Essa voltar ao lugar onde, humanamente, tudo começou. Ali, onde o rosto é conhecido, onde a mãe tem nome, os irmãos são chamados pelo apelido e as mãos guardam calos de carpinteiro. Ali, o Verbo se depara com o escândalo: não da cruz, mas do cotidiano. Escândalo de ser humano demais. De estar perto demais. De não parecer sagrado o suficiente para ser levado a sério. Ali, Jesus experimenta não o ódio direto, mas o desprezo gelado. E Mateus registra, com sobriedade cortante: “Não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles.” A incredulidade narrada aqui é sofisticada. Não se trata de uma dúvida intelectual, mas de um bloqueio existencial.
“De onde lhe vem essa sabedoria?” Perguntam os conterrâneos. Mas a pergunta não busca resposta; ela serve apenas como cortina para esconder o preconceito:
- “Não é este o filho do carpinteiro?”
- Como pode o comum revelar o eterno?
- Como pode o trabalhador pobre, vizinho de porta, conter a autoridade de Deus?
- Quando idolatra os pregadores performáticos, mas desconfia da sabedoria dos simples.
- Quando rejeita o profeta de dentro por não ter “perfil institucional”. Quando privilegia o título acadêmico em detrimento da escuta espiritual.
- Quando recusa o Jesus que vive no sem-teto, no quilombola, na mulher violentada, no migrante queimado vivo.
- Quando Rejeitamos o Cristo vivo sempre que buscamos um Cristo idealizado, encaixado, domesticado, de acordo com os nossos gostos litúrgicos ou nossas doutrinas doutrinárias.
Não é à toa que o Papa Francisco denunciava o clericalismo como perversão espiritual (Evangelii Gaudium, n. 102). Porque o clericalismo é a versão contemporânea da incredulidade de Nazaré: acredita em Deus, mas não acredita que Deus fale através do vizinho. Crê na Eucaristia, mas não vê o corpo de Cristo no pobre. Ama o Papa desde que ele diga o que agrada à elite. O clericalismo vive do espetáculo, não da encarnação. Vive da sacralização das formas, não da santidade dos gestos.
José o Pai de Jesus como operário, é o grande antídoto contra essa fé superficial. Ele é o modelo do homem justo que serve sem aparecer, que protege sem dominar, que silencia sem omissão. Ele transgride a masculinidade patriarcal ao acolher um filho que não gerou, ao viver do trabalho com as mãos, ao sonhar caminhos alternativos para sua família. José é figura do homem novo, do pastor sem púlpito, do santo da carpintaria. Em sua casa, o Verbo aprendeu a andar, a chorar, a esperar, a obedecer. E foi exatamente isso que o tornaria escandaloso aos olhos dos seus.
A recusa em Nazaré ecoa também a observação de João: “Veio para os seus, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11). A recusa dos “de dentro” é constante ao longo da história bíblica:
- Abel é morto pelo irmão
- José é vendido pelos irmãos
- Moisés é desafiado pelo próprio povo
- Jeremias é preso pelos sacerdotes
- Amós é expulso do santuário
- Jesus será crucificado por um conluio entre religião e império.
A Gaudium et Spes nos recorda que “o mistério do homem só se esclarece à luz do Verbo encarnado” (n. 22). E que as dores e alegrias do mundo são também as dores e alegrias da Igreja (n. 1). Uma Igreja que rejeita a carne do mundo rejeita também a carne de Cristo. E uma fé que não se deixa escandalizar pela humanidade do Filho não é fé, mas idolatria religiosa.
Hoje a Nazaré que nos interpela. Não como um vilarejo da Galileia, mas como figura teológica. Nazaré é o lugar onde tudo começa e onde tudo pode ser recusado. Nazaré é cada espaço eclesial onde o profeta é desprezado, onde a encarnação é desacreditada, onde o divino é condicionado ao brilho. Nazaré somos nós, quando preferimos o Cristo dourado ao Cristo do chão. Nazaré é a paróquia onde o operário da Palavra é visto como “demais igual”, e por isso desprezado. Nazaré é a mesa onde a carne de Cristo é adorada na hóstia e ignorada no povo. Mas é também de Nazaré que pode brotar o milagre, se houver fé. Fé não como crença formal, mas como abertura radical ao mistério de um Deus que escolhe os fracos, os pequenos, os operários, os vizinhos, é a Fé que aceita a ternura de um Deus que, ao invés de aparecer nos templos dos reis, escolhe crescer no quintal da periferia.
Por isso, hoje, Nazaré continua a nos interpelar. Ela não é apenas um pequeno povoado da Galileia, mas um símbolo permanente da resposta humana ao Deus que se faz próximo. Nazaré é toda comunidade que prefere o prestígio ao serviço, o espetáculo à simplicidade, a aparência religiosa à força transformadora do Evangelho. É toda Igreja que honra Cristo nos discursos, mas resiste em reconhecê-lo na vida concreta dos pequenos, dos trabalhadores, dos pobres e daqueles que não possuem títulos nem poder Ao mesmo tempo, Nazaré permanece como lugar de esperança. É precisamente ali, na aparente insignificância, que Deus escolheu iniciar a história da salvação. O Filho de Deus não desprezou a oficina de José, nem a vida escondida, nem o trabalho cotidiano. Santificou a existência comum e revelou que o extraordinário de Deus floresce no ordinário da vida. A pergunta decisiva permanece aberta para cada discípulo: somos capazes de reconhecer Deus quando Ele vem sem brilho, sem privilégios e sem aparência de poder? A resposta não depende de mais argumentos, mas de um coração disponível à ação do Espírito, somente a Fé, entendida como abertura humilde ao mistério, é capaz de enxergar no carpinteiro de Nazaré o Emanuel, o Deus conosco e somente essa Fé transforma a incredulidade em encontro, o preconceito em discipulado e o cotidiano no lugar onde o Reino continua a acontecer.
E então, talvez, possamos olhar de novo para aquele carpinteiro e dizer, não com escândalo, mas com esperança: “Ele é um dos nossos e por isso mesmo, é Deus conosco.”

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