A liturgia da Igreja nos conduz hoje ao encerramento do Sermão da Montanha. Ao longo do Ano Litúrgico, a Palavra de Deus é distribuída de forma pedagógica para formar o coração dos discípulos e discípulas, conduzindo-os progressivamente ao seguimento de Cristo. Não se trata apenas de uma organização de leituras, mas de um caminho espiritual pelo qual a Igreja nos educa na fé e na prática do Evangelho. O Evangelho de Mateus 7,21-29, proclamado na Quinta-feira da 12ª Semana do Tempo Comum e também reservado para o 9º Domingo do Tempo Comum no Ano A, encerra o grande Sermão da Montanha, a síntese mais profunda dos ensinamentos de Jesus sobre o Reino de Deus. Além disso, é uma passagem frequentemente escolhida para a celebração do matrimônio, pois revela a importância de construir a vida sobre um fundamento sólido. O texto paralelo de Lucas 6,43-49 é proclamado no Sábado da 23ª Semana do Tempo Comum e também no 8º Domingo do Tempo Comum no Ano C. Inserido no contexto do Sermão da Planície, ele complementa a mensagem de Mateus ao destacar que a árvore é conhecida pelos seus frutos e que a verdadeira fé nasce de um coração transformado. Em ambos os evangelhos, Jesus chega ao mesmo ponto decisivo: não basta ouvir a Palavra; é preciso colocá-la em prática. Mateus enfatiza a casa construída sobre a rocha. Lucas destaca a árvore conhecida pelos seus frutos. São imagens diferentes que conduzem à mesma verdade: a autenticidade da fé se manifesta na coerência entre aquilo que professamos e aquilo que vivemos.
Mateus 7,21-29 não é um simples epílogo, mas um chamado à decisão. Jesus não conclui seu ensinamento com teorias, mas com um apelo concreto: ou se vive a Palavra como fundamento da existência, ou tudo corre o risco de desmoronar. Por isso Ele afirma: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). Essa exigência atravessa toda a Escritura. Desde o Deuteronômio, Deus coloca diante de seu povo dois caminhos: a vida e a morte, a bênção e a maldição (Dt 30,19). Josué, ao entrar na Terra Prometida, desafia o povo: “Escolhei hoje a quem quereis servir” (Js 24,15). Jesus retoma essa tradição profética e a leva à sua plenitude. Não basta conhecer a vontade de Deus; é necessário escolhê-la e vivê-la. Como recorda a Carta de Tiago: “Sede praticantes da Palavra e não apenas ouvintes” (Tg 1,22).
O verbo utilizado por Jesus, fazer (poieín: pendência), revela a essência da fé cristã. Não basta invocar Deus com os lábios; é necessário responder com a vida. Jesus não condena a oração nem o culto, mas denuncia uma religiosidade que permanece apenas na aparência. Ecoa aqui a voz do profeta Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Is 29,13). O perigo não está em chamar Jesus de Senhor, mas em fazê-lo sem permitir que sua Palavra transforme o coração. Essa advertência continua atual. Os profetas de Israel já denunciavam uma religião desligada da justiça. Amós proclamava que Deus rejeita cultos que ignoram o clamor dos pobres e exigia que o direito corresse como um rio e a justiça como um riacho perene (Am 5,21-24). Miqueias sintetizava a vontade divina em três atitudes: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). O Reino de Deus não se mede pelo discurso religioso, mas pela capacidade de amar como Deus ama.
Jesus p aprofunda ainda mais sua advertência ao afirmar que muitos apresentarão suas obras religiosas como credenciais diante de Deus: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos, expulsamos demônios e realizamos muitos milagres?”. Contudo, ouvirão uma resposta surpreendente: “Nunca vos conheci”. O problema não está nas obras realizadas, mas na ausência de comunhão verdadeira com Deus. Trata-se da mesma crítica dirigida pelos profetas à religião vazia, que multiplica ritos enquanto negligencia a fidelidade, a compaixão e a justiça. É preciso que compreendemos que o amor, especialmente o amor conjugal, também não se sustenta em sentimentos passageiros nem em aparências. O amor verdadeiro se constrói. Exige fundamento sólido, entrega, compromisso, escuta, perdão e perseverança. Assim como não basta dizer “Senhor, Senhor”, também não basta dizer “eu te amo” se esse amor não se traduz em atitudes concretas. A própria Escritura apresenta o amor como aliança e não apenas como emoção. Desde o princípio, homem e mulher são chamados a tornar-se uma só carne (Gn 2,24). Os profetas utilizaram a linguagem do matrimônio para falar da relação entre Deus e seu povo (Os 2,21-22; Is 54,5). No Novo Testamento, Cristo é apresentado como o esposo que ama e entrega a própria vida por sua Igreja (Ef 5,25-32). Todo matrimônio cristão participa desse mistério de amor fiel, gratuito e perseverante. Por isso este Evangelho é frequentemente escolhido para a celebração do matrimônio. Casar-se não significa levantar uma bela fachada, mas construir uma casa capaz de resistir ao tempo. Nenhum casamento se sustenta apenas pela força dos sentimentos. O amor precisa de diálogo, fidelidade, serviço e capacidade de recomeçar. Como toda construção, será provado pelas tempestades da vida.
A pedagogia dos evangelhos se completa quando Lucas afirma que a árvore é conhecida pelos seus frutos. Antes de olhar para a construção exterior, Jesus olha para a qualidade da raiz. Não há como construir uma casa sobre a rocha se o coração permanecer uma terra movediça de egoísmo, orgulho e vaidade..A imagem da árvore percorre toda a Bíblia. O Salmo 1 descreve o justo como árvore plantada junto às águas correntes, que produz fruto no tempo oportuno e cujas folhas não murcham. Jeremias retoma a mesma figura ao afirmar que quem confia no Senhor é como árvore plantada junto ao rio, que permanece verde mesmo nos tempos de seca (Jr 17,7-8). O próprio Jesus dirá: “Eu sou a videira; vós sois os ramos” (Jo 15,5). Somente permanecendo nele podemos produzir frutos que permaneçam.. Os frutos que produzimos diariamente revelam aquilo que habita em nosso interior. A paciência dentro de casa, a honestidade no trabalho, a solidariedade com os pobres, a capacidade de perdoar, o compromisso com a verdade e o cuidado com os mais frágeis são os tijolos invisíveis da casa que estamos construindo para a eternidade. Uma fé sem frutos torna-se apenas formalismo.
E o ápice da parábola aparece na imagem da tempestade. Jesus afirma que a chuva caiu, os rios transbordaram e os ventos sopraram contra as duas casas. A tempestade veio para ambas. O Evangelho não promete uma vida sem sofrimento. Ser cristão não nos torna imunes às crises, às doenças, às perdas ou às dificuldades. Também os grandes servos de Deus enfrentaram tempestades.
- Abraão conheceu a espera e a provação.
- José foi vendido pelos irmãos antes de tornar-se instrumento de salvação.
- Jó experimentou a dor da perda.
- Elias atravessou o deserto da solidão.
- Maria permaneceu de pé junto à cruz.
- O próprio Cristo enfrentou as tentações do deserto e a agonia do Getsêmani.
No relato de Lucas, o construtor sensato cava profundamente até encontrar essa rocha. Essa profundidade fala do trabalho interior que toda vida cristã e todo matrimônio exigem. Amar é cavar. É conhecer, escutar, servir, renunciar ao egoísmo e cultivar diariamente a comunhão. É permitir que a graça alcance as camadas mais profundas do coração. A imagem da casa possui profundo significado bíblico:
- A casa é lugar de memória, pertença, bênção e transmissão da fé. O salmista proclama: “Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os construtores” (Sl 127,1). Josué declara: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24,15). O livro dos Provérbios ensina que “com a sabedoria se constrói a casa” (Pr 24,3). No Evangelho, a casa de Betânia torna-se lugar de amizade, acolhida e escuta da Palavra (Lc 10,38-42; Jo 11,1-44).
Quando uma família escolhe Cristo como fundamento, seu lar torna-se sinal do Reino, espaço de acolhida, ternura, reconciliação e esperança. Pedro afirma que somos pedras vivas edificadas numa casa espiritual (1Pd 2,5). Cada gesto de amor, cada perdão oferecido, cada renúncia feita por amor acrescenta uma nova pedra a essa construção. Essa palavra não é apenas advertência; é também promessa. Jesus não desanima seus ouvintes, mas lhes mostra o caminho da verdadeira solidez. Ele mesmo é a pedra rejeitada pelos construtores que se tornou pedra angular (Sl 118,22; Mt 21,42). Nele encontramos não apenas um ideal, mas uma presença viva que sustenta e renova.
Por isso, quando um casal fundamenta sua vida na Palavra de Deus, sua união encontra uma força que ultrapassa as limitações humanas. Como proclama o Cântico dos Cânticos: “As águas torrenciais não poderão apagar o amor, nem os rios afogá-lo” (Ct 8,7). E como ensina São Paulo, o amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (1Cor 13,7). O amor que nasce em Deus não ignora as tempestades; aprende a atravessá-las sustentado pela graça.
A Igreja nos faz hoje uma pergunta decisiva:
- Sobre qual fundamento estamos construindo nossa existência?
- Estamos apenas falando de Deus ou estamos vivendo o Evangelho?
- Estamos produzindo frutos que revelam a presença do Reino ou apenas preservando uma aparência religiosa?
Que este seja também o nosso caminho ao escutarmos este Evangelho. Que o amor que professamos não seja apenas pronunciado com os lábios, mas vivido na simplicidade dos dias. Que não seja apenas celebrado em momentos especiais, mas cultivado ao longo da vida. Que não seja sustentado apenas pelas emoções passageiras, mas pela fidelidade renovada a cada amanhecer.. Felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática (Lc 11,28). Esta é a bem-aventurança que Jesus nos oferece hoje. Que a casa que construímos, seja ela uma família, uma comunidade ou a própria história de nossa vida, seja edificada sobre essa Palavra. Que ela seja lugar de oração nos dias de paz e refúgio nos dias de tempestade. Que nela floresçam a confiança, o diálogo, a ternura, a justiça, a misericórdia e o perdão. Que todos os que cruzarem nossas portas encontrem sinais da presença de Deus.
Que nossa aliança com Deus e com aqueles que amamos não esteja escrita apenas em documentos, promessas ou lembranças, mas gravada no coração, como anunciava o profeta Jeremias: “Porei minha lei no seu íntimo e a escreverei em seus corações” (Jr 31,33). Que nossa vida seja como a árvore plantada junto às águas (Sl 1,3), capaz de permanecer firme nas estações favoráveis e também nos tempos de seca. Que seja como a casa construída sobre a rocha, que resiste aos ventos, às chuvas e às enchentes porque tem seu fundamento em Cristo. E quando vierem os desafios inevitáveis da existência, recordemo-nos de que a força da nossa caminhada não está apenas na capacidade humana de amar, mas na fidelidade daquele que nos chamou. Aquele que transformou água em vinho nas bodas de Caná (Jo 2,1-11) continua transformando a pobreza de nossas forças na abundância de sua graça. Aquele que prometeu permanecer conosco todos os dias até o fim dos tempos (Mt 28,20) continua caminhando ao nosso lado.
Que Cristo seja a rocha sobre a qual edificamos nossa casa, a luz que ilumina nossas janelas, a mesa que reúne a família, o pão que sustenta a caminhada, a porta sempre aberta para a esperança e a presença que fortalece o amor quando nossas forças parecem iinsuficientes, que aquilo que Deus une em seu amor seja fortalecido pela graça, amadurecido pelo tempo, purificado pelas provações e conduzido, dia após dia, à plenitude da vida.
Que não sejamos apenas ouvintes da Palavra, mas praticantes do Evangelho; não apenas admiradores de Jesus, mas seus discípulos e discípulas; não apenas construtores de casas, mas edificadores do Reino de Deus.
Que o Espírito Santo nos conceda a graça de não sermos ouvintes esquecidos, mas praticantes da Palavra. Que nossa vida seja uma casa firme, edificada sobre a Rocha que é Cristo. Que nosso coração seja uma árvore boa, capaz de produzir frutos de justiça, misericórdia e amor. Pois quando vierem as chuvas, os ventos e as enchentes inevitáveis da existência, permaneçamos de pé, sustentados pela fidelidade daquele que é nossa Rocha, nossa esperança e nossa salvação.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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