,20). Confessar, na Bíblia, é alinhar vida e verdade. Trata-se de uma ética do testemunho que contrasta com formas de religiosidade marcadas pela ambiguidade e pela autopreservação institucional. “Seja o vosso ‘sim’, sim; e o vosso ‘não’, não” (Mt 5,37).

O verbo “conhecer” — “há alguém no meio de vós que não conheceis” (Jo 1,26) — retoma o sentido bíblico de conhecimento como relação e compromisso. “Quero misericórdia e não sacrifício” (Os 6,6), texto retomado por Jesus (Mt 9,13; 12,7), ilumina a crítica à fé reduzida a ritos exteriores. A Dei Verbum recorda que Deus fala como amigo (DV 2) e que a Revelação é o próprio Deus que se comunica na história. João aponta para essa presença, não para ideias abstratas.

A Lumen Gentium afirma que a Igreja é sacramento de Cristo no mundo (LG 1), chamada a uma lógica de serviço. Quando perde esse horizonte, torna-se ruído; quando o preserva, torna-se voz que conduz à Palavra. A Gaudium et Spes amplia essa visão ao afirmar que as alegrias e angústias da humanidade são também as da comunidade dos discípulos (GS 1). João fala a partir do chão ferido da história, tocando questões sociais e econômicas, como evidenciam os sinóticos (Lc 3,11-14).

O Documento de Aparecida retoma essa intuição ao convocar a uma conversão pastoral e a uma Igreja em saída (DAp 365). Denuncia a fé reduzida a consumo religioso e a pastoral autorreferencial (DAp 79; 370). João, ao recusar títulos e devolver discípulos a Jesus, torna-se critério de discernimento pastoral. O discipulado missionário nasce do encontro com Cristo (DAp 243), encontro que respeita o tempo, a travessia e o amadurecimento da fé.

A crítica às teologias do domínio encontra aqui novo fundamento. Se o Cristo já está no meio e não é reconhecido, isso significa que Ele não se impõe pelo poder. “Deus escolheu o que é fraco para confundir o forte” (1Cor 1,27). Qualquer identificação entre Deus e triunfo político, acúmulo de bens ou hegemonia cultural contradiz o Evangelho.

Antropologicamente, o texto revela a tensão entre expectativa e alteridade. O Messias desconhecido obriga a rever imagens e interesses. Deus permanece sempre maior (Deus semper maior), escapando às tentativas de captura religiosa. Guardar a Palavra no coração não é gesto intimista, mas compromisso público. A Palavra cresce com quem a vive (DV 8) e conduz a Igreja a confrontar sistemas de exclusão, a denunciar a mercantilização da fé e a resistir ao clericalismo que sufoca o Espírito.

Assim, João 1,19-28 permanece como pergunta aberta a cada geração: 

  • somos voz que aponta para a Palavra ou ruído que ocupa espaço? 
  • Diminuímos para que Cristo cresça ou usamos Cristo para crescer? 

A resposta não se dá em discursos ou títulos, mas no chão da vida, onde a Palavra se encarna em gestos concretos, escolhas éticas e compromisso com a vida ferida.

Crer, à luz do Evangelho, não é apenas saber quem Jesus é, mas decidir caminhar como Ele caminhou. É permitir que a fé molde o modo de exercer poder, de consumir, de relacionar-se. O Reino não se impõe com espetáculo nem com ruído, mas cresce como semente silenciosa, transformando tudo a partir de dentro.

O Reino já está no meio de nós, presente nas fidelidades cotidianas, na opção pelos pobres, na defesa da dignidade humana e na recusa das lógicas de morte. Ainda assim, tantas vezes não o reconhecemos, porque esperamos sinais grandiosos ou messias moldados às nossas conveniências. O Evangelho nos desinstala: Deus se manifesta onde menos se espera.

O episódio se encerra em Betânia além do Jordão, lugar de fronteira e novo começo. O Jordão, associado à entrada na Terra Prometida (Js 3), torna-se símbolo de uma nova travessia: não para um território, mas para uma nova forma de relação com Deus.

João 1,19-28 não é apenas apresentação histórica de João Batista. É crítica à religião que exige credenciais, convite à humildade que aponta para além de si e alerta permanente: o Messias pode estar no meio de nós e ainda assim não ser reconhecido.

DNonato – Teólogo do Cotidiano