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Para entender o texto de hoje precisamos lembrar que Lucas escreve numa realidade de pós-guerra: o Templo de Jerusalém havia sido destruído no ano 70 d.C., provocando um trauma espiritual e identitário inédito. O judaísmo entrava num período de reconstrução farisaica, e as primeiras comunidades cristãs, ainda vistas como uma seita interna do judaísmo, enfrentavam pressões de todos os lados: perseguição romana, hostilidades de grupos judaicos, divisões internas, cismas familiares, fadiga existencial diante da demora da parousia, a esperada volta gloriosa de Cristo. O autor — não judeu, helenista, formado numa sensibilidade mais universal — escreve para cristãos que precisam encontrar sentido no colapso das formas religiosas anteriores. Lc 21 é, portanto, menos um discurso de previsão do fim e mais um texto de reconstrução espiritual: como permanecer fiel quando tudo se desmorona? Como identificar Deus quando as pedras do Templo caem? Como sustentar esperança quando as estruturas sagradas desaparecem? Aqui entra um elemento exegético essencial: Lucas escreve não para provocar medo, mas para despertar maturidade. Sua hermenêutica é pastoral, seu estilo é de acompanhamento, seu olhar é de interpretação do real, não de fuga dele. Por isso, quando Jesus anuncia que “não ficará pedra sobre pedra”, não está alimentando pânico; está oferecendo um novo critério de fé: Deus não depende das estruturas do poder religioso. Esse deslocamento radical — já anunciado pelos profetas e simbolizado na crítica de Jeremias ao Templo (Jr 7), na visão renovadora de Ezequiel sobre o novo santuário (Ez 40–48), no anúncio de Daniel sobre tempos de angústias e libertação (Dn 12) — abre caminho para uma fé menos apegada às instituições e mais centrada na fidelidade ao Deus vivo.
A temática do “fim eminente” sempre teve forte apelo cultural. Cada vez que surgem guerras, pandemias, crises econômicas, colapsos políticos ou fenômenos inesperados, muitos tentam encaixar esses acontecimentos dentro de esquemas bíblicos, especialmente textos apocalípticos. Foi assim na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra Mundial, na Guerra Fria, nos ataques terroristas do século XXI, nos conflitos em Israel e Palestina, na pandemia de covid-19, na guerra da Rússia ou em qualquer tragédia global. A leitura fundamentalista transforma a Bíblia em manual de previsões, como se Deus fosse obrigado a seguir os mapas mentais dos intérpretes. Esse é justamente o tipo de engano contra o qual Jesus adverte: “Cuidado para não serdes enganados, pois muitos virão em meu nome dizendo: ‘Sou eu’ ou ‘O tempo está próximo’” (Lc 21,8). O fundamentalismo quer controlar Deus por meio de fórmulas. A verdadeira fé abre espaço para o Mistério. O fundamentalismo fecha o real; a fé verdadeira o abre. Por isso, como já dizia João Crisóstomo, “a pior forma de heresia é usar o nome de Cristo para impor medos e controlar consciências”. O contexto de Lucas denuncia: quanto mais frágil a sociedade, mais surgem “profetas do caos” oferecendo segurança fácil. E como lembra Evangelii Gaudium, “o tempo é superior ao espaço”: a fé caminha, não se cristaliza; discerne, não se enclausura; interpreta, não domina.
Muitos padres e pastores fazem da Bíblia um livro de adivinhação, deturpando a esperança e gerando terror espiritual. Essa leitura fabrica um Deus punitivo, imprevisível, sempre pronto a destruir o mundo — projeção psicológica do medo humano, não revelação do Deus de Jesus. Em tempos de eleição, vimos cultos transformados em palanques, profetas decretando vitórias eleitorais como se Deus fosse mascote de partido. Quando o povo votou diferente, muitos se frustraram porque fizeram de Deus uma marionete. Essa lógica é anticristã e anticatólica. Gaudium et Spes afirma com vigor que “os cristãos não podem usar o nome de Deus para legitimar interesses particulares” e denuncia toda forma de manipulação religiosa como pecado contra a dignidade humana. A sociologia da religião mostra como sistemas de poder se aproveitam do medo apocalíptico para manter controle social; a psicologia evidencia como o medo paralisa, infantiliza e reduz a capacidade crítica; a antropologia recorda que narrativas de fim do mundo sempre surgem quando grupos dominantes temem perder poder. Por isso, Jesus rompe com tudo isso: Ele não alimenta pânico — Ele fortalece a perseverança.
Quando Jesus chega a Jerusalém e anuncia o fim do Templo, deixa claro que tudo aquilo que é obra do poder humano tem prazo. O que é construído sobre injustiça, opressão, manipulação religiosa e exploração dos pobres não resiste. O Templo do tempo de Jesus era, para muitos líderes religiosos, não mais casa de oração, mas centro de arrecadação, símbolo de poder e prestígio — como Ele denuncia quando expulsa os vendilhões. Nossas comunidades, quando se tornam centros de autopreservação clerical, reproduzem esse mesmo pecado. Quando padres, bispos e pastores se colocam como mais sagrados que o próprio Deus, quando a preocupação deles é com títulos, privilégios e imagem pública, quando se tornam celebridades litúrgicas e não servidores, o Templo desaba. É o colapso espiritual que Jesus denuncia. Como diz Gregório Magno: “O pastor que se busca a si mesmo perde o rebanho”. E como lembra Ambrósio de Milão, “a riqueza acumulada é muitas vezes o suor do pobre que clama diante de Deus”. O clericalismo é, portanto, uma idolatria — e idolatria sempre cai, como as pedras do Templo.
O professor Francisco Orofino afirma que quando um ministro mata sua própria vocação batismal, mata também a vida batismal da comunidade. Essa imagem é profundamente exegética: em Lucas, Jesus chama a perseverança não como heroísmo individual, mas como fidelidade comunitária. “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida” (Lc 21,19). Perseverar aqui é verbo coletivo. Não se trata de resistência solitária, mas da construção de comunidades que vivem o Evangelho e não suas caricaturas. A referência paulina da segunda leitura (2Ts 3,7-12) reforça isso de modo impressionante: quando parte da comunidade tesselonicense começou a cruzar os braços esperando o fim do mundo, Paulo reagiu com firmeza: “Quem não quer trabalhar, também não coma”. Não se trata de meritocracia; trata-se de responsabilidade comunitária. Crer no retorno de Cristo não significa abandonar a história, mas comprometê-la com mais força. A fé que espera o futuro é a mesma que transforma o presente. Por isso, a leitura distorcida do apocalíptico, que leva a previsões mágicas, preguiça social, ódio político ou fuga da responsabilidade, contradiz a Escritura. Jesus nos alerta para não sermos enganados por lideranças religiosas que, embora se apresentem como porta-vozes de Deus, estão a serviço do mal, do lucro, da vaidade, do domínio. Os falsos messias não são apenas figuras escatológicas — são líderes religiosos que transformam a fé em plataforma de poder. Nesse ponto, a crítica à teologia da prosperidade se torna inevitável. Essa teologia, que promete sucesso, riqueza e vitória eleitoral como sinais de bênção, distorce radicalmente o Evangelho. Ela nega o Cristo pobre, crucificado, servo, solidário com as dores humanas. Ela reduz Deus a um gerente de bênçãos. Como afirma Evangelii Gaudium, “a prosperidade não é sinal de eleição, e o sofrimento não é sinal de rejeição”. A teologia do domínio — tão presente em setores cristãos contemporâneos — também precisa ser denunciada: ela tenta impor um cristianismo hegemônico, autoritário, intolerante, transformando o Reino de Deus em projeto de poder político e cultural. Jesus rejeita isso de forma absoluta: “Meu Reino não é deste mundo” significa precisamente que Ele não se reduz a sistemas de força. A fé-mercadoria, que transforma sacramentos em serviços, e bênçãos em produtos, é outra forma de idolatria moderna. Ela cria consumidores religiosos, não discípulos. Ela fabrica templos de cristal, mas destrói o coração do Evangelho. E o clericalismo, denunciado pela Igreja como “perversão espiritual” (Papa Francisco), alimenta tudo isso, escondendo abusos, cultivando vaidades, silenciando profetas.
Jesus nos convoca a manter a fé num Deus que caminha conosco, que assumiu plenamente nossa natureza e nos apresentou um projeto viável de vida: o Reino. Não se trata de confiar naquilo que somos, temos ou fazemos, mas na graça de Deus que nos sustenta. A antropologia bíblica lembra que Deus habita no kairos, o tempo qualitativo, enquanto nós vivemos no chronos, o tempo cronológico. Quando confundimos esses tempos, geramos ansiedade e medo. A ciência e a sociologia alertam sobre as crises ambientais, os riscos demográficos, os conflitos globais. A Laudato Si’ diz com clareza: “tudo está interligado”. A destruição da casa comum não é castigo divino, mas consequência das escolhas humanas, resultado de uma economia que mata, como já afirmava João Paulo II e como reforça Fratelli Tutti, ao denunciar “o descarte da vida humana e da criação”.
Nesse Evangelho, viver vigilante significa amadurecer espiritualmente. Não é vigiar com medo, mas com lucidez. Não é esperar destruições, mas discernir a presença de Deus na história. Jesus diz que guerras, terremotos e perseguições “devem acontecer”, não porque Deus as deseja, mas porque são parte de um mundo ferido, de relações desequilibradas, de sistemas injustos. Ele nos pede que confiemos que Deus será nossa defesa. Isso não é escapismo teológico, mas confiança ativa: Deus não nos livra do conflito; Ele nos sustenta nele. Assim entenderam os mártires, assim viveram os profetas, assim testemunham os pobres que, como recorda o Papa Leão XIV em sua mensagem para o IX Dia Mundial dos Pobres, são mestres da esperança que não decepciona. O pobre que crê sem possuir nada revela que a esperança cristã não é cálculo, mas entrega; não é privilégio, mas confiança.
O Salmo 97 cantado hoje afirma que Deus “governa os povos com justiça”. Isso ecoa a promessa de Malaquias de um “sol da justiça” que nascerá para os que temem o Senhor. Em tempos de ódio, manipulação e fake news, essas imagens se tornam profundamente atuais. E a crítica de Paulo aos acomodados da comunidade de Tessalônica nos obriga a revisar nossas práticas pastorais: quantas vezes cristãos organizam grandes missões internacionais, mas ignoram a fome no bairro ao lado? Quantos pregadores digitais falam de Deus para obter likes, mas não conhecem o cheiro das ovelhas? Quantos religiosos se tornam CEOs de templos, enquanto o Evangelho se torna um lembrete distante?
A patrística ilumina tudo isso. João Crisóstomo dizia: “O pobre é altar vivo de Cristo; se desprezas o pobre, desprezas o altar”. Gregório Magno lembrava que o verdadeiro pastor não abandona o rebanho quando a tempestade chega. Ambrósio, enfrentando elites romanas, denunciava que “a terra foi dada por Deus a todos; e quem acumula mais do que precisa rouba dos pobres”. Esses ecos antigos ressoam no Evangelho de hoje: estruturas injustas caem, riquezas idolatradas se desfazem, poderes religiosos se desmoronam — mas a fidelidade dos que perseveram permanece para sempre.
O Papa Leão XIV retoma esse mesmo espírito ao afirmar que a verdadeira pobreza é não conhecer a Deus e que os pobres não são assistidos, mas sujeitos vivos de transformação. Fratelli Tutti ecoa que “ninguém se salva sozinho”. Gaudium et Spes recorda que o cristão deve ler os sinais dos tempos com responsabilidade, denunciando tudo o que fere a dignidade humana. Evangelii Gaudium insiste que a Igreja deve ser pobre para os pobres. Laudato Si’ chama à conversão ecológica integral. Todos esses textos — integrados no corpo vivo do Evangelho — apontam para a mesma direção: perseverar é comprometer-se com justiça, dignidade, cuidado e esperança. É viver uma fé adulta, não manipulável, não supersticiosa, não ansiosa, mas profética.
Por isso, neste domingo que encerra o ano litúrgico, diante das ruínas de tantos templos — templos políticos, templos econômicos, templos eclesiásticos, templos ideológicos — Jesus nos convida a reconstruir a fé sobre a rocha da perseverança. Não sobre previsões mágicas, não sobre medos apocalípticos, não sobre poder religioso, não sobre teologias de mercado, mas sobre o Deus que se faz presente na história, especialmente nos pobres. O sol da justiça de Malaquias não destrói — ilumina. O salmo não ameaça — consola. Paulo não paralisa — desperta. E Jesus não amedronta — fortalece.
A perseverança é a resposta cristã ao colapso do mundo. Não porque confiamos em nossa força, mas porque confiamos no Deus que nos acompanha. Quando tudo desaba, Ele permanece. Quando tudo se rompe, Ele reconstrói. Quando tudo parece perdido, Ele abre caminhos. E é nessa confiança — firmes, lúcidos, vigilantes — que ganharemos a vida.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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