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quarta-feira, 4 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 20,17-28.

 
O Evangelho de Mateus 20,17-28  proclamado na quarta-feira da segunda semana da Quaresma no rito romano, tempo forte de conversão, quando a Igreja, pedagoga da fé, coloca diante dos fiéis o contraste entre ambição e serviço, entre poder e cruz e também é proclamado no dia de SãoTiago em 25 de julho de forma reduzida Mateus 20,20-28 ,. Não se trata de uma escolha casual do lecionário. A Quaresma é itinerário para Jerusalém. E este texto é literalmente o caminho de Jesus para Jerusalém. Ele sobe consciente, livre, determinado. A geografia aqui é teologia. Jerusalém está no alto. Subir significa enfrentar o centro do poder religioso e político. O Templo, o Sinédrio, a aristocracia sacerdotal, o sistema sacrificial, a presença romana com sua violência institucionalizada. Nada é neutro no cenário.

O texto começa com o terceiro anúncio da paixão. Jesus toma os Doze à parte. Há intimidade e gravidade. A repetição do anúncio mostra a pedagogia paciente do Mestre diante da dureza de compreensão dos discípulos. Ele descreve a cadeia dos acontecimentos com precisão histórica. Será entregue aos chefes dos sacerdotes e escribas, condenado à morte, entregue aos pagãos, escarnecido, flagelado e crucificado. Aqui aparece a colaboração entre elite religiosa local e poder imperial romano. Historicamente, a crucifixão era pena reservada a insurgentes e escravos. Era espetáculo público de humilhação. O Império governava pelo medo. A cruz era propaganda política. Ao anunciar sua morte nesses termos, Jesus revela que sua missão confronta estruturas. Ele não morre de forma abstrata, mas como vítima de um sistema que mistura religião e poder.

O contexto anterior ilumina ainda mais. Em Mateus 19, o jovem rico se afasta triste porque tinha muitos bens. A promessa de vida eterna se choca com o apego à riqueza. Em seguida, Pedro pergunta o que receberão aqueles que deixaram tudo. A lógica da recompensa ainda está viva. Então vem a parábola dos trabalhadores da vinha, onde o dono paga igualmente aos que trabalharam uma hora e aos que trabalharam o dia inteiro. Ali já se questiona a mentalidade meritocrática. A graça rompe a contabilidade humana. Mateus 20,17-28 é continuação dessa ruptura. O Reino não funciona como mercado nem como carreira eclesiástica.

Logo após o anúncio da paixão, surge o pedido da mãe dos filhos de Zebedeu. Curiosamente, o Evangelho de Marcos atribui o pedido diretamente a Tiago e João, mas Mateus introduz a figura materna. Isso pode refletir a importância da família na cultura judaica e a prática de intercessão familiar nas redes de patronagem mediterrâneas. Antropologicamente, honra e status eram valores centrais. Sentar à direita e à esquerda significava proximidade com o soberano, participação na autoridade e visibilidade pública. A mãe pede segurança para os filhos num cenário incerto, o medo da perda e da invisibilidade gera ambição disfarçada de fé.

  • Tiago e João eram pescadores da Galileia. Chamados por Jesus à beira do lago, deixaram redes e pai. A tradição os chama de filhos do trovão, conforme o relato de Evangelho de Marcos 3,17. Essa alcunha sugere temperamento impetuoso, talvez explosivo. Em Evangelho de Lucas 9,54, querem fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia samaritana que não acolheu Jesus. São zelosos, intensos, apaixonados, mas ainda marcados por lógica de vingança e exclusão. 
O pedido de lugares de honra combina com esse perfil forte. João, que mais tarde escreverá sobre amor e permanência, começa a jornada aprendendo a atravessar o próprio desejo de supremacia. Tiago será o primeiro dos Doze a derramar sangue, segundo Atos dos Apóstolos 12,2. O cálice que afirmaram poder beber não era metáfora leve.

Jesus responde com uma pergunta decisiva. Podeis beber o cálice que eu vou beber. O cálice, na tradição bíblica, é símbolo de destino, juízo e também de bênção. Em Livro dos Salmos 23, o cálice transborda como sinal de cuidado. Em Livro de Isaías 51, é cálice de ira. Em Evangelho de Mateus 26,39, torna-se cálice da paixão que Jesus pede, se possível, que seja afastado. O símbolo carrega ambivalência. Beber o cálice é aceitar a vontade do Pai mesmo quando ela passa pelo sofrimento. Não é masoquismo religioso, mas fidelidade à missão. Quando os discípulos respondem que podem, revelam disposição, mas ainda não compreendem profundidade. A espiritualidade que responde rápido demais pode esconder imaturidade.

Jesus afirma que de fato beberão seu cálice. A tradição confirma. Tiago será martirizado. João enfrentará perseguições e exílio. O discipulado não é trilha de privilégios, mas caminho de testemunho. Contudo, sentar à direita e à esquerda não lhe compete conceder. O Reino não é moeda de troca. Aqui se desmascara a teologia que transforma fé em contrato. A chamada teologia da prosperidade promete sucesso material como sinal de favor divino. Mateus 20 desmonta essa narrativa. O Filho do Homem caminha para a cruz, não para o trono imperial. A lógica do Reino é paradoxal. Em Carta aos Coríntios I 1,18, Paulo dirá que a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas força de Deus para os que creem.

A indignação dos outros dez mostra que a ambição é contagiosa. Não se indignam por causa da cruz anunciada, mas pelo pedido de privilégios. A comunidade entra em disputa interna. Isso é profundamente humano. Em grupos religiosos contemporâneos, não é raro ver conflitos por cargos, visibilidade e controle. O texto revela que desde o início a Igreja carrega essa tentação e aqui destacamos: 

  • Pedro, por exemplo, impulsivo e líder natural, já havia sido chamado de pedra e também de satanás no mesmo capítulo 16 de Mateus. Ele representa a tensão entre inspiração e resistência à cruz. 
  • Tomé, mais tarde, lutará com a dúvida. 
  • Mateus, o publicano, traz a memória de colaboração com Roma e a necessidade de conversão profunda.
  •  Simão, o zelota, possivelmente ligado a movimentos nacionalistas, precisa aprender que o Reino não se impõe pela espada. 
Cada apóstolo carrega traços psicológicos e sociológicos que Jesus não elimina, mas purifica e também é  assim conosco  temos traços  e personalidades distintas. 

Jesus então reúne todos e apresenta o contraste. Sabeis que os chefes das nações as dominam. O verbo dominar aqui evoca exercício opressivo de autoridade. O Império Romano mantinha ordem por meio de tributos pesados, exploração econômica e repressão militar. A Pax Romana era paz de cemitério para os rebeldes. Ao afirmar que entre vós não deverá ser assim, Jesus funda uma ética comunitária alternativa. A autoridade cristã nasce do serviço. Quem quiser ser grande seja servo. Quem quiser ser primeiro seja escravo. No mundo antigo, escravo era propriedade. Não tinha direitos. A imagem é radical. O maior no Reino assume a posição mais vulnerável.

Esse ensinamento dialoga profundamente com o Evangelho proclamado no dia anterior, Evangelho de Mateus 23,1-12. Ali Jesus critica escribas e fariseus que se assentam na cátedra de Moisés, atam fardos pesados sobre os outros e buscam primeiros lugares nos banquetes e saudações nas praças. Gostam de ser chamados de mestre, pai, guia. O problema não é o título em si, mas a incoerência entre palavra e prática e a busca de honra. Mateus 23 denuncia a religião exibicionista. Mateus 20 propõe a religião do serviço oculto. Um texto revela a patologia do poder religioso. O outro oferece terapia evangélica. Ontem Jesus desmascarou a hipocrisia que transforma fé em espetáculo. Hoje ele convida os discípulos a uma conversão estrutural do exercício de liderança.

A hermenêutica da cruz atravessa ambos os textos. Em Mateus 23, Jesus afirma que quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado. Em Mateus 20, ele encarna essa verdade dizendo que o Filho do Homem veio para servir e dar a vida em resgate por muitos. A expressão resgate remete à libertação de escravos e prisioneiros. No Antigo Testamento, Deus é aquele que resgata Israel do Egito, como narrado no Livro do Êxodo 6. O novo êxodo acontece na cruz. A libertação agora não é apenas política, mas integral. Liberta da idolatria do poder, do pecado que gera morte, da lógica de violência.

O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, recorda que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Isso impede espiritualidade alienada. Não é possível proclamar Mateus 20 e fechar os olhos para desigualdades gritantes, para lideranças religiosas que se aliam a projetos autoritários, para discursos que usam o nome de Deus para legitimar exclusão. O clericalismo, denunciado reiteradamente pelo magistério contemporâneo, é forma moderna da busca por primeiros lugares. Ele cria castas sagradas, distancia o povo e transforma ministério em privilégio.

A proposta de Jesus desafia o narcisismo religioso. O desejo de reconhecimento é humano. Contudo, quando se torna centro da identidade, gera ansiedade, competição e violência simbólica. O serviço, ao contrário, liberta da tirania da imagem. Em João 13, ao lavar os pés, Jesus assume tarefa de escravo doméstico. A água, a bacia e a toalha tornam-se sacramentos do Reino. Não há glória ali segundo critérios mundanos. Mas há revelação plena de Deus.

As comunidades que vivem Mateus 20 tornam-se sinal contracultural. Em vez de reproduzir hierarquias rígidas, promovem corresponsabilidade. Em vez de acumular riquezas em nome de promessas de prosperidade, partilham bens como em Atos dos Apóstolos 2,44-45. A crítica à teologia da prosperidade não é ataque a pessoas, mas denúncia de distorção do Evangelho. Quando a cruz é substituída por promessa de ascensão social garantida, perde-se o núcleo da fé cristã. O próprio Jesus afirma em Evangelho de Mateus 16,24 que quem quiser segui-lo deve tomar a própria cruz.

Mateus 20,17-28 termina antes da cura dos cegos em Jericó. A sequência narrativa sugere metáfora espiritual. É preciso enxergar corretamente o Reino. A cegueira maior é interpretar serviço como fraqueza e dominação como força. A ressurreição, anunciada ao final do anúncio da paixão, não é prêmio para ambiciosos, mas confirmação de que o amor que se entrega é mais forte que a morte.

Hoje, em contexto marcado por polarizações, culto à personalidade e instrumentalização da fé para projetos de poder, a Palavra ressoa como juízo e esperança. Juízo porque denuncia toda forma de liderança que busca primeiros lugares e títulos honoríficos enquanto ignora o sofrimento do povo. Esperança porque mostra que existe outra maneira de organizar a vida comunitária. O Filho do Homem continua subindo a Jerusalém em cada periferia esquecida, em cada comunidade que decide servir sem aplauso, em cada cristão que escolhe coerência em vez de prestígio.

O texto começa com um anúncio de morte e termina com promessa implícita de vida que brota do serviço. O princípio é a revelação da cruz. O meio é a purificação das ambições. O fim é a redefinição de grandeza. A Quaresma coloca essa Palavra diante da Igreja como espelho. Entre a cátedra orgulhosa de Mateus 23 e a bacia humilde do serviço de Mateus 20, somos chamados a escolher. O cálice permanece diante de nós. Não é cálice de prosperidade fácil, mas de fidelidade transformadora. Quem o bebe descobre que a verdadeira autoridade nasce quando o poder se converte em amor que se entrega até o fim.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 10 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 17,22-27


“Do Imposto do Templo ao Tarifaço à Lei Magnitski: A Opressão do Poder contra país soberano ”

O texto de Mateus 17,22-27, proclamado na segunda-feira da 19ª semana do Tempo Comum, encontra-se no ciclo litúrgico como parte do caminho de Jesus para Jerusalém, quando Ele já prepara, com paciência e profundidade, o coração dos discípulos para o escândalo da cruz. Aqui, o segundo anúncio da paixão (vv. 22-23) ecoa o primeiro (Mt 16,21) e antecipa o terceiro (Mt 20,17-19), compondo um tríptico em que Jesus revela que a glória do Reino passa pela entrega e pela humilhação. Marcos 9,30-32 e Lucas 9,43-45 confirmam a cena: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão; mas, três dias depois, ressuscitará”. A reação dos discípulos — tristeza e incompreensão — lembra Lucas 18,34: “Eles nada compreenderam; o sentido destas palavras lhes ficava oculto e não entendiam o que era dito”. Psicologicamente, é o retrato da resistência humana a aceitar que a vitória divina passe pelo fracasso aparente; como Pedro em Mt 16,22, preferimos afastar do caminho da cruz.

A sequência imediata, o episódio do imposto do Templo (vv. 24-27), exclusivo de Mateus, não é acidental. O mesmo Cristo que aceita ser “entregue nas mãos dos homens” aceita também pagar um tributo que não lhe era devido. Nos dois casos, age movido por um amor que não se apega a direitos, mas que preserva o plano do Pai e evita escândalos inúteis. O “didrachma” (cf. Êx 30,13-16; 38,26; 2Cr 24,6.9; Ne 10,33-34) era contribuição anual para a manutenção do culto, sinal de pertença à comunidade da Aliança. Mas, no tempo de Mateus, depois da destruição do Templo em 70 d.C., essa taxa havia sido desviada por Roma para o templo pagão de Júpiter Capitolino — um símbolo de opressão e humilhação. Nesse cenário, Jesus pergunta a Pedro: “De quem cobram tributos os reis da terra? Dos filhos ou dos estranhos?” (v. 25). A resposta — “dos estranhos” — permite a Jesus afirmar: “Os filhos estão isentos” (v. 26), ecoando Gálatas 4,7: “Já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro por Deus”.

A ordem dada a Pedro — lançar o anzol e encontrar a moeda na boca de um peixe — não é truque de mágica, mas gesto pedagógico que inscreve Jesus na tradição bíblica da providência. Como Elias sustentado por corvos (1Rs 17,4-6), Eliseu multiplicando o óleo da viúva (2Rs 4,1-7), ou o maná no deserto (Êx 16,4-15), Deus provê quando a obediência confia na Sua palavra. No Novo Testamento, a pesca milagrosa (Lc 5,1-11; Jo 21,6-11) mostra que o sustento não vem do cálculo humano, mas de colocar as redes onde o Senhor manda. A moeda no peixe é, portanto, sinal de Mt 6,33: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”.

Sociologicamente, o imposto do Templo expõe a relação entre fé e poder. Como nos oráculos de Amós 5,21-24 e Isaías 1,13-17, Deus rejeita o culto que serve de fachada para a opressão. Aqui, Jesus paga não por submissão cega, mas para não escandalizar (v. 27), antecipando a recomendação de Rm 14,19-21 e 1Cor 9,12: renunciar a direitos pelo bem do Evangelho. Essa atitude contrasta com a lógica da teologia da prosperidade e do domínio, que transforma a fé em trampolim para privilégios, reduzindo Deus a fornecedor de bênçãos mediante contribuições, e ignorando que “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida” (Mt 20,28).

Hoje, a relação entre fé, poder e opressão se reveste de formas mais sutis, mas não menos cruéis, na manipulação política e econômica global. Tal como o imposto do Templo, desviado para um templo pagão para subjugar o povo de Deus, assistimos à imposição de tarifas arbitrárias — como as adotadas por Trump — que aprofundam desigualdades e fragilizam nações soberanas. Instrumentos legais, como a chamada “lei Magnitsky”, são manipulados como armas para subjugar sistemas judiciais e dobrar a justiça às vontades de interesses políticos, incluindo tentativas escandalosas de favorecer líderes autoritários como Bolsonaro, corroendo a autonomia democrática e lançando sombras sobre a legitimidade dos processos. O uso deliberado e massivo de fake news torna-se um imposto invisível, mas brutal, imposto à verdade, à convivência social e à fé, criando um ambiente tóxico de desinformação, medo e polarização. Essas práticas são um escândalo que trai a essência do Evangelho, transformando a fé em instrumento de poder, em moeda de troca para agendas mesquinhas e egoístas. O gesto de Jesus, que paga o tributo para não alimentar divisões e escândalos vãos, é um chamado urgente para que a Igreja e os discípulos denunciem essas manipulações com coragem profética, rejeitando o clericalismo conivente e a fé domesticada, que se rende aos poderes deste mundo. A verdadeira liberdade só pode florescer na fidelidade à justiça, à verdade e ao serviço humilde, e não na conivência com os interesses opressores que exploram o povo e destroem a fraternidade.

É preciso lembrar que a ligação entre o anúncio da paixão e o imposto do Templo não é mera coincidência narrativa, mas pedagogia divina que ensina a profunda unidade entre o caminho da cruz e a vida cotidiana do discípulo. O mesmo Cristo que aceita ser entregue e humilhado, aceita também pagar um tributo para evitar escândalos, demonstrando que a liberdade no Reino não é uma licença para confrontar ou isentar-se irresponsavelmente, mas um equilíbrio maduro entre a fidelidade ao Pai e o respeito às estruturas do mundo. Essa lição vai na contramão das ideologias do individualismo radical, que veem toda concessão como fraqueza, e da fé como mercadoria, que usa a espiritualidade como instrumento de poder ou enriquecimento. Em vez disso, Jesus mostra que a liberdade do filho é serviço, renúncia e sabedoria em meio às exigências concretas da convivência social — uma liberdade que, longe de ser fuga da realidade, mergulha na vida e na missão com coragem e amor.
Teologicamente, a moeda no peixe proclama que “do Senhor é a terra e tudo o que nela existe” (Sl 24,1), e que a missão do Reino não depende de conchavos com o poder (cf. Jo 18,36) nem da exploração da fé (cf. 2Pd 2,3), mas da confiança no Deus que “abre a mão e sacia de bens a todos os viventes” (Sl 145,16). A Gaudium et Spes (n. 76) recorda que Igreja e sociedade civil, embora autônomas, devem colaborar para o bem comum, sem transformar tributo ou culto em instrumento de opressão. Os Padres da Igreja perceberam isso: Orígenes alertava para que a Igreja não se tornasse cobradora de dívidas espirituais, mas mãe que sustenta; João Crisóstomo via na atitude de Jesus um modelo de prudência, que paga para fechar a boca dos acusadores e manter o foco na missão.

Este texto é, portanto, um convite a viver na tensão fecunda entre a liberdade dos filhos e a responsabilidade dos cidadãos. É viver Gl 5,1 — “Para a liberdade Cristo nos libertou” — mas também 1Cor 9,19 — “Livre para com todos, de todos me fiz servo, para ganhar o maior número possível”. É advertência contra a religião-negócio, contra o poder eclesial blindado, contra a fé usada como autopromoção. E é chamado para que, como Pedro, lancemos o anzol onde o Senhor manda, certos de que até o tributo exigido pelo mundo pode se tornar sinal do Reino, se for oferecido com fé, discernimento e amor. Essa é a liberdade que não foge da vida, mas a abraça — mesmo quando o caminho passa, inevitavelmente, pela cruz.



DNonato - Teólogo do Cotidiano