O texto de Lucas 1,57-66. é proclamado liturgicamente em dois horizontes que se iluminam mutuamente: nos últimos dias do Advento, particularmente em 23 de dezembro, quando a Igreja já se encontra às portas do Natal, e na Solenidade da Natividade de São João Batista, em 24 de junho. Essa dupla inserção revela que João não pertence apenas ao tempo preparatório, mas atravessa toda a economia da salvação como figura-limite, ponte viva entre promessa e cumprimento. No Advento, ele questiona a qualidade da nossa espera; em junho, interroga a fidelidade da nossa missão.
Lucas situa o nascimento de João num ambiente doméstico e comunitário, mas carrega o relato de densidade teológica. “Completaram-se os dias de Isabel” (Lc 1,57): não apenas o tempo biológico, mas o kairós de Deus. A esterilidade vencida não é detalhe fisiológico, mas sinal histórico. Assim como Sara (Gn 18,11-14), Rebeca (Gn 25,21), Raquel (Gn 30,22) e Ana, mãe de Samuel (1Sm 1,5-20), Isabel gera vida quando tudo parecia concluído. Na Bíblia, os filhos da promessa nunca nascem para consumo privado; eles inauguram deslocamentos coletivos. Deus age justamente onde o sistema já arquivou a esperança.
A alegria que envolve o nascimento de João é partilhada: vizinhos e parentes reconhecem que “o Senhor manifestou a sua misericórdia” (Lc 1,58). O termo evoca o hesed, a fidelidade amorosa de Deus à aliança. Em Lucas, a misericórdia não é sentimento abstrato, mas força histórica que reabre futuros. Essa mesma misericórdia será cantada por Maria no Magnificat (Lc 1,46-55), onde os poderosos são derrubados e os humildes exaltados. O nome de João já contém, em semente, a subversão que Maria proclama em poesia.
A circuncisão ao oitavo dia (Lc 1,59) insere João na tradição de Israel. Lucas deixa claro: a novidade não rompe com a história, mas a atravessa criticamente. Contudo, é nesse rito tradicional que surge o conflito. A comunidade deseja chamá-lo Zacarias, garantindo continuidade previsível. Isabel, porém, resiste: “Ele se chamará João” (Lc 1,60). A insistência no nome revelado por Deus rompe com a lógica patriarcal da repetição. O futuro não será cópia do passado. Aqui, Lucas expõe como a religião pode se tornar guardiã do previsível e inimiga da promessa.
Quando Zacarias escreve o nome numa tabuinha, a palavra retorna (Lc 1,63-64). Esse gesto aparentemente simples carrega um simbolismo profundo. A Escritura conhece bem as tábuas como lugar de inscrição da vontade de Deus: as tábuas da Lei entregues a Moisés no Sinai (Ex 31,18; Dt 9,10) não eram mero código jurídico, mas sinal de uma aliança que pretendia educar o coração do povo. Quando essas tábuas foram quebradas (Ex 32,19), não se quebrou apenas a pedra, mas a relação, corrompida pela idolatria. Zacarias, agora, não escreve uma lei, mas um nome; não impõe normas, mas acolhe uma promessa. A tabuinha onde se inscreve “João” torna-se, assim, uma espécie de novo Sinai doméstico: não gravada em pedra para controlar, mas escrita para libertar. Se a antiga Lei denunciava o pecado, esse nome anuncia a misericórdia. A palavra que Zacarias recupera nasce dessa passagem: da Lei exterior à Palavra acolhida, da obediência forçada à escuta confiante. Trata-se de uma pedagogia divina que não revoga a Lei, mas a cumpre no horizonte da misericórdia (cf. Jr 31,31-34; Ez 36,26). O silêncio imposto pela incredulidade transforma-se em louvor. O nome João — Yohanan, “Deus é misericórdia” — não é ornamento, mas programa teológico. Na Escritura, nome é vocação: Abrão torna-se Abraão (Gn 17,5), Jacó torna-se Israel (Gn 32,29), Simão torna-se Pedro (Mc 3,16). João nasce já marcado por uma missão que não herdou do pai, mas recebeu de Deus. A palavra só se torna fecunda quando se submete à fidelidade divina.
O temor que se espalha pela região (Lc 1,65) não é pânico, mas reconhecimento do Mistério. O phobos bíblico nasce quando o humano percebe que está diante de algo que o excede. Esse temor gera memória e transmissão: “todos esses fatos eram comentados” (Lc 1,65). A fé bíblica vive da narração, não do esquecimento. A pergunta — “O que será deste menino?” — ecoa a de Ana sobre Samuel (1Sm 3,19) e antecipa o espanto diante de Jesus no Templo (Lc 2,49). Toda vocação verdadeira desinstala.
Lucas oferece a chave interpretativa: “a mão do Senhor estava com ele” (Lc 1,66). Expressão profética clássica (cf. Jr 1,9; Ez 1,3), indica envio e autoridade que não dependem de cargos ou títulos. O versículo 80 encerra com sobriedade: “O menino crescia e se fortalecia em espírito e vivia nos desertos.” Crescer em espírito não é espiritualismo intimista, mas maturação interior, capacidade de escuta, resistência ética.
O deserto, longe de ser fuga, é escola. Ali Israel aprende a depender de Deus (Dt 8,2-3), Elias reencontra o sentido da missão (1Rs 19,4-18) e Jesus enfrenta as tentações do poder, do espetáculo e da dominação religiosa (Lc 4,1-13). Orígenes via no deserto o lugar onde a Palavra despoja o coração de falsas seguranças; os Padres do Deserto o compreenderam como espaço de verdade. Sociologicamente, o deserto é margem; antropologicamente, é despossessão; espiritualmente, é liberdade.
Formado nesse espaço, João surge às margens do Jordão (Lc 3,2-3) como voz de Isaías 40,3, texto dirigido a um povo cansado de promessas vazias. Preparar o caminho do Senhor não é slogan espiritual, mas transformação concreta: partilha (Lc 3,11), justiça econômica (Lc 3,13), recusa da violência institucional (Lc 3,14). O Advento, aqui, revela sua dimensão política, frequentemente neutralizada por leituras intimistas.
A relação entre João e Jesus é teologicamente construída. Nos sinóticos, João batiza Jesus (Mc 1,9-11; Mt 3,13-17; Lc 3,21-22); no quarto evangelho, ele aponta e se retira (Jo 1,29-34). Essa pluralidade reflete tensões reais nas comunidades primitivas (cf. At 19,1-7). Agostinho sintetiza: João é a voz; Cristo é a Palavra. A voz passa, a Palavra permanece.
João encarna uma subjetividade não narcísica. Ele não se define por visibilidade, seguidores ou performance religiosa. “É necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30) é maturidade espiritual. Em contraste com a cultura do like, do palco e da fé-espetáculo, João desmascara a teologia da prosperidade, do domínio e da fé como mercadoria. Ele não promete sucesso, mas conversão; não vende bênçãos, convoca à verdade. Essa postura também é crítica viva ao clericalismo. João não acumula títulos nem constrói carreira religiosa. Sua autoridade nasce da coerência. Evangelii Gaudium recorda que a Igreja não pode se fechar em estruturas estéreis, mas deve arriscar-se na rua (EG 27; 49). Laudate Deum denuncia as alianças entre espiritualidade vazia e destruição da casa comum. João, com sua sobriedade radical, antecipa essa denúncia: conversão que não toca o modo de viver é farsa religiosa.
A morte de João (Mc 6,17-29) não é acidente, mas consequência. Ele denuncia a imoralidade estrutural de um poder que se mascara de legalidade. Como Elias, paga caro por confrontar alianças entre religião e política opressora. A história confirma: toda fé aliada ao poder perseguiu profetas. Essa lógica permanece quando discursos religiosos legitimam exclusão, violência e desigualdade.
Ler Lucas 1,57-66.80 no Advento é permitir que a pergunta inicial nos julgue hoje.
- Que nomes damos às nossas práticas religiosas?
- Misericórdia ou controle?
- Profecia ou acomodação?
João cresce em espírito porque cresce em liberdade interior. Ele nasce da esterilidade, rompe a repetição, habita o deserto e aponta para outro. Entre o silêncio de Zacarias e o grito no Jordão, a fé bíblica nos convoca a preparar caminhos onde a vida possa florescer, mesmo que isso custe tudo. A mão do Senhor continua agindo. A pergunta permanece aberta. Ela atravessa gerações, comunidades e consciências. Assim como a Lei precisou ser continuamente reinterpretada para não se tornar instrumento de opressão, também o nome de João interpela cada tempo a discernir se está escrevendo a fé em tábuas de pedra — rígidas, frias, defensivas ou em tábuas de carne, abertas à ação do Espírito (cf. 2Cor 3,3). João nasce quando a esterilidade é vencida, cresce no deserto onde as ilusões são despojadas, e desaparece para que Outro apareça. Sua vida inteira é um Advento vivido até as últimas consequências.
Entre o silêncio que se transforma em louvor e a palavra que se torna denúncia, João permanece como critério incômodo para a Igreja e para o mundo. Ele nos lembra que não há verdadeira preparação para o Reino sem conversão concreta, sem ruptura com as idolatrias do poder, do dinheiro e da religião domesticada. Preparar o caminho do Senhor hoje exige coragem para deixar que Deus reescreva nossos nomes, nossas práticas e nossas estruturas, não segundo a lógica da repetição, mas segundo a misericórdia que liberta.
Que a pergunta que ecoou entre os vizinhos de Isabel continue ecoando em nossas comunidades, não como curiosidade devota, mas como juízo profético:
- Que tipo de fé estamos gestando?
- Que tipo de cristãos estamos formando?
Se a mão do Senhor continua conosco, como afirma Lucas, então o Advento não é apenas espera litúrgica, mas decisão histórica. Entre o fogo de Elias e as águas do Jordão, entre a Lei gravada em pedra e o nome escrito na tabuinha, somos chamados a preparar caminhos onde a vida floresça — ainda que isso nos custe o conforto, o prestígio e as falsas seguranças.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentário.