Nesse horizonte, o Segundo Domingo do Tempo Comum ocupa um lugar estratégico na pedagogia litúrgica da Igreja. Ele prolonga o dinamismo iniciado na Epifania e no Batismo do Senhor, quando Jesus se manifesta publicamente como o Filho amado, reconhecido e enviado pelo Pai. A liturgia, agora, desloca o foco da simples revelação da identidade de Jesus para o impacto dessa revelação na vida dos que o encontram. Trata-se de um tempo em que a comunidade cristã é conduzida a discernir, passo a passo, sua própria identidade, sua missão no mundo e a responsabilidade histórica que brota do seguimento de Jesus, não como ideia religiosa, mas como escolha existencial e compromisso concreto com o Reino.
A liturgia da Palavra deste domingo — Isaías 49,3.5-6; Salmo 39(40); 1Coríntios 1,1-3; João 1,29-34 de forma um conjunto de rara coerência teológica. Não se trata de leituras justapostas, mas de um verdadeiro itinerário vocacional que articula chamado, envio, identidade, testemunho e compromisso histórico. O Lecionário Romano, ao organizar essas perícopes, revela uma profunda intuição pastoral: não se pode falar de fé sem falar de missão, nem de culto sem falar de responsabilidade social.
O texto de Isaías 49 pertence aos chamados cânticos do Servo do Senhor, elaborados no contexto dramático do exílio babilônico. O povo de Israel experimenta a perda da terra, do templo, da monarquia e das referências religiosas tradicionais que sustentavam sua identidade. Trata-se de uma crise não apenas política, mas teológica: onde está Deus quando tudo parece ruir? É precisamente nesse cenário de fracasso histórico que emerge a figura do Servo, chamado desde o ventre materno não para um projeto individual de sucesso, mas para ser sinal da fidelidade de Deus no meio da ruína. A missão inicialmente dirigida à restauração de Israel se expande para um horizonte universal: “é pouco que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó; eu te farei luz das nações, para que a minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6).
A vocação bíblica, portanto, nunca é privilégio intimista nem fuga espiritualista. Ela é sempre responsabilidade histórica. O Servo não se impõe pela força, não domina, não subjuga. Ele se oferece como mediação de esperança num mundo ferido. Aqui já se delineia uma crítica radical a toda forma de messianismo político-religioso que confunde eleição com superioridade e missão com poder. A eleição bíblica não é para isenção do sofrimento, mas para maior compromisso com a vida dos outros.
O Salmo 39(40) aprofunda essa intuição ao deslocar o centro da experiência religiosa do sacrifício ritual para a obediência existencial. “Sacrifício e oblação não quiseste; abriste, porém, os meus ouvidos” (Sl 40,7). No horizonte bíblico, ouvir é mais do que escutar sons; é deixar-se transformar pela Palavra. O verdadeiro culto não se reduz a práticas exteriores, mas se expressa numa vida que se alinha com a vontade de Deus. Esse salmo, relido à luz da tradição cristã, prepara o caminho para compreender o sentido profundo do Cordeiro de Deus: não como legitimação de uma violência sagrada, mas como expressão máxima de uma entrega livre, consciente e amorosa.
Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo escreve a uma comunidade atravessada por divisões internas, disputas de poder, vaidades espirituais e instrumentalização dos dons. Ao saudá-los como “chamados a ser santos” (1Cor 1,2), ele recoloca o eixo da vida cristã no lugar correto. Antes de qualquer ministério, carisma ou liderança, existe um chamado comum à santidade, que se concretiza na comunhão, na partilha e no serviço. Essa afirmação tem enorme densidade eclesiológica e impede que a figura do Cordeiro seja apropriada por projetos religiosos autorreferenciais, ideológicos ou excludentes. A santidade bíblica não é separação do mundo, mas forma concreta de habitar o mundo à maneira de Deus.
É nesse horizonte que o Evangelho de João proclama Jo 1,29-34. Esse texto ocupa um lugar singular no Lecionário Romano. Ele é proclamado no Segundo Domingo do Tempo Comum do Ano A (reflexão em nosso blog de 2023), no Lecionário Dominical, e também no dia 3 de janeiro, (reflexão aqui no blog) ainda dentro do Tempo do Natal, no Lecionário Ferial. Essa dupla inserção não é um detalhe técnico, mas uma chave hermenêutica decisiva. A liturgia insiste que o mistério do Cordeiro só pode ser compreendido à luz da Encarnação. O Verbo que se fez carne é o mesmo que tira o pecado do mundo. A salvação não acontece fora da história, mas no interior da carne humana, com suas fragilidades, ambiguidades e contradições.
O Evangelho de João não descreve o batismo de Jesus (liturgia do domingo passado) como fazem os sinóticos. Ele prefere apresentar o testemunho interpretativo de João Batista. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Essa afirmação concentra em si toda a história da salvação. O símbolo do cordeiro atravessa a Escritura como fio condutor da relação entre Deus e a humanidade. Em Gênesis 22, o cordeiro aparece como substituto no lugar de Isaac, revelando que o Deus bíblico não deseja sacrifícios humanos, mas confiança e vida. No Êxodo, o cordeiro pascal marca a libertação do povo escravizado, quando o sangue nos umbrais das portas se torna sinal de vida em meio à morte (Ex 12). Em Isaías 53, o Servo sofredor é comparado a um cordeiro levado ao matadouro, silencioso diante da violência injusta. João Batista recolhe essas tradições e as relê à luz da pessoa e da missão de Jesus.
Do ponto de vista exegético, a expressão “tirar o pecado do mundo” não se limita à dimensão moral individual. Em João, o “mundo” designa uma realidade atravessada por estruturas de fechamento, mentira, opressão e morte. O pecado é também estrutural, social e histórico. O Cordeiro não vem apenas aliviar culpas pessoais, mas desarticular sistemas que produzem exclusão. Essa leitura encontra forte ressonância nos sinóticos: Jesus cura no sábado, toca o leproso, acolhe o paralítico, senta-se à mesa com publicanos e chama Mateus para segui-lo. Cada gesto rompe fronteiras religiosas e sociais e revela uma prática concreta de libertação.
João Batista ocupa um lugar decisivo nesse processo. Ele afirma não conhecer Jesus até que o Espírito se manifeste. No vocabulário bíblico, conhecer é sempre relacional. João aprende quem é Jesus no dinamismo da experiência espiritual. O Espírito que desce e permanece sobre Jesus evoca o Espírito criador de Gênesis 1, inaugurando uma nova criação. Essa dimensão pneumatológica impede qualquer tentativa de controle da missão. Onde o Espírito é silenciado, a religião se torna rígida, funcional, moralista ou mercantil.
A antropologia bíblica que emerge desse texto revela um ser humano chamado à resposta livre e responsável. Jesus não recruta seguidores por meio de promessas de sucesso, poder ou prosperidade. Ele desperta um desejo que reorganiza o sentido da vida. Psicologicamente, isso exige amadurecimento da fé. Uma espiritualidade baseada em barganhas com Deus infantiliza o sujeito religioso e abre espaço para as teologias da prosperidade e do domínio, que transformam o Evangelho em instrumento de ascensão pessoal e legitimação da desigualdade.
A figura do Cordeiro confronta diretamente as lógicas de violência que estruturam nossas sociedades. Em um país marcado por profundas desigualdades, onde milhões vivem sob insegurança alimentar, a fé no Cordeiro exige indignação ética. Reclamar da simplicidade do alimento enquanto outros passam fome revela uma espiritualidade desconectada da realidade. O Evangelho é claro: Cristo se identifica com os famintos, os doentes e os excluídos (Mt 25,31-46). Qualquer discurso religioso que legitime o desprezo pelos pobres trai o núcleo da fé cristã.
Essa compreensão encontra sólido respaldo na Doutrina Social da Igreja. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma logo no início que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Nos números 63 a 66, o Concílio denuncia sistemas econômicos que absolutizam o lucro e recorda que toda atividade econômica deve estar a serviço da pessoa humana e do bem comum.
Em Rerum Novarum, Leão XIII já afirmava que o trabalho não pode ser tratado como mercadoria (RN 43) e que a dignidade do trabalhador precede o capital. O Papa Francisco retoma e radicaliza essa tradição em Evangelii Gaudium, ao denunciar uma economia que mata (EG 53) e ao afirmar que não se pode confiar cegamente nas forças do mercado (EG 204). Em Fratelli Tutti, ele aprofunda essa crítica ao lembrar que “ninguém se salva sozinho” (FT 32) e que a fraternidade exige processos históricos de encontro, mesmo atravessados por conflitos e desencontros (FT 215).
A liturgia traduz essa teologia em símbolos concretos. O Tempo Comum, marcado pela cor verde, não indica banalidade, mas crescimento paciente e fidelidade cotidiana. O Salmo responsorial expressa a disposição interior do Servo: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade”. Na Eucaristia, a assembleia proclama o Agnus Dei, reconhecendo que o Cordeiro se faz alimento para a vida do mundo. O pecado é nomeado no singular porque a salvação é abrangente e estrutural. Separar altar e mundo é trair o Evangelho.
Santo Agostinho via no Cordeiro a humildade de Deus que desarma o orgulho humano. João Crisóstomo insistia que a Eucaristia se torna contraditória quando não se prolonga no cuidado com os pobres. A história da Igreja confirma isso no testemunho dos mártires e santos, desde os primeiros cristãos perseguidos pelo Império Romano até figuras como Francisco de Assis, Oscar Romero e Dorothy Stang. Sempre que a Igreja se aliou excessivamente ao poder, perdeu credibilidade profética; sempre que retornou à lógica do Cordeiro, tornou-se sinal de esperança.
O Apocalipse, escrito em contexto de perseguição, apresenta o Cordeiro como aquele que venceu, embora tenha sido imolado (Ap 5,6). A vitória não vem da espada, mas da fidelidade até o fim. Essa imagem desmonta qualquer teologia do domínio que confunda Reino de Deus com poder político ou religioso. “Meu Reino não é deste mundo”, afirma Jesus (Jo 18,36), isto é, não se organiza segundo as lógicas de dominação.
Assim, a proclamação de João 1,29-34 no Segundo Domingo do Tempo Comum e no dia 3 de janeiro recorda que a fé cristã é essencialmente encarnada, histórica e relacional. Seguir o Cordeiro não é aderir a uma ideologia nem refugiar-se em um mundo religioso paralelo, mas assumir a realidade com suas dores e contradições, iluminados pela lógica do amor que se entrega. A pergunta permanece aberta e urgente: conhecemos, de fato, Jesus? E qual Jesus estamos apresentando às nossas comunidades, famílias e espaços sociais?
O Cordeiro de Deus continua passando no meio de nós, silencioso e desarmado, muitas vezes ignorado porque não corresponde às expectativas de poder, sucesso ou espetáculo religioso. Cabe a cada geração reconhecê-lo, apontá-lo e segui-lo, como João, não para se colocar no centro, mas para desviar o olhar de si e conduzi-lo Àquele que vem ao encontro da história ferida. Reconhecer o Cordeiro é um exercício de discernimento espiritual e ético: é aprender a vê-lo onde o mundo prefere não olhar, nos corpos feridos, nas vozes silenciadas, nas periferias humanas e existenciais.
Segui-lo não significa aderir a um fanatismo cego nem a um triunfalismo religioso que promete glória sem cruz. Significa assumir a lógica paradoxal do Evangelho, na qual a força se manifesta na fraqueza, a vitória passa pela entrega e a salvação não nasce da dominação, mas da fidelidade amorosa até o fim. O Cordeiro não impõe, não coage, não manipula; ele se oferece. E é precisamente aí que reside sua potência transformadora.
Por isso, a verdadeira libertação não acontece fora da história nem à margem dos conflitos humanos, mas no coração deles. Ela brota da coragem humilde de quem permanece fiel quando o caminho se estreita, de quem ama sem garantias, de quem se recusa a negociar a dignidade em troca de privilégios religiosos ou políticos. Seguir o Cordeiro é aprender a caminhar com Ele pelos vales da história, acreditando que o amor que se entrega, mesmo ferido, é o único capaz de abrir futuro. É essa fé encarnada, paciente e profética que continua, geração após geração, a mover o mundo por dentro.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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