Uma releitura possível de Mateus 23,1-12
¹ Jesus falou naquele tempo aos discípulos e à multidão e continua falando conosco hoje, aqui, em nossas comunidade, neste Brasil ferido, mas ainda esperançoso.
² Os Bispos, padres, pastores, diáconos e tantas outras lideranças exercem autoridade religiosa. A autoridade é necessária. Ensinar é missão. Orientar é serviço. Mas nenhuma autoridade está acima do Evangelho.
³ Por isso, escutai aquilo que anunciam quando proclamam a Palavra. Mas não reproduzais práticas daqueles que negam a justiça, a misericórdia e a verdade. Não imiteis quando o discurso é correto, mas a vida prática é incoerente. O Evangelho não é teoria; é caminho vivido.
⁴ Não aceiteis que coloquem sobre vós fardos que eles mesmos não estão dispostos a tocar. Deus não instituiu ninguém para esmagar consciências. Quando a religião se torna peso insuportável, ela já se afastou do coração do Pai.
⁵ Quando a fé vira vitrine, quando o altar vira palco, quando a Bíblia é usada para autopromoção, lembrai-vos: Deus não precisa de espetáculo. A espiritualidade verdadeira não busca aplauso; busca conversão.
⁶ O Reino não se constrói com títulos, mas com toalha e bacia; não com lugares de honra, mas com disposição para servir. Quem só procura o primeiro lugar talvez ainda não tenha entendido o lugar escolhido por Cristo..
⁷ Quando alguém se apega mais ao tratamento honorífico do que ao cuidado das pessoas, quando gosta mais de ser chamado de “mestre” do que de ser irmão, algo essencial do Evangelho se perdeu.
⁸ Entre vós não seja assim. Um só é o Mestre. E todos sois irmãos. No Reino de Deus não há casta espiritual superior. Há comunidade de iguais diante do Pai.
⁹ Não entregueis vossa consciência a ninguém. Não transformeis líderes em absolutos. Um só é o Pai que está nos céus. Toda autoridade humana é limitada e chamada à humildade.
¹⁰ Não permitais que ideologias, interesses de poder ou discursos inflamados ocupem o lugar de Cristo. Um só é o Guia: Aquele que serviu até o fim.
¹¹ O maior entre vós não será o mais famoso, nem o mais seguido, nem o mais influente. O maior será aquele que serve, que se inclina, que toca as feridas do povo, que escolhe a coerência mesmo quando ninguém está olhando.
¹² Quem se exalta usando o nome de Deus para subir cairá sob o peso da própria soberba. Mas quem se humilha, quem prefere servir a dominar, quem vive o que anuncia, esse será levantado por Deus.
Hoje o Evangelho não nos pede admiração.
Pede conversão, não pede títulos.
Pede coerência, não pede palco.
Pede serviço, Porque o mundo já está cansado de religião exibida. Mas ainda tem sede de discípulos que lavem os pés da história.
A Boa Nova de Jesus Cristo segundo Mateus 23,1-12 é proclamada na terça-feira da segunda semana da Quaresma e também no sábado da vigésima semana do Tempo Comum. A pedagogia litúrgica não distribui textos ao acaso. Na Quaresma, tempo de conversão e despojamento, esta palavra ecoa como trombeta que rompe o silêncio confortável das aparências religiosas. No Tempo Comum, quando a fé corre o risco de diluir-se na rotina, ela recorda que o chamado à coerência não é sazonal, mas permanente. Trata-se de uma palavra dirigida às multidões e aos discípulos, portanto à comunidade inteira, à Igreja de todos os tempos, convocada a discernir suas práticas, seus símbolos, sua autoridade e sua fidelidade ao Evangelho.
O cenário é Jerusalém, centro religioso, político e simbólico de Israel. Jesus já entrou na cidade montado num jumento, cumprindo Zacarias 9,9. Já purificou o Templo, denunciando a transformação da casa de oração em covil de ladrões, evocando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11. Já enfrentou fariseus, saduceus e herodianos em debates sobre tributo, ressurreição e o maior mandamento. A questão da autoridade atravessa os capítulos anteriores. Perguntam com que autoridade Ele faz tais coisas. Em Mateus 23, a resposta não vem como teoria abstrata, mas como juízo profético sobre um sistema religioso que perdeu o eixo da misericórdia.
Quando Jesus afirma que os escribas e fariseus se sentaram na cátedra de Moisés, reconhece a importância da tradição. Moisés é o mediador da aliança, aquele que recebeu a Lei no Sinai conforme Êxodo 20. A cátedra simboliza a função de ensinar e interpretar a Torá. Após a destruição do Templo no ano 70 d.C., o judaísmo rabínico reorganiza-se em torno da Lei e de seus intérpretes. A comunidade mateana vive nesse contexto de tensões e disputas por legitimidade. A crítica de Jesus não é rejeição da Lei, pois Ele mesmo declara em Mateus 5,17 que não veio abolir, mas cumprir. A denúncia dirige-se à incoerência entre ensino e prática, à manipulação da norma que deveria conduzir à vida.
Fazem e não praticam. Atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros, mas eles mesmos não os movem sequer com um dedo. A imagem do fardo remete à multiplicação de prescrições que regulavam minuciosamente a vida cotidiana. Sociologicamente, toda religião cria especialistas do sagrado que mediam o acesso ao sentido e à norma. No judaísmo do Segundo Templo, fariseus e escribas formavam uma elite simbólica, respeitada por sua dedicação à Lei. O problema surge quando o mediador se absolutiza e transforma a mediação em instrumento de poder. Isaías 10,1-2 já denunciava os que promulgam leis injustas para oprimir os pobres. Jeremias 23 condenava pastores que dispersam o rebanho. Jesus se insere nessa tradição profética e a radicaliza.
Ele mesmo, em Mateus 11,28-30, oferece um jugo suave e um fardo leve. A Lei, interpretada à luz da misericórdia, torna-se caminho de liberdade, como afirma Romanos 13,10 ao resumir tudo no amor. Mas a Lei manipulada para controle social converte-se em opressão espiritual. A hermenêutica de Jesus é clara quando cita Oséias em Mateus 9,13 e 12,7: misericórdia quero e não sacrifício. O critério não é a multiplicação de normas, mas a vida concreta do povo, especialmente dos pobres.
As filactérias alargadas e as franjas compridas têm fundamento bíblico. Deuteronômio 6,8 ordena atar as palavras da Lei à mão e à fronte. Números 15,38 manda colocar franjas nas vestes como memorial dos mandamentos. O símbolo, em si, é pedagogia da memória. A religião bíblica é profundamente simbólica. Contudo, quando o sinal se hipertrofia para autopromoção, transforma-se em espetáculo. Alargar a filactéria é ampliar a vitrine da piedade. 1 Samuel 16,7 já advertia que o Senhor não vê como o homem vê; o homem olha a aparência, mas o Senhor olha o coração. A crítica de Jesus revela uma antropologia realista: o ser humano busca reconhecimento e honra. No mundo mediterrâneo antigo, a honra era capital social. A disputa pelos primeiros lugares nos banquetes e nas sinagogas expressa essa lógica competitiva.
A mesa, na cultura antiga, era espaço de distinção. Sentar-se próximo ao anfitrião significava status. Provérbios 25,6-7 aconselha prudência para não ser humilhado. Jesus retoma essa sabedoria e a transforma em paradigma do Reino. Em Mateus 20,27 e Marcos 10,45, afirma que quem quiser ser o primeiro seja servo. O termo diakonos indica serviço concreto. Em João 13, Ele lava os pés dos discípulos e redefine a autoridade como gesto de ajoelhar-se. A eclesiologia que brota daí não é piramidal, mas fraterna. Em Mateus 18, coloca uma criança no centro e declara que o maior é o que se faz pequeno. A criança, sem honra nem poder, torna-se ícone do Reino.
Quando Jesus adverte contra o uso inflado de títulos como rabi, pai e guia, não elimina a linguagem comum, mas denuncia a sacralização da autoridade. Um só é o vosso Pai, o que está nos céus. Malaquias 2,10 recorda que todos têm um só Pai e foram criados por um só Deus. A fraternidade nasce da paternidade divina. Paulo, em 2 Coríntios 4,5, insiste que não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo como Senhor, e a nós como servos por causa de Jesus. A autoridade cristã é funcional e ministerial, não ontologicamente superior.
Ao longo da história, a Igreja precisou purificar-se da tentação do clericalismo. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, reafirma o sacerdócio comum dos fiéis e compreende o ministério ordenado como serviço ao povo de Deus. O Documento de Aparecida denuncia a autorreferencialidade e convoca a uma Igreja em saída. Essa reflexão não é ruptura com a tradição, mas fidelidade ao Evangelho. Quando o ministério se converte em carreira, quando o título se torna escudo contra a crítica, quando a veste comunica distância em vez de proximidade, Mateus 23 ressoa como julgamento.
As vestes litúrgicas possuem rica simbologia. Êxodo 28 descreve as roupas sacerdotais como sinais da beleza do culto e da mediação. A tradição cristã desenvolveu paramentos que expressam continuidade histórica e teologia encarnada. O problema não está no tecido, mas no coração. Amós 6,4 denuncia os que repousam em leitos de marfim enquanto o povo sofre. Tiago 2,1-4 condena a preferência pelo rico bem vestido em detrimento do pobre. Num mundo de desigualdades gritantes, símbolos podem tornar-se ambíguos. Se comunicam poder e luxo num contexto de fome e exclusão, exigem discernimento pastoral e profético.
A teologia da prosperidade, que associa bênção divina a riqueza material, colide com o conjunto da revelação bíblica. Jó é justo e sofre. Jeremias é lançado na cisterna. João Batista é decapitado. Paulo enumera tribulações em 2 Coríntios 11,23-28. Em Atos 14,22, afirma-se que é preciso passar por tribulações para entrar no Reino. Jesus declara em Mateus 6,24 que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. A parábola do rico insensato em Lucas 12,15-21 expõe a ilusão de acumular sem partilhar. Reduzir a fé a técnica de enriquecimento é mutilar o Evangelho e ignorar a centralidade da cruz.
A espiritualidade individualista também contradiz a Escritura. Desde Gênesis 12, a eleição de Abraão tem horizonte universal. Em Êxodo 19,6, Israel é chamado a ser reino de sacerdotes. A Igreja é corpo, como ensina 1 Coríntios 12. Em Atos 2,42-47, a comunidade partilha bens e ninguém passa necessidade. A fé cristã não é projeto de autopromoção espiritual, mas inserção num povo. Hebreus 10,24-25 exorta a perseverar na assembleia. A salvação nos insere numa comunhão concreta que se traduz em justiça.
Muitos clerigos fazem da ostentação um mecanismo de compensação. Quem necessita afirmar-se por títulos e símbolos talvez não tenha interiorizado a própria identidade filial. A Epístola aos Romanos 8,16 é luminosa e desconcertante: “O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus.” A identidade cristã nasce da filiação, não do cargo. Quando a vocação se converte em vitrine e o ministério em palco, algo da experiência filial não foi amadurecido. A necessidade compulsiva de títulos, honrarias e símbolos pode revelar insegurança espiritual. Quem sabe que é filho não precisa provar que é autoridade; serve. O ser humano busca reconhecimento, quando a identidade interna é frágil, cresce a compensação externa. Algumas instituições tendem a criar linguagens e códigos para preservar hierarquias. Nada disso é estranho à Igreja histórica, que ao longo dos séculos absorveu traços do Império, do feudalismo e da cultura de corte. O problema não está no ministério ordenado, mas na sua distorção clericalista, quando o serviço vira status.
Essa afirmação de que muitos clérigos transformam a ostentação em mecanismo de compensação toca numa ferida antiga da história religiosa. Quando a identidade não está enraizada na consciência de ser filho, ela busca amparo em títulos, roupas, tratamentos honoríficos e distâncias simbólicas. Em Epístola aos Romanos 8,16 lemos que “o próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus”. A filiação precede qualquer função. Antes de sermos padres, bispos ou leigos, somos filhos. Quando essa verdade não é interiorizada, o cargo vira armadura.
Jesus enfrentou essa tentação em seu tempo. Em Evangelho segundo Mateus 23,8-10 Ele adverte: “Não vos façais chamar rabi… porque um só é o vosso Mestre… todos vós sois irmãos”. No contexto do judaísmo do século I, os títulos carregavam honra pública e distinção social. A crítica de Jesus não é contra a organização comunitária, mas contra o uso da religião como palco de autoafirmação. A antropologia social mostra que, quando alguém depende excessivamente do reconhecimento externo, revela fragilidade interna. A autoridade que precisa ser constantemente lembrada é autoridade insegura.
Aqui pedimos licença para iluminar a nossa conversa com quatro fatos dos muitos que vivenciamos:
- Em um espaço público, um padre foi chamado pelo nome por um jovem. A resposta foi dura: “não me chame pelo nome, eu sou padre e não sou teu amigo; amigo de padre é padre”. Dias depois, o mesmo sacerdote pediu ao jovem que falasse com o bispo por ele e o apresentou como amigo. A incoerência revela algo mais profundo do que mera contradição: o título funcionou como fronteira quando convinha e como ponte quando era útil. A autoridade virou instrumento de conveniência.
- Em outra ocasião, um padre, percebendo que seus argumentos não se sustentavam numa conversa informal, interrompeu o debate exigindo que fosse tratado pelo título e lembrando quanto havia estudado. Quando o conteúdo fraqueja, apela-se ao crachá. A exegese do Evangelho mostra que Jesus confrontou exatamente essa lógica em Evangelho de Mateus 23, onde denuncia os que gostam dos primeiros lugares e dos títulos honoríficos. O conhecimento teológico é dom para edificação do povo, não escudo para vencer discussões.
- Em outro episódio, um bispo repreendeu uma jovem por chamar um padre pelo nome e advertiu o próprio sacerdote diante dela, reforçando a “autoridade” que ele representava. Historicamente, o episcopado sempre teve a missão de guardar a comunhão e a doutrina. Contudo, quando a ênfase recai mais na formalidade do tratamento do que na formação do coração, corre-se o risco de absolutizar a forma e esquecer o Evangelho. A autoridade apostólica nasce do testemunho e do cuidado, não do temor reverencial imposto.
- Por fim, em um encontro diocesano, um jovem dirigiu-se ao bispo utilizando o tratamento você. Um padre elevou a voz exigindo que se usasse excelência ou senhor. O jovem manteve o tratamento simples. Sociologicamente, a linguagem é instrumento de poder. Quem controla o modo como é nomeado controla a distância social. Mas a autoridade evangélica não precisa de blindagem semântica. Ela se sustenta na verdade e na justiça.
O Evangelho não destrói a ordem, mas subverte a lógica do prestígio. Jesus lava os pés. Ele redefine grandeza como serviço. Quando a Igreja esquece isso, torna-se caricatura de si mesma. Quando recorda, torna-se sinal do Reino. A verdadeira autoridade cristã não exige ser chamada de excelência. Ela prefere ser reconhecida pela excelência do amor. O Novo Testamento emprega a linguagem de irmãos e irmãs com frequência surpreendente. Paulo se apresenta como servo. Pedro exorta como presbítero entre presbíteros. A hermenêutica da cruz desmonta a lógica da ostentação: o Filho se esvazia.
O problema não é o respeito, que é virtude cristã, mas a sacralização do status. Quando a Igreja adota lógicas de corte, aproxima-se mais de estruturas imperiais do que do Reino anunciado por Jesus, a tentação de confundir ministério com privilégio cresceu quando a fé se aliou ao poder político. O clericalismo torna-se terreno fértil para abusos e para alianças com projetos autoritários, inclusive aqueles que instrumentalizam a religião para sustentar discursos de exclusão e intolerância e quem quem precisa reiterar constantemente sua posição talvez não tenha pacificado sua identidade. A espiritualidade paulina aponta outro caminho. Se o Espírito confirma nossa filiação, não precisamos de títulos para existir. A segurança filial gera serviço humilde. A insegurança gera ostentação.
A geografia da Palestina do século I era marcada por estruturas de poder religiosas rígidas; é nesse cenário que Jesus lava pés. O gesto não foi teatral, foi programático. Romanos 8,16 devolve o centro: somos filhos. O padre continua padre, o bispo continua bispo, mas antes de tudo são filhos e irmãos. A verdadeira autoridade cristã não precisa elevar a voz nem exigir reverência; ela se impõe pela coerência, pela escuta, pela capacidade de servir sem humilhar. Quem interiorizou a filiação não transforma o altar em trono nem o título em armadura. Vive com liberdade, porque sabe que sua dignidade não vem do aplauso, mas do Espírito que testemunha no íntimo.
A humildade cristã não é desprezo de si, mas verdade diante de Deus. É libertação da necessidade de aplauso. A sociedade contemporânea, marcada pela lógica das redes e da visibilidade permanente, intensifica a tentação da performance religiosa. A fé pode tornar-se espetáculo. O risco não é apenas estético, mas ético. Quando a imagem substitui o compromisso com os pobres, o Evangelho é traído.
Mateus 23 também interpela alianças entre religião e projetos políticos excludentes. O Deus do Êxodo ouviu o clamor dos oprimidos. Em Lucas 4,18-19, Jesus proclama libertação aos cativos e boa nova aos pobres. Quando líderes religiosos legitimam discursos de ódio, silenciam diante da injustiça ou defendem políticas que ampliam desigualdades para manter privilégios, repetem o gesto de atar fardos pesados. Miqueias 3 denuncia chefes que julgam por suborno e sacerdotes que ensinam por dinheiro. A instrumentalização da fé para sustentar opressões é forma contemporânea de farisaísmo.
Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado. Este princípio escatológico atravessa a história da salvação. Ana canta em 1 Samuel 2 que o Senhor abate o poderoso e exalta o humilde. Maria retoma esse cântico no Magnificat. Filipenses 2 apresenta a kenosis de Cristo como caminho de exaltação. A ressurreição é resposta do Pai à obediência do Filho que se esvaziou. A Igreja só será fiel se trilhar o mesmo caminho.
A Quaresma, ao proclamar este texto, convida à revisão de vida pessoal e estrutural. Não basta indignar-se com a incoerência alheia. É preciso examinar motivações, prioridades orçamentárias, estilos pastorais. Medellín, Puebla e Aparecida reafirmaram a opção preferencial pelos pobres como exigência evangélica. Mateus 25 coloca o cuidado com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o doente e o preso como critério do juízo final. Esse texto relativiza qualquer título e qualquer honra.
A palavra de Mateus 23,1-12 permanece como lâmina que separa aparência e verdade. Ela não visa destruir a Igreja, mas purificá-la. Como nas cartas às comunidades do Apocalipse, a correção é expressão de amor. O Evangelho exige coragem profética para denunciar a religião vazia que acumula normas e negligencia o essencial. Exige também ternura para reconstruir a comunhão ferida. Num mundo sedento de autenticidade, o testemunho humilde é mais eloquente que qualquer paramento ou cargo. A veste mais bela é a caridade, como afirma Colossenses 3,14. A autoridade cristã se ajoelha, como em João 13. A grandeza está em servir. Se a Igreja acolher esta palavra com coragem, será sinal do Reino que cresce não pelo brilho das vestes, mas pela luz discreta dos que partilham o pão e defendem a dignidade dos pequenos. Então o mundo verá não a exaltação de líderes, mas a transparência do Deus que se fez servo e nos chama irmãos.
DNonato - Teólogo do Cotidiano

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