No final do Ano Litúrgico, quando a Igreja ergue sua voz para proclamar Cristo como Rei do Universo, o contraste entre a liturgia e o mundo torna-se inevitável. As leituras do 34º Domingo do Tempo Comum são um mosaico que nos convida a enxergar a realeza não como domínio, mas como serviço radical, não como glória bélica, mas como entrega silenciosa, não como poder vertical, mas como presença que restaura. A primeira leitura, de 2 Samuel 5,1-3, nos coloca diante da unção de Davi como rei, em que as tribos de Israel reconhecem nele alguém de sua própria carne e sangue. O salmista, no Salmo 121(122), convida à alegria diante da casa do Senhor, que é lugar de encontro e justiça. A segunda leitura, de Colossenses 1,12-20, nos apresenta o Cristo cósmico, imagem do Deus invisível, princípio e fim de todas as coisas, aquele que reconcilia pelo sangue da cruz. E o Evangelho de Lucas 23,35-43 coloca Cristo justamente na cruz, sem coroa de ouro, sem trono, cercado não por ministros, mas por soldados, ladrões e zombadores. A liturgia que já refletimos em 2022 escolhe esse texto para coroar o ano litúrgico porque é aqui, no lugar onde o mundo enxerga fracasso, que se revela a verdadeira realeza de Jesus. Esse Evangelho é proclamado também nas celebrações dedicadas à contemplação da Paixão, sobretudo no Domingo de Ramos e na Sexta-Feira Santa, fazendo eco com a denúncia da violência, da injustiça e dos poderes políticos e religiosos que se escondem atrás da legalidade para praticar o mal. E proclamá-lo na Solenidade de Cristo Rei é um gesto profundamente profético: ao contrário dos reis que se impõem pela força, o Cristo se revela Rei quando é despojado de tudo. Este Evangelho, portanto, ressoa em vários momentos: nas liturgias do fim do Ano Litúrgico, na catequese sobre a Paixão, na reflexão sobre a missão dos leigos e leigas que carregam a cruz no cotidiano, e sempre que a Igreja precisa recordar que reinar com Cristo não é dominar, mas servir e doar-se até o fim.
O paralelo com Mateus 27 e Marcos 15 enriquece a compreensão da cena. Em Mateus, aparecem injúrias mais duras, um escárnio coletivo que envolve até os crucificados. Marcos enfatiza a incompreensão radical dos que assistem, destacando a solidão de Jesus. Lucas, porém, é o único que apresenta o diálogo entre Jesus e o chamado “bom ladrão”, que a tradição nomeou Dimas. Essa singularidade lucana revela algo essencial: mesmo no limite extremo, a palavra do Cristo ainda abre portas, ainda suscita conversão, ainda cria possibilidade para o inesperado. Enquanto os poderosos exigem que Jesus desça da cruz para provar quem é, o malfeitor arrependido reconhece sua realeza justamente na cruz: “Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino”. A hermenêutica judaica capta o eco do pedido dirigido aos reis piedosos: lembrar é fazer justiça, é restaurar a dignidade, é recriar o vínculo. O pedido de Dimas não é sobre o além; é sobre o agora. Ele reconhece no crucificado o Rei cuja memória é vida.
A resposta de Jesus — “Hoje estarás comigo no paraíso” — precisa ser lida com profundidade histórica e bíblica. O “hoje” lucano é decisivo: desde o início do Evangelho, quando Jesus proclama na sinagoga “Hoje se cumpriu esta Escritura” (Lc 4,21), passando pela salvação oferecida a Zaqueu — “Hoje a salvação entrou nesta casa” (Lc 19,9) — até o Calvário, o “hoje” indica o tempo da salvação que rompe a cronologia e inaugura o tempo de Deus. O “paraíso”, por sua vez, evoca o jardim do Gênesis, o lugar da origem em que o ser humano vivia em comunhão plena. Jesus promete não um lugar distante, mas o retorno à intimidade perdida. É a restauração do humano dilacerado pela violência. A teologia patrística via nesse “hoje” o anúncio da vitória do Cristo sobre a morte antes mesmo da ressurreição visível. Orígenes afirma que o paraíso não é apenas o destino final, mas a experiência da alma que se volta totalmente para Deus.
A ciência histórica mostra que a crucificação era uma execução política típica do Império Romano, destinada a subversivos e escravos. Assim, Jesus é executado como ameaça à ordem imperial. Isso dialoga diretamente com a Solenidade de Cristo Rei, instituída em 1925 por Pio XI na encíclica Quas Primas, diante da ascensão de regimes totalitários, nacionalismos violentos e ideologias que absolutizavam o Estado. A festa de Cristo Rei é, desde sua origem, uma denúncia profética do poder que oprime. No Dia do Leigo, essa denúncia se torna ainda mais urgente: o Reino é confiado ao povo de Deus que vive no mundo, nas fronteiras, nos espaços públicos e privados onde a cruz é levantada de novos modos.
Os símbolos do Evangelho de Lucas 23,35-43 são densos e merecem atenção.
- A inscrição colocada sobre a cruz — “Este é o Rei dos Judeus” — carrega ironia política. Para os romanos, é uma acusação; para os líderes religiosos, um ultraje; para os discípulos, um mistério. Em João 19, esse conflito é mais explícito, quando os chefes pedem para alterar a inscrição e Pilatos responde: “O que escrevi, escrevi”. O símbolo da inscrição é teologicamente ambíguo: é ao mesmo tempo zombaria e revelação. O que os inimigos escrevem para humilhar torna-se, paradoxalmente, a proclamação da verdade. Essa ironia é comum nas Escrituras: Balaão abençoa Israel quando pretendia amaldiçoá-lo; José é vendido e isso se torna caminho de salvação; a cruz é instrumento de morte que se converte em trono.
- O gesto dos soldados, que repartem as vestes e tiram sortes, retoma o Salmo 22(21), que descreve o sofrimento do justo e sua confiança radical. A exegese mostra que Lucas ecoa intencionalmente esse salmo: o justo injustiçado permanece fiel e se entrega nas mãos de Deus. Mas há algo sociológico na cena: a violência institucional transforma corpos em mercadoria, ao ponto de roubar até a roupa do condenado. Hoje, a lógica neoliberal que mercantiliza tudo continua crucificando corpos descartáveis, reduzindo vidas a números, destruindo povos, culturas e ecossistemas. A cruz continua sendo o lugar dos que não têm voz, dos que carregam culpas impostas por sistemas que lucram com sua marginalização.
- O vinagre (oxos) oferecido a Jesus. Muitos imaginam esse gesto como caridade, mas a história militar e arqueológica do Império Romano mostra exatamente o contrário. O “vinagre” não era vinagre culinário, mas uma mistura azeda e barata de água com acidez residual — usada como bebida dos soldados porque era mais segura que água pura, e sobretudo utilizada em acampamentos militares e latrinas, onde servia como substância de limpeza, desinfecção e higienização dos utensílios e bastões usados nos banheiros coletivos. Os estudos sobre higiene romana revelam que o mesmo “oxos” usado nas execuções era utilizado para limpar os instrumentos do banheiro de campanha, e não há qualquer traço de compaixão no ato. Oferecer essa substância a um crucificado era, na sua origem, um gesto de deboche cruel, equivalente a dar algo impróprio para beber, algo socialmente associado ao espaço dos dejetos, da sujeira e do desprezo. Longe de ser caridade, é violência simbólica: uma humilhação adicional para reforçar que o condenado não merecia dignidade nem no sofrimento.
Os elementos filosóficos também iluminam o texto. Hannah Arendt, ao falar da banalidade do mal, descreve como pessoas comuns podem participar de sistemas opressores sem perceber. Os chefes que zombam, os soldados que obedecem, o povo que olha — todos participam, de algum modo, do mecanismo de morte. A cruz, então, se torna espelho da humanidade. Kierkegaard via na figura de Cristo o paradoxo absoluto: o eterno revelado no finito, o poder revelado na fraqueza. E é justamente nessa fraqueza que a teologia cristã encontra a manifestação plena do amor. Não é um amor romântico ou abstrato, mas um amor que assume a violência do mundo e a transforma por dentro.
A aplicação contemporânea é inevitável. A Solenidade de Cristo Rei, no contexto de crises políticas, extremismos violentos, fundamentalismos religiosos, idolatria do dinheiro e discursos de ódio, é profundamente atual. O Dia do Leigo recorda que o Reino é construído no cotidiano, por homens e mulheres que lutam pela justiça, pela paz, pela inclusão, pela honestidade, pela defesa dos pobres e vulneráveis. O Papa Francisco — vivo em sua palavra e magistério — insiste que o Reino se reconhece onde há misericórdia, cuidado com a Casa Comum, defesa dos migrantes, combate às desigualdades, superação do clericalismo e protagonismo dos leigos. E mesmo após sua morte, sua mensagem permanece como farol ético.
A psicologia pastoral lembra que muitos cristãos se sentem como Dimas: feridos, culpados, marcados por histórias difíceis, mas ainda capazes de olhar para o Crucificado e pedir “lembra-te de mim”. A sociologia urbana mostra que nossas cidades crucificam diariamente jovens negros, mulheres, indígenas, pobres, pessoas LGBTQIA+, trabalhadores explorados, moradores de rua. A filosofia política denúncia sistemas que produzem vítimas para manter privilégios. A teologia cristã proclama que Cristo está presente em cada crucificado da história. E a liturgia deste Domingo afirma que a resposta do Rei é sempre a mesma: “Hoje estarás comigo”.
No horizonte bíblico, o Reino não é território ou poder, mas presença e justiça. Em Ezequiel 34, Deus denuncia os pastores que exploram o rebanho e promete cuidar pessoalmente das ovelhas. Em Daniel 7, o Filho do Homem recebe um reino eterno que não se corrompe. Em Apocalipse 1, Cristo é “o soberano dos reis da terra”, aquele que nos libertou pelo seu sangue. O Reino, portanto, é um movimento contínuo de restauração. A cruz é o lugar onde o Reino se revela porque nela o amor se mostra mais forte que a violência. O trono de Cristo é a cruz; sua coroa é de espinhos; seus ministros são os crucificados da história; seu decreto é o perdão; seu exército é formado por leigos e leigas que tornam o mundo mais humano; sua bandeira é a misericórdia; seu palácio é o coração dos que sofrem; seu território é onde a justiça floresce.
Ao final, o “hoje” do Evangelho nos alcança. Não é apenas o hoje de Dimas, mas o nosso. Hoje Cristo entra no nosso mundo marcado por polarizações, ódio político, fake news, idolatrias ideológicas, teologias de prosperidade que triunfam sobre a cruz, discursos religiosos que legitimam violência. Hoje Cristo reina do alto da cruz e denuncia tanto os Pilatos que lavam as mãos quanto os Herodes que buscam espetáculos. Hoje Cristo chama o povo a deixar de ser espectador e tornar-se discípulo. Hoje Cristo chama leigos e leigas a viverem sua missão como sal da terra e luz do mundo, não com discurso midiático, mas com testemunho concreto, ético, profético e comprometido. Hoje Cristo inaugura para cada um de nós um paraíso possível: a comunhão que restaura, a memória que acolhe, a esperança que não desiste, a vida que brota mesmo em meio às trevas.
E assim, no fim do Ano Litúrgico, voltamos ao início: ao Deus que, em Cristo, reconcilia tudo consigo, ao Reino que não é deste mundo, mas transforma este mundo; ao Rei coroado de espinhos que reina servindo; ao leigo e à leiga que, no silêncio do cotidiano, tornam visível um Reino que não se impõe, mas floresce; ao “hoje” eterno que continua ecoando no coração de quem ousa pedir: “Lembra-te de mim”. Porque o verdadeiro reinado começa quando o amor se entrega, e termina nunca — pois o amor, uma vez dado, nunca volta atrás.
Parabéns ao Laicato que vive a cidadania batismal!
DNonato - Teólogo do Cotidiano


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