terça-feira, 3 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 23,1-12

A Boa Nova de Jesus Cristo segundo Mateus 23,1-12 é proclamada na terça-feira da segunda semana da Quaresma e também no sábado da vigésima semana do Tempo Comum. A pedagogia litúrgica não distribui textos ao acaso. Na Quaresma, tempo de conversão e despojamento, esta palavra ecoa como trombeta que rompe o silêncio confortável das aparências religiosas. No Tempo Comum, quando a fé corre o risco de diluir-se na rotina, ela recorda que o chamado à coerência não é sazonal, mas permanente. Trata-se de uma palavra dirigida às multidões e aos discípulos, portanto à comunidade inteira, à Igreja de todos os tempos, convocada a discernir suas práticas, seus símbolos, sua autoridade e sua fidelidade ao Evangelho.
O cenário é Jerusalém, centro religioso, político e simbólico de Israel. Jesus já entrou na cidade montado num jumento, cumprindo Zacarias 9,9. Já purificou o Templo, denunciando a transformação da casa de oração em covil de ladrões, evocando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11. Já enfrentou fariseus, saduceus e herodianos em debates sobre tributo, ressurreição e o maior mandamento. A questão da autoridade atravessa os capítulos anteriores. Perguntam com que autoridade Ele faz tais coisas. Em Mateus 23, a resposta não vem como teoria abstrata, mas como juízo profético sobre um sistema religioso que perdeu o eixo da misericórdia.

Quando Jesus afirma que os escribas e fariseus se sentaram na cátedra de Moisés, reconhece a importância da tradição. Moisés é o mediador da aliança, aquele que recebeu a Lei no Sinai conforme Êxodo 20. A cátedra simboliza a função de ensinar e interpretar a Torá. Após a destruição do Templo no ano 70 d.C., o judaísmo rabínico reorganiza-se em torno da Lei e de seus intérpretes. A comunidade mateana vive nesse contexto de tensões e disputas por legitimidade. A crítica de Jesus não é rejeição da Lei, pois Ele mesmo declara em Mateus 5,17 que não veio abolir, mas cumprir. A denúncia dirige-se à incoerência entre ensino e prática, à manipulação da norma que deveria conduzir à vida.

Fazem e não praticam. Atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros, mas eles mesmos não os movem sequer com um dedo. A imagem do fardo remete à multiplicação de prescrições que regulavam minuciosamente a vida cotidiana. Sociologicamente, toda religião cria especialistas do sagrado que mediam o acesso ao sentido e à norma. No judaísmo do Segundo Templo, fariseus e escribas formavam uma elite simbólica, respeitada por sua dedicação à Lei. O problema surge quando o mediador se absolutiza e transforma a mediação em instrumento de poder. Isaías 10,1-2 já denunciava os que promulgam leis injustas para oprimir os pobres. Jeremias 23 condenava pastores que dispersam o rebanho. Jesus se insere nessa tradição profética e a radicaliza.
Ele mesmo, em Mateus 11,28-30, oferece um jugo suave e um fardo leve. A Lei, interpretada à luz da misericórdia, torna-se caminho de liberdade, como afirma Romanos 13,10 ao resumir tudo no amor. Mas a Lei manipulada para controle social converte-se em opressão espiritual. A hermenêutica de Jesus é clara quando cita Oséias em Mateus 9,13 e 12,7: misericórdia quero e não sacrifício. O critério não é a multiplicação de normas, mas a vida concreta do povo, especialmente dos pobres.

As filactérias alargadas e as franjas compridas têm fundamento bíblico. Deuteronômio 6,8 ordena atar as palavras da Lei à mão e à fronte. Números 15,38 manda colocar franjas nas vestes como memorial dos mandamentos. O símbolo, em si, é pedagogia da memória. A religião bíblica é profundamente simbólica. Contudo, quando o sinal se hipertrofia para autopromoção, transforma-se em espetáculo. Alargar a filactéria é ampliar a vitrine da piedade. 1 Samuel 16,7 já advertia que o Senhor não vê como o homem vê; o homem olha a aparência, mas o Senhor olha o coração. A crítica de Jesus revela uma antropologia realista: o ser humano busca reconhecimento e honra. No mundo mediterrâneo antigo, a honra era capital social. A disputa pelos primeiros lugares nos banquetes e nas sinagogas expressa essa lógica competitiva.

A mesa, na cultura antiga, era espaço de distinção. Sentar-se próximo ao anfitrião significava status. Provérbios 25,6-7 aconselha prudência para não ser humilhado. Jesus retoma essa sabedoria e a transforma em paradigma do Reino. Em Mateus 20,27 e Marcos 10,45, afirma que quem quiser ser o primeiro seja servo. O termo diakonos indica serviço concreto. Em João 13, Ele lava os pés dos discípulos e redefine a autoridade como gesto de ajoelhar-se. A eclesiologia que brota daí não é piramidal, mas fraterna. Em Mateus 18, coloca uma criança no centro e declara que o maior é o que se faz pequeno. A criança, sem honra nem poder, torna-se ícone do Reino.

Quando Jesus adverte contra o uso inflado de títulos como rabi, pai e guia, não elimina a linguagem comum, mas denuncia a sacralização da autoridade. Um só é o vosso Pai, o que está nos céus. Malaquias 2,10 recorda que todos têm um só Pai e foram criados por um só Deus. A fraternidade nasce da paternidade divina. Paulo, em 2 Coríntios 4,5, insiste que não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo como Senhor, e a nós como servos por causa de Jesus. A autoridade cristã é funcional e ministerial, não ontologicamente superior.

Ao longo da história, a Igreja precisou purificar-se da tentação do clericalismo. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, reafirma o sacerdócio comum dos fiéis e compreende o ministério ordenado como serviço ao povo de Deus. O Documento de Aparecida denuncia a autorreferencialidade e convoca a uma Igreja em saída. Essa reflexão não é ruptura com a tradição, mas fidelidade ao Evangelho. Quando o ministério se converte em carreira, quando o título se torna escudo contra a crítica, quando a veste comunica distância em vez de proximidade, Mateus 23 ressoa como julgamento.

As vestes litúrgicas possuem rica simbologia. Êxodo 28 descreve as roupas sacerdotais como sinais da beleza do culto e da mediação. A tradição cristã desenvolveu paramentos que expressam continuidade histórica e teologia encarnada. O problema não está no tecido, mas no coração. Amós 6,4 denuncia os que repousam em leitos de marfim enquanto o povo sofre. Tiago 2,1-4 condena a preferência pelo rico bem vestido em detrimento do pobre. Num mundo de desigualdades gritantes, símbolos podem tornar-se ambíguos. Se comunicam poder e luxo num contexto de fome e exclusão, exigem discernimento pastoral e profético.

A teologia da prosperidade, que associa bênção divina a riqueza material, colide com o conjunto da revelação bíblica. Jó é justo e sofre. Jeremias é lançado na cisterna. João Batista é decapitado. Paulo enumera tribulações em 2 Coríntios 11,23-28. Em Atos 14,22, afirma-se que é preciso passar por tribulações para entrar no Reino. Jesus declara em Mateus 6,24 que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. A parábola do rico insensato em Lucas 12,15-21 expõe a ilusão de acumular sem partilhar. Reduzir a fé a técnica de enriquecimento é mutilar o Evangelho e ignorar a centralidade da cruz.
A espiritualidade individualista também contradiz a Escritura. Desde Gênesis 12, a eleição de Abraão tem horizonte universal. Em Êxodo 19,6, Israel é chamado a ser reino de sacerdotes. A Igreja é corpo, como ensina 1 Coríntios 12. Em Atos 2,42-47, a comunidade partilha bens e ninguém passa necessidade. A fé cristã não é projeto de autopromoção espiritual, mas inserção num povo. Hebreus 10,24-25 exorta a perseverar na assembleia. A salvação nos insere numa comunhão concreta que se traduz em justiça.

Muitos clerigos fazem da   ostentação  um  mecanismo de compensação. Quem necessita afirmar-se por títulos e símbolos talvez não tenha interiorizado a própria identidade filial. A  Epístola aos Romanos 8,16 é luminosa e desconcertante: “O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus.” A identidade cristã nasce da filiação, não do cargo. Quando a vocação se converte em vitrine e o ministério em palco, algo da experiência filial não foi amadurecido. A necessidade compulsiva de títulos, honrarias e símbolos pode revelar insegurança espiritual. Quem sabe que é filho não precisa provar que é autoridade; serve.  O ser humano busca reconhecimento, quando a identidade interna é frágil, cresce a compensação externa. Algumas instituições tendem a criar linguagens e códigos para preservar hierarquias. Nada disso é estranho à Igreja histórica, que ao longo dos séculos absorveu traços do Império, do feudalismo e da cultura de corte. O problema não está no ministério ordenado, mas na sua distorção clericalista, quando o serviço vira status.

Essa afirmação de que muitos clérigos transformam a ostentação em mecanismo de compensação toca numa ferida antiga da história religiosa. Quando a identidade não está enraizada na consciência de ser filho, ela busca amparo em títulos, roupas, tratamentos honoríficos e distâncias simbólicas. Em Epístola aos Romanos 8,16 lemos que “o próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus”. A filiação precede qualquer função. Antes de sermos padres, bispos ou leigos, somos filhos. Quando essa verdade não é interiorizada, o cargo vira armadura.

Jesus enfrentou essa tentação em seu tempo. Em Evangelho segundo Mateus 23,8-10 Ele adverte: “Não vos façais chamar rabi… porque um só é o vosso Mestre… todos vós sois irmãos”. No contexto do judaísmo do século I, os títulos carregavam honra pública e distinção social. A crítica de Jesus não é contra a organização comunitária, mas contra o uso da religião como palco de autoafirmação. A antropologia social mostra que, quando alguém depende excessivamente do reconhecimento externo, revela fragilidade interna. A autoridade que precisa ser constantemente lembrada é autoridade insegura.

 Aqui pedimos licença  para iluminar a nossa conversa  com quatro  fatos dos muitos que vivenciamos:
  1. Em um espaço público, um padre foi chamado pelo nome por um jovem. A resposta foi dura: “não me chame pelo nome, eu sou padre e não sou teu amigo; amigo de padre é padre”. Dias depois, o mesmo sacerdote pediu ao jovem que falasse com o bispo por ele e o apresentou como amigo. A incoerência revela algo mais profundo do que mera contradição: o título funcionou como fronteira quando convinha e como ponte quando era útil. A autoridade virou instrumento de conveniência.
  2. Em outra ocasião, um padre, percebendo que seus argumentos não se sustentavam numa conversa informal, interrompeu o debate exigindo que fosse tratado pelo título e lembrando quanto havia estudado. Quando o conteúdo fraqueja, apela-se ao crachá. A exegese do Evangelho mostra que Jesus confrontou exatamente essa lógica em Evangelho de Mateus 23, onde denuncia os que gostam dos primeiros lugares e dos títulos honoríficos. O conhecimento teológico é dom para edificação do povo, não escudo para vencer discussões.
  3. Em outro episódio, um bispo repreendeu uma jovem por chamar um padre pelo nome e advertiu o próprio sacerdote diante dela, reforçando a “autoridade” que ele representava. Historicamente, o episcopado sempre teve a missão de guardar a comunhão e a doutrina. Contudo, quando a ênfase recai mais na formalidade do tratamento do que na formação do coração, corre-se o risco de absolutizar a forma e esquecer o Evangelho. A autoridade apostólica nasce do testemunho e do cuidado, não do temor reverencial imposto.
  4.   Por fim, em um encontro diocesano, um jovem dirigiu-se ao bispo utilizando o tratamento você. Um padre elevou a voz exigindo que se usasse excelência ou senhor. O jovem manteve o tratamento simples. Sociologicamente, a linguagem é instrumento de poder. Quem controla o modo como é nomeado controla a distância social. Mas a autoridade evangélica não precisa de blindagem semântica. Ela se sustenta na verdade e na justiça.
O Evangelho não destrói a ordem, mas subverte a lógica do prestígio. Jesus lava os pés. Ele redefine grandeza como serviço. Quando a Igreja esquece isso, torna-se caricatura de si mesma. Quando recorda, torna-se sinal do Reino. A verdadeira autoridade cristã não exige ser chamada de excelência. Ela prefere ser reconhecida pela excelência do amor. O Novo Testamento emprega a linguagem de irmãos e irmãs com frequência surpreendente. Paulo se apresenta como servo. Pedro exorta como presbítero entre presbíteros. A hermenêutica da cruz desmonta a lógica da ostentação: o Filho se esvazia. 

O problema não é o respeito, que é virtude cristã, mas a sacralização do status. Quando a Igreja adota lógicas de corte, aproxima-se mais de estruturas imperiais do que do Reino anunciado por Jesus, a tentação de confundir ministério com privilégio cresceu quando a fé se aliou ao poder político. O clericalismo torna-se terreno fértil para abusos e para alianças com projetos autoritários, inclusive aqueles que instrumentalizam a religião para sustentar discursos de exclusão e intolerância e quem quem precisa reiterar constantemente sua posição talvez não tenha pacificado sua identidade. A espiritualidade paulina aponta outro caminho. Se o Espírito confirma nossa filiação, não precisamos de títulos para existir. A segurança filial gera serviço humilde. A insegurança gera ostentação.

A geografia da Palestina do século I era marcada por estruturas de poder religiosas rígidas; é nesse cenário que Jesus lava pés. O gesto não foi teatral, foi programático. Romanos 8,16 devolve o centro: somos filhos. O padre continua padre, o bispo continua bispo, mas antes de tudo são filhos e irmãos. A verdadeira autoridade cristã não precisa elevar a voz nem exigir reverência; ela se impõe pela coerência, pela escuta, pela capacidade de servir sem humilhar. Quem interiorizou a filiação não transforma o altar em trono nem o título em armadura. Vive com liberdade, porque sabe que sua dignidade não vem do aplauso, mas do Espírito que testemunha no íntimo.

 A humildade cristã não é desprezo de si, mas verdade diante de Deus. É libertação da necessidade de aplauso. A sociedade contemporânea, marcada pela lógica das redes e da visibilidade permanente, intensifica a tentação da performance religiosa. A fé pode tornar-se espetáculo. O risco não é apenas estético, mas ético. Quando a imagem substitui o compromisso com os pobres, o Evangelho é traído.

Mateus 23 também interpela alianças entre religião e projetos políticos excludentes. O Deus do Êxodo ouviu o clamor dos oprimidos. Em Lucas 4,18-19, Jesus proclama libertação aos cativos e boa nova aos pobres. Quando líderes religiosos legitimam discursos de ódio, silenciam diante da injustiça ou defendem políticas que ampliam desigualdades para manter privilégios, repetem o gesto de atar fardos pesados. Miqueias 3 denuncia chefes que julgam por suborno e sacerdotes que ensinam por dinheiro. A instrumentalização da fé para sustentar opressões é forma contemporânea de farisaísmo.

Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado. Este princípio escatológico atravessa a história da salvação. Ana canta em 1 Samuel 2 que o Senhor abate o poderoso e exalta o humilde. Maria retoma esse cântico no Magnificat. Filipenses 2 apresenta a kenosis de Cristo como caminho de exaltação. A ressurreição é resposta do Pai à obediência do Filho que se esvaziou. A Igreja só será fiel se trilhar o mesmo caminho.

A Quaresma, ao proclamar este texto, convida à revisão de vida pessoal e estrutural. Não basta indignar-se com a incoerência alheia. É preciso examinar motivações, prioridades orçamentárias, estilos pastorais. Medellín, Puebla e Aparecida reafirmaram a opção preferencial pelos pobres como exigência evangélica. Mateus 25 coloca o cuidado com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o doente e o preso como critério do juízo final. Esse texto relativiza qualquer título e qualquer honra.

A palavra de Mateus 23,1-12 permanece como lâmina que separa aparência e verdade. Ela não visa destruir a Igreja, mas purificá-la. Como nas cartas às comunidades do Apocalipse, a correção é expressão de amor. O Evangelho exige coragem profética para denunciar a religião vazia que acumula normas e negligencia o essencial. Exige também ternura para reconstruir a comunhão ferida. Num mundo sedento de autenticidade, o testemunho humilde é mais eloquente que qualquer paramento ou cargo. A veste mais bela é a caridade, como afirma Colossenses 3,14. A autoridade cristã se ajoelha, como em João 13. A grandeza está em servir. Se a Igreja acolher esta palavra com coragem, será sinal do Reino que cresce não pelo brilho das vestes, mas pela luz discreta dos que partilham o pão e defendem a dignidade dos pequenos. Então o mundo verá não a exaltação de líderes, mas a transparência do Deus que se fez servo e nos chama irmãos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano

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