quinta-feira, 5 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 21,15-19

 

«Simão, filho de João, tu amas-Me?» (Jo 21,15)

No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, João 21,15-19 proclamado  na sexta-feira  da 7ª semana da Páscoa, sendo uma das leituras que  ocupa lugar privilegiado dentro do Tempo Pascal, sobretudo no Terceiro Domingo da Páscoa do Ano C, quando a liturgia proclama o texto  dentro  do Evangelho de João  21,1-19 e conduz a assembleia ao encontro do Ressuscitado às margens do mar da Galileia, unindo a pesca milagrosa, a refeição junto ao fogo e a restauração de Pedro. A perícope retorna  no horizonte da expectativa de Pentecostes, quando a Igreja contempla a missão apostólica iluminada pela vitória do Ressuscitado. Em celebrações ligadas ao ministério petrino, ordenações episcopais e reflexões pastorais sobre o serviço eclesial, este texto reaparece como fundamento espiritual e eclesiológico. Nas tradições orientais, especialmente bizantina, siríaca e ortodoxa, a narrativa é recebida no horizonte pascal da restauração apostólica e da vitória da vida sobre a morte; entre anglicanos, luteranos e outras Igrejas históricas, permanece associada ao discipulado reconciliado e à missão. Esta recepção ampla mostra algo teologicamente importante: a Igreja nunca leu João 21 apenas como memória privada de Pedro, mas como espelho de sua própria história, uma comunidade constantemente chamada ao recomeço..A cena não pode ser compreendida isoladamente. O diálogo às margens do mar de Tiberíades é o desfecho de um longo caminho iniciado ainda nas primeiras páginas do discipulado. O mesmo Pedro que agora escuta “Tu me amas?” é aquele chamado junto ao lago em Mt 4,18-20; Mc 1,16-18 e Lc 5,1-11, quando deixa redes, barcos e seguranças para seguir Jesus. É o discípulo que ousa caminhar sobre as águas em Mt 14,28-31 e afunda quando o medo supera a confiança; é aquele que professa a fé em Cesareia de Filipe: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16), mas que logo depois tenta afastar Jesus do caminho da cruz e escuta a repreensão: “Afasta-te de mim, Satanás” (Mt 16,23). A Escritura constrói Pedro como figura profundamente humana. Nele convivem coragem e fragilidade, generosidade e medo, fé e incompreensão. A antropologia bíblica não idealiza seus personagens. Jacó sai mancando após lutar com Deus (Gn 32,31); Moisés hesita diante do chamado (Ex 4,10); Elias foge para o deserto desejando a morte (1Rs 19,4); Jeremias resiste dizendo “sou apenas uma criança” (Jr 1,6); Jonas foge da missão; Paulo fala do espinho na carne (2Cor 12,7-10). O Deus bíblico não chama perfeitos; chama pessoas reais.

João situa esta cena depois do colapso da paixão. A comunidade apostólica havia experimentado a dispersão anunciada por Jesus em Mt 26,31, retomando Zc 13,7: “Ferirei o pastor e as ovelhas serão dispersas”. O trauma da cruz não significou apenas a morte do Mestre, mas o desmoronamento das expectativas messiânicas. A confissão dos discípulos de Emaús em Lc 24,21 expressa esta ruptura: “Nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel”. A esperança parecia vencida. Pedro retorna à pesca, e este retorno possui enorme densidade antropológica. Diante do sofrimento, o ser humano frequentemente procura refúgio nos lugares conhecidos. O pescador volta ao lago. O discípulo volta ao passado. A psicologia da experiência humana reconhece esse movimento como tentativa de reorganização depois do trauma. O mar da Galileia, também chamado lago de Genesaré (Lc 5,1) e mar de Tiberíades (Jo 6,1), não é apenas cenário. Constitui importante eixo econômico da Palestina do século I. A pesca estava integrada ao sistema tributário romano e herodiano; pescadores trabalhavam sob taxações e dependências econômicas. Jesus inicia sua missão justamente entre trabalhadores, pescadores e camponeses, distantes do centro sacerdotal de Jerusalém. Já aqui aparece a inversão do Reino anunciada por Maria: “Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1,52); “encheu de bens os famintos” (Lc 1,53). Não é irrelevante que o Ressuscitado volte precisamente à Galileia. Jerusalém era o centro religioso; Roma era o centro imperial; a Galileia era periferia. Deus retorna à periferia.

A noite da pesca fracassada em Jo 21,3 possui forte simbolismo joanino. Em João, a noite frequentemente expressa crise e incompreensão. Nicodemos procura Jesus de noite (Jo 3,2); Judas sai para entregá-lo e “era noite” (Jo 13,30). Os discípulos trabalham e nada encontram. O fracasso torna-se imagem espiritual. O esforço humano isolado revela seus limites. O Salmo 127 parece ecoar silenciosamente: “Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os construtores”. Quando o Ressuscitado aparece, não é imediatamente reconhecido. O mesmo ocorre com Maria Madalena em Jo 20,14 e com os discípulos de Emaús em Lc 24,16. O reconhecimento pascal exige caminho interior. A pesca abundante remete explicitamente a Lc 5,1-11. Em Lucas ela inaugura a missão; em João a renova. A rede permanece íntegra apesar da abundância dos peixes, imagem que a tradição patrística interpretou como símbolo da universalidade e unidade da Igreja. A cena dialoga ainda com Mt 13,47, onde o Reino é comparado a uma rede lançada ao mar que recolhe peixes de toda espécie. A comunidade cristã nasce para acolher diversidade sem perder comunhão. Esta imagem possui enorme atualidade em tempos marcados por polarizações sociais, religiosas e políticas.

Quando chegam à margem, os discípulos encontram pão, peixe e uma fogueira acesa. João utiliza novamente o termo anthrakia, o mesmo usado em Jo 18,18 quando Pedro se aquece junto ao fogo durante a negação. O lugar da queda torna-se o lugar da cura. Deus não destrói o passado humano; transforma-o. José já havia intuído isso ao dizer aos irmãos: “Vós pensastes o mal contra mim, mas Deus o transformou em bem” (Gn 50,20). A espiritualidade bíblica não consiste em apagar cicatrizes, mas em redimi-las. A memória ferida encontra novo sentido. Depois da refeição vem a pergunta: “Simão, filho de João, tu me amas?” (Jo 21,15). O Ressuscitado não começa pela culpa, nem pela missão, nem pelo ministério. Começa pelo amor. O detalhe de chamá-lo “Simão” é significativo. Antes do apóstolo existe o homem. Antes da função existe a pessoa. A antropologia bíblica insiste nisso desde Gn 1,27, quando o humano é apresentado como imagem de Deus. Jesus continuamente recoloca a pessoa acima das estruturas: “O sábado foi feito para o homem” (Mc 2,27). Em João 21, a restauração de Pedro não ocorre pela competência institucional, mas pela reconstrução da relação.

A tríplice pergunta corresponde às três negações narradas em Jo 18,17.25-27. Entretanto, não há tribunal. Não há condenação. O Ressuscitado não pergunta “por que me negaste?”, mas “tu me amas?”. O amor torna-se maior que a queda. Pedro já não é o discípulo que dizia “ainda que todos te abandonem, eu jamais te abandonarei” (Mt 26,33). A autossuficiência foi quebrada. Agora resta a humildade: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. O fracasso destruiu a arrogância, mas não destruiu o amor. Cada resposta de Pedro gera uma missão: “Apascenta meus cordeiros”, “apascenta minhas ovelhas”. O pano de fundo veterotestamentário é decisivo. Ezequiel 34 denuncia os pastores que exploravam o povo: “Não fortalecestes as fracas, não curastes as doentes, não procurastes as desgarradas” (Ez 34,4). Jeremias lamenta os líderes que dispersam o rebanho (Jr 23,1-4). Zacarias denuncia os pastores infiéis (Zc 11,17). O pastoreio bíblico possui dimensão ética, social e política. Jesus retoma essa tradição ao declarar: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10,11). Em João 21, Pedro participa desse cuidado, mas sob nova lógica: não recebe poder, recebe responsabilidade; não recebe privilégios, recebe pessoas.

Aqui emerge uma reflexão necessária sobre o ministério episcopal. Se João 21 está na raiz do pastoreio e da sucessão apostólica, então toda compreensão do episcopado deve nascer desta praia da Galileia e não dos palácios do poder. O bispo, segundo a eclesiologia católica e o Direito Canônico, não é proprietário da Igreja, nem administrador empresarial da fé, nem CEO religioso. O Código de Direito Canônico recorda que os bispos, pela instituição divina, sucedem os apóstolos como pastores da Igreja (cf. cân. 375 §1), recebendo missão de ensinar, santificar e governar (cf. cân. 381 §1). Entretanto, o mesmo direito exige que o bispo seja exemplo “na caridade, humildade e simplicidade de vida” (cân. 387) e recorda sua responsabilidade particular pelos pobres, sofredores e excluídos (cân. 383). O Direito Canônico, portanto, não legitima uma teologia do privilégio; sustenta uma teologia do serviço.

Entretanto, a história mostra que o episcopado nem sempre permaneceu fiel a este horizonte evangélico. Em diversos períodos, absorveu lógicas cortesãs, aristocráticas e burocráticas. O pastor tornou-se administrador de estruturas; o irmão tornou-se autoridade distante; o servidor transformou-se em figura cercada por protocolos, precedências e honrarias. Surge então aquilo que o Papa Papa Francisco chamou repetidamente de mundanismo espiritual. O moralismo episcopal torna-se particularmente perigoso quando fala mais de normas que de misericórdia, mais de disciplina que de compaixão, mais de comportamento privado que de injustiça estrutural. Jesus advertia contra isso em Mt 23,4: “Amarram fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros”. João 21 desmonta esta lógica. O primeiro pastor da Igreja não recebe a missão num trono, mas diante de uma fogueira; não vestido de honra, mas carregando a memória da própria queda; não depois da perfeição, mas depois do arrependimento. Toda forma de episcopado excessivamente preocupada com pose, títulos, precedências, distinções e autopreservação institucional corre o risco de trair a praia da Galileia. A sucessão apostólica não é sucessão de privilégios; é sucessão de serviço. O báculo não é cetro de poder; é sinal do pastor que caminha. A cátedra não é pedestal de superioridade; é lugar de ensino e escuta. A mitra não é coroa. O anel não é insígnia aristocrática. Tudo perde sentido quando o pastor se distancia do povo. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium 27, afirma que os bispos exercem autoridade para edificação e não para dominação. Christus Dominus insiste na proximidade pastoral. O Documento de Aparecida convoca pastores próximos das periferias e das dores humanas.

A crítica profética torna-se ainda mais necessária quando setores do episcopado concentram energia em vigiar costumes individuais enquanto permanecem tímidos diante da fome, da desigualdade, do racismo, da violência, da devastação ambiental e das instrumentalizações políticas da religião. Os profetas bíblicos nunca fizeram isso. Amós denunciou quem vendia o pobre por um par de sandálias (Am 2,6). Isaías condenou jejuns vazios desconectados da justiça (Is 58,6-7). Miqueias resumiu a vontade divina em “praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus” (Mq 6,8). Jesus iniciou seu ministério proclamando libertação aos pobres e oprimidos (Lc 4,18). O bispo que fala muito de moral privada e pouco das cruzes sociais corre o risco de tornar-se guardião da ordem e esquecer o Reino..O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium, recupera a imagem da Igreja como Povo de Deus. Gaudium et Spes abre-se afirmando que as alegrias e sofrimentos da humanidade são também os da Igreja. Medellín denunciará estruturas injustas na América Latina; Puebla aprofundará a opção preferencial pelos pobres; Santo Domingo falará da evangelização inculturada; Aparecida convocará uma Igreja em saída missionária. Toda esta tradição encontra eco em João 21: apascentar significa cuidar da vida concreta.

Nosso tempo exige escutar esta passagem de forma profética. A religião continua sendo instrumentalizada por projetos de poder; discursos autoritários vestem linguagem religiosa; a teologia da prosperidade transforma o Evangelho em mercado; a teologia do domínio converte discipulado em conquista cultural e política. Entretanto, Jesus rejeita o messianismo triunfalista em Jo 6,15, recusa o poder nas tentações do deserto (Mt 4,8-10) e afirma diante de Pilatos: “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36). O Evangelho não legitima exclusão. Isaías denuncia jejuns vazios (Is 58,6-7); Amós exige que a justiça corra como rio (Am 5,24); Miqueias resume a vontade divina em justiça e misericórdia (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nesta tradição quando proclama em Lc 4,18: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres”. Em Mt 25,31-46 identifica-se com famintos, migrantes, enfermos e presos. Em Lc 6,20 proclama bem-aventurados os pobres. Em 1Jo 4,20 declara-se impossível amar a Deus desprezando o irmão. Tiago pergunta: “Que proveito há se alguém disser que tem fé e não tiver obras?” (Tg 2,14-17).

Assim, a pergunta “Tu me amas?” ultrapassa a esfera devocional e torna-se discernimento histórico e humana. Amar Cristo implica amar aqueles que Ele amou. O amor possui consequência social. Não existe seguimento desencarnado. O Verbo se fez carne (Jo 1,14), e a carne humana tornou-se lugar teológico. A teologia nos ensina que Deus se revela na história, e a antropologia cristã nos mostra que o humano é lugar teológico. Logo, todo projeto que despreza a dignidade humana e reduz o outro a inimigo contradiz frontalmente a revelação de um Deus que é amor (cf. 1Jo 4,8). O amor a Cristo se mede pelo amor aos seus — especialmente aos que foram marginalizados, silenciados ou esquecidos. Por isso, a missão da Igreja não pode ser cúmplice de regimes violentos nem de discursos que demonizam os pobres, os migrantes, as mulheres, os indígenas, os LGBTQIA+ ou os trabalhadores. A fidelidade cristã não está garantida pela doutrina, mas pelo seguimento. Não basta confessar com os lábios; é preciso viver como Ele viveu. Como escreveu Bento XVI:No início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa” (Deus Caritas Est, 1). E essa Pessoa nos pergunta, todos os dias: «Tu me amas?» O amor é, pois, critério de autenticidade e de discernimento. Fora do amor, tudo é ruído.

Hoje, renovamos nossa resposta: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo.” Mas sabemos também que esse amor nos compromete. Como Igreja sinodal, missionária e profética, não podemos amar Jesus sem amar o mundo que Ele amou até o fim (cf. Jo 13,1). O amor vivido e confessado exige de nós coragem para denunciar injustiças, para servir sem honrarias, para dar a vida com generosidade.Sigamos, como Pedro, não por causa da força de nossas promessas, mas sustentados pela fidelidade de um Deus que nos ama até quando O negamos. O Ressuscitado caminha conosco, refaz as pontes quebradas, acende fogueiras na praia e nos convida novamente: “Segue-Me” (Jo 21,19). A pergunta d’Ele não cessa. E a resposta, que damos com a vida, faz da nossa fragilidade lugar de graça, da nossa pobreza, lugar de envio, e do nosso amor, ainda vacilante, a pedra sobre a qual Ele segue construindo a sua Igreja.

O texto termina com uma palavra simples: “Segue-me” (Jo 21,19). É a mesma palavra do início do discipulado, mas agora atravessada pela cruz e pela ressurreição. Pedro compreende que seguir não é triunfar, mas servir; não é dominar, mas cuidar; não é ocupar tronos, mas repartir o pão.

À beira do lago nasce novamente a Igreja. Não uma Igreja triunfalista, mas reconciliada. Não uma Igreja de castas, mas de irmãos. Não uma Igreja capturada pelo poder, mas sustentada pela memória daquele que continua acendendo fogueiras nas praias da história.

 À beira do lago, o Ressuscitado não devolve a Pedro o passado; devolve-lhe o futuro. Aquele que negara diante da fogueira agora é enviado diante de outra fogueira. O amor torna-se missão, e a fragilidade transforma-se em serviço. A Igreja nasce novamente não do triunfo, mas da reconciliação. E continua ouvindo, nas praias da história, a pergunta que sustenta o discípulo continua atravessando os séculos, os templos, as crises humanas, os pastores, os bispos, as comunidades e cada discípulo: “Tu me amas?”

A resposta não é apenas verbal.

É uma vida transformada em cuidado.

Porque somente quem ama pode apascentar

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, À sombra da Palavra, à escuta do Espírito, a caminho com o Povo.


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