A liturgia do dia 24 de dezembro ocupa um lugar singular no calendário cristão porque não funciona como uma simples preparação estética para o Natal, mas como um verdadeiro limiar teológico. A Igreja não antecipa apenas uma festa; ela educa o olhar, purifica a escuta e reorganiza a memória, conduzindo a comunidade a atravessar o umbral entre a promessa e o cumprimento.
Pela manhã, na missa do dia, proclama-se Lucas 1,67-79, o cântico de Zacarias, conhecido como Benedictus. Trata-se de uma leitura profundamente marcada pela memória histórica da salvação, onde passado, presente e futuro se entrelaçam numa mesma profissão de fé: Deus lembra suas promessas, visita o seu povo e prepara caminhos de paz.
À noite, na missa da Vigília, escuta-se Mateus 1,1-25, texto que a liturgia já havia introduzido ao longo do Advento de forma pedagógica e progressiva. Entre os dias 16 e 18 de dezembro, a Igreja proclamou esse mesmo capítulo em duas etapas: primeiro Mateus 1,1-17, com a genealogia que insere Jesus na história concreta de Israel; depois Mateus 1,18-24, onde o foco se desloca para José e para o mistério da encarnação acolhido no silêncio obediente da fé. Assim, o que se escuta na Vigília não é repetição, mas recapitulação teológica: a história inteira converge para o nascimento daquele que é chamado Emanuel, Deus-conosco
Essa disposição não responde a uma lógica cronológica nem narrativa, mas a uma pedagogia espiritual profunda: a encarnação nasce do encontro entre memória e decisão, entre palavra que retorna depois do silêncio e ação justa que se realiza sem alarde, entre a história relida à luz da promessa e a coragem de permitir que essa promessa atravesse a carne concreta do mundo. Lucas insere o Benedictus num contexto de ruptura da palavra religiosa. Zacarias é sacerdote, homem do Templo, representante da instituição que media a relação entre Deus e o povo. No entanto, é justamente no espaço sagrado que sua palavra se rompe. O mutismo de Zacarias não deve ser lido como punição moral, mas como sinal profético. A tradição bíblica conhece esse silêncio fecundo: Ezequiel fica mudo até que Deus lhe devolva a palavra (Ez 3,26), Jó aprende a calar diante do mistério que escapa ao seu domínio (Jó 40,4), o silêncio se torna espaço de purificação da linguagem religiosa. Lucas sugere que há palavras que precisam morrer para que a Palavra volte a nascer.
Historicamente, o cenário é de profunda ambiguidade religiosa e opressão política. Israel vive sob o domínio romano, governado por Herodes, um rei sustentado pela violência, por alianças espúrias e pela instrumentalização do sagrado. O Templo, além de centro espiritual, tornou-se espaço de poder econômico e político. Sacerdotes circulam entre o culto e a sobrevivência institucional. A religião continua funcionando, mas corre o risco de se tornar administradora do sagrado, não sua testemunha. O silêncio de Zacarias simboliza esse colapso: uma instituição que fala muito, mas já não consegue gerar vida nova.
Nesse contexto, a força do Benedictus também se manifesta na maneira como Lucas constrói sua teologia do tempo. O cântico não se organiza apenas em torno de eventos, mas de verbos cuidadosamente escolhidos. O passado — “prometeu”, “jurou” —, o presente — “visitou”, “libertou” — e o futuro — “guiará nossos passos” — coexistem numa mesma respiração narrativa. Exegeticamente, isso revela uma compreensão não linear da história da salvação. O tempo, em Lucas, não é sequência mecânica nem espera passiva, mas kairós: tempo visitado, atravessado, reconfigurado pela ação de Deus. Essa percepção rompe tanto com o fatalismo histórico quanto com espiritualismos que descolam a fé da realidade concreta.
Historicamente, essa teologia do tempo responde a uma situação específica das comunidades lucanas. Elas vivem entre a frustração de expectativas messiânicas imediatas e a tentação de acomodação ao Império. O atraso da parusia gera crises de fé, enquanto o cotidiano sob Roma impõe pactos silenciosos. O Benedictus atua como antídoto contra ambos os extremos. Ele afirma que Deus já age na história, mas não segundo os calendários do poder. A salvação não se mede pela rapidez do resultado, mas pela fidelidade do processo. Essa perspectiva confronta diretamente as teologias da eficiência espiritual, que prometem respostas rápidas, milagres instantâneos e prosperidade mensurável.
A palavra retorna quando a promessa se cumpre fora de qualquer lógica de mérito. Isabel concebe não porque venceu uma prova espiritual, mas porque Deus age onde o sistema já não espera. Esse detalhe desmonta qualquer teologia da prosperidade que associa bênção a desempenho religioso, sucesso moral ou fidelidade institucional. O Benedictus nasce da gratuidade, não do controle. A profecia só reaparece quando o sujeito aceita não ser o centro do processo. É depois da impotência que Zacarias canta.
E o que ele canta não é um louvor intimista. O Benedictus é uma releitura teológica da história de Israel. Abraão, a Aliança, os inimigos, o medo e a libertação reaparecem como forças ainda atuantes. A fé bíblica não é nostalgia do passado nem fuga para o futuro; é memória crítica. Como nos grandes salmos históricos (Sl 78; Sl 105), recordar é reinterpretar. A história torna-se lugar da revelação, não obstáculo a ela.
Quando Zacarias proclama que Deus “visitou e libertou o seu povo”, ele utiliza um verbo carregado de tensão. Na Escritura, a visita de Deus nunca é neutra. Deus visita para libertar do Egito (Ex 3,16), para denunciar reis injustos (Is 10,3), para julgar pastores que exploram o rebanho (Jr 23,2). A visita desestabiliza. Lucas não anuncia um Deus decorativo, mas um Deus que entra na história para reordená-la. Toda espiritualidade que neutraliza essa dimensão transforma o Evangelho em consolo barato. Outro elemento decisivo é a centralidade da misericórdia como motor da história. Lucas afirma que tudo acontece “pelas entranhas de misericórdia do nosso Deus”. A expressão remete ao hebraico rahamim, termo visceral, ligado ao útero, às entranhas maternas. Deus age não por cálculo, mérito ou barganha, mas por compaixão radical. Antropologicamente, isso redefine a imagem de Deus que habita o inconsciente religioso. Não se trata de um juiz distante que recompensa os fortes, mas de um Deus afetado pela vulnerabilidade humana. Toda teologia que transforma Deus em gestor de recompensas trai esse núcleo bíblico.
Essa misericórdia se traduz em orientação: “para guiar nossos passos no caminho da paz”. Paz, aqui, não é ausência de conflito, mas shalom: integridade, justiça restaurada, relações reconciliadas. Sociologicamente, Lucas propõe uma crítica estrutural à lógica imperial, que mantinha a chamada pax romana pela violência e pela exclusão. A paz de Deus não se impõe pelas armas nem se sustenta pelo medo. Ela nasce de relações justas. O Benedictus funciona, assim, como manifesto anti-imperial sem recorrer à retórica da guerra.
Do ponto de vista filosófico, o texto questiona modelos de verdade baseados na dominação. A verdade que salva não se impõe de cima para baixo, mas se revela progressivamente, como a aurora. Essa lógica confronta tanto o autoritarismo religioso quanto o relativismo cínico. A verdade existe, mas se comunica respeitando a liberdade humana. Ela não violenta a consciência; convida à conversão. A teologia do espetáculo confunde luz com visibilidade e ignora a pedagogia divina.
A figura de João, ainda criança, assume papel simbólico decisivo nessa pedagogia. Ele representa a transição entre duas economias religiosas: a do Templo centralizado e a do caminho aberto. João nasce de pais ligados à tradição sacerdotal, mas sua missão o levará para fora do sistema. Ele encarna uma ruptura sem ressentimento. Exegeticamente, isso revela que a novidade de Deus não despreza a tradição, mas a desloca. A fidelidade verdadeira não é repetição, mas discernimento.
Esse deslocamento ilumina também a crítica ao clericalismo. Lucas não apresenta João como acumulador de poder religioso, mas como aquele que se retira quando sua missão se cumpre. A autoridade é transitória e funcional. A Igreja trai o Evangelho sempre que transforma mediação em privilégio, serviço em status, vocação em carreira.
A ciência histórica confirma que, no tempo de Lucas, a religião era frequentemente usada como instrumento de pacificação social. O culto podia funcionar como anestesia coletiva. O Benedictus rompe com essa lógica. Ele não espiritualiza a opressão nem promete compensações pós-morte. Ele afirma que Deus intervém na história para libertar agora. Por isso, o texto continua perigoso. Neutralizá-lo é tentação permanente.
Também a psicologia da religião encontra aqui um ponto decisivo. O medo aparece como categoria central: medo do inimigo, medo da punição, medo da escassez. A libertação anunciada é, em grande parte, libertação do medo. Uma fé baseada no medo infantiliza o sujeito e o torna manipulável. O Benedictus propõe uma fé adulta, capaz de confiança, responsabilidade e compromisso histórico.
A tradição da Igreja confirma essa leitura. Irineu via na encarnação a recapitulação da história humana, não sua negação. Ambrósio insistia que a luz de Cristo não ofusca, mas educa o olhar. Beda, o Venerável, afirmava que a aurora representa o crescimento gradual da fé na comunidade. A patrística é unânime: não há cristianismo autêntico sem paciência histórica.
Quando a Igreja proclama o Benedictus no dia 24 de dezembro, ela se coloca deliberadamente nesse lugar de tensão. Antes de cantar o nascimento, escuta um cântico que julga suas próprias práticas. Antes de contemplar a manjedoura, é confrontada com a pergunta decisiva: que Deus estamos anunciando? Um Deus que legitima mercados religiosos ou um Deus que visita os que jazem nas trevas?
Somente depois de atravessar esse horizonte o silêncio de José, no evangelho de Mateus, pode ser compreendido em sua densidade. Ele não é fuga, mas consequência. Onde a palavra profética amadureceu, a ação justa se torna possível. Onde a história foi relida à luz da misericórdia, a decisão concreta encontra chão.
Celebrar o Natal, assim, deixa de ser ornamento e se torna critério. Ele julga nossas teologias, nossas práticas e nossas estruturas. A aurora continua a visitar o mundo sempre que a palavra se liberta do poder, o silêncio amadurece a fé e a história volta a ser reconhecida como espaço da salvação.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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