O Evangelho de João 1,19-28 apresenta o testemunho inicial de João Batista e situa, de modo denso e simbólico, o início da revelação pública de Jesus. O texto assume a forma de um interrogatório religioso, mas expõe, em profundidade, uma crise mais radical: a dificuldade das autoridades em reconhecer a ação de Deus quando ela acontece fora dos esquemas institucionais, dos controles clericais e das expectativas de poder.
Essa perícope, proclamada liturgicamente no dia 2 de janeiro, no ciclo do Natal, e também, em forma ampliada (Jo 1,6-8.19-28), no 3º Domingo do Advento do Ano B — texto que marcou, inclusive, nossa primeira celebração da Palavra na Matriz de Japeri — insere-se num tempo litúrgico de espera ativa, vigilante e crítica diante da história. Não se trata de aguardar passivamente uma data, mas de viver um tempo de discernimento, de conversão das expectativas religiosas, políticas e messiânicas. O Advento, prolongado simbolicamente no ciclo natalino antes da Epifania, não prepara apenas para um evento do passado, mas para um modo de presença de Deus que não coincide com lógicas de dominação, prosperidade ou prestígio religioso.
É nesse horizonte que João Batista emerge não como ornamento espiritual do Natal, mas como ruptura incômoda: uma voz que desestabiliza as seguranças do templo, do poder e da religião institucionalizada. Desde o prólogo, o Quarto Evangelho desloca o eixo da compreensão religiosa ao afirmar que “no princípio era o Verbo” (Jo 1,1). Antes de qualquer instituição, rito ou mediação sacerdotal, há a Palavra eterna, criadora e relacional. João Batista é introduzido nesse cenário como “um homem enviado por Deus” (Jo 1,6), não como fim em si mesmo, mas como mediação transitória.
A tensão entre voz e Palavra atravessa toda a narrativa. A voz é necessária, mas não suficiente; é ponte, não morada. A Palavra é conteúdo, sentido e permanência. Santo Agostinho expressa essa distinção de modo luminoso: João é a voz que passa, Cristo é a Palavra que permanece. Psicologicamente, a voz atua no nível do estímulo imediato; a Palavra, porém, alcança o núcleo do sentido, do desejo e da decisão. Sociologicamente, a voz pode mobilizar multidões; a Palavra transforma sujeitos.
O cenário do deserto aprofunda essa lógica. Na tradição bíblica, o deserto é lugar de ruptura, travessia e purificação da memória religiosa. Foi no deserto que Israel reaprendeu a depender de Deus (Ex 16), que os profetas denunciaram a infidelidade do povo (Os 2,16) e que Elias reencontrou o sentido da missão (1Rs 19). João não fala a partir do centro do poder religioso, mas da margem. Sua palavra nasce fora do templo, fora do sistema sacrificial, fora da lógica do controle clerical. Isso já constitui, em si, uma crítica profética a toda religião que se absolutiza e se fecha em si mesma.
Sacerdotes e levitas são enviados de Jerusalém para interrogá-lo. A pergunta “Quem és tu?” não brota de busca espiritual, mas de vigilância institucional. No judaísmo do século I, a legitimidade religiosa estava ligada à filiação, à função reconhecida e à autorização oficial. João rompe com esse esquema. Ele confessa e não nega: “Eu não sou o Messias.” Rejeita também os rótulos esperados: não é Elias retornado segundo a expectativa popular (cf. Ml 3,23), nem “o Profeta” anunciado em Dt 18,15. Ao esvaziar-se de títulos, João cria espaço para que a verdade apareça.
Pressionado a se definir, recorre à Escritura: “Eu sou a voz do que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor” (Is 40,3). Sua identidade não nasce da instituição, mas da missão. Ele não se apresenta como centro, mas como mediação; não como proprietário da revelação, mas como alguém atravessado por ela. Endireitar o caminho implica conversão concreta: revisão de práticas, relações e estruturas. Nos sinóticos, essa exigência se traduz em denúncia da hipocrisia religiosa (Mt 3,7) e na convocação a frutos concretos de justiça, partilha e recusa da violência (Lc 3,10-14). Não há espiritualidade autêntica sem implicações sociais.
O batismo de João, realizado com água, é sinal de passagem, não de chegada. A água, símbolo ambíguo na Escritura, remete tanto à vida quanto ao juízo: do dilúvio à travessia do Mar Vermelho, ela marca rupturas e recomeços. João deixa claro que seu gesto não é absoluto. Ele aponta para “aquele que vem depois de mim”, de quem não é digno de desatar a sandália — tarefa reservada ao escravo. Nos sinóticos, essa afirmação se amplia: Jesus batizará “com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3,11). O Espírito, na tradição bíblica, não é posse nem mercadoria, mas sopro criador, força que desinstala e gera vida.
A declaração de que Jesus já está no meio deles, mas não é reconhecido (Jo 1,26), revela uma tensão central do texto: a incapacidade religiosa de perceber a presença de Deus quando ela não corresponde às expectativas vigentes. Historicamente, o messianismo do tempo de Jesus era marcado por projeções políticas e nacionalistas. Antropologicamente, isso revela a tendência humana de moldar Deus segundo seus desejos de segurança e poder. Teologicamente, o Evangelho desmonta essas projeções: o Messias não se impõe, não negocia favores, não domina; ele se faz próximo, vulnerável e encarnado.
Esse desconhecimento atravessa toda a narrativa bíblica. Os discípulos de Emaús caminham com Jesus sem reconhecê-lo (Lc 24,16); Maria Madalena o confunde com o jardineiro (Jo 20,15). Reconhecer exige escuta, permanência e relação. Não se trata de evidência empírica, mas de encontro. Aqui dialogam categorias da psicologia e da filosofia do conhecimento: reconhecer supõe abertura ao outro e disposição para ser deslocado.
O testemunho de João atinge seu ápice quando ele assume, conscientemente, o lugar mais baixo para afirmar a grandeza daquele que vem. Sua autoridade não se impõe; revela-se na humildade. Ao permitir que seus próprios discípulos sigam Jesus (Jo 1,35-37), João realiza um gesto profundamente anticlérical no melhor sentido do termo: não retém, não centraliza, não cria dependência. Em tempos de líderes religiosos que competem por visibilidade, fiéis e poder, sua postura torna-se denúncia viva. O clericalismo, reiteradamente denunciado pelo Magistério recente, nasce justamente da incapacidade de diminuir para que Cristo cresça.
Os Padres da Igreja reconheceram em João o modelo da verdadeira mediação. Orígenes vê nele a Lei e os Profetas que conduzem a Cristo sem substituí-lo. Agostinho insiste: João é o amigo do Esposo, não o Esposo (cf. Jo 3,29). Essa imagem nupcial revela a lógica da aliança, não da troca. Toda teologia que transforma a fé em investimento espiritual ou moeda de barganha trai essa dinâmica.
Daí emerge, com força, a crítica às teologias da prosperidade e da fé como mercadoria. João não promete sucesso, não oferece técnicas de autoajuda espiritual, não vende milagres. Sua palavra é austera, situada no deserto, apontando para um Messias rejeitado, que morrerá fora dos muros. Seguir esse Cristo implica assumir a lógica da cruz (Mc 8,34), não a da ascensão garantida.
Sociologicamente, o movimento de João revela uma religiosidade popular que busca sentido fora das estruturas oficiais. As multidões vão ao deserto porque o templo já não responde às suas angústias. Isso interpela a Igreja de todos os tempos. Quando a margem se torna espaço de escuta, é sinal de que o centro perdeu credibilidade. O Concílio Vaticano II, especialmente na Gaudium et Spes, insiste na leitura dos sinais dos tempos e na escuta das dores do mundo. João Batista é um desses sinais.
Essa hermenêutica se aprofunda quando o texto é atravessado pela experiência concreta da nossa primeira celebração da Palavra. A Escritura deixa de ser apenas objeto de análise e se torna lugar de chamado. Ser João hoje não é repetir gestos, mas assumir uma postura: descentrar-se, apontar para Cristo, recusar a vaidade religiosa. Em uma cultura marcada pelo individualismo e pela espiritualidade performática, esse testemunho é profundamente contracultural.
A pergunta “Quem és tu?” ecoa outras interrogações fundantes da Escritura. Moisés, diante da sarça, pergunta pelo nome de Deus (Ex 3,13); Jeremias resiste à vocação alegando fragilidade (Jr 1,6); Amós rejeita o estatuto profissional de profeta (Am 7,14-15). Em todos esses relatos, a identidade nasce do chamado, não do cargo. João se insere nessa linhagem, relativizando qualquer ministério entendido como privilégio ou propriedade.
O evangelista insiste que João “confessa e não nega” (Jo 1,20). Confessar, na Bíblia, é alinhar vida e verdade. Trata-se de uma ética do testemunho que contrasta com formas de religiosidade marcadas pela ambiguidade e pela autopreservação institucional. “Seja o vosso ‘sim’, sim; e o vosso ‘não’, não” (Mt 5,37).
O verbo “conhecer” — “há alguém no meio de vós que não conheceis” (Jo 1,26) — retoma o sentido bíblico de conhecimento como relação e compromisso. “Quero misericórdia e não sacrifício” (Os 6,6), texto retomado por Jesus (Mt 9,13; 12,7), ilumina a crítica à fé reduzida a ritos exteriores. A Dei Verbum recorda que Deus fala como amigo (DV 2) e que a Revelação é o próprio Deus que se comunica na história. João aponta para essa presença, não para ideias abstratas.
A Lumen Gentium afirma que a Igreja é sacramento de Cristo no mundo (LG 1), chamada a uma lógica de serviço. Quando perde esse horizonte, torna-se ruído; quando o preserva, torna-se voz que conduz à Palavra. A Gaudium et Spes amplia essa visão ao afirmar que as alegrias e angústias da humanidade são também as da comunidade dos discípulos (GS 1). João fala a partir do chão ferido da história, tocando questões sociais e econômicas, como evidenciam os sinóticos (Lc 3,11-14).
O Documento de Aparecida retoma essa intuição ao convocar a uma conversão pastoral e a uma Igreja em saída (DAp 365). Denuncia a fé reduzida a consumo religioso e a pastoral autorreferencial (DAp 79; 370). João, ao recusar títulos e devolver discípulos a Jesus, torna-se critério de discernimento pastoral. O discipulado missionário nasce do encontro com Cristo (DAp 243), encontro que respeita o tempo, a travessia e o amadurecimento da fé.
A crítica às teologias do domínio encontra aqui novo fundamento. Se o Cristo já está no meio e não é reconhecido, isso significa que Ele não se impõe pelo poder. “Deus escolheu o que é fraco para confundir o forte” (1Cor 1,27). Qualquer identificação entre Deus e triunfo político, acúmulo de bens ou hegemonia cultural contradiz o Evangelho.
Antropologicamente, o texto revela a tensão entre expectativa e alteridade. O Messias desconhecido obriga a rever imagens e interesses. Deus permanece sempre maior (Deus semper maior), escapando às tentativas de captura religiosa. Guardar a Palavra no coração não é gesto intimista, mas compromisso público. A Palavra cresce com quem a vive (DV 8) e conduz a Igreja a confrontar sistemas de exclusão, a denunciar a mercantilização da fé e a resistir ao clericalismo que sufoca o Espírito.
Assim, João 1,19-28 permanece como pergunta aberta a cada geração:
- somos voz que aponta para a Palavra ou ruído que ocupa espaço?
- Diminuímos para que Cristo cresça ou usamos Cristo para crescer?
A resposta não se dá em discursos ou títulos, mas no chão da vida, onde a Palavra se encarna em gestos concretos, escolhas éticas e compromisso com a vida ferida.
Crer, à luz do Evangelho, não é apenas saber quem Jesus é, mas decidir caminhar como Ele caminhou. É permitir que a fé molde o modo de exercer poder, de consumir, de relacionar-se. O Reino não se impõe com espetáculo nem com ruído, mas cresce como semente silenciosa, transformando tudo a partir de dentro.
O Reino já está no meio de nós, presente nas fidelidades cotidianas, na opção pelos pobres, na defesa da dignidade humana e na recusa das lógicas de morte. Ainda assim, tantas vezes não o reconhecemos, porque esperamos sinais grandiosos ou messias moldados às nossas conveniências. O Evangelho nos desinstala: Deus se manifesta onde menos se espera.
O episódio se encerra em Betânia além do Jordão, lugar de fronteira e novo começo. O Jordão, associado à entrada na Terra Prometida (Js 3), torna-se símbolo de uma nova travessia: não para um território, mas para uma nova forma de relação com Deus.
João 1,19-28 não é apenas apresentação histórica de João Batista. É crítica à religião que exige credenciais, convite à humildade que aponta para além de si e alerta permanente: o Messias pode estar no meio de nós e ainda assim não ser reconhecido.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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