A perícope de João 1,29-34 situa-se no limiar entre o tempo do Natal e a manifestação plena do mistério de Cristo. Na liturgia, este texto é proclamado no dia 3 de janeiro, ainda no ciclo do Natal, como preparação imediata para a Epifania do Senhor, quando a Igreja contempla a revelação de Jesus às nações. Ao mesmo tempo, a mesma passagem retorna com força no 2º Domingo do Tempo Comum, Ano B, já fora do clima natalino, indicando que a identidade de Jesus como Cordeiro de Deus não é um dado restrito ao início do Evangelho, mas um eixo permanente da fé cristã. A liturgia, com sua pedagogia própria, insiste: aquilo que se anuncia no início precisa ser continuamente reaprendido no caminho, porque a fé não é um ponto de chegada, mas um processo de reconhecimento que atravessa a história e a vida concreta.
O Evangelho de João não apresenta o batismo de Jesus de forma narrativa, como fazem os sinóticos, mas o retoma a partir do testemunho de João Batista. O foco não está no gesto ritual em si, mas na interpretação teológica do acontecimento. Antes do milagre, antes do sinal, antes do discurso, há um testemunho. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Não se trata de uma frase devocional nem de um título piedoso criado para alimentar a religiosidade popular; trata-se de uma chave hermenêutica para compreender toda a missão de Jesus. João Batista não aponta para si, não constrói um movimento próprio, não capitaliza seguidores, não se apropria do sagrado; ele indica outro, desloca o centro, desinstala expectativas. Aqui já se delineia uma crítica profunda a toda forma de liderança religiosa autorreferencial, clericalista ou messiânica no sentido político-militar. O verdadeiro profeta não se coloca como fim, mas como sinal, e sabe desaparecer para que o Outro apareça.
A imagem do cordeiro carrega uma densidade simbólica que atravessa toda a Escritura como memória ferida e esperança aberta. No horizonte do Antigo Testamento, ressoam pelo menos três grandes camadas de sentido que João não inventa, mas recolhe e ressignifica.
1ª camada remete a Gênesis 22, o sacrifício de Isaac. Abraão sobe o monte disposto a entregar o filho da promessa, e Isaac pergunta: “Onde está o cordeiro para o holocausto?” (Gn 22,7). A resposta — “Deus providenciará o cordeiro” permanece em suspensão, como uma pergunta que atravessa a história bíblica. No Evangelho de João, essa pergunta antiga encontra uma resposta paradoxal e escandalosa: o próprio Filho é o Cordeiro. Mas isso não revela um Deus sádico que exige a morte, e sim um Deus que entra na história humana e assume, Ele mesmo, o custo da fidelidade ao amor. Deus não se alimenta da morte; Ele a atravessa para vencê-la por dentro.
2ª camada simbólica vem do Êxodo. O cordeiro pascal, imolado e cujo sangue marca as portas, torna-se sinal de libertação (Ex 12). Não é um rito mágico, mas um gesto que implica decisão, ruptura, travessia. Comer o cordeiro é aceitar sair do Egito, abandonar a segurança da escravidão e enfrentar o risco da liberdade. João escreve para comunidades profundamente marcadas pela memória judaica e pela experiência pascal. Ao chamar Jesus de Cordeiro de Deus, o evangelista afirma que a libertação definitiva não se reduz a uma saída geográfica, étnica ou política, mas toca a raiz do pecado que estrutura relações, sistemas e consciências. Não se trata apenas de um pecado individual, mas do “pecado do mundo”, isto é, de uma lógica coletiva de morte, exclusão e dominação que se normaliza e se sacraliza ao longo da história.
3ª camada ecoa o Servo Sofredor de Isaías: “como cordeiro levado ao matadouro” (Is 53,7). Aqui, a força não está na violência reativa, mas na fidelidade silenciosa que desmascara o mal. O Servo não vence pela espada, mas pela entrega; não impõe, mas revela. João Batista, ao apontar Jesus, rompe com a expectativa de um messias guerreiro, tão presente em diversos grupos do judaísmo do século I, como os zelotas e outros movimentos messiânicos armados Essa ruptura continua escandalosa hoje, sobretudo em contextos onde o nome de Jesus é instrumentalizado para justificar discursos de ódio, armamentismo, nacionalismos religiosos e projetos de poder que se pretendem sagrados.
Quando João proclama que o Cordeiro “tira o pecado do mundo”, ele desloca radicalmente a compreensão religiosa do mal. O pecado, aqui, não é apenas transgressão moral individual, mas uma realidade histórica, estrutural e coletiva. O “mundo” (kosmos), no Evangelho de João, não é a criação amada por Deus, mas a ordem que se fecha sobre si mesma, absolutiza poder, riqueza e prestígio, e transforma a vida em mercadoria. O pecado do mundo é a organização sistemática da morte. Por isso, a ação do Cordeiro não se limita ao perdão privado, mas atinge as engrenagens profundas que sustentam injustiças normalizadas.
Paulo desenvolve essa intuição na Carta aos Romanos ao falar do pecado como uma força que reina (Rm 5,21), que escraviza e condiciona a humanidade. A criação inteira geme e sofre como em dores de parto (Rm 8,22), não porque Deus a tenha abandonado, mas porque está submetida a uma lógica que a corrói por dentro. O Cordeiro entra nesse gemido coletivo, não como juiz distante, mas como solidário radical. Ele não salva à distância; salva assumindo a carne ferida da história.
Os profetas já haviam denunciado com vigor esse pecado estrutural. Amós expõe um sistema religioso que convive pacificamente com a exploração e a desigualdade, denunciando a venda do justo por dinheiro (Am 2,6) e um culto que Deus rejeita porque ignora a justiça (Am 5,21-24). Miquéias desmonta a teologia do sacrifício espetacular ao afirmar que Deus exige justiça, misericórdia e humildade (Mq 6,8). Aqui se revela o pecado do mundo como dissociação entre fé e vida, culto e ética, liturgia e compromisso histórico. Essa denúncia alcança sua forma mais radical no Apocalipse, onde o pecado do mundo assume a forma de um império idolátrico. Babilônia não é apenas uma cidade; é um sistema econômico que visa só o lucro, sendo o modelo político religioso que seduz, explora e mata. Reis, comerciantes e elites religiosas que se beneficiam dela (Ap 18). O pecado do mundo se organiza, se legitima e se apresenta como inevitável. É nesse cenário que o Cordeiro aparece como única alternativa escatológica real. Em Apocalipse 5, o Cordeiro imolado é o único digno de abrir o livro da história. Não o leão da violência, não o império da força, não o mercado da prosperidade, mas o Cordeiro da entrega.
A escatologia cristã, assim, não é fuga do mundo, mas crítica radical do presente. Se o futuro pertence ao Cordeiro, então todo sistema fundado na exclusão já está condenado, mesmo quando parece invencível. No Evangelho de João, essa lógica aparece na “hora” de Jesus. Sua glorificação não acontece no sucesso, mas na cruz. A cruz torna-se trono; o fracasso aparente revela-se vitória definitiva. Essa inversão desmonta toda teologia que promete glória sem cruz, prosperidade sem entrega, poder sem serviço.
Nesse ponto, a crítica bíblica às teologias da prosperidade e do domínio torna-se inevitável. O livro de Jó desmonta a lógica retributiva que associa prosperidade à bênção e sofrimento ao pecado. Jó é justo e sofre, e seus amigos, defensores dessa teologia cruel, são duramente repreendidos por Deus (Jó 42,7). Amós e Miquéias denunciam uma fé que legitima desigualdades. Tiago, no Novo Testamento, retoma essa crítica com palavras contundentes contra a acumulação injusta e a exploração do trabalhador (Tg 5,1-6). Longe de ser um projeto político-ideológico ou sociologia secular, trata-se de teologia bíblica em estado puro. Chamar isso de “projeto socialista” é esquecer que tal horizonte existia muito antes de o socialismo sequer ser nomeado.
João 1,29-34 também é um texto profundamente vocacional. “Eu não o conhecia”, diz o Batista, usando um verbo que, na Bíblia, não significa informação, mas relação (Jo 1,31). A vocação nasce quando se aprende a reconhecer a ação de Deus na história e a apontá-la aos outros. O testemunho de João torna-se espelho incômodo para nossas comunidades:
- indicamos Cristo ou a nós mesmos?
- Geramos comunhão ou disputas?
- Formamos discípulos ou consumidores religiosos?
Do ponto de vista psicológico, João revela
maturidade afetiva e espiritual. Ele não sofre da necessidade de protagonismo, tão comum em lideranças que dependem de aplauso e visibilidade. “É necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Em termos antropológicos, isso confronta sociedades marcadas pela performance e pela autoexposição. A identidade, no Evangelho, não se constrói pela acumulação de poder, mas pela fidelidade à missão.
A descida do Espírito em forma de pomba evoca Gênesis 1 e Gênesis 8. Criação e recriação se encontram. O Espírito que permanece sobre Jesus inaugura uma humanidade reconciliada. Ele não legitima privilégios nem sustenta projetos de dominação; Ele conduz à verdade e ao serviço (Jo 16,13). Isso desmonta espiritualidades que confundem Espírito com êxtase, espetáculo ou sucesso.
Os sinóticos narram a mesma cena com ênfases distintas, revelando a riqueza do evento. Marcos fala dos céus rasgados, Mateus do cumprimento da justiça, Lucas da oração. João escolhe o testemunho. Cada abordagem responde a feridas e desafios concretos das comunidades. A diversidade não é contradição, mas profundidade.
Proclamar Jesus como Cordeiro de Deus é questionar sistemas religiosos baseados na troca, no mérito e na mercantilização da fé. Não há espaço para discursos de “eleitos” contra “descartáveis”, nem para espiritualidades que prometem bênçãos em troca de dinheiro, submissão ou silêncio. A fé, quando vira produto, trai o Cordeiro.
O autor nos apresenta uma crítica ao clericalismo que emerge com força na pessoa de João. Ele não monopoliza o sagrado. O Concílio Vaticano II reafirma que a Igreja é povo de Deus em caminho (Lumen Gentium) e que sua missão é ler os sinais dos tempos (Gaudium et Spes). O clericalismo, ao transformar serviço em poder, contradiz o Evangelho.
Santo Agostinho distingue a voz que passa do Verbo que permanece. Orígenes vê no Cordeiro a pedagogia divina que respeita a liberdade. Irineu fala da recapitulação da história em Cristo. Essas vozes antigas continuam a iluminar um presente marcado por polarizações e idolatrias religiosas.
O Cordeiro confronta o paradigma da força como motor da história. Contra o cinismo político, o Evangelho afirma que a verdade se oferece, não se impõe. Jesus habita o mundo, toca feridas, atravessa conflitos, sem absolutizar o poder. A adesão ao Cordeiro não é ideológica nem identitária. É prática encarnada que ultrapassa os muros do culto. Católicos, evangélicos e pessoas de outras tradições são desafiados a reconhecer no bem, na justiça e na defesa da vida sinais do Espírito que sopra onde quer (Jo 3,8). Toda espiritualidade que sacraliza a exclusão ou legitima a violência se afasta radicalmente do Cordeiro.
O tom profético de João 1,29-34 permanece atual porque denuncia falsas mediações e convoca a uma fé adulta. O Cristo apontado por João não negocia a verdade para ganhar seguidores, não promete atalhos fáceis. Seguir implica entrega, descentramento e compromisso com a vida concreta. A encarnação não é evento isolado, mas estilo de vida.
Apontar o Cordeiro hoje é resistir às seduções do poder religioso, do mercado da fé e do messianismo político. É assumir que a salvação não acontece fora do mundo, mas no interior de suas contradições. João Batista continua a nos interpelar: somos voz que aponta ou queremos ocupar o lugar do Verbo?
A Boa Nova segundo João não permite neutralidade confortável. Ela desloca, desnuda e envia. E, como toda verdadeira experiência pascal, só pode ser acolhida por quem aceita caminhar não atrás de um ídolo moldado ao próprio desejo, mas daquele que tira o pecado do mundo oferecendo a própria vida.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentário.