Quando Jesus pisa o chão estrangeiro dos gadarenos, não é apenas o território geográfico que se altera, é a própria ordem espiritual e social que começa a desmoronar. Depois de vencer o caos do mar, Ele enfrenta agora o caos que aprisiona o ser humano. O Reino de Deus não conhece fronteiras nem aceita que alguém permaneça condenado às geografias da exclusão. Os discípulos, no mar, temem morrer diante das ondas; os gadarenos, em terra, temem viver diante da libertação. Ambos se encontram diante do poder de Jesus, mas enquanto uns clamam por socorro, outros pedem que Ele vá embora. O medo é o mesmo: perder o controle sobre aquilo que julgavam dominar..Dois homens possuídos por demônios saem ao encontro de Jesus, vindos dos túmulos, lugares de morte e impureza segundo a Lei (cf. Nm 19,11-16). Marcos e Lucas apresentam apenas um homem; Mateus menciona dois, possivelmente para evidenciar que o mal não destrói apenas indivíduos, mas comunidades inteiras. A possessão deixa de ser apenas um drama pessoal para revelar também uma realidade estrutural, coletiva e social.
Esses homens perderam o nome, a casa, os vínculos e a dignidade. Vivem entre os mortos, afastados da convivência humana. Sua violência não nasce de sua natureza, mas do abandono. Marcos acrescenta que feriam a si mesmos com pedras, numa imagem profundamente humana da dor psíquica e existencial. Representam todos aqueles que foram expulsos da convivência social, invisibilizados pelas estatísticas, esquecidos pelas instituições e até pelas comunidades religiosas. Eles representam a fragmentação da identidade e o sofrimento de quem já não encontra sentido para viver. Orígenes afirmava que "a possessão é, muitas vezes, sinal da alma invadida por pensamentos estranhos à verdade". Nos relatos de Marcos e Lucas, Jesus pergunta o nome do espírito que os domina. Nomear significa devolver identidade, romper o anonimato da exclusão e iniciar um caminho de restauração. Antes de libertar, Cristo escuta.
Mateus vem denunciar a lógica da marginalização. Quando uma sociedade não sabe cuidar dos seus feridos, prefere escondê-los. Quando não consegue curar, isola. Quando a religião perde a compaixão, transforma sofrimento em culpa. Jesus faz exatamente o contrário. Aproxima-se dos excluídos, atravessa fronteiras proibidas e restitui aos marginalizados o direito de voltar à vida. Como recorda Leonardo Boff, a libertação envolve toda a pessoa, em sua dimensão espiritual, social e histórica. Libertar é devolver lugar na comunidade e restituir a dignidade perdida. A cena constitui uma verdadeira manifestação messiânica. Os demônios reconhecem Jesus como Filho de Deus antes mesmo de muitos dos que se consideravam religiosos. Perguntam se Ele veio atormentá-los antes do tempo, revelando que o juízo definitivo já começa a acontecer onde Cristo chega. Sua presença inaugura, no presente, aquilo que será pleno no fim dos tempos. Diante d'Ele não existe neutralidade. O Reino confronta inevitavelmente tudo aquilo que produz morte.
A manada de porcos, cerca de dois mil segundo Marcos, precipita-se no mar. Para além da questão da impureza ritual prevista em Levítico 11,7, os porcos simbolizam estruturas econômicas e sociais construídas sobre a exploração da vida. O texto não expressa desprezo pela criação, mas denuncia sistemas que transformam pessoas em mercadorias e fazem do lucro um ídolo. Também a criação, como afirma Paulo (Rm 8,22), geme esperando sua libertação. O prejuízo econômico provocado pela perda da manada explica a reação dos habitantes da cidade. Eles pedem que Jesus se retire. A libertação custa caro porque ameaça interesses estabelecidos. Sempre que o Evangelho toca privilégios, surgem resistências. Pierre Bourdieu observou que a religião pode servir tanto à dominação quanto à transformação social. O drama dos gadarenos consiste justamente em preferir preservar sua economia a celebrar a restauração de vidas humanas.
A crítica do Evangelho alcança igualmente toda forma de religião que se acomoda diante da injustiça. Quando comunidades de fé silenciam diante da violência, absolutizam o poder, transformam o nacionalismo em idolatria ou utilizam a religião para legitimar a exclusão, repetem, sob novas formas, o pedido dos gadarenos: "Retira-te daqui." O Cristo do Evangelho continua sendo incômodo porque sua presença desmonta privilégios, denuncia idolatrias e restitui dignidade aos descartados da história. Como afirma o Concílio Vaticano II na Gaudium et Spes, "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças dos discípulos de Cristo". A Igreja permanece fiel ao seu Senhor quando caminha ao lado dos feridos da história e não quando protege estruturas que perpetuam exclusões.
O gesto de Jesus realiza, de maneira concreta, o espírito do Jubileu descrito em Levítico 25. Libertam-se os cativos, restitui-se a dignidade aos excluídos e confrontam-se as estruturas que lucram com a opressão. Entre os túmulos acontece uma nova criação. Em Marcos e Lucas, o homem restaurado deseja seguir Jesus, mas recebe outra missão: voltar para casa e anunciar tudo o que Deus realizou em sua vida. O lugar da dor transforma-se em lugar da missão. A evangelização nasce da experiência da misericórdia. As cicatrizes tornam-se testemunho vivo da ação libertadora de Deus.
Toda a narrativa converge para um ensinamento decisivo:
- Os túmulos simbolizam a morte social
- os porcos representam estruturas que negociam a vida humana
- o mar recorda o caos já vencido pela autoridade do Criador.
Os gadarenos continuam existindo em todas as épocas. Manifestam-se sempre que povos originários, comunidades quilombolas, pessoas em situação de rua, migrantes, encarcerados, pessoas em sofrimento psíquico e todos os vulneráveis são tratados como descartáveis. Também aparecem quando igrejas preferem proteger privilégios a anunciar a justiça do Reino. Ao final, permanece uma pergunta dirigida a cada discípulo. Quando Cristo atravessa nossas fronteiras, denuncia nossos ídolos e rompe nossos pactos com aquilo que produz morte, qual será nossa resposta? Teremos coragem de acolher sua libertação, mesmo quando ela exige conversão e renúncia, ou lhe pediremos que se retire para que nossos "porcos" permaneçam seguros?
O Evangelho não termina com a derrota dos demônios, mas com o início de uma vida nova. Jesus continua atravessando mares, entrando em nossos territórios, quebrando correntes e devolvendo voz aos silenciados. A verdadeira questão não é se Ele tem poder para libertar. A questão é se estamos dispostos a permitir que essa libertação transforme também nossas escolhas, nossas estruturas e nosso modo de viver a fé. Sobra uma interrogaçãooculta do texto; queremos voltar à tua casa? Queres contar o que o Senhor fez por nós ou preferimos que jesus se retire, para que os nossos porcos permaneçam em paz?
0remos, como resposta a Jesus:
- Senhor da travessia, que atravessas os mares do medo e nos encontras entre os túmulos, liberta-nos de tudo o que nos prende à morte.. Dá-nos nome, voz e missão. E quando quisermos te expulsar para preservar nossos porcos, .sopra sobre nós o Espírito da verdade, e ensina-nos de novo a viver. Amém.
DNonato – Teólogo do Cotidiano
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