segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 19,1-10

Lucas 19,1-10 apresenta uma das cenas mais incisivas e paradoxais do Evangelho: o encontro de Jesus com Zaqueu, o homem que, ao mesmo tempo, representa o cume da corrupção econômica da época e o abismo humano de alguém que, apesar das riquezas, vive encurralado por uma sede interior que nenhuma posse é capaz de saciar. Este texto é proclamado na Liturgia da Igreja no 30º Domingo do Tempo Comum do Ano C e na 33ª semana do Tempo Comum (terça-feira), justamente porque o tema da conversão, da justiça, da dignidade humana e da visita misericordiosa divina encontra aqui uma síntese viva do mistério da salvação. A liturgia o coloca nestes momentos porque nos aproximamos do fim do ano litúrgico, quando a Igreja contempla a vinda do Senhor que julga e salva. Ao proclamar Zaqueu neste período, somos lembrados de que o encontro com Cristo sempre desemboca em juízo — não um juízo condenatório, mas um juízo que revela a verdade de cada coração e que chama à transformação radical, como aparece também em outras passagens de Jesus que se aproxima dos pecadores e provoca decisões (cf. Lc 7,36-50; Lc 15; Jo 8,1-11).

Lucas, mais do que os demais sinóticos, tem predileção por narrar encontros pessoais marcados pela reversão simbólica: o rico que se humilha, o pecador público que deseja ver, o impuro que se aproxima, o desprezado que se torna modelo, como no caso do Samaritano (Lc 10,25-37). Aqui, Zaqueu surge como uma figura quase literária, composta com elementos simbólicos densos: ele é chefe dos publicanos, portanto, não apenas cobrador de impostos, mas o topo da cadeia de exploração. Representa, sociologicamente, o cúmplice dos mecanismos de opressão do Império Romano, alguém que extrai riqueza por meio da dor alheia. Mas, paradoxalmente, também é alguém que vive à margem da vida social, porque os judeus o consideravam traidor da própria gente. Vivia, portanto, num paradoxo: incluído economicamente, excluído afetiva e religiosamente. É a imagem do sujeito moderno que, mesmo cercado de bens, habita o vazio relacional; alguém que, como diria Gaudium et Spes (n. 63-66), se vê preso à lógica econômica que absolutiza o lucro e destrói a pessoa, transformando-a em engrenagem da máquina de acumulação. Este mesmo vazio aparece também no jovem rico (Lc 18,18-23), que não consegue romper com seus bens, e no homem que, após colheita farta, diz a si mesmo: “Minha alma, tens muitos bens acumulados...” (Lc 12,16-21). Em todos esses textos, a riqueza mal-administrada se torna prisão.

Por isso, quando Lucas descreve que ele “procurava ver quem era Jesus”, não está apontando apenas uma curiosidade. A palavra usada indica desejo profundo, busca existencial, o movimento de alguém que sabe que sua vida está desintegrada. Psicologicamente, é a dinâmica do sujeito que, mesmo vivendo em estruturas de pecado, começa a perceber as rachaduras internas: a angústia que Freud identificaria como retorno do recalcado, ou que Jung veria como um sintoma da sombra emergindo, ou ainda o que Viktor Frankl entenderia como o grito da vontade de sentido. Zaqueu é, antes de tudo, um ser carente de encontro — e é por isso que sobe numa figueira. Aqui há um paralelo com a mulher hemorroíssa (Mc 5,25-34), que rompe barreiras físicas para tocar Jesus; com Bartimeu (Mc 10,46-52), que grita apesar da multidão; com a siro-fenícia (Mc 7,24-30), que insiste apesar da rejeição aparente. Em todas essas cenas, há um movimento humano em direção ao divino, que precede e provoca o gesto de Jesus.

Esse gesto, aparentemente trivial, carrega grande densidade simbólica. Na antropologia bíblica, subir à árvore remete ao retorno à origem, ao desejo de recuperar a visão perdida, como em Gênesis 3, onde o fruto da árvore revela, paradoxalmente, tanto a queda quanto o desejo humano de ver além. E, ao mesmo tempo, lembra Amós 7,14, o profeta que cuidava de sicômoros, árvores populares, símbolo do povo simples. Zaqueu sobe não numa árvore imponente, mas num sicômoro, árvore dos pobres — e isso já indica um deslocamento interior: o rico sobe na árvore dos pequenos para ver Aquele que faz os pequenos serem vistos. É a inversão lucana que ecoa todo o Evangelho: o Magnificat de Maria (Lc 1,46-55), a exaltação dos humildes e a queda dos poderosos, o gesto de Jesus ao escolher pescadores (Lc 5), sua aproximação dos marginalizados (Lc 4,18-19). O sicômoro, como árvore, ecoa ainda o Salmo 1, onde o justo é comparado a árvore plantada junto às águas, e Judite, que sobe ao alto para contemplar o acampamento inimigo antes de agir (Jt 8–13). Zaqueu retorna ao solo do qual nunca deveria ter se afastado: o solo da humildade.

Filosoficamente, esse movimento é a negação da vaidade que sustenta as ideologias de dominação. A teologia da prosperidade, por exemplo, não entenderia Zaqueu, pois construiu uma espiritualidade baseada no acúmulo, no mérito individual, no “eu determino”, que é exatamente a lógica que alimentou sua vida anterior. Zaqueu é o oposto do crente da prosperidade: ele se desmonta, se desinstala, se expõe ao ridículo. Em linguagem paulina, “esvazia-se” (cf. Fl 2,6-8). Ele sobe à árvore como quem aceita perder seu status, como quem desmonta a “máscara social” que Goffman descreve como uma exigência das interações sociais. O sociólogo diria que Zaqueu rompe com o “papel social” que o definia; a antropologia diria que ele transita do “homem econômico” para o “homem simbólico”; a teologia diria que ele começa a assumir a postura do pecador que se abre ao encontro. Aqui podemos lembrar também do movimento de Jonas, que, só depois de descer ao ventre do peixe, reconhece sua desordem interior (Jn 2), ou de Elias, que, só após descer ao deserto do Horeb (1Rs 19), escuta o sussurro divino.

Então, o texto diz que Jesus “olhou para cima”. Aqui está um dos movimentos mais belos da Escritura: o Deus que olha para cima, que ergue o olhar para encontrar o pequeno que se fez pequeno. Este olhar remete ao olhar de Deus que, em Êxodo 3,7, ouviu o clamor do povo e desceu para libertá-lo. Em Jesus, esse movimento é levado ao extremo: ele não apenas vê, ele chama. Chama pelo nome: “Zaqueu”. É um gesto profundamente teológico: chamar pelo nome significa restaurar identidade. É o que Deus faz com Abrão (Gn 17), com Jacó (Gn 32), com Samuel (1Sm 3) e com cada profeta. É o que o Bom Pastor fará no discurso de João 10: “Ele chama suas ovelhas pelo nome.” Este chamado ecoa Isaías 43,1: “Eu te chamei pelo nome, tu és meu.” Ao chamá-lo, Jesus desfaz a identidade deteriorada que lhe fora imposta pela sociedade: pecador, corrupto, traidor. Ao chamá-lo pelo nome, devolve-lhe a identidade primordial: filho amado, filho de Abraão. Aqui ecoa também a parábola da dracma perdida (Lc 15,8-10) e da ovelha perdida (Lc 15,4-7): Deus busca, encontra, ilumina, restitui e celebra.

Santo Agostinho dirá que Deus nos ama não porque somos bons, mas para que possamos nos tornar bons; Santo Ambrósio dirá que Cristo entra na casa dos pecadores para mostrar que a Igreja é hospital e não tribunal; Orígenes afirmará que Zaqueu simboliza a alma que, antes de ver Jesus, precisa subir na árvore da sabedoria humilde, reconhecer sua pequenez e abrir-se à Palavra que chama pelo nome; São Gregório de Nissa dirá que o encontro com Deus sempre exige movimento interior, deslocamento, abertura ao inesperado.

E então Jesus diz: “Hoje preciso ficar na tua casa.” O verbo grego ménō significa permanecer, habitar, fixar residência. É o mesmo verbo usado em João 15: “Permanecei em mim.” É mais do que uma visita: é uma decisão divina de fazer morada. Em contexto lucano, esse verbo indica também o cumprimento das promessas proféticas de Deus que habita com seu povo (cf. Ez 37,26-28). Jesus escolhe a casa do pecador porque a salvação é sempre um acontecimento concreto: não acontece na abstração, mas na vida, na mesa, na relação. Aqui ecoa Apocalipse 3,20: “Estou à porta e bato. Se alguém abrir, entrarei e cearei com ele.” E também o gesto de Jesus ao partir o pão na casa de Emaús (Lc 24,13-35), onde a permanência gera revelação.

Isso confronta o clericalismo, que transforma a fé em ritualismo distante, em espiritualidade de sacristia, que julga as casas e seleciona onde Deus pode ou não entrar. Jesus escandaliza os religiosos porque entra onde eles jamais entrariam. E é por isso que a cena provoca murmurinho: “Entrou para hospedar-se na casa de um pecador!” A multidão revela sua teologia perversa: uma espiritualidade de controle, exclusão, moralismo. Exatamente o mesmo murmúrio dos fariseus quando Jesus acolhe pecadores (Lc 5,30; Lc 15,2). Aqui, Jesus se coloca frontalmente contra toda tentativa de usar Deus como arma ideológica. Evangelii Gaudium (n. 93-97) denuncia essa tentação de transformar a fé em poder. Fratelli Tutti (n. 71-76) denuncia a religião usada para justificar exclusões.

O encontro com Jesus provoca em Zaqueu o movimento mais significativo de toda a narrativa: sua conversão se manifesta não em palavras de arrependimento, mas em ações concretas de justiça. Ele diz: “Dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, devolverei quatro vezes mais.” É a síntese perfeita da conversão bíblica, que é sempre “voltar às origens do coração” e “reparar o dano causado ao outro.” Aqui ecoam Ezequiel 18 (conversão ligada à justiça), Isaías 58 (o jejum verdadeiro é soltar cadeias e repartir o pão), Amós 5 (Deus aborrece culto sem justiça), Miquéias 6,8 (“praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente”). O eco da Lei mosaica é evidente: Êxodo 22,1 fala de restituição quádrupla em casos de roubo. Zaqueu não devolve apenas o que roubou; ele devolve multiplicado. Ele não cumpre a Lei; ele a supera. É como se realizasse literalmente o que João Batista exigia dos publicanos: “Não cobreis mais do que o estabelecido” (Lc 3,12-13). Em Zaqueu, a reforma ética imaginada por João Batista se concretiza radicalmente.

Sua conversão toca o ponto nevrálgico: o dinheiro. Ele desmonta a lógica do acúmulo. Ele desmonta a idolatria denunciada pelos profetas (cf. Mq 2,1-2; Am 8,4-6). Ele desmonta o sistema de exploração do qual era peça-chave. A conversão de Zaqueu é sociológica: implica transformação de estruturas, redistribuição de bens, reparação social. É teológica: implica reconhecer que a salvação tem impacto econômico. É psicológica: implica renunciar à segurança ilusória do dinheiro como objeto transicional. É filosófica: implica abdicar do “ter” para reencontrar o “ser”, como já denunciava Erich Fromm. É patrística: São João Crisóstomo insistirá que não há verdadeira conversão sem atenção aos pobres, porque ninguém pode ver Cristo se não vê o pobre. E é lucana: a comunidade de Atos repercute esse gesto quando coloca seus bens em comum (At 2,44; 4,32).

Jesus então proclama: “Hoje a salvação entrou nesta casa.” O “hoje” lucano é sempre teológico: é o “hoje” da encarnação (2,11), o “hoje” da sinagoga de Nazaré (4,21), o “hoje” do bom ladrão (23,43). É o tempo da graça que irrompe. E diz: “Este homem também é filho de Abraão.” É a reintegração plena. O sistema religioso o havia expulsado; Jesus o reintegra. Aqui ecoa Gálatas 3,7: “Os que têm fé são filhos de Abraão.” E ecoa também Romanos 4, onde Paulo afirma que Abraão é pai de todos os que creem. Zaqueu é, portanto, a imagem do ser humano reintegrado na aliança. Sua casa se torna templo, como a casa de Cornélio (At 10), como a casa de Lídia (At 16), como a casa onde Jesus celebra a última ceia (Lc 22). Deus visita casas, não sistemas.

E Jesus encerra revelando o núcleo de sua missão: “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.” Essa frase ecoa Ezequiel 34, onde Deus promete buscar as ovelhas perdidas que os pastores negligenciaram. Jesus se apresenta como o cumprimento dessa profecia, confrontando diretamente os pastores que, em nome da religião, afastam, dividem, condenam. Aqui temos a crítica viva ao clericalismo, que fecha portas que Jesus abre, que condena quem Jesus acolhe, que transforma misericórdia em privilégio sacramental. A Igreja, ao proclamar esta leitura no fim do ano litúrgico, lembra-se de que será julgada por isso: por buscar ou não buscar os perdidos. Evangelii Gaudium expressa exatamente isso: a Igreja deve ser “a casa aberta do Pai” (EG 47), uma Igreja de portas abertas, não burocrática, não fiscal da graça.

Zaqueu, na narrativa lucana, é também uma chave hermenêutica para entender outros personagens: o jovem rico que não conseguiu se desprender dos bens (Lc 18,18-23), o fariseu e o publicano no templo (Lc 18,9-14), o cobrador de impostos chamado Levi/Mateus (Lc 5,27-32), a pecadora perdoada na casa do fariseu (Lc 7,36-50). Em todos esses casos, a estrutura é similar: encontro → escândalo religioso → libertação interior → ação transformadora. O que distingue Zaqueu é que seu gesto final é um ato de justiça social mais radical que todos os outros. Por isso ele se torna modelo para a comunidade lucana, que vivia tensões econômicas internas, como indicam Atos 2,42-47 e 4,32-35. A comunidade primitiva, ao ouvir Zaqueu, reconhecia nele a matriz da partilha que gerou a fraternidade apostólica. E Fratelli Tutti, ao falar da amizade social (n. 215), ecoa exatamente isso: ninguém se salva sozinho, e a conversão verdadeira sempre desemboca no cuidado do outro.

Zaqueu é o sujeito capturado pelo sistema neoliberal, que transforma tudo em mercadoria — inclusive Deus. Sua conversão confronta a fé-mercadoria que se espalha nas plataformas digitais, onde pregadores buscam seguidores, monetização, curtidas, transformando o Evangelho em espetáculo. Zaqueu desmonta essa lógica ao devolver, ao repartir, ao se desfazer do que o legitimava como peça útil ao sistema. Sua conversão é profética: devolve dignidade aos pobres antes mesmo de devolver o dinheiro. Ele repara o dano social. Ele devolve humanidade ao tecido ferido da cidade de Jericó. Ele devolve à sociedade aquilo que lhe havia sido roubado: a confiança, a justiça e a equidade.0.Antropologicamente, Zaqueu é o homem fragmentado que reencontra o centro. É o ser humano que, como o filho pródigo, “cai em si.” É o peregrino que, como Bartimeu (Mc 10,46-52), grita por Jesus enquanto a multidão tenta silenciá-lo. É o estranho que, como a mulher siro-fenícia (Mc 7,24-30), ultrapassa barreiras. É a alma inquieta de que fala Santo Agostinho: “Fizeste-nos para Ti, e inquieto está nosso coração enquanto não repousa em Ti.” Em Zaqueu, a inquietação se torna encontro, e o encontro se torna conversão, e a conversão se torna justiça, e a justiça se torna salvação.

Assim, quando a liturgia proclama Lucas 19,1-10, exige de nós mais do que emoção espiritual. Exige conversão estrutural. Exige revisão de práticas pastorais. Exige renúncia a ideologias teológicas que transformam Deus em instrumento de poder. Exige reconhecer nos Zaqueus de hoje — moradores de rua, usuários de drogas, profissionais do sexo, jovens negros vítimas de violência policial, pessoas LGBTQIA+ expulsas de comunidades — os filhos de Abraão que Jesus busca. Exige denunciar as casas religiosas onde Jesus não pode entrar porque sua presença desmontaria privilégios.

E, ao final, exige de nós o mesmo gesto de Jesus: levantar o olhar para aqueles que o mundo empurra para cima de árvores invisíveis — árvores da solidão, da vergonha, do medo — e chamá-los pelo nome. Porque é assim que a salvação entra numa casa: quando alguém, finalmente, é visto, chamado, acolhido, transformado. E quando a conversão se torna partilha e justiça, o Evangelho se torna carne no mundo. Zaqueu, então, não é apenas uma história antiga; é o espelho no qual a Igreja vê sua própria missão e julga sua própria fidelidade ao Cristo que veio “procurar e salvar o que estava perdido.”

Esse é o Evangelho vivo. E, como diria Dom Oscar Romero, “uma semana injusta é aquela em que a mesa está cheia para uns e vazia para outros.” Zaqueu inaugura a semana justa: aquela em que quem acumulou restitui, quem explorou repara, quem dominou se converte, e quem estava perdido é finalmente encontrado.



DNonato 

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