Porque os Estados Unidos têm um dom raro: o de criar problemas em lugares onde antes havia apenas dificuldades internas, e não guerras. É como se trouxessem na bagagem, além de diplomatas e estratégias, um fósforo aceso. Empurram o fósforo para perto do barril de pólvora e depois posam de bombeiros internacionais.
O roteiro sempre se repete: primeiro vem a construção do inimigo. Depois, as evidências frágeis, as acusações sem lastro, o moralismo hipócrita. E, por fim, a “intervenção humanitária”. O caso do Iraque é o exemplo cristalino. Espalharam ao mundo inteiro a suposta existência de armas de destruição em massa. Criaram pânico, filmaram reuniões solenes na ONU, inflaram o noticiário. Depois invadiram, mataram centenas de milhares, destruíram infraestrutura, desestabilizaram toda uma região. E quando as tais armas não apareceram — porque nunca existiram — deram de ombros. Era tarde demais para pedir desculpas aos mortos.
E quando não são os Estados Unidos, é algum de seus aliados históricos atuando no mesmo tabuleiro da violência global. Basta lembrar que o próprio Japão, antes de se tornar aliado, havia sido potência imperialista no final do século XIX, invadindo Coreia, partes da China e várias regiões da Ásia sob o discurso de “modernização” e “ordem”. A história sempre repete esse cinismo: os impérios criam suas guerras e depois acusam os outros de ameaça. E o fim daquela era de expansão japonesa encontrou a mão pesada do Ocidente em sua forma mais brutal: as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Duas cidades pulverizadas em segundos, mais de 200 mil mortos, e até hoje nenhum argumento convincente capaz de justificar tamanha monstruosidade. A primeira demonstração do que acontece quando uma potência decide que o outro lado do mundo é apenas um tabuleiro.
E se as bombas não bastassem como prova, basta lembrar do Vietnã. A guerra que os EUA disseram ser para “conter o avanço comunista” transformou o Sudeste Asiático em campo de testes armamentista: napalm, agente laranja, bombardeios incessantes, aldeias inteiras destruídas e mais de três milhões de mortos. E no fim, depois de tanto horror, a potência que dizia defender a liberdade saiu derrotada por um povo pobre, camponês, mas orgulhoso — provando que imperialismo pode matar, mas não consegue vencer a dignidade de um povo que resiste.
Agora, com a Venezuela, inventam a narrativa do “narcoterrorismo”, como se os EUA não fossem historicamente o maior consumidor de drogas ilícitas do planeta. Desde os anos 80, está documentado o envolvimento de setores do próprio governo norte-americano com o tráfico para financiar guerras clandestinas. Querem mesmo falar de drogas? Pois que olhem para dentro.
E o que dói é ver como arrastam para o Sul — essa região que, apesar de suas muitas feridas, ainda respira paz — a possibilidade de um conflito que não nasceu aqui. Uma guerra que não nos pertence, mas que pode nos atingir como escombros de um prédio que desaba longe. Os EUA sempre foram eficientes em levar seus fantasmas para passear, e cada vez que passeiam, alguém perde a vida em nome da “liberdade”.
A verdade é que não existe inocência nessa geopolítica. Por trás da fumaça do discurso moralista, está a busca por controle: controle de território, controle de rotas, controle de petróleo, controle de influência. O Sul é visto, historicamente, como quintal — e quintal, na cabeça deles, não tem autonomia. E caso tente ter, surgem logo palavras bonitas: defesa da democracia, combate ao totalitarismo, proteção da soberania.
E não podemos esquecer que essa ameaça de guerra não é apenas contra a Venezuela. Ela se derrama sobre toda a América Latina como sombra antiga. É a reedição do velho discurso anticomunista que serviu para legitimar torturas, assassinatos, ditaduras e submissões durante todo o século XX.
O Sul não precisa de bombas. O Sul precisa de comida, de escolas, de saneamento, de futuro. Mas o Norte insiste em trazer guerra para uma região que ainda tenta, apesar de tudo, costurar sua própria paz.
No fim, essa história toda tem um nome simples: imperialismo.
Mas eles preferem chamar de “missão de defesa de combate as drogas etc”.
E nós aqui, sabendo ler o mundo, olhamos para o céu e vemos nuvens pesadas se formando. Não são nossas, não são daqui. Mas, como sempre, é sobre nós que a chuva ameaça cair.



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