Lá atrás, quando ainda vestia verde-oliva e fazia continência torta, Bolsonaro já dava sinais de que o Exército não seria exatamente seu lar definitivo. Em 1988, viveu seu pequeno momento “preso”, detido após envolvimento num plano quase pastelão: cogitou explodir bombas em quartéis para pressionar por reajuste salarial. Lula foi preso por organizar greves de trabalhadores; Bolsonaro, por querer explodir banheiro de quartel. Um defendia direitos sociais; o outro defendia o direito de fazer barulho. A comparação histórica é tão absurda que parece piada pronta — e, como toda boa piada, sobra para o capitão o papel mais constrangedor, aquele personagem que acha que está num filme de ação, mas que, na verdade, foi escalado para o elenco de Os Trapalhões Perdem a Linha.
E, não foi uma detenção qualquer. O julgamento militar registrou insubordinação, comportamento inadequado, temperamento explosivo (literalmente) e incompatibilidade com a hierarquia. Em vez de subir na carreira, Bolsonaro desceu a rampa do quartel expulso, devolvido ao mundo como quem devolve à loja um produto que veio com defeito. O Exército não puniu um gênio incompreendido; apenas liberou espaço no alojamento e suspirou em alívio coletivo. Ele não saiu como mártir — saiu como alívio. E, como sabemos, nada é mais eloquente do que o silêncio agradecido de uma instituição inteira.
Corta para o presente, e o destino — esse roteirista perverso que trabalha sem dó, sem pausa e aparentemente sob influência de substâncias literárias — decide criar uma sequência tardia desse enredo infantil mal contado. A prisão preventiva — que não é pena, castigo, retaliação, nem a vingança de um juiz mal-humorado — existe para evitar riscos enquanto o processo anda. Exige indícios de autoria (fumus delicti) e perigo concreto derivado da liberdade do investigado (periculum libertatis). Ou seja: nada a ver com perseguição ideológica; tudo a ver com o comportamento do investigado. E Bolsonaro, nesse quesito, é um funcionário exemplar da autossabotagem. Ele entrega material o suficiente para a Justiça encher três pendrives, dois HDs externos e ainda sobrar espaço para um documentário. E, mais uma vez, Bolsonaro ajuda. Parece até que treina para isso. Tentou adulterar a tornozeleira eletrônica num esquema que faria vergonha até em mecânico de esquina sem alvará. O ex-presidente que prometia ser o xerife da nação virou o vilão patético do episódio, flagrado tentando enganar justamente o dispositivo que lhe permitia estar em casa vendo TV e comendo pão com leite condensado. É de uma ironia tão fina que poderia entrar no Porta dos Fundos sem ajustes. Um homem que repetiu exaustivamente que “bandido bom é bandido morto” agora tenta sobreviver como bandido que não consegue nem derreter uma tornozeleira sem queimar a própria panturrilha. Quem diria que o destino teria um senso de humor tão ácido?
Lula, o fantasma incômodo permanente no inconsciente do bolsonarismo. Porque essa turma, que passou anos berrando “Lula ladrão, Lula preso, Lula na Papuda”, agora precisa se contentar com o plot twist mais humilhante da política recente: Lula saiu inocentado, voltou, se elegeu, governa e recebe líderes mundiais; Bolsonaro tenta burlar tornozeleira com ferro de solda emprestado. Lula enfrentou o sistema; Bolsonaro enfrentou um monitor eletrônico e perdeu. Lula atravessou a história como quem volta de um exílio; Bolsonaro virou subtrama de comédia pastelão. Um é reconhecido internacionalmente; o outro tenta explicar por que sua tornozeleira parece ter passado por oficina de funilaria clandestina. Há diferenças que nem o algoritmo mais fiel do Telegram consegue apagar.
A narrativa do bolsonarismo, antes tão confiante, derrete igual cola quente no sol. O “mito” agora é réu com tornozeleira adulterada. O “paladino da moralidade” agora responde por fraude rudimentar que nem adolescente de 14 anos tentaria com medo da mãe descobrir. E o homem que gritava aos quatro ventos “bandido bom é bandido morto” agora torce para que a frase não seja interpretada literalmente, porque se for, a autodefinição é automática. A vida tem dessas ironias que nem Aristófanes, no auge, teria coragem de escrever.
O Brasil, que assistiu à prisão de Lula com tensão, debates internacionais, júris morais e editoriais infindáveis, agora assiste à prisão de Bolsonaro com um suspiro do tipo: “Finalmente o enredo fez sentido.” A sensação é de que o sujeito cavou o próprio buraco com a persistência de quem faz lives diárias, mas não lê nem bula de remédio. Lula saiu maior do cárcere; Bolsonaro sai menor da tornozeleira. Lula deu a volta completa; Bolsonaro trocou a volta por curto-circuito artesanal. Lula voltou ao poder; Bolsonaro tenta voltar da própria trapalhada. Se fosse corrida, Lula completou a maratona; Bolsonaro se embananou ao tentar amarrar o cadarço.
E enquanto isso, a democracia respira. Não porque Lula venceu e Bolsonaro perdeu — mas porque a lei, às vezes, funciona. Lula foi preso por mobilizar trabalhadores; Bolsonaro por tentar dobrar um equipamento eletrônico que nem o estagiário da Polícia Civil teria coragem de mexer. Lula voltou; Bolsonaro, por enquanto, tenta voltar do próprio fiasco. A vida política brasileira sabe criar personagens, mas só alguns sobrevivem ao teste do tempo — e à prova da inteligência. Enquanto seus seguidores choram, gravam vídeos tremendo o celular, fazem promessas, convocam vigílias e tentam racionalizar o irracional, a crônica nacional sorri. Porque no fundo — no fundo mesmo — a verdade mais dolorosa para o bolsonarismo é simples, direta e inevitável: não é perseguição. É consequência. E a lei, quando funciona, não pergunta quem é mito, quem tem fã clube ou quem faz motociata. Ela simplesmente age. Mesmo que doa. Mesmo que destrua narrativas. Mesmo que transforme quem se achava herói em figura permanente de meme.
E se ainda faltava um detalhe final, aqui está: no balanço geral, a culpa é dos filhos, claro — cada um com sua parcela de caos administrativo, seu conselho torto e sua live criminosa. Mas também é de quem emprestou o ferro de solda, protagonista involuntário desta ópera cômica da decadência. Se existe justiça poética, esse ferro deveria depor como testemunha ocular da burrice. Se existe ironia divina, o capitão deveria ser lembrado eternamente como o homem que tentou driblar a Justiça e perdeu para uma tornozeleira.
Porque, no fim, bandido bom não é bandido morto; bandido bom é bandido preso, monitorado, recolhido… e proibido de chegar perto de qualquer ferramenta elétrica.
E, no fim do episódio, quando o Brasil inteiro já está de pijama, rindo ou revirando os olhos, sobra aquela conclusão que ninguém pediu, mas que o destino entregou com a pontaria de um humorista cruel: a prisão do capitão está doente. Precisando de repouso, hidratação, olhar no horizonte e talvez até um chá de camomila institucional. Porque, convenhamos, prisão preventiva é como febre democrática — aparece quando o corpo político detecta uma infecção grave. E Bolsonaro, coitado, já está acostumado com esse tipo de diagnóstico: sempre que a lei aperta, ele descobre sintomas, apresenta atestados, pede descanso e declara publicamente que está “abalado”.
Mas é curioso: para disputar eleição, para comandar um país, para fazer motociata, para imitar gente agonizando por falta de ar ou para receitar cloroquina ao mundo inteiro, ele tinha “histórico de atleta”. Pulmão de aço, moral de titânio, coluna de granito. Agora, diante de uma tornozeleira e de um mandado judicial, o histórico de atleta vira histórico de atleta que não passou no TAF da honestidade. A saúde política do ex-presidente está tão debilitada que qualquer medida cautelar vira UTI moral — e, para a vida pública, ele está clinicamente inapto desde 1988, quando confundiu reivindicação salarial com explosão de banheiro de quartel.
Se depender do currículo, Bolsonaro tem mesmo histórico de atleta: atleta especializado em salto triplo — salta regras, salta leis e salta para a primeira oportunidade de se vitimizar. Um verdadeiro velocista moral, fugindo sempre do próprio rastro. Só faltava agora pedir aposentadoria por invalidez democrática.
Mas, olhando bem, talvez seja isso que a história está tentando dizer: a prisão dele não está doente — está apenas em plena forma. E, ironicamente, é o capitão que não aguenta mais uma volta na pista da legalidade. Porque para presidente ele tinha histórico de atleta; para enfrentar a Justiça, aparentemente, não tem nem o histórico de quem sabe apertar um botão de tornozeleira sem buscar um ferro de solda.
Para fechar essa ópera tragicômica que o Brasil insiste em encenar, fica o recado que não veio de live, nem de gabinete paralelo, nem de coach patriótico de internet. Veio de mais alto — não daquele “acima de tudo” falsificado em slogan de campanha, mas do Deus real, o que não se deixa sequestrar por ideologias atravessadas, nem por delírios messiânicos de quem confunde fé com fake news. E Deus mandou informar que está acima de tudo, sim — mas acima de tudo isso que enlouquece o país: acima da histeria digital, acima das manipulações baratas, acima dessa fábrica tóxica de mentiras que transformou meia dúzia de frases feitas em dogma e transformou um capitão em caricatura. Deus está acima até dessa loucura ideológica que ainda tenta sobreviver à base de corrente de WhatsApp, fanatismo histérico e notícia inventada em porões de ressentimento. Porque, no fim, o divino não se dobra a tornozeleira adulterada, nem a rota de fuga mal planejada, nem ao mito rachado pela própria incoerência. E se existe uma ordem que permanece, mesmo quando tudo parece entrar em curto-circuito, é esta: a verdade, cedo ou tarde, se impõe. Mesmo que doa. Mesmo que derrube ídolos. Mesmo que desmascare o que nunca passou de encenação. E, diante dela, não há fake news que resista, nem solda que conserte, nem narrativa que esconda o óbvio: mito desmitificado, caso encerrado.
Prof: DNonato - De ressaca na preventiva, disposto a beber mais na definitiva


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