Ao meditarmos esse chamado, recordamos o prólogo do Evangelho de João, que revela a origem e a eternidade dessa comunhão: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1,1). O Verbo, que é Jesus, não habita apenas a unidade trinitária, mas é a expressão viva e criadora desse amor. Assim, a oração de Jesus ecoa o “princípio” divino que sustenta toda a criação (João 1,3), convidando-nos a uma comunhão radical, que ultrapassa o tempo e as circunstâncias humanas. Esta leitura não surge isoladamente. Ela é continuidade orgânica do caminho iniciado nos dias anteriores. O itinerário joanino conduziu a comunidade desde o lava-pés (Jo 13,1-15), passando pelo mandamento novo do amor (Jo 13,34-35), pela promessa do Paráclito (Jo 14,16.26), pela imagem da videira e dos ramos (Jo 15,1-8), pela advertência sobre as perseguições (Jo 15,18-21) e pela promessa de que a tristeza seria transformada em alegria (Jo 16,20-22). Agora chegamos ao ápice. O Cristo deixa de falar diretamente aos discípulos e eleva os olhos ao Pai (Jo 17,1). Aquele que lavou os pés torna-se o sacerdote que oferece não animais nem vítimas externas, mas a própria vida (Hb 9,11-14). A oração sacerdotal emerge como síntese do Evangelho e antecipação da cruz.
Os Evangelhos Sinóticos apresentam este mesmo momento sob outra perspectiva. Mateus, Marcos e Lucas conduzem-nos ao Getsêmani (Mt 26,36-46; Mc 14,32-42; Lc 22,39-46), onde Jesus experimenta a angústia da hora, a solidão e a entrega total à vontade do Pai. João não descreve diretamente esta cena; em seu lugar, oferece-nos a oração sacerdotal. As tradições não se opõem, mas se completam. Nos Sinóticos contemplamos o Cristo que assume o peso da condição humana e enfrenta a proximidade da paixão; em João contemplamos o Cristo que interpreta teologicamente sua missão e transforma a iminência da cruz em revelação da glória e do amor.
O cenário histórico e social desta oração não pode ser ignorado. Jerusalém do século I encontrava-se sob o domínio do Império Romano (Lc 2,1-2). A Palestina vivia marcada por desigualdades, tributos pesados e tensões religiosas (Mt 22,15-22). O Templo era simultaneamente centro espiritual, econômico e político (Mc 11,15-18). Fariseus, saduceus, essênios e zelotas apresentavam respostas distintas diante da ocupação romana e da esperança messiânica. O povo carregava o peso da pobreza, das exclusões e das expectativas de libertação (Lc 4,18-19). Nesse ambiente marcado por fragmentações, Jesus não organiza resistência armada (Mt 26,52), não constrói projetos de hegemonia (Jo 6,15) nem instrumentaliza o sagrado para fins políticos. Seu gesto derradeiro é rezar. Este detalhe possui enorme densidade teológica. Enquanto Roma impunha unidade pela espada, Cristo propõe unidade pela comunhão. Enquanto o império estruturava relações hierárquicas rígidas, Jesus reunia pescadores (Mc 1,16-20), mulheres (Lc 8,1-3), pobres (Lc 6,20), estrangeiros (Mt 8,5-13), publicanos (Lc 5,29-32) e marginalizados (Mc 1,40-45). Enquanto sistemas religiosos erguiam muros entre puro e impuro (Mc 7,1-23), ele atravessava fronteiras, dialogava com samaritanos (Jo 4,4-42), acolhia pecadores (Lc 19,1-10) e devolvia dignidade aos esquecidos. A oração sacerdotal nasce exatamente como resposta divina a um mundo fragmentado.
Quando Jesus afirma: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que hão de crer em mim por meio da sua palavra” (Jo 17,20), o horizonte da oração rompe os limites do cenáculo. Pela primeira vez, o Evangelho inclui explicitamente todas as gerações futuras dentro da intercessão do Cristo. A oração atravessa os mártires (Ap 6,9-11), alcança as comunidades perseguidas (1Pd 4,12-16), acompanha a missão apostólica (Mt 28,19-20), chega às periferias humanas e existenciais, abraça os pobres, os migrantes, os esquecidos e os que ainda nascerão. Nós estamos dentro desta oração. Esta universalização remete imediatamente ao prólogo joanino: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). O Verbo pelo qual tudo foi criado (Jo 1,3; Cl 1,15-17) é o mesmo que agora intercede pela humanidade. O Cristo histórico revela-se Cristo cósmico. O princípio encontra sua plenitude. O Deus que cria por amor deseja restaurar a criação pela comunhão (Ef 1,9-10).
Chegamos então ao centro da oração: “Para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17,21). Esta unidade não significa uniformidade institucional nem simples convivência social. O “como” joanino possui profundidade ontológica e relacional. Jesus não pede apenas coexistência; pede participação na própria comunhão trinitária. Aqui encontramos uma das maiores intuições da tradição cristã. Deus não aparece como solidão absoluta, mas como comunhão eterna. O Pai vive em relação ao Filho, o Filho permanece no Pai (Jo 14,10-11) e o Espírito torna presente esta comunhão (Jo 15,26). O universo nasce do encontro e não do isolamento.
A antropologia bíblica já anunciava esta verdade desde o Gênesis: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). Este versículo ultrapassa a dimensão matrimonial e revela uma estrutura existencial profunda. O ser humano é criado para a alteridade. Ele realiza sua identidade na relação. O pecado rompe esta vocação. Caim destrói a fraternidade (Gn 4,8-10). Babel simboliza fragmentação e orgulho (Gn 11,1-9). Pentecostes restaura a comunhão entre os povos (At 2,1-11). Pentecostes aparece como resposta e reversão simbólica de Babel. Se em Babel a pretensão humana produz dispersão e ruptura, em Pentecostes o Espírito reúne os povos sem eliminar suas diferenças. Línguas, culturas e histórias permanecem distintas, mas tornam-se capazes de comunhão. A unidade desejada por Cristo não destrói identidades; ela reconcilia diferenças no amor. Assim, João 17 encontra em Atos 2 um dos seus primeiros cumprimentos históricos e eclesiais.
O pecado divide; o Espírito reúne. A sociologia contemporânea confirma esta crise justamente pela ausência. Nunca existiram tantas formas de conexão e, ao mesmo tempo, tanto isolamento. O individualismo moderno enfraqueceu vínculos comunitários. A lógica neoliberal frequentemente transforma pessoas em recursos e relações em utilidades. O outro torna-se concorrente. A experiência comunitária enfraquece e surgem solidão, ansiedade, perda de sentido e fragmentação social.
Durkheim já percebia que o rompimento dos laços sociais produzia anomia. A psicologia contemporânea mostra que a ausência de pertencimento afeta identidade, esperança e saúde emocional. João 17 aparece então como resposta profundamente humana. Na filosofia contemporânea, este drama existencial encontra eco na crítica de Martin Heidegger ao esquecimento do ser, que reduz o humano a mero recurso e objeto funcional. O Evangelho segue caminho oposto. A pessoa humana reencontra sua verdade na relação, porque foi criada à imagem do Deus-comunhão (Gn 1,26-27). Em Cristo, a identidade humana realiza-se não no isolamento, mas na alteridade e no encontro (Rm 12,4-5). João 17 ultrapassa, assim, o horizonte estritamente religioso e apresenta uma resposta antropológica, espiritual e existencial à crise contemporânea.
Jesus ora contra a solidão, contra a fragmentação e contra uma humanidade ferida. Entretanto, esta unidade não elimina as diferenças. Paulo oferece uma chave decisiva ao falar do corpo e dos muitos membros (1Cor 12,12-27). A diversidade não é ameaça; é dom. O Espírito distribui carismas distintos (1Cor 12,4-11). O corpo possui muitos membros e todos são necessários (Rm 12,4-8). O Apocalipse contempla povos, línguas e nações reunidos diante do Cordeiro (Ap 7,9). A comunhão cristã não destrói alteridades; ela as reconcilia.
Por isso, toda tentativa de construir unidade pela imposição contradiz o Evangelho. O autoritarismo produz uniformidade; Cristo produz comunhão. A uniformidade silencia; a comunhão escuta. A uniformidade elimina diferenças; a comunhão as acolhe e as transforma em riqueza. Esta reflexão torna-se inevitavelmente profética diante da realidade contemporânea. Vivemos tempos marcados por polarizações, instrumentalizações da fé e manipulações religiosas. Em muitos contextos, o Evangelho é transformado em instrumento ideológico, a religião converte-se em mecanismo de poder e o Cristo crucificado é reduzido a símbolo de projetos de dominação.
Os profetas já denunciavam esta deformação. Isaías criticava o culto vazio (Is 29,13; Is 58,1-8). Amós condenava liturgias separadas da justiça (Am 5,21-24). Jeremias denunciava a falsa segurança religiosa (Jr 7,1-11). Miqueias recordava que Deus pede justiça, misericórdia e humildade (Mq 6,8). Jesus assume esta tradição. Ele denuncia a religião que oprime (Mt 23,1-36), critica o peso imposto pelos líderes (Mt 23,4), expulsa os vendilhões do Templo (Mt 21,12-13) e confronta a hipocrisia religiosa (Lc 11,37-54). A oração sacerdotal denuncia toda espiritualidade incapaz de ouvir o sofrimento humano.
Neste horizonte, torna-se necessária uma crítica às expressões religiosas marcadas pela teologia da prosperidade, pela teologia do domínio e pelas instrumentalizações da fé. Quando o Reino é reduzido à lógica do mercado, desaparecem os pobres do centro do Evangelho. Mas Cristo continua identificando-se com famintos, estrangeiros e excluídos (Mt 25,31-46). Maria já anunciava esta inversão no Magnificat: “Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1,52). Jesus proclama felizes os pobres (Lc 6,20). O juízo final passa pelos pequenos (Mt 25,40). Tiago denuncia a opressão dos trabalhadores (Tg 5,1-6). O CELAM, em Medellín e Puebla, retomou esta tradição profética ao denunciar estruturas injustas e reafirmar a opção preferencial pelos pobres. Aparecida insistiu numa Igreja missionária e próxima das periferias. A Gaudium et Spes recorda que as alegrias e sofrimentos dos pobres são também os da Igreja. O Documento de Aparecida aprofunda esta perspectiva ao recordar que os rostos concretos dos pobres, migrantes, povos originários, desempregados, pessoas em situação de rua, dependentes químicos e tantas periferias humanas interpelam diretamente a missão da Igreja (DAp 391-398). Evangelizar não é afastar-se das dores do mundo, mas aproximar-se delas à maneira do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). A comunhão desejada por Cristo torna-se concreta quando a Igreja assume a defesa da dignidade humana, da justiça social e da vida ameaçada.
Jesus prossegue: “Eu lhes dei a glória que me deste” (Jo 17,22). Na Escritura, glória não significa prestígio, mas presença divina. O kabod enche o tabernáculo (Ex 40,34), envolve o Sinai (Ex 24,16) e manifesta-se no Templo (1Rs 8,10-11). João, porém, desloca esta compreensão para a cruz. “O Filho do Homem foi glorificado” (Jo 13,31). O lugar da glória torna-se o Calvário. A cruz converte-se em trono. O amor revela-se mais forte que a violência. A entrega vence a lógica do domínio.
Esta visão desmonta toda teologia do poder. O Reino não cresce pela imposição, mas pelo serviço. “Quem quiser ser o primeiro seja servo” (Mc 10,44). O lava-pés torna-se chave hermenêutica da autoridade (Jo 13,12-15). Por isso o clericalismo representa grave deformação eclesial. Jesus advertiu: “O maior entre vós seja aquele que serve” (Mt 23,11). Pedro exorta os presbíteros a não dominarem o rebanho (1Pd 5,2-3). O Concílio Vaticano II recuperou em Lumen Gentium a imagem da Igreja como Povo de Deus. O batismo antecede funções. A comunhão precede estruturas. O ministério existe para servir.
A oração avança: “Eu neles e tu em mim” (Jo 17,23). Entramos aqui no horizonte místico da participação divina. Pedro fala da participação na natureza divina (2Pd 1,4). Paulo afirma: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim” (Gl 2,20). A comunidade torna-se templo do Espírito (1Cor 3,16). Jesus promete: “Faremos nele nossa morada” (Jo 14,23). A tradição oriental chamou este movimento de theosis. Não significa perder a humanidade, mas realizá-la plenamente. Irineu afirmava que a glória de Deus é o ser humano vivo.
Esta perspectiva possui enorme força ética. Se toda pessoa carrega dignidade, então exclusão, racismo, xenofobia, desigualdade e violência tornam-se escândalos espirituais. A oração sacerdotal converte-se em denúncia histórica contra estruturas que descartam vidas e silenciam marginalizados. Jesus conclui: “Pai, quero que onde eu estou estejam também comigo aqueles que me deste” (Jo 17,24). Surge aqui a dimensão escatológica. O Reino ainda não alcançou plenitude. Caminhamos entre promessa e esperança. O Apocalipse contempla a nova Jerusalém onde Deus enxugará toda lágrima (Ap 21,1-5). Isaías anuncia novos céus e nova terra (Is 65,17). Paulo fala da criação que geme esperando redenção (Rm 8,18-23).
A esperança cristã não é fuga do mundo. É compromisso com a história. Quem espera o Reino trabalha pela justiça. Quem espera a paz constrói reconciliação. Quem espera a comunhão combate exclusões. A oração sacerdotal continua aberta na história. Ela ainda denuncia clericalismos, confronta instrumentalizações da fé e chama a Igreja à conversão. Num mundo marcado por desigualdade, violência e crise de sentido, João 17 continua sendo palavra profética e Boa Nova. Que a Igreja volte ao Evangelho dos pobres (Lc 4,18), escute o clamor dos oprimidos (Ex 3,7), torne-se casa de comunhão (Ef 2,19-22) e sinal do Reino (Mt 5,13-16). E que o amor trinitário revelado no Verbo eterno (Jo 1,1-18) conduza toda criação à plenitude em Cristo (Ef 1,10; Ap 22,1-5).
Na filosofia, esse drama existencial encontra eco na crítica à cultura do esquecimento do ser, que reduz o humano a mero recurso (cf. Heidegger). O Evangelho, ao contrário, nos chama a reencontrar o ser na comunhão, a realizar nossa identidade na relação com o outro, à imagem da comunhão trinitária (cf. Romanos 12,4-5). Teologicamente, a oração de Jesus em João 17 é o coração da sua missão: conduzir-nos à vida plena, que consiste em permanecer no amor recíproco entre o Pai e o Filho (cf. João 15,9-12). Essa vida não é um ideal abstrato, mas uma exigência concreta para a missão da Igreja, como nos lembrou o Papa Francisco em Evangelii Gaudium (n. 99), ressaltando que a Igreja “não pode estar fechada, dividida ou vivendo isolada”. Porém, diante desse chamado, denunciamos o vazio de fé que habita muitas práticas religiosas, onde os ritos perdem significado e a vivência do Evangelho se esvazia em discursos ideológicos desconectados do amor de Deus (cf. Isaías 29,13). O clericalismo, que o Papa Francisco combateu com vigor, essa chaga que paralisa a vida da Igreja, transformando-a em uma estrutura autoritária e excludente, em vez de uma casa de comunhão e serviço (cf. Mateus 23,1-12). A verdadeira autoridade cristã nasce do serviço humilde e da entrega, e não do poder ou da rigidez (cf. Marcos 10,42-45).
Assim, a oração de Jesus ilumina e denuncia o fechamento e a fragmentação que sufocam a Igreja e o mundo. Ela é um chamado urgente a resistir à cultura do medo, da exclusão e da intolerância, para construir uma comunhão que acolha a diversidade, fortaleça a escuta e viva a caridade, formando o corpo de Cristo em unidade (cf. 1 Coríntios 13). Que essa oração nos mova a sermos irmãos e irmãs que buscam o Reino da justiça, da paz e do amor (cf. Mateus 5,9), denunciando os poderes que se levantam contra a unidade e a vida plena, acolhendo a voz dos marginalizados e rompendo com o clericalismo que os silencia (cf. Mateus 25,40). Que a Igreja se torne, enfim, verdadeira casa de comunhão, testemunho vivo do amor trinitário para um mundo fragmentado e sedento de esperança.
O texto termina afirmando: “Para que o amor com que me amaste esteja neles” (Jo 17,26). Tudo converge para o amor. Ele é o centro da Lei (Mt 22,37-40), o cumprimento dos mandamentos (Rm 13,10), o vínculo da perfeição (Cl 3,14) e a realidade maior que permanece (1Cor 13,13).
DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado, semeador da unidade num mundo fragmentado.

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