- 1 - Epifania: Revelação de Jesus ao Mundo?
- 2 - Epifania do Senhor
- 3 - Um Olhar no texto de Mateus 2,1-12 - Solenidade da Epifania do Senhor
Ambas as reflexões, ainda que situadas em contextos distintos, dialogam de maneira fecunda com os desafios contemporâneos e ajudam a compreender a Epifania não como um evento isolado, mas como um dinamismo permanente da revelação de Deus na história, sempre maior do que nossas categorias eclesiais ou ideológicas.
À luz das leituras proclamadas na liturgia de hoje — Isaías 60,1-6; Salmo 71(72); Efésios 3,2-3a.5-6 e Mateus 2,1-12, somos conduzidos a uma visão ampla e profundamente teológica da manifestação do Senhor. O profeta Isaías anuncia uma luz que irrompe em meio às trevas, atraindo povos e nações; o salmo messiânico canta a justiça e a paz de um reinado que se estende até os confins da terra; Paulo proclama o mistério outrora oculto e agora revelado: os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e participantes da mesma promessa em Cristo Jesus. Trata-se de uma ruptura radical com qualquer concepção étnica, cultual ou meritocrática da salvação.
No coração desse conjunto está o Evangelho de Mateus, proclamado na tradição litúrgica da Igreja Católica Romana na Solenidade da Epifania do Senhor, celebrada no Tempo do Natal como culminância do mistério da Encarnação. Não é irrelevante que este texto evangélico permaneça invariável nos três ciclos litúrgicos (anos A, B e C do lecionário dominical). Tal estabilidade revela que não estamos diante de um episódio periférico ou meramente narrativo, mas de um verdadeiro eixo hermenêutico da fé cristã, capaz de iluminar tanto a cristologia quanto a eclesiologia e a ética social do Evangelho.
A visita dos magos do Oriente não é apenas um relato piedoso, mas uma afirmação teológica de grande alcance: o Cristo não pertence a um grupo, etnia ou nação específica. Ele se manifesta como luz para todos os povos, rompendo fronteiras religiosas, culturais e políticas. A Epifania, portanto, desestabiliza toda tentativa de domesticar Jesus, de capturá-lo em projetos de poder, identitarismos religiosos ou nacionalismos excludentes. Ela se coloca em continuidade com textos como Jonas, enviado a Nínive, e com a visão universalista de Isaías 56,7: “Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos”.
Celebrar a Epifania é confessar que Deus se revela fora dos centros oficiais do saber religioso, que fala através de estrangeiros, que se deixa encontrar por aqueles que ousam caminhar guiados por sinais frágeis, como uma estrela. É também reconhecer que, enquanto alguns se colocam em atitude de busca e adoração, outros — como Herodes e sua corte — reagem com medo, violência e desejo de controle. Essa tensão atravessa toda a Escritura: Moisés é rejeitado no Egito e reconhecido no deserto; Davi é esquecido por seu pai e escolhido por Deus; os profetas são perseguidos pelos palácios e acolhidos pelos pobres.
A Epifania permanece, assim, um espelho incômodo para a Igreja e para a sociedade: revela onde ainda resistimos à luz, onde preferimos a segurança do palácio ao risco do caminho, e onde continuamos a confundir fé com privilégio. Ao mesmo tempo, ela nos recorda que Deus continua a se manifestar, hoje, nas periferias da história, nos deslocamentos humanos, nos encontros improváveis e na esperança que insiste em nascer, mesmo em tempos sombrios.
A Epifania não é o fim da narrativa natalina, mas sua abertura ao mundo. O termo epipháneia, no contexto greco-romano, designava a manifestação visível de uma divindade ou a visita solene de um imperador à cidade, frequentemente acompanhada de pompa, propaganda e afirmação de poder. Mateus se apropria criticamente desse vocabulário político-religioso para subvertê-lo: Deus não se manifesta em cortejos triunfais, nem em palácios, nem sob proteção militar, mas na fragilidade de uma criança pobre, ecoando a lógica escandalosa do Servo de Isaías, que “não grita nem levanta a voz” (Is 42,2), mas estabelece o direito pela fidelidade.
Isaías 60, proclamado nesta liturgia, emerge do contexto do pós-exílio babilônico, quando Jerusalém tenta se reerguer entre escombros materiais e fraturas sociais profundas. O profeta não descreve uma cidade gloriosa já reconstruída, mas anuncia uma esperança que nasce da promessa divina: “Levanta-te, resplandece, porque chegou a tua luz” (Is 60,1). Mateus relê esse texto à luz da experiência cristã primitiva e desloca radicalmente seu centro: a luz não irradia do Templo restaurado, nem da cidade santa institucionalizada, mas de Belém, pequena e insignificante, conforme Miqueias 5,1. Essa releitura já é, em si mesma, uma crítica teológica a qualquer sacralização do poder religioso.
O relato de Mateus 2,1-12 é uma construção teológica densa, elaborada a partir de tradições judaicas, expectativas messiânicas e conflitos históricos vividos pela comunidade mateana, provavelmente após a destruição do Templo em 70 d.C. Os magos que vêm do Oriente não são reis no sentido estrito, mas sábios, ligados às tradições persas ou babilônicas de leitura dos astros. A astrologia, no mundo antigo, fazia parte do horizonte cultural e intelectual e não era percebida apenas como superstição, mas como tentativa simbólica de decifrar a ordem do cosmos. Mateus se apropria desse dado cultural para afirmar que a criação inteira participa do anúncio do Messias, ecoando o Salmo 19: “Os céus proclamam a glória de Deus”.
Essa universalidade já estava inscrita na promessa feita a Abraão em Gênesis 12,3 — “em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” — reafirmada pelos profetas e retomada pelo Salmo 72, que descreve um rei cuja autoridade se manifesta na defesa dos pobres, dos necessitados e dos oprimidos. Os reis estrangeiros que trazem dons não o fazem por coerção, mas por reconhecimento de uma realeza alternativa, profundamente distinta da lógica imperial romana.
Aqui se estabelece um contraste direto com Herodes, figura histórica confirmada por Flávio Josefo, que governava a Judeia como rei cliente de Roma, sustentado pela violência, pelo medo e pela eliminação sistemática de qualquer ameaça. Herodes encarna o poder que se sente ameaçado pela vida que nasce fora de seu controle. Sua reação diante do anúncio do nascimento do “rei dos judeus” não é de busca espiritual, mas de cálculo político.
Ao convocar os sumos sacerdotes e escribas, Herodes revela uma aliança perversa entre poder político e saber religioso instrumentalizado. Esses líderes conhecem a Escritura, citam corretamente Miqueias, mas permanecem imóveis. Essa imobilidade denuncia um tipo de religião que transforma a Palavra em objeto de domínio e não em força de conversão, algo duramente criticado por Jesus ao longo do Evangelho (cf. Mt 23; Lc 11,52).
A estrela, elemento central da narrativa, não deve ser reduzida a um fenômeno astronômico. No horizonte simbólico bíblico, ela remete a Números 24,17 — “uma estrela sai de Jacó” — e representa o discernimento, a busca humana pelo sentido último da história. O detalhe de sua ausência em Jerusalém e reaparição no caminho para Belém é teologicamente decisivo: onde o poder se absolutiza, a revelação se obscurece. Onde há abertura, pobreza e deslocamento, a luz reaparece. Essa lógica atravessa toda a Escritura: Deus se manifesta no deserto (Ex 3), fora das estruturas consolidadas, e Jesus morre fora dos muros da cidade (Hb 13,12).
Os dons oferecidos pelos magos — ouro, incenso e mirra — funcionam como confissões de fé.
- O ouro reconhece a realeza, mas não a realeza opressora denunciada por Jesus em Mateus 20,25-28.
- O incenso aponta para a dimensão divina do Cristo (cf. Sl 141,2; Ap 8,3-4).
- A mirra antecipa a paixão, lembrando que o caminho do Messias passai inevitavelmente pela cruz. Desde o nascimento, Mateus une Natal e Páscoa, impedindo qualquer leitura triunfalista ou alienante.
Efésios 3 oferece a chave hermenêutica: o mistério agora revelado é que os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo. Essa afirmação tem implicações eclesiológicas profundas. A Epifania não é apenas uma cena devocional, mas um golpe contra qualquer teologia exclusivista, elitista ou meritocrática. Por isso, o texto se torna denúncia profética contra a teologia da prosperidade, contra a teologia do domínio e contra o individualismo religioso que privatiza a salvação.
A tradição patrística reconheceu cedo essa densidade. Santo Irineu via nos magos a recapitulação da humanidade inteira em Cristo. São Leão Magno afirmava que a Epifania inaugura a vocação universal dos povos. Orígenes advertia que Herodes reaparece sempre que a religião se alia ao poder. Essas intuições ecoam hoje nas críticas do Papa Francisco ao clericalismo e à autorreferencialidade eclesial.
Aqui se torna fundamental considerar a tradição da Igreja Ortodoxa. No Oriente cristão, a Epifania é celebrada como Teofania, manifestação de Deus, e durante séculos foi também a celebração do Natal. Antes da fixação do 25 de dezembro no calendário romano, muitas Igrejas celebravam em 6 de janeiro simultaneamente o nascimento de Cristo, sua manifestação aos magos e seu batismo no Jordão. O centro não era a infância em si, mas a revelação plena do mistério divino.
Na tradição bizantina, a Teofania enfatiza o Batismo do Senhor como manifestação trinitária: o Pai que fala, o Filho que se submerge nas águas e o Espírito que desce como pomba (Mt 3,13-17). Por isso, o rito da bênção das águas ocupa lugar central, expressando uma teologia profundamente encarnacional e cósmica: toda a criação é tocada e santificada pela manifestação de Deus.
Esse dado ilumina também a questão da data no calendário romano. A fixação do Natal em 25 de dezembro, no século IV, dialoga com o contexto cultural do Império e com a festa do Sol Invictus. A Igreja, longe de mera adaptação acrítica, realiza uma releitura teológica: Cristo é o verdadeiro Sol que nasce para iluminar todos os povos (cf. Ml 3,20; Lc 1,78). A coexistência das datas revela que a Epifania antecede historicamente o Natal enquanto festa distinta e que seu sentido é mais amplo do que uma simples comemoração infantil.
Os documentos do Magistério reafirmam essa visão. A Lumen Gentium afirma que a Igreja é sacramento universal de salvação. A Gaudium et Spes insiste que a fé se verifica na história concreta. A Evangelii Gaudium denuncia a espiritualidade autorreferencial. A Fratelli Tutti lembra que não há verdadeira manifestação de Deus sem fraternidade concreta.
Hoje, a estrela não brilha nos céus, mas na carne ferida dos pobres, dos desempregados, dos dependentes químicos, dos invisibilizados. Nas ruas da Baixada Fluminense e de tantas periferias, multiplicam-se Cristos crucificados pela omissão coletiva. A ausência da estrela em Jerusalém continua na ausência de políticas públicas, de comunidades comprometidas e de Igrejas dispostas a perder privilégios para ganhar humanidade.
Os magos retornam por outro caminho. Essa frase final sintetiza a ética da Epifania. Quem encontra o Cristo não pode voltar pelo mesmo percurso. A conversão é mudança de rota, de lógica e de horizonte. Celebrar a Epifania sem esse deslocamento é reduzir o Evangelho a ornamento litúrgico. O Cristo que se manifesta em Belém, no Jordão e na história continua chamando a humanidade a uma fé que ilumina, desloca e transforma.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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