O texto começa com o terceiro anúncio da paixão. Jesus toma os Doze à parte. Há intimidade e gravidade. A repetição do anúncio mostra a pedagogia paciente do Mestre diante da dureza de compreensão dos discípulos. Ele descreve a cadeia dos acontecimentos com precisão histórica. Será entregue aos chefes dos sacerdotes e escribas, condenado à morte, entregue aos pagãos, escarnecido, flagelado e crucificado. Aqui aparece a colaboração entre elite religiosa local e poder imperial romano. Historicamente, a crucifixão era pena reservada a insurgentes e escravos. Era espetáculo público de humilhação. O Império governava pelo medo. A cruz era propaganda política. Ao anunciar sua morte nesses termos, Jesus revela que sua missão confronta estruturas. Ele não morre de forma abstrata, mas como vítima de um sistema que mistura religião e poder.
O contexto anterior ilumina ainda mais. Em Mateus 19, o jovem rico se afasta triste porque tinha muitos bens. A promessa de vida eterna se choca com o apego à riqueza. Em seguida, Pedro pergunta o que receberão aqueles que deixaram tudo. A lógica da recompensa ainda está viva. Então vem a parábola dos trabalhadores da vinha, onde o dono paga igualmente aos que trabalharam uma hora e aos que trabalharam o dia inteiro. Ali já se questiona a mentalidade meritocrática. A graça rompe a contabilidade humana. Mateus 20,17-28 é continuação dessa ruptura. O Reino não funciona como mercado nem como carreira eclesiástica.
Logo após o anúncio da paixão, surge o pedido da mãe dos filhos de Zebedeu. Curiosamente, o Evangelho de Marcos atribui o pedido diretamente a Tiago e João, mas Mateus introduz a figura materna. Isso pode refletir a importância da família na cultura judaica e a prática de intercessão familiar nas redes de patronagem mediterrâneas. Antropologicamente, honra e status eram valores centrais. Sentar à direita e à esquerda significava proximidade com o soberano, participação na autoridade e visibilidade pública. A mãe pede segurança para os filhos num cenário incerto, o medo da perda e da invisibilidade gera ambição disfarçada de fé.
- Tiago e João eram pescadores da Galileia. Chamados por Jesus à beira do lago, deixaram redes e pai. A tradição os chama de filhos do trovão, conforme o relato de Evangelho de Marcos 3,17. Essa alcunha sugere temperamento impetuoso, talvez explosivo. Em Evangelho de Lucas 9,54, querem fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia samaritana que não acolheu Jesus. São zelosos, intensos, apaixonados, mas ainda marcados por lógica de vingança e exclusão.
Jesus responde com uma pergunta decisiva. Podeis beber o cálice que eu vou beber. O cálice, na tradição bíblica, é símbolo de destino, juízo e também de bênção. Em Livro dos Salmos 23, o cálice transborda como sinal de cuidado. Em Livro de Isaías 51, é cálice de ira. Em Evangelho de Mateus 26,39, torna-se cálice da paixão que Jesus pede, se possível, que seja afastado. O símbolo carrega ambivalência. Beber o cálice é aceitar a vontade do Pai mesmo quando ela passa pelo sofrimento. Não é masoquismo religioso, mas fidelidade à missão. Quando os discípulos respondem que podem, revelam disposição, mas ainda não compreendem profundidade. A espiritualidade que responde rápido demais pode esconder imaturidade.
Jesus afirma que de fato beberão seu cálice. A tradição confirma. Tiago será martirizado. João enfrentará perseguições e exílio. O discipulado não é trilha de privilégios, mas caminho de testemunho. Contudo, sentar à direita e à esquerda não lhe compete conceder. O Reino não é moeda de troca. Aqui se desmascara a teologia que transforma fé em contrato. A chamada teologia da prosperidade promete sucesso material como sinal de favor divino. Mateus 20 desmonta essa narrativa. O Filho do Homem caminha para a cruz, não para o trono imperial. A lógica do Reino é paradoxal. Em Carta aos Coríntios I 1,18, Paulo dirá que a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas força de Deus para os que creem.
A indignação dos outros dez mostra que a ambição é contagiosa. Não se indignam por causa da cruz anunciada, mas pelo pedido de privilégios. A comunidade entra em disputa interna. Isso é profundamente humano. Em grupos religiosos contemporâneos, não é raro ver conflitos por cargos, visibilidade e controle. O texto revela que desde o início a Igreja carrega essa tentação e aqui destacamos:
- Pedro, por exemplo, impulsivo e líder natural, já havia sido chamado de pedra e também de satanás no mesmo capítulo 16 de Mateus. Ele representa a tensão entre inspiração e resistência à cruz.
- Tomé, mais tarde, lutará com a dúvida.
- Mateus, o publicano, traz a memória de colaboração com Roma e a necessidade de conversão profunda.
- Simão, o zelota, possivelmente ligado a movimentos nacionalistas, precisa aprender que o Reino não se impõe pela espada.
Jesus então reúne todos e apresenta o contraste. Sabeis que os chefes das nações as dominam. O verbo dominar aqui evoca exercício opressivo de autoridade. O Império Romano mantinha ordem por meio de tributos pesados, exploração econômica e repressão militar. A Pax Romana era paz de cemitério para os rebeldes. Ao afirmar que entre vós não deverá ser assim, Jesus funda uma ética comunitária alternativa. A autoridade cristã nasce do serviço. Quem quiser ser grande seja servo. Quem quiser ser primeiro seja escravo. No mundo antigo, escravo era propriedade. Não tinha direitos. A imagem é radical. O maior no Reino assume a posição mais vulnerável.
Esse ensinamento dialoga profundamente com o Evangelho proclamado no dia anterior, Evangelho de Mateus 23,1-12. Ali Jesus critica escribas e fariseus que se assentam na cátedra de Moisés, atam fardos pesados sobre os outros e buscam primeiros lugares nos banquetes e saudações nas praças. Gostam de ser chamados de mestre, pai, guia. O problema não é o título em si, mas a incoerência entre palavra e prática e a busca de honra. Mateus 23 denuncia a religião exibicionista. Mateus 20 propõe a religião do serviço oculto. Um texto revela a patologia do poder religioso. O outro oferece terapia evangélica. Ontem Jesus desmascarou a hipocrisia que transforma fé em espetáculo. Hoje ele convida os discípulos a uma conversão estrutural do exercício de liderança.
A hermenêutica da cruz atravessa ambos os textos. Em Mateus 23, Jesus afirma que quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado. Em Mateus 20, ele encarna essa verdade dizendo que o Filho do Homem veio para servir e dar a vida em resgate por muitos. A expressão resgate remete à libertação de escravos e prisioneiros. No Antigo Testamento, Deus é aquele que resgata Israel do Egito, como narrado no Livro do Êxodo 6. O novo êxodo acontece na cruz. A libertação agora não é apenas política, mas integral. Liberta da idolatria do poder, do pecado que gera morte, da lógica de violência.
O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, recorda que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Isso impede espiritualidade alienada. Não é possível proclamar Mateus 20 e fechar os olhos para desigualdades gritantes, para lideranças religiosas que se aliam a projetos autoritários, para discursos que usam o nome de Deus para legitimar exclusão. O clericalismo, denunciado reiteradamente pelo magistério contemporâneo, é forma moderna da busca por primeiros lugares. Ele cria castas sagradas, distancia o povo e transforma ministério em privilégio.
A proposta de Jesus desafia o narcisismo religioso. O desejo de reconhecimento é humano. Contudo, quando se torna centro da identidade, gera ansiedade, competição e violência simbólica. O serviço, ao contrário, liberta da tirania da imagem. Em João 13, ao lavar os pés, Jesus assume tarefa de escravo doméstico. A água, a bacia e a toalha tornam-se sacramentos do Reino. Não há glória ali segundo critérios mundanos. Mas há revelação plena de Deus.
As comunidades que vivem Mateus 20 tornam-se sinal contracultural. Em vez de reproduzir hierarquias rígidas, promovem corresponsabilidade. Em vez de acumular riquezas em nome de promessas de prosperidade, partilham bens como em Atos dos Apóstolos 2,44-45. A crítica à teologia da prosperidade não é ataque a pessoas, mas denúncia de distorção do Evangelho. Quando a cruz é substituída por promessa de ascensão social garantida, perde-se o núcleo da fé cristã. O próprio Jesus afirma em Evangelho de Mateus 16,24 que quem quiser segui-lo deve tomar a própria cruz.
Mateus 20,17-28 termina antes da cura dos cegos em Jericó. A sequência narrativa sugere metáfora espiritual. É preciso enxergar corretamente o Reino. A cegueira maior é interpretar serviço como fraqueza e dominação como força. A ressurreição, anunciada ao final do anúncio da paixão, não é prêmio para ambiciosos, mas confirmação de que o amor que se entrega é mais forte que a morte.
Hoje, em contexto marcado por polarizações, culto à personalidade e instrumentalização da fé para projetos de poder, a Palavra ressoa como juízo e esperança. Juízo porque denuncia toda forma de liderança que busca primeiros lugares e títulos honoríficos enquanto ignora o sofrimento do povo. Esperança porque mostra que existe outra maneira de organizar a vida comunitária. O Filho do Homem continua subindo a Jerusalém em cada periferia esquecida, em cada comunidade que decide servir sem aplauso, em cada cristão que escolhe coerência em vez de prestígio.
O texto começa com um anúncio de morte e termina com promessa implícita de vida que brota do serviço. O princípio é a revelação da cruz. O meio é a purificação das ambições. O fim é a redefinição de grandeza. A Quaresma coloca essa Palavra diante da Igreja como espelho. Entre a cátedra orgulhosa de Mateus 23 e a bacia humilde do serviço de Mateus 20, somos chamados a escolher. O cálice permanece diante de nós. Não é cálice de prosperidade fácil, mas de fidelidade transformadora. Quem o bebe descobre que a verdadeira autoridade nasce quando o poder se converte em amor que se entrega até o fim.
DNonato - Teólogo do Cotidiano

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