Jesus responde deslocando completamente o eixo da discussão. Ele não entra no jogo da disputa intelectual, nem aceita que a vida futura seja pensada com as categorias da vida presente. Sua resposta, na cultura de ontem e de hoje, revela um princípio antropológico profundo: a vida da ressurreição não é continuação melhorada da vida mortal; é outra forma de existir. Não se trata de negar o valor do matrimônio — mas de lembrar que o amor humano é sinal, não posse; caminho, não termo; sacramento, não eternização da mesma estrutura. Na vida futura não se casa nem se dá em casamento: não porque o amor acaba, mas porque ele alcança sua plenitude, livre de toda apropriação, de toda lógica de controle, de todo cálculo hereditário. Jesus resgata, inclusive, a dignidade daquela mulher utilizada como mero argumento. É como se dissesse: “Na ressurreição, ninguém pertence a ninguém. Todos pertencem ao Deus da vida.” Em culturas marcadas pela desigualdade, essa palavra é revolução: Deus não sustenta estruturas de exploração, mas abre espaços de liberdade. A ressurreição, então, não é um detalhe doutrinal, mas um grito político e espiritual contra qualquer sistema que trate pessoas como objetos.
Ao citar Moisés diante da sarça ardente, Jesus faz uma inculturação surpreendente: ele retorna às raízes do imaginário do seu povo para dizer que o Deus que se revelou no fogo que não se consome é um Deus que mantém vivos Abraão, Isaac e Jacó, não porque eles são lembrados num livro, mas porque vivem diante dele. Para culturas afrodescendentes e indígenas, essa afirmação ressoa profundamente: os antepassados não estão mortos; vivem na memória, no sopro, na presença que sustenta a comunidade. No cristianismo, essa verdade ganha plenitude no Deus que não deixa cair no vazio a vida que Ele mesmo gerou. A ressurreição é, portanto, a confirmação divina de que a história não termina no túmulo — nem no túmulo social, nem no econômico, nem no político, nem no espiritual. Jesus, com poucas palavras, desmonta a arrogância dos saduceus e abre o horizonte de uma fé que não cabe em esquemas. Por isso alguns doutores da Lei — talvez cansados das disputas mesquinhas — reconhecem: “Mestre, falaste muito bem”. Eles percebem que Jesus devolve Deus ao seu lugar: não o lugar do controle, mas da vida; não o lugar da burocracia religiosa, mas da esperança radical; não o lugar do medo, mas da liberdade.
A inculturação deste texto, no Brasil de hoje, nos faz questionar: quantas vezes transformamos a fé em debate de propriedade? Quantas vezes discutimos normas enquanto corpos são esmagados pela pobreza, pela violência, pela desigualdade? Quantas vezes falamos de casamento, vocação, ministérios, moral, como se fossem categorias frias — esquecendo que Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos? A Palavra de hoje nos convida a deixar cair as perguntas que nascem da dureza de coração e a abraçar aquelas que nascem da busca sincera, como quem entra descalço diante da sarça que arde.
Em última instância, Jesus nos devolve à essência: viver para Deus não significa viver em função de regras que petrificam, mas viver abertos ao futuro que Ele nos oferece. A ressurreição não é fuga, mas horizonte; não é mito, mas promessa; não é anestesia, mas coragem para enfrentar o presente sabendo que a vida nunca é a última palavra — porque o Deus da vida sempre terá algo novo a dizer.
Essa abertura do horizonte já dialoga com a visão apocalíptica de Isaías 25,6-9, quando o Senhor “aniquilará a morte para sempre” e enxugará as lágrimas de todos os rostos. A profecia não é decorativa: ela é semente de esperança num povo escravizado, violentado, derrotado por impérios. É a mesma certeza repetida em Oséias 6,2 (“Ele nos fará viver”) e retomada por Paulo em 1Coríntios 15,55 (“Onde está, ó morte, a tua vitória?”). Quando a liturgia propõe Lucas 20, ela nos põe em harmonia com toda essa tradição bíblica de rebeldia contra o destino aparente. Nesse cenário denso, Jesus está no Templo de Jerusalém, poucos dias antes da Paixão. O ambiente é de tensão crescente: autoridades religiosas buscam motivos para acusá-lo, armam perguntas capciosas, tentam colocá-lo em contradição para enfraquecer sua autoridade diante do povo. Entre esses grupos surgem os saduceus, aristocracia sacerdotal, classe alta, vinculada profundamente ao sistema do Templo e ao poder político romano. Os saduceus, diferentemente dos fariseus, rejeitavam a tradição oral e aceitavam somente a Torá como Escritura plenamente normativa. E porque não encontravam na Torá uma formulação explícita da ressurreição dos mortos, negavam essa esperança que florescia na tradição profética, sapiencial e apocalíptica.
Esse negacionismo os colocava em oposição direta às tradições tardias do judaísmo, como se vê no martírio dos sete irmãos em 2Macabeus 7, que afirmam diante da tortura: “É do Céu que recebi estes membros; por causa de Suas leis os desprezo, e dele espero recebê-los novamente”. O contraste é gritante: os pobres perseguidos creem mais na eternidade que os ricos protegidos pelo sistema. É o mesmo contraste que Deus denuncia em Amós 6,1 (“Ai dos que vivem tranquilos em Sião”) e que Maria canta no Magnificat (Lc 1,52–53): Deus derruba poderosos e exalta humildes. A recusa dos saduceus não é simples divergência interpretativa; é uma resistência existencial.
É nesse ponto que o livro da Sabedoria atinge seu alvo: “A nossa força será a norma da justiça” (Sb 2,11). Quando o poder material se torna critério de verdade, toda transcendência é descartada. O profeta Ezequiel já denunciava esse endurecimento de coração (Ez 36,26), e Jesus o retoma quando acusa seus opositores de terem “coração endurecido” (Mc 3,5). Quem vive confortavelmente instalado numa ordem injusta tende a rejeitar qualquer esperança que transforme essa ordem. E aqui o texto toca nosso tempo com força profética. Pois esse materialismo religioso dos saduceus não desapareceu: reaparece nas teologias da prosperidade, do domínio, nas espiritualidades neoliberais que transformam fé em investimento, Deus em acionista majoritário dos desejos humanos, e culto em show de autopromoção. São espiritualidades que, como os saduceus, creem apenas na parte da Escritura que lhes convém; ignoram a cruz; silenciam a justiça; canonizam a riqueza; perpetuam desigualdades; e reduzem a fé a ferramenta para legitimar privilégio.
Como Jeremias denuncia, “os profetas profetizam mentiras, e o meu povo gosta assim!” (Jr 5,31). Essas pseudo-teologias não suportam a ressurreição porque a ressurreição desmonta seus ídolos. Se existe vida eterna, não existe prosperidade que salve egoísmo; se existe juízo, não existe riqueza que compre silêncio de Deus. A esperança futura desmonta a idolatria do presente.
A armadilha dos saduceus, construída com aparência de lógica jurídica, apresenta uma situação caricatural baseada na lei do levirato (Dt 25,5-10): uma mulher que teria sido esposa sucessivamente de sete irmãos. A pergunta — “de qual deles ela será esposa na ressurreição?” — não é inocente. É uma tentativa de ridicularizar a fé na vida futura, reduzindo-a à lógica matrimonial e patrimonial deste mundo. A caricatura lembra a zombaria que os ímpios fazem do justo em Sabedoria 2,1-20 e a ironia dos escarnecedores em 2Pedro 3,3-4 (“Tudo permanece como sempre esteve…”). O riso dos saduceus é o mesmo riso dos cínicos de hoje.
Jesus responde com maestria. Ele transcende a armadilha: “Na ressurreição não se casam” (Lc 20,35). Ele afirma que os ressuscitados “são semelhantes aos anjos”, ecoando Daniel 12,3, onde os justos “brilharão como o firmamento”. A ressurreição é transfiguração — como prenunciada no Tabor (Lc 9,28-36). Tomás de Aquino diz que a ressurreição é status gloriae: vida plena, liberta da corrupção, como Paulo descreve magistralmente em 1Coríntios 15,42-49.
Jesus, conhecendo o método hermenêutico dos saduceus, argumenta a partir da própria Torá que eles idolatravam. Cita Êxodo 3,6: “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”. Há aqui uma sutileza divina: Deus nunca se vincula ao nada. Seu Nome (YHWH), revelado em Êxodo 3,14, já indica um Deus vivo, atuante, dinâmico. É o mesmo Deus que jura a Davi: “Estabelecerei para sempre teu trono” (2Sm 7,16). Um Deus que promete eternidade precisa conceder eternidade.
Essa afirmação ecoa todo o Antigo Testamento: Daniel 12,2, Sabedoria 3,1, Ezequiel 37 com sua visão dos ossos secos, Jó 19,25 (“Eu sei que meu Redentor vive”), Isaías 26,19 (“Os teus mortos viverão”), Oséias 13,14 (“Morte, onde está teu aguilhão?”). A fé na ressurreição floresce onde há dor, porque esperança é força dos pobres.
O texto revela também uma tensão sociológica profunda: Jesus representa a fé viva; saduceus, a religião burocrática. É o conflito entre profecia e instituição, entre diálogo e poder, entre o Deus do Êxodo e o sistema faraônico. É o mesmo choque denunciado pelos profetas: Isaías 1,11–17, Amós 5,21–24, Miqueias 3,11. Jesus se insere nessa tradição.
A psicologia existencial ajuda-nos a compreender essa resistência: não é dúvida teológica — é medo. Crer na vida eterna é aceitar que Deus é maior que nossos esquemas. É por isso que Jesus diz aos saduceus: “Errais, porque não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22,29). Resistência à ressurreição é fechamento ao Deus vivo.
Jesus desmonta o sistema deles. E ao fazê-lo, revela que a ressurreição não é doutrina fria: é fogo interior. Como Paulo dirá: “Se Cristo não ressuscitou, vã é nossa fé” (1Cor 15,14). A ressurreição é revolução, é o fim do fatalismo, é o começo da liberdade. O ensinamento de Jesus também é libertação antropológica: na eternidade ninguém possui ninguém. É eco do Gênesis: “Não é bom que o ser humano esteja só” (Gn 2,18) — mas a comunhão eterna é transfigurada. É preparação para o Apocalipse 21, quando Deus será “tudo em todos” (1Cor 15,28). A ressurreição é o fim de toda lógica de dominação. A tradição patrística aprofunda: Tertuliano defende a carne; Orígenes vê a vida como travessia pascal; Agostinho mostra que a ressurreição começa agora na vida dos que amam; Crisóstomo denuncia os ricos que fecham os ouvidos à esperança; Ireneu afirma que Deus “forma o ser humano para a vida”
A crítica social é inevitável: ressurreição desmonta sistemas de morte. É incompatível com ódio político, com fanatismos, com o mercado transformado em teologia. A fé cristã não é anestesia; é combate, como Paulo pede em Efésios 6,10-18. Quem crê na ressurreição não teme denunciar como Elias denunciou Acab (1Rs 21), como João Batista denunciou Herodes (Mc 6), como Jesus denunciou os mercadores do Templo (Mt 21).
A liturgia proclama esse Evangelho ao fim do ano litúrgico porque quer reacender a esperança: “Aquele que vier virá” (Hb 10,37). Nada está perdido.
Os escribas elogiam Jesus, e os saduceus se calam. O silêncio deles é prelúdio da Cruz — mas Deus fará desse silêncio o caminho da Ressurreição
A ressurreição exige conversão. É preciso deixar morrer nossos sadduceísmos: nosso apego ao poder, ao dinheiro, à indiferença, ao cinismo, à fé-mercadoria. Paulo diz: “Despertai, tu que dormes!” (Ef 5,14). É tempo de ressurgir.
O Deus vivo chama-nos a lutar contra tudo que mata: fome, ódio, corrupção, racismo, violência, destruição da criação (Rm 8,19-22). Chama-nos a construir sinais de eternidade: pão, justiça, comunhão, solidariedade, verdade.
Por isso, ao contemplar esse Evangelho, deixemos que o Ressuscitado reacenda nossa chama. Como em Emaús (Lc 24,32), que nosso coração volte a arder.
E quando tudo disser “fim”, Deus dirá:
“Começo.”
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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