terça-feira, 18 de novembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 19,11-28

 
Lucas apresenta a narrativa enquanto Jesus está a caminho de Jerusalém, e é nesse caminho que o evangelho da Quarta-feira da 33ª Semana do Tempo Comum — também proclamado no XI Domingo de Lucas na Igreja Ortodoxa e no 33º Domingo do Tempo Comum, Ano C, na Comunhão Anglicana — é situado. Lc 19,11-28 chega como palavra profética para o final do Ano Litúrgico, quando a Igreja contempla o juízo, a vigilância e o discernimento diante da chegada do Reino, em ressonância com textos como Mc 13,33-37, Mt 24–25 e Rm 13,11-14, nos quais a vigilância não é medo, mas responsabilidade. Também ecoa no final do “Tempo de Lucas” das Igrejas Orientais, que tradicionalmente enfatizam a responsabilidade moral e espiritual do discípulo no mundo concreto. O evangelho não aparece como um conto moralizante, mas como uma parábola escandalosa, cheia de tensões políticas, metáforas de poder, deslocamentos simbólicos e ironias que o leitor moderno, especialmente ocupado pelas demandas de produtividade, pode facilmente manipular ao seu favor. Porém, quanto mais nos aproximamos do texto, mais percebemos que ele não é uma celebração da meritocracia ou da acumulação, mas uma crítica profunda às lógicas que distorcem o rosto de Deus.

A caminho de Jerusalém, quando a expectativa messiânica fervilhava perigosamente no coração do povo, Jesus narra uma parábola que soa como desmonte da fantasia de um Messias político, triunfal, poderoso. O texto diz que Ele contou essa história “porque estavam perto de Jerusalém e pensavam que o Reino de Deus ia se manifestar de imediato” (Lc 19,11). Ou seja: a parábola nasce como resposta ao mal-entendido político-religioso que tenta transformar o Reino de Deus em projeto nacionalista, militar ou triunfalista — uma tentação antiga que continua viva hoje, especialmente onde a fé é instrumentalizada por ideologias de extrema-direita, messianismos patrióticos, teologias de domínio e fanatismos identitários.


Na parábola, um homem nobre parte para ser coroado rei e distribuir moedas aos seus servos, pedindo que as façam frutificar. É impossível ouvir essa imagem, em chave lucana, sem pensar no pano de fundo histórico: reis violentos, como Arquelau — filho de Herodes — que foi realmente a Roma pedir a investidura real, e voltou para exercer poder sanguinário. Lucas aciona este cenário como ironia profética, para mostrar que o Deus de Jesus nada tem a ver com reis que oprimem, exigem lucro, confiscam dignidade e castigam quem não produz segundo suas expectativas. Aqui, hermenêutica e história se abraçam: Jesus revela o rosto verdadeiro de Deus ao expor, por contraste, o que Deus definitivamente não é.

É nesse ponto que se torna necessário um diálogo atento com a imagem do “senhor” da parábola: em vários momentos, suas características lembram mais os poderosos das cortes orientais que governavam pela violência, como mostram as tradições proféticas (1Sm 8,10-18) ou as visões escatológicas de Daniel (Dn 7). O servo que esconde a moeda descreve o seu senhor como “homem duro, que tira o que não colocou e colhe o que não semeou” (Lc 19,21). Essa imagem não condiz com o Deus revelado por Jesus, e é justamente o ponto: a parábola revela duas teologias — a do servo que projeta em Deus a dureza dos ídolos, e a de Jesus, que convida a superar o medo para entrar na fecundidade do Reino.

E é justamente aqui que se insere o paralelo com Mateus, de forma esclarecedora para evitar leituras equivocadas:

o aproximarmos Lucas 19,11-28 da parábola dos talentos em Mateus 25,14-30, percebemos um jogo de espelhos que ilumina tanto as semelhanças quanto as diferenças profundas entre elas. Ambas apresentam um “senhor” que confia bens (moedas em Lucas, talentos em Mateus), parte em viagem e retorna para pedir contas, evocando o tema bíblico da responsabilidade diante de Deus (cf. Rm 14,10-12; 1Cor 3,13). Contudo, a intenção teológica difere significativamente: em Mateus, o “senhor” possui características que evocam Deus em sua generosidade, e a parábola se insere no discurso escatológico, onde a vigilância e a fidelidade são centrais (Mt 24–25). Já em Lucas, o “rei” é retratado com traços de tirania, violência e exploração, mais próximo dos reis terrenos (cf. 1Sm 8,10-18); não representa Deus, mas critica estruturas de poder que exigem lucro compulsório, revelando, por contraste, a misericórdia do verdadeiro Deus. Em Mateus, o servo que enterra o talento o faz por medo, mas o senhor o confronta pelo desperdício da graça; em Lucas, o servo que esconde a moeda revela uma imagem distorcida do senhor, o que expõe a dinâmica psicológica da projeção: veremos Deus conforme a forma como fomos feridos ou libertados. Ambos os evangelistas convergem ao afirmar que a fé não pode ser estéril, acomodada ou defensiva, mas se divergem na moldura narrativa para ensinar que, enquanto Mateus sublinha a prontidão diante do juízo, Lucas denuncia sistemas que sufocam a criatividade do Reino; e juntos, proclamam que o dom recebido deve sempre se transformar em vida compartilhada, jamais em medo enterrado.

A  inserção desse paralelo ilumina ainda mais o horizonte lucano: ali não se trata de premiar quem rende mais, como se Deus fosse gerente de banco espiritual. Pelo contrário, Lucas expõe a lógica absurda dos sistemas que exigem lucro infinito e castigam a fragilidade. A parábola, lida superficialmente, poderia ser usada por pregadores da prosperidade ou coaches religiosos de palco para legitimar acúmulo, meritocracia espiritual e teologia da eficiência — mas, no interior da tradição lucana, ela denuncia justamente essas distorções. Jesus revela que o verdadeiro Deus não é o senhor duro da parábola; Deus é o Pai que oferece o Reino como dom, não como investimento (Lc 12,32). A patrística confirma esse caminho: Crisóstomo afirma que os bens não multiplicados em favor dos pobres “se tornam roubo” (Hom. in Mt 90), Agostinho ensina que “o que tens e não partilhas, tu o roubas” (Serm. 50), enquanto Orígenes enfatiza que as moedas representam o Evangelho que deve gerar vida, não performance.

Lucas diz que Jesus contou esta parábola porque as pessoas “pensavam que o Reino de Deus ia se manifestar imediatamente”. Essa impaciência ecoa expectativas semelhantes em At 1,6: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Israel?”. A expectativa popular nutria a fantasia de um Messias político que inauguraria um reinado triunfal. Mas Jesus frustra essas expectativas apresentando um homem que viaja para receber um reino — figura que, no mundo histórico, alude direta e provocativamente à família de Herodes, especialmente Arquelau, que viajou a Roma para receber do imperador o título real. Todos na Judeia sabiam como Arquelau governava: com violência, impostos pesados, crueldade administrativa e repressão, como o próprio 1Mc 8–9 denuncia sobre governantes que oprimem os povos. Jesus começa com uma imagem conhecida: um pretendente ao trono que governa com dureza, rejeitado por parte da população, como eco de 1Sm 8,10-18, quando o profeta anuncia que reis humanos sempre tomarão o melhor do povo. É como se Jesus dissesse: “Vocês querem um Messias assim? É esse tipo de realeza que esperam de Deus?”. O pretexto histórico ilumina o contexto narrativo: o Messias de Deus não se parece com os reis violentos do mundo.

Esse elemento histórico também serve como chave hermenêutica: o “senhor duro” da parábola não é Deus; é justamente o contrário do Deus revelado por Jesus. Em Zacarias 9,9-10, o profeta anuncia um rei justo, vitorioso e humilde, que elimina carros de guerra, cavalos e arcos de combate — em suma, um soberano pacífico que desmonta a lógica de violência política. Jesus, ao aproximar-se de Jerusalém, encarna essa profecia ao entrar montado num jumentinho, em contraste com a entrada triunfal militar esperada, como relatado em Mt 21,1-11, Mc 11,1-10 e Jo 12,12-15. A parábola, portanto, funciona como contraste profético entre o messianismo de Jesus e os modelos de realeza humana. Também dialoga com Dn 7,13-14, onde o Filho do Homem recebe um reino eterno, não pela força, mas pelo dom de Deus.

O homem que parte entrega moedas aos servos e ordena que “negociem” até sua volta. A palavra “negociar” aqui não significa obedecer a uma lógica de mercado capitalista, mas agir com responsabilidade a partir do que foi confiado — paralelo ao “vigiai” de Mt 25,13 e à responsabilidade do servo fiel em Mt 24,45-51 e Lc 12,35-48. O erro das leituras superficialmente moralistas é ler a parábola como exaltação da produtividade, como se Deus fosse um empresário exigente que cobra rendimento financeiro. Essa interpretação, comum em pregações da teologia da prosperidade e da teologia do domínio, é uma distorção grave do evangelho e se aproxima mais da idolatria do que da fé cristã. O Deus de Israel não é acionista do mercado. O Senhor da parábola não é o Senhor Jesus que se dirige a Jerusalém para morrer por amor, mas um personagem ficcional usado para criticar os que projetam em Deus a dureza dos tiranos políticos.

Os dois primeiros servos, que multiplicam suas moedas, representam aqueles que compreendem o Reino como disponibilidade radical, não como contabilidade espiritual. Eles não multiplicam por ganância; multiplicam por confiança. Em Mc 4,26-29, a semente cresce não pela força humana, mas pela confiança no tempo de Deus. Na lógica lucana, confiança e fecundidade são inseparáveis. A fecundidade espiritual não nasce de esforço performático ou produtividade religiosa, mas da coragem de arriscar-se na missão, como Pedro, que lança as redes “confiado na palavra” (Lc 5,5). Em Mt 25,14-30 — o paralelo sinótico — a ênfase é diferente: ali, o senhor da parábola representa Deus, e a fidelidade dos servos é medida pela ousadia da fé. Lucas adapta, desloca, ironiza e utiliza a mesma matriz narrativa para criticar mecanismos de dominação e, ao mesmo tempo, responsabilizar os discípulos por uma fé que deve ser vivida, não enterrada, lembrando também da insistência paulina em 1Cor 12–14, de que cada dom é para edificação comum, jamais propriedade privada.

O terceiro servo, que esconde sua moeda, revela uma psicologia da omissão que atravessa séculos. Ele projeta no senhor uma imagem tirânica: “eu sabia que és homem severo”. Essa projeção revela algo profundo na antropologia bíblica: o ser humano torna-se semelhante ao deus em que acredita. Como diz o Salmo 115, os que confiam em ídolos tornam-se como eles — rígidos, impotentes, sem vida. Quem imagina Deus como tirano vive paralisado pelo medo. O servo não fracassou porque ganhou pouco; fracassou porque não confiou, porque permaneceu no subterrâneo do medo, porque enterrou a vida em vez de entregá-la — ao contrário do que Jesus ensina em Jo 12,24, quando fala do grão de trigo que só frutifica se morrer para si. A psicologia contemporânea ajuda a compreender como a internalização de imagens distorcidas de autoridade gera comportamentos de autocensura, passividade e obediência tóxica. Pessoas oprimidas por líderes religiosos manipuladores — fenômeno infelizmente comum na pós-modernidade — desenvolvem traumas espirituais profundos. O servo que esconde a moeda é o símbolo daqueles que, feridos por religiosidades violentas, acreditam que Deus é um fiscal impaciente, um cobrador implacável, um gerente de resultados. É a fé-espetáculo que exige performance; é a fé-empresa que transforma o sagrado em mercadoria; é a religião do medo que controla corpos e consciências, denunciada duramente por Jesus em Mt 23, quando ataca os que “impõem fardos pesados” sobre os outros.

A sociologia também ilumina a parábola quando mostra como sistemas econômicos de exploração exigem que todos “rendam mais” e culpam indivíduos quando o sistema fracassa. Vivemos numa sociedade que naturaliza a uberização, a flexibilização precarizante, o culto à produtividade, o descarte dos improdutivos — aquilo que Tg 5,1-6 denuncia como acumulação injusta e exploração laboral. A parábola de Lucas provoca uma crítica à economia da acumulação porque ela expõe a crueldade estrutural: o pouco do pobre é arrancado para aumentar o muito do rico, como também denuncia Mt 13,12 no contexto da cegueira espiritual, e não de economia divina. Aqui ecoa Amós 8,4-6, onde o profeta denuncia os que exploram os pobres manipulando medidas, explorando necessidades e lucrando às custas de vidas destruídas. Também ecoa Eclesiástico 34,26-27: “Tirar o pão de quem trabalha é assassínio”. O mundo antigo e o mundo contemporâneo se encontram nessa denúncia.

A filosofia oferece um contraponto ao apresentar que a liberdade não é ausência de responsabilidade, mas a coragem de dispor da própria vida em direção ao bem. Hannah Arendt ensina que o mal se perpetua pela banalidade, pelo conformismo dos que deixam o mundo como está. O servo que enterra a moeda encarna essa banalidade do mal: não fez nada explicitamente violento, mas sua omissão permitiu que a dureza do sistema continuasse. O Reino exige resistência ao modo de Jesus, não cumplicidade silenciosa — e Jesus mostra em Lc 4,18-19 que sua missão é libertar, não reproduzir estruturas opressoras.

A patrística reforça a mesma direção. Crisóstomo afirma que “não dar aos pobres é roubar deles”; Agostinho diz que “o que tens e não partilhas, o roubas”; Orígenes interpreta as moedas como dons espirituais que se multiplicam no amor, em consonância com Rm 12,6-8. Para os Padres da Igreja, a fecundidade da fé não é medida em números, mas em caridade. A moeda multiplicada é o amor que gera vida; a moeda enterrada é a caridade sufocada pelo medo ou pelo egoís

A teologia do Concílio Vaticano II aprofunda ainda mais o escopo da parábola. Gaudium et Spes 63-66 denuncia a idolatria do lucro e afirma que a economia deve servir à pessoa humana, jamais o contrário — eco direto da denúncia profética de Ml 3,5, que condena os que exploram o trabalhador. Evangelii Gaudium 53-60 insiste que a economia da exclusão é injusta e assassina, lembrando o lamento de Ap 18, que descreve o colapso das cidades erguidas sobre exploração humana. Fratelli Tutti 36 e 168 criticam a lógica da eficiência que descarta vidas, chamando-a de “cultura do descarte”.

O clericalismo também é denunciado implicitamente. O servo que justifica sua omissão por medo do senhor se parece com aqueles que obedecem cegamente líderes religiosos autoritários, que confundem autoridade pastoral com poder pessoal. Esse comportamento aparece em Gl 2,11-14, quando Paulo enfrenta Pedro justamente para romper com a lógica de submissão cega. Tal clericalismo transforma o Reino numa empresa hierarquizada, onde os pastores viram executivos espirituais e os fiéis se tornam funcionários da fé. O Reino não é isso. O Reino é serviço, humildade, entrega de si. O Cristo que está a caminho de Jerusalém não exige rendimentos; oferece sua vida. Não cobra resultados; entrega misericórdia. Não domina; serve, como ensina em Mc 10,42-45.

A  antropologia bíblica mostra que a verdadeira fecundidade nasce da confiança. Abraão não enterra sua vida — oferece-a (Gn 22,1-19). Moisés não foge — retorna ao Egito (Ex 3–4). Jeremias não se cala — grita, mesmo ferido (Jr 20,7-9). Maria não esconde — concebe (Lc 1,26-38). Pedro não se tranca — lança redes (Lc 5,5). Paulo não se paralisa — corre para o alvo (Fl 3,12-14). A fé é sempre movimento. A moeda enterrada é a fé estagnada, enquanto a moeda multiplicada é a confiança que se torna fecunda, como o ramo enxertado de Jo 15,1-8.

a conclusão da parábola, os inimigos do rei são executados. Aqui reside a ironia mais profunda: essa é a descrição de como fazem os reis do mundo, não o Rei messiânico de Deus. O Messias que vai entrar em Jerusalém não extermina inimigos, mas perdoa perseguidores (Lc 23,34). Não derrama sangue alheio, mas o próprio (Hb 9,12). Não se impõe pela espada, mas pela cruz (Fp 2,6-11). Se alguém tentar ler esse rei violento como figura de Jesus, trai o evangelho. Lucas nos força a perceber a contradição.

A moeda que Deus nos dá é a vida, o amor, a fé, a vocação, o tempo, o encontro, a coragem. Não é para ser enterrada por medo, nem multiplicada por ganância, mas cultivada no amor. E quando esse amor se multiplica, ele transforma o mundo em casa compartilhada, como na profecia de Zacarias: sem cavalos de guerra, sem carros de combate, sem arcos destrutivos. É o mesmo horizonte de Is 2,2-5, onde as espadas viram arados, e de Is 58,6-12, onde a verdadeira religião é libertar os oprimidos e repartir o pão com os famintos.

No final, a parábola se transforma num espelho: quem somos nós? Os que confiam e arriscam, ou os que enterram a vida por medo? Os que multiplicam amor ou os que justificam a omissão? Os que constroem o Reino ou os que se escondem atrás da dureza que projetam em Deus? É possível que muitos cristãos vivam como o terceiro servo, não por maldade, mas porque foram ensinados a temer um senhor que Jesus nunca foi. O desafio do evangelho é desenterrar a vida. Desenterrar a coragem. Desenterrar a fé. Desenterrar a esperança. Desenterrar a humanidade soterrada por sistemas que exigem produção e descartam pessoas — aquilo que Jesus combateu ao longo de todo o evangelho, desde Lc 4,18 até Mt 28,20.

A moeda que Deus nos deu é pequena, mas é viva. Não é metal; é semente (Mc 4,30-32). E semente enterrada por medo apodrece. Semente enterrada por confiança floresce. Que a Palavra deste fim de ano litúrgico nos devolva ao chão do Reino, onde a fecundidade não é medida em números, mas em amor que permanece, em justiça que resiste, em misericórdia que renova o mundo. E que, quando o Filho do Homem chegar à Jerusalém do nosso coração, não encontre moedas enterradas no medo, mas vida oferecida, amor multiplicado e coragem profética que não se curva aos tiranos de ontem ou de hoje.



DNonato – Teólogo do Cotidiano 


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