A narrativa se desenvolve como continuidade do episódio da piscina de Betesda, relatado em João 5,1-9. Este contexto não é apenas um pano de fundo, mas um elemento hermenêutico decisivo. A piscina, localizada em Jerusalém, próxima à Porta das Ovelhas, carrega uma simbologia profunda ligada à tradição da água como sinal de vida, purificação e intervenção divina. Desde as águas primordiais em Gênesis 1,2 até a travessia do Mar Vermelho em Êxodo 14,21-22 e do Jordão em Josué 3,14-17, a água representa o agir salvífico de Deus na história. Contudo, em Betesda, essa água aparece aprisionada em uma lógica quase mágica, marcada pela escassez e pela competição. Apenas o primeiro a entrar seria curado. A graça, nesse sistema, torna-se privilégio de poucos.
O homem enfermo há trinta e oito anos, número que evoca o tempo de peregrinação de Israel no deserto conforme Deuteronômio 2,14, simboliza uma humanidade exausta, paralisada, incapaz de alcançar por si mesma a promessa de vida. Sua condição não é apenas física, mas existencial. Ele não tem quem o ajude. Sua solidão ecoa o clamor do Salmo 38, marcado pela dor prolongada e pela sensação de abandono. Trata-se de um retrato antropológico profundo da condição humana quando submetida a estruturas que prometem vida, mas geram exclusão.
É nesse cenário que Jesus intervém, não reforçando o sistema, mas rompendo com ele. Sua palavra, “Levanta-te, toma o teu leito e anda” (Jo 5,8), desloca completamente o eixo da mediação. A vida não vem da água agitada, nem de um mecanismo ritual, mas da relação com Ele. Aqui já se antecipa a revelação de João 4,14, onde Jesus se apresenta como a fonte de água viva. O que antes dependia de uma dinâmica externa passa a brotar da interioridade transformada pela Palavra e pelo Espírito.
O conflito se intensifica porque essa cura acontece em um sábado. O sábado, no contexto bíblico, é memória da criação, conforme Gênesis 2,2-3, e da libertação, segundo Deuteronômio 5,15. No entanto, ao longo da história, ele foi sendo rigidamente institucionalizado, tornando-se um marcador identitário, mas também um instrumento de controle. A reação das autoridades religiosas revela uma religião que perdeu o horizonte da vida e se tornou prisioneira da norma.
A resposta de Jesus em João 5,17 é decisiva. “Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho.” Aqui se revela uma teologia profundamente dinâmica de Deus. O descanso divino não é inatividade, mas plenitude de ação criadora. Deus continua sustentando a vida, como afirma o Salmo 121,4 e o livro da Sabedoria 11,24-26. O trabalho de Deus é cuidado permanente, sustentação da existência, compromisso com a vida.
Essa afirmação introduz o núcleo cristológico da passagem. Ao chamar Deus de Pai de maneira singular, Jesus não apenas utiliza uma linguagem afetiva, mas faz uma afirmação ontológica. No mundo semítico, o pai é origem, identidade e autoridade. Ao dizer “meu Pai”, Jesus se coloca em uma relação única com Deus, participando de sua própria vida. Isso provoca escândalo, como indica João 5,18, porque implica igualdade com Deus.
O discurso que segue aprofunda essa revelação. “O Filho nada pode fazer por si mesmo, senão aquilo que vê o Pai fazer” (Jo 5,19). O verbo ver, na tradição bíblica, vai além da percepção sensorial. Ele indica conhecimento íntimo e participação. Em Êxodo 3,7, Deus vê a opressão do povo e age. Ver é envolver-se. Assim, o ver do Filho revela comunhão absoluta com o agir do Pai. Não há autonomia isolada, mas unidade de vontade e de missão.
Essa unidade se expressa na comunicação da vida. “Assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, o Filho também dá vida a quem quer” (Jo 5,21). A vida, em João, não é mera existência biológica. É comunhão com Deus. “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,4). Essa vida remete ao sopro criador de Gênesis 2,7, ao Espírito que reanima os ossos secos em Ezequiel 37,1-14, e ao Ressuscitado que sopra sobre os discípulos em João 20,22.
Essa dimensão é profundamente atual. Em um mundo marcado por crises de sentido, ansiedade, fragmentação e vazio existencial, a promessa de vida plena responde às angústias mais profundas da experiência humana. A psicologia contemporânea reconhece o sofrimento gerado pela desconexão interior e pela perda de sentido. A proposta joanina não é alienante, mas integradora. Ela convida a uma escuta que transforma, a uma relação que cura.
A voz aparece como símbolo central. “Os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” (Jo 5,25). A voz divina, desde Gênesis 1,3, é criadora. Em Isaías 55,11, ela não volta sem realizar o que deseja. Ouvir, na tradição bíblica, implica obedecer, acolher, deixar-se moldar, como em Deuteronômio 6,4. A surdez espiritual, denunciada em Isaías 6,9-10, representa o fechamento à verdade.
O juízo, por sua vez, é apresentado como revelação. “O Pai não julga ninguém, mas confiou ao Filho todo julgamento” (Jo 5,22). Esse juízo não é arbitrário. Ele se manifesta na luz, como em João 3,19, e na verdade, como em João 8,32. Trata-se de um desvelamento da realidade. Em Daniel 7,13-14, o Filho do Homem recebe autoridade. Em Mateus 25,31-46, o critério é o amor concreto aos mais vulneráveis. O juízo, portanto, não pode ser separado da prática da justiça.
Essa perspectiva encontra eco nos documentos da Igreja. O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes 1, afirma que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos homens, especialmente dos pobres, são também as da Igreja. A Conferência de Medellín e Puebla, no âmbito do CELAM, desenvolveu a opção preferencial pelos pobres como exigência evangélica. A CNBB, em diversos documentos, insiste na centralidade da dignidade humana e na justiça social como expressão da fé.
Nesse horizonte, a crítica profética se torna inevitável. Quando a religião se alia a projetos de poder, quando legitima desigualdades, quando se transforma em instrumento ideológico, ela trai sua vocação. Jeremias 7,11 denuncia o templo transformado em covil de ladrões, e Jesus retoma essa denúncia em Marcos 11,17. A fé não pode ser reduzida a instrumento de dominação.
O clericalismo, criticado em diversos momentos do magistério contemporâneo, contradiz o gesto de Jesus em João 13,14, quando lava os pés dos discípulos. A teologia da prosperidade, ao associar bênção a riqueza, ignora o ensinamento de Lucas 6,20 e Mateus 6,24. A instrumentalização da fé por projetos políticos autoritários esvazia o Evangelho de sua força libertadora e solidária.
A realidade contemporânea oferece inúmeras Betesdas. Espaços onde multidões aguardam, muitas vezes sem esperança real. Trabalhadores precarizados, jovens sem perspectiva, famílias marcadas pela violência, populações marginalizadas. A sociologia da religião mostra como, em contextos de vulnerabilidade, a fé pode ser tanto fonte de resistência quanto instrumento de manipulação. A diferença está na fidelidade ao Evangelho.
O trabalho, nesse contexto, assume uma dimensão teológica. Desde Gênesis 2,15, o ser humano é chamado a cultivar e guardar a terra. Em João 5,17, o trabalho de Deus é contínuo. Participar desse trabalho significa promover a vida. Quando o trabalho é explorado, como denuncia Tiago 5,4, ele se torna clamor diante de Deus. A justiça no trabalho é expressão concreta da fé.
A ressurreição, anunciada em João 5,28-29, não é apenas futura. Ela começa agora. Romanos 6,4 fala de uma vida nova já presente. Levantar-se, como o paralítico, é entrar nessa dinâmica. É romper com a passividade, recuperar a dignidade, tornar-se sujeito da própria história. A dimensão sacramental torna visível essa realidade. O batismo, em João 3,5, introduz na vida nova. A Eucaristia, em João 6,51, alimenta essa vida. A reconciliação restaura a comunhão. A liturgia, longe de ser fuga, é fonte de transformação.
A Quaresma, nesse sentido, é tempo de escuta. Tempo de conversão. Tempo de travessia, como em Êxodo 12. Tempo de escolha, como em Deuteronômio 30,19. Escolher a vida implica compromisso com a justiça, com a verdade, com a solidariedade. A Palavra continua viva, como afirma Hebreus 4,12. Ela cria, julga, transforma. O Deus que trabalha sempre continua agindo na história. Chamando, recriando, ressuscitando.
E aqueles que escutam sua voz tornam-se sinais dessa vida. Não uma vida abstrata, mas concreta, encarnada na história. Uma vida que resiste à morte em todas as suas formas. Uma vida que denuncia a injustiça e anuncia a esperança. Uma vida que, à semelhança de Cristo, se faz dom.Assim, João 5,17-30 não é apenas um discurso teológico. É um chamado. Um convite a sair das Betesdas contemporâneas, a romper com estruturas de morte, a entrar na dinâmica do Deus que não cessa de trabalhar pela vida. É um apelo à conversão integral, pessoal e social, que se traduz em compromisso com o Reino. E no silêncio das nossas paralisias, no meio das nossas contradições, a voz continua ecoando. Quem a ouve e a acolhe começa, já agora, a viver a vida que não passa.
DNonato- Teólogo do cotidiano


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