terça-feira, 12 de agosto de 2025

Um outro olhar sobre Mateus 18,15-20



A vida cristã jamais foi concebida como uma experiência isolada. Desde o chamado dos primeiros discípulos, Deus reúne pessoas diferentes para formar um povo capaz de refletir, na história, sua justiça, sua misericórdia e seu amor. Entretanto, toda convivência humana conhece conflitos, incompreensões e fragilidades. A questão decisiva não é evitar as crises, mas descobrir como atravessá-las de maneira que ninguém seja reduzido ao seu erro e que a verdade caminhe sempre de mãos dadas com a caridade. É nesse horizonte que o Evangelho desta liturgia revela uma pedagogia profundamente humana e divina, na qual cada relação restaurada torna-se um sinal concreto da presença do Reino de Deus entre aqueles que escolhem viver segundo o coração de Cristo.

O Evangelho de Mateus 18,15-20, proclamado na 4ª-feira da 19ª semana do Tempo Comum    e no 23º Domingo do Tempo Comum do Ano A, nos insere-se no chamado “Discurso Eclesial”, pronunciado por Jesus provavelmente em Cafarnaum, logo após a discussão entre os discípulos sobre quem seria o maior no Reino dos Céus (Mt 18,1). Este não é um código jurídico rígido, mas um itinerário espiritual e pastoral para preservar a comunhão e evitar rupturas que ferem a Igreja enquanto Corpo de Cristo. No contexto histórico-cultural das comunidades cristãs primitivas, espalhadas na periferia do Império Romano, o ensinamento de Jesus respondia a tensões internas, exclusões e ameaças externas. Havia o risco da divisão que poderia enfraquecer a missão evangelizadora e o testemunho público da fé. A exortação de Jesus era, portanto, uma resposta urgente e prática para manter a unidade e a santidade da comunidade.

Jesus, ao retomar o princípio de Deuteronômio 19,15,  “pelo depoimento de duas ou três testemunhas se estabelecerá a causa”,  o ressignifica, não como um instrumento de condenação, mas como um caminho de misericórdia. Primeiro, o convite é para falar a sós com o irmão; depois, para envolver dois ou três; por fim, para apresentar a questão à ekklesia,  termo grego que significa assembleia convocada, um espaço dinâmico e ativo de discípulos e não uma instituição burocrática rígida. O verbo grego usado para “repreender” (ἐπιτιμάω) traz a conotação de chamar à conversão, ao ajuste de rota, mais do que uma acusação implacável. A estrutura tripartite do processo é cuidadosamente articulada para evitar injustiças e favorecer a reconciliação. O diálogo pessoal preserva a dignidade e evita expor publicamente a falha; a intervenção de duas ou três testemunhas traz equilíbrio e imparcialidade; e a intervenção comunitária simboliza a responsabilidade da Igreja como corpo de fiéis para manter a unidade. Essa progressão espelha a pedagogia do amor paciente que quer reconstruir e não destruir.

Quando Jesus diz que, se necessário, o irmão “seja para ti como um pagão ou publicano”, não autoriza a exclusão definitiva, mas um recomeço missionário. A palavra grega ethnos (“pagão”) remete a quem está fora da aliança, e “publicano” lembra aqueles marginalizados por colaborarem com Roma. Contudo, Jesus acolheu esses grupos e elogiou a fé da mulher cananeia (Mt 9,10-13; 15,21-28), indicando que esse “excluir” é um convite à conversão e reintegração. O processo de correção fraterna, longe de ser fechado, é um caminho que impulsiona a comunidade para fora de si mesma, reafirmando sua missão de testemunhar o Reino. A exclusão temporária é sempre um “estado transitório”, uma pausa para conversão e reconciliação.

A promessa: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio deles” é uma afirmação fundamental da presença real de Cristo na comunhão fraterna e reconciliadora. Essa presença não depende do número, mas da qualidade da comunhão e da intenção sincera de seguir Jesus e restaurar relações. A Shekiná judaica, presença divina entre o povo reunido, é retomada como sinal de que Deus habita onde reina a unidade e o perdão. Essa promessa inspira a Igreja a confiar no poder transformador da oração comunitária e do perdão mútuo, fundando sobre essa experiência o anúncio do Reino. Os paralelos nos Sinóticos reforçam essa pedagogia: Lucas 17,3-4,  que aparece no 27º Domingo do Te mpo Comum dentro da leitura de Lucas 17,5-10 e  também na segunda-feira da 32ª semana do Tempo Comum  dentro do Evangelho  de  Lucas 17,1-6,  que  convoca ao perdão reiterado; Marcos 11,25,   proclamado na na sexta-feira da Oitava semana do Tempo Comum de forma ampla em Marcos 11,11-26 que vincula o perdão à eficácia da oração; Levítico 19,17 do Antigo Testamento reforça a exigência moral de confrontar o irmão para evitar o cúmplice silêncio que permite o pecado persistir.

A realidade   confronta distorções modernas da fé: a teologia da prosperidade que transforma a comunhão em espetáculo e negócio; a teologia do domínio que subjuga com discursos autoritários; o individualismo que se exime da responsabilidade comunitária; e a fé-mercadoria que reduz oração a contrato de troca. Também desafia o clericalismo denunciado pelo Papa Francisco, que concentra a correção como prerrogativa exclusiva dos líderes, enquanto toda a comunidade é responsável.

O Papa Francisco nos  convocava  a viver o  espírito sinodal,  que deve animar a Igreja hoje, enfatizando que “a responsabilidade pela vida da comunidade é de todos, não só de uns poucos” (Evangelii Gaudium, 32). Santo João Crisóstomo ensina que a correção deve ser sempre temperada pela paciência e caridade, pois “corrigir é um ato de amor que quer a cura e não a punição”.

  • Gaudium et Spes (n. 27) afirma que “tudo o que se opõe à vida envenena a convivência humana”. Santo Agostinho já ensinava: “Corrigir é amar, calar-se é odiar” (Sermão 82). Santo Ambrósio, refletindo sobre a Igreja, exorta que “a caridade corrige, mas jamais destrói a comunhão”.
Este Evangelho  proclamado  entre  de agosto e setembro,  pedimos  licença  para  apresentar  um  mural de pessoas que se passaram por nossa realidade e ao longo de suas celebrações, a Igreja recorda homens e mulheres que, em diferentes épocas, culturas e circunstâncias, procuraram transformar a fé em vida concreta. Não encontramos nesses santos uma espiritualidade baseada apenas em palavras, devoções ou aparências religiosas, mas histórias marcadas por conversão, serviço, misericórdia, coragem, compromisso com os pobres e fidelidade ao Evangelho.   Sua   Essa expressão: "ganhaste o teu irmão"  é a chave para compreender todo o texto. A finalidade da correção cristã não é vencer uma disputa, provar que alguém está errado ou exercer poder sobre a consciência alheia. É recuperar a relação, restaurar a pessoa e reconstruir a comunhão. A comunidade cristã não deveria ser um tribunal permanente, mas um espaço onde a verdade e a misericórdia possam se encontrar. É   nesse horizonte que podemos contemplar os santos celebrados durante o mês de agosto.  

  •  1⁰, a Igreja celebra Santo Afonso Maria de Ligório, bispo e doutor da Igreja, profundamente marcado pela compreensão da misericórdia de Deus. Sua vida nos recorda que a consciência humana precisa ser formada pela verdade, mas também precisa encontrar o rosto misericordioso de Deus. A correção cristã não pode transformar o Evangelho em instrumento de medo e condenação.
  • 4  São João Maria Vianney, o Cura d'Ars, cuja vida esteve profundamente ligada à reconciliação. Diante de pessoas marcadas pelo pecado, pela culpa e pela fragilidade, ele exerceu o ministério sacerdotal como caminho de retorno à graça. Sua memória ajuda-nos a compreender que corrigir alguém exige primeiro aprender a escutar.
  • São Domingos de Gusmão, grande pregador da Igreja. Sua memória recorda que a verdade precisa ser anunciada, mas nunca separada da caridade. Uma verdade utilizada para humilhar deixa de cumprir a finalidade do Evangelho. A palavra cristã deve iluminar, provocar conversão e abrir caminhos, e não simplesmente esmagar quem pensa ou age de maneira diferente.
  • 9 Santa Teresa Benedita da Cruz, Edith Stein, filósofa, carmelita e mártir. Sua vida atravessou um dos períodos mais sombrios da história europeia, marcado pelo nazismo e pela desumanização. Seu testemunho nos lembra que o Evangelho também possui uma dimensão histórica e social: diante da injustiça e da destruição da dignidade humana, a fé não pode permanecer indiferente.
  • 10 São Lourenço, diácono e mártir. A tradição cristã conserva sua famosa resposta ao poder quando apresentou os pobres como o verdadeiro tesouro da Igreja. Essa memória permanece profundamente atual. Uma Igreja pode possuir estruturas, patrimônio, influência e reconhecimento social, mas se não consegue enxergar os pobres, os doentes, os abandonados e os invisibilizados, corre o risco de esquecer o próprio Cristo.
  • 11  Santa Clara de Assis, mulher que escolheu a pobreza evangélica, a fraternidade e uma vida radicalmente orientada para Deus. Sua existência questiona uma sociedade marcada pela competição, pelo individualismo e pela busca permanente de status. A comunidade cristã não pode ser construída sobre a lógica do poder, porque Jesus apresenta a fraternidade como caminho do Reino.
  • 13 Santa Dulce dos Pobres, canonizada em 2019. Sua vida é talvez uma das expressões brasileiras mais eloquentes de um cristianismo que não se limita a falar sobre o amor, mas o transforma em serviço. Quando sua irmã Dulcinha enfrentou uma gravidez de risco, em 1956, Irmã Dulce fez um voto: se a irmã sobrevivesse, dormiria sentada como gesto de gratidão e penitência. Cumpriu essa prática durante cerca de trinta anos, até que os médicos, diante do agravamento de sua saúde e do enfisema pulmonar, recomendaram que deixasse de fazê-lo. A cadeira simples onde dormia encontra-se preservada no Memorial Irmã Dulce, em Salvador. Esse gesto pode ser compreendido à luz das palavras de Jesus em João 15,13: "Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida pelos seus amigos." Mas a grandeza de Santa Dulce não está apenas nesse gesto pessoal de penitência. Está principalmente na maneira como transformou sua fé em compromisso com pessoas concretas. Pobres, enfermos, moradores de rua e abandonados encontraram nela acolhimento e dignidade. 
  1. Santa Dulce não precisou transformar a pobreza em discurso religioso. 
  2. Ela aproximou-se do pobre e não precisou fazer da fé um espetáculo. Ela serviu.
  3. Não precisou usar o sofrimento dos outros para construir prestígio. Ela colocou sua própria vida a serviço deles.

Sua trajetória nos ajuda a compreender Mateus 18: ganhar o irmão significa aproximar-se dele, reconhecer sua dignidade e procurar caminhos para que sua vida seja restaurada.

  •  14 São Maximiliano Maria Kolbe, que, no campo de concentração de Auschwitz, ofereceu sua própria vida para salvar outro prisioneiro. Seu gesto tornou-se uma expressão radical daquilo que Jesus havia ensinado: o amor verdadeiro não permanece apenas no campo das palavras. Ele é capaz de entregar a própria vida pelo outro.
  • 20 São Bernardo de Claraval, cuja tradição espiritual nos ajuda a recordar que verdade e amor não podem ser separados. A correção sem misericórdia pode transformar-se em violência moral; a misericórdia sem verdade pode transformar-se em permissividade. O Evangelho procura justamente a difícil síntese entre verdade e graça.
  • 21 São Pio X. Sua memória nos conduz à necessidade de renovação permanente da Igreja. Estruturas, normas, cargos e instituições possuem sua importância, mas não podem ocupar o lugar do Evangelho. A Igreja existe para servir à missão de Cristo, e não para transformar seus próprios interesses em finalidade absoluta.
  • 24 São Bartolomeu Apóstolo, tradicionalmente identificado com Natanael no Evangelho de João. Quando Jesus o encontra, afirma: "Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade!" (Jo 1,47). É uma palavra extremamente significativa quando pensamos em Mateus 18. Não existe verdadeira reconciliação onde predominam falsidade, fofoca, manipulação e julgamentos feitos pelas costas..A correção fraterna exige coragem para conversar diretamente com o outro. Exige abandonar a lógica da exposição pública e da condenação pelas redes sociais. Exige dizer a verdade olhando nos olhos, com respeito e responsabilidade.
  • 27  Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho. Sua história é marcada pela perseverança. Durante anos, acompanhou as dificuldades e os caminhos tortuosos do filho, sem desistir dele. Sua vida demonstra que nem toda transformação acontece imediatamente. Algumas pessoas precisam de tempo para amadurecer, reconhecer seus erros e encontrar um novo caminho.
  • A história de Santa Mônica desemboca no dia 28 de agosto, quando celebramos Santo Agostinho de Hipona, bispo e doutor da Igreja. Sua trajetória é uma das grandes histórias de conversão do cristianismo antigo. Agostinho não nasceu santo. Percorreu caminhos intelectuais, afetivos e espirituais complexos. Errou, buscou, questionou, desejou e finalmente encontrou na graça de Deus um novo horizonte. Sua história nos ensina uma verdade fundamental: ninguém deveria ser reduzido ao seu passado.

É exatamente isso que Mateus 18 nos recorda. Jesus não diz: "destrua o irmão que errou". Ele diz: "ganhaste o teu irmão."  

  • A pessoa é maior do que seu erro.
  • A  história é maior do que um momento.
  • A  possibilidade de conversão é maior do que o julgamento definitivo.

E terminamos  com dia  29 de agosto, celebramos o Martírio de São João Batista. Aqui aparece outra dimensão da correção fraterna: a dimensão profética.  João Batista não corrigiu apenas indivíduos comuns. Ele confrontou o poder quando denunciou a conduta de Herodes. Sua fidelidade à verdade custou-lhe a própria vida. Isso nos lembra que a correção cristã não deve ser utilizada para controlar os mais fracos enquanto se permanece silencioso diante dos poderosos. O profetismo bíblico possui justamente a capacidade de questionar estruturas injustas e denunciar aquilo que fere a dignidade humana.

Por isso, Mateus 18 não deve ser interpretado como autorização para uma comunidade controlar a vida de seus membros. O texto apresenta um caminho de responsabilidade comunitária, mas seu objetivo permanece a restauração. Jesus começa pelo diálogo privado. Depois, se necessário, envolve outras pessoas. Finalmente, apresenta a questão à comunidade. O processo é progressivo e busca preservar a dignidade do irmão.

Isso é profundamente diferente da cultura contemporânea da exposição, do cancelamento e da humilhação pública. Vivemos em uma época na qual uma pessoa pode ser condenada em segundos, transformada em alvo de ataques e reduzida a um único erro. As redes sociais frequentemente substituem o diálogo pela exposição. A indignação transforma-se em espetáculo. E, algumas vezes, até pessoas religiosas reproduzem esse comportamento enquanto afirmam defender o Evangelho.

Mateus 18 nos propõe outro caminho.

  1. Converse.
  2. Escute.
  3. Corrija.
  4. Procure compreender.
  5. Busque testemunhas quando necessário.
  6. Envolva a comunidade com responsabilidade.

Mas nunca transforme o irmão em objeto de humilhação. É nesse ponto que os santos de agosto deixam de ser apenas nomes de um calendário e passam a ser companheiros de uma caminhada.

  • Santo Afonso nos lembra da misericórdia.
  • São João Maria Vianney, da reconciliação.
  • São Domingos, da verdade anunciada.
  • Edith Stein, da dignidade humana.
  • São Lourenço, dos pobres.
  • Santa Clara, da fraternidade.
  • Santa Dulce, do amor transformado em serviço.
  • São Maximiliano Kolbe, da entrega da própria vida.
  • São Bernardo, da união entre verdade e caridade.
  • São Pio X, da renovação da Igreja.
  • São Bartolomeu, da sinceridade.
  • Santa Mônica, da perseverança.
  • Santo Agostinho, da conversão.
  • São João Batista, da coragem profética.
Sem esquecer  dia 15 Nossa Senhora  da Glória, da Assunção   e que agosto  é  mês  vocacional  Assim,  o mês se transforma em uma verdadeira escola de Evangelho. Os santos não nos ensinam uma religião de aparência, de poder ou de privilégios. Eles apontam para uma fé capaz de entrar na realidade, tocar as feridas humanas e produzir transformação. E ste Evangelho, iluminado pelo testemunho dossantos e santas, é antídoto contra a cultura do descarte, como denuncia Fratelli Tutti (n. 215). Ecoa o Salmo 133: “Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! Ali o Senhor concede a bênção e a vida para sempre”. Corrigir, perdoar, recomeçar: eis o caminho do Reino, vivido com coragem e ternura. Que sejamos, como Santos  e santas, artesãos da paz e da comunhão, porque onde dois ou três estão reunidos em Seu nome, Ele está no meio de nós, sustentando a vida e o amor que permanecem firmes, mesmo quando o corpo cansa e o mundo tenta nos separar.

Mateus 18,15-20,  também  recorda que a maturidade da fé não se mede pela quantidade de práticas religiosas, mas pela capacidade de reconstruir vínculos, curar feridas e preservar a esperança mesmo diante das rupturas. A comunidade que assume esse compromisso torna-se sinal visível do Reino, onde a verdade não humilha, a justiça não se confunde com vingança e a misericórdia nunca abandona quem precisa recomeçar. Sob o olhar de Cristo, cada gesto de reconciliação vence a lógica da indiferença e abre espaço para uma humanidade renovada. Que o exemplo luminoso de Santa Dulce dos Pobres fortaleça em nós a disposição de servir, acolher e restaurar vidas, para que nossas comuni dades sejam lugares onde o amor de Deus continue transformando a história e antecipando, já neste mundo, a comunhão plena prometida por Ele.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

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